ESCREVEM OS LEITORES
SÃO PAULO
Exmo. Revmo. Sr. D. Francisco Borja do Amaral, DD. Bispo Diocesano de Taubaté: "Quero agradecer, de modo particular, o envio do jornal CATOLICISMO, que tenho recebido regularmente".
ITÁLIA
Revmo. Pe. Guido Barra, S. D. B., Turim: "Acabo de receber o apreciado mensário CATOLICISMO de janeiro 71 e agradeço cordialmente".
MÉXICO
Sr. Francisco Santiago Cruz, México: "Mis felicitaciones por defender la Verdad y nuestra liturgia romana, tradicional y santa".
SÃO PAULO
Sr. Francisco Witzler, Botucatu: "Parabéns ao Dr. Plinio e seus colaboradores".
PARÁ
Revmo. Pe. Angelo de Bernard, São Miguel do Guamá: "Ao chegar da revista passo duas horas agradáveis de boa leitura e reforço minha fé na indefectibilidade da Igreja Católica".
ARGENTINA
Revmo. Pe. Natalio D. Dias, Pároco de Acassuso: "CATOLICISMO es admirable y util por su valentia y seguridad en la defensa de la fe católica, su fidelidad a Jesucristo y su Iglesia, ejemplo de lo que debe ser la prensa católica. Mi aplauso y mi bendición".
PERNAMBUCO
Exmo. Mons. Urbano Carvalho, Serrânia: "Uma excelente revista combatente. Incompreendida pelo Clero e católicos progressistas. Caluniada por eles, porque não a lêem. Perseguida pelos comunistas que sabem que defender a verdadeira Religião e seus dogmas é combater os comunistas. Atrofiada na sua expansão porque o Estado-Maior da Igreja não lhe dá apoio".
SÃO PAULO
Revmo. Pe. Frei Celestino Cristofolini, Chanceler do Bispado, Marília: "Tenho lido os artigos de CATOLICISMO. De acordo com muita coisa; mas também em desacordo com umas tantas outras. Admiro a coragem e a persistência de certas atitudes, embora nem sempre de acordo com as mesmas. A meu ver, um pouco de moderação só traria proveito às coisas tratadas".
MATO GROSSO
Profa. Anna Luiza Prado Bastos, Campo Grande: "Há três anos sou assinante de CATOLICISMO que leio com prazer e atenção, passando-o às mãos dos parentes e amigos nesta cidade. Na minha despretensiosa apreciação acho ser um excelente mensageiro de fé e cultura, proporcionando aos leitores verdadeiro deleite espiritual".
ALAGOAS
Sr. Siloé Tavares, Maceió: "No alertamento, crítica ou observação, acho-o formidável! No entanto, as nossas atividades, "o nosso mundo de hoje", não comporta (ao nosso modo de ver) artigos longos em jornais. Diversifique, diminuindo "o quilômetro" de certos artigos. Precisamos de rapidez em tudo; certo? Estudem novas secções. Perdoe-me, pois falo porque me pediram. Sou político, apenas e bem fraco em tudo. De jornalismo só entendo mesmo, que assino ou compro-os avulso".
■ ANOTAMOS as sugestões.
FRANÇA
Revdo. Irmão Yves-Olivier, Lassallista, Vienne: "Votre excellente revue m' est bien parvenue et j'ai trouvé l'article sur la triste situation de notre institut remarquable ("Para onde vai o Instituto dos Irmãos Lassallistas?", por João Batista da Rocha]. Le Frère Supérieur Général des Frères des Ecoles Chrétiennes développe une doctrine hérétique. Nous souffrons de cet aveuglement des Supérieurs et nous réagissons en publiant des contre-dossiers oú sont repris les thèses catholiques authentiques.
En retour je puis vous assurer de mes bien humbles prières pour le combat que vous menez. Le Ciel ne peut que bénir votre courage et votre dévotion mariale".
SÃO PAULO
Sr. Antonio P. Veiga, Ribeirão Preto: "Gostaria muito de exprimir minha opinião como leigo, a respeito da publicação realizada no último número de CATOLICISMO (n.° 247, de julho de 1971) intitulada "Os cinco grandes pecados na História", de Atanásio Aubertin. Sem dúvida, uma belíssima, mas terrível mensagem; própria para os nossos dias. É um trabalho de profunda inspiração e cuidadoso estudo teológico. Poderíamos dizer também tratar-se de uma "novidade" (não cabe aqui nesta palavra nenhum sentido pejorativo) que realmente assusta e nos confere um sentimento de grande perplexidade ocasionado pelo seu alcance, pela sua força e pelo extraordinário conteúdo de Verdade.
Nada mais salutar ao espírito cristão do que uma mensagem repleta do pensamento dos grandes Santos da Igreja, como o foi o venerável São Luís Maria Grignion de Montfort.
[...] Outro artigo de extenso interesse para todos é o que coube na última página do excelente mensário e que prende a atenção do leitor à medida que se desenvolve a leitura. Trata-se do texto da conferência pronunciada pelo Sr. Paul Vankerkhoven em Bruxelas.
A coluna que recebe o subtítulo "Rejeitando o princípio de não-contradição" é um valioso pensamento do autor que, sem dúvida, pelo menos no meu entender, desarma qualquer pretensioso argumento em defesa da filosofia espalhada pelo mundo: a satânica filosofia marxista ou outras filosofias mundanas absolutamente incoerentes, eivadas de erros até nas conjunturas de suas palavras!
Acredito, porém, que infelizmente algumas pessoas devido a dificuldades pessoais e várias não possam "saborear" a autenticidade daquelas afirmações importantíssimas.
Não se pode negar que o texto contém dificuldades naturais em sua interpretação devido à própria natureza do assunto. Contudo, isto é certo, muitos poderão compreender o alcance de palavras como ser e não ser, etc., e todo o pensamento do autor.
Com um pouco de insistência pergunto se não seria possível exprimir aquelas verdades em linguagem mais simples? Há leitores, por exemplo, não habituados à leitura constante, que poderão pela fadiga natural abandonar ou postergar a leitura para em outra ocasião poder ler. Às vezes, esta ocasião demora chegar e fica assim a pessoa privada de ponderar sobre o que leu.
Desejo esclarecer que quanto a este fato não vai a mínima mácula de crítica aos redatores. Muito pelo contrário, tenho respeito e profunda admiração por todos os irmãos ligados a CATOLICISMO direta ou indiretamente.
Apenas com isto, desejo animar a todos dando apoio, embora ainda silencioso, às publicações realizadas. Realmente, alertar a todos os cristãos dos perigos do comunismo praticamente se torna uma obrigação, ainda que seja a um reduzido número de pessoas como a própria família".
■ CATOLICISMO propõe-se atender, de modo especial, as camadas cultas do público católico. Sem embargo, o Sr. Antonio P. Veiga tem razão em achar conveniente que ele seja acessível também a leitores de nível cultural mais modesto. Nossos colaboradores colocam empenho nisso, mas nem sempre a natureza do tema permite ao autor pôr-se ao alcance de todos.
COSTA RICA
Sr. Geraldo López Varela, San José: "Ejemplar publicación católica, la desearia en español".
SÃO PAULO
Da. Maria Elisa Barbosa, São João da Boa Vista: "Muito boa a impressão, como a matéria".
EE.UU.
D. Marieta Fontoura, Nova York: [...] agradecer o envio dos jornais que tenho recebido sempre e aos quais aprecio e louvo!!!"
MINAS GERAIS
Da. Nícia de Araújo Mafra, Caratinga: "Confio e espero que, com a graça de Deus, CATOLICISMO possa continuar com sua missão de bem informar e sobretudo formar consciências verdadeiramente cristãs".
SÃO PAULO
Prof. Paulo Barbosa Falleiros, Franca: "Que Deus abençoe êste trabalho esclarecedor, deste pugilo de homens valorosos. CATOLICISMO deve ser mandado às nossas casas de ensino".
R. G. do SUL
Sr. Elton Carlos Fillmann, Novo Hamburgo: "Tenho em mãos um exemplar do mensário CATOLICISMO, adquirido aqui em minha cidade. Mesmo não sendo católico, posso assegurar que foi uma das publicações mais dignas e úteis que já tive oportunidade de ler".
SÃO PAULO
Da. Maria Cecília Bispo Brunetti, Itu: "Ao renovar a assinatura de CATOLICISMO, dirijo uma prece à Virgem Santíssima, no sentido de abençoar o destemido mensário, dando a seus redatores força e coragem, para prosseguirem na defesa intransigente dos interesses de Deus e da Santa Igreja".
NICARÁGUA
Revdo. Irmão Néstor, Instituto Pedagógico de Diriamba: "Muy agradecido por haberme enviado un número de CATOLICISMO conteniendo un hermoso artículo sobre los Zuavos Pontificios. Desgraciadamente no conozco la bella lengua portuguesa, pero ayudándome con el francés y el español entiendo casi todo lo escrito en portugués. Dios le dé éxito en su obra de buena prensa".
MINAS GERAIS
Da. Altair Antunes, Coração de Jesus: "CATOLICISMO, jornal que gosto de ler porque é portador da verdade, da fé e da caridade. Em minhas humildes orações, peço sempre a Nossa Senhora Imaculada Conceição que continue dando forças e coragem a esses grupos de moços que vivem trabalhando, sem parar, para o bem da família cristã".
BÉLGICA
Sr. Gerard Wailliez, Charleroi: "Etant le nouveau rédacteur-en-chef du "Bulletin indépendant d'information catholique", de Bruxelles, je lis avec grand intérêt votre revue si courageuse et si bien faite; j'ai notamment apprécié le numéro si remarquablement documenté de février ["Sôbre a Nova Missa: repercussões que o público brasileiro ainda não conhece"] le dernier que j'aie reçu à ce jour".
SÃO PAULO
Sr. J. G. A., São Paulo: "Neste momento de trevas, em que o poder do demônio vai dominando toda a terra, os leitores de CATOLICISMO gostarão de conhecer a oração composta em 1863 pelo Servo de Deus, Padre Louis Edouard de Cestac, instruído pela própria Mãe de Deus. É este o seu texto, em tradução vernácula:
"Augusta Rainha dos Céus e soberana Senhora dos Anjos, Vós que, desde o primeiro instante de vossa existência, recebeste de Deus o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás, humildemente Vo-lo pedimos, enviai as legiões celestes dos Santos Anjos, a perseguirem, por vosso poder e sob vossas ordens, os demônios, combatendo-os em toda parte, reprimindo lhes a insolência e lançando-os nas profundezas do abismo. "Quem como Deus?"
Ó boa Mãe tão terna, sede sempre o nosso amor e nossa esperança.
Ó Mãe Divina, mandai-nos os vossos Santos Anjos que nos defendam, e repilam, para bem longe de nós, o maldito demônio nosso cruel inimigo. Santos Anjos e Arcanjos, defendei-nos e guardai-nos.
Amém".
• ESTA BELÍSSIMA prece, na versão original francesa, se encontra sob n.° 345 no "Enchiridion Indulgentiarum — Preces et Pia Opera", coletânea de orações e atos de piedade enriquecidos de indulgências, editada em 1952 pela Sagrada Penitenciaria Apostólica. Na antiga disciplina tinha quinhentos dias de indulgência, por decreto da Sagrada Congregação das Indulgências de 8 de julho de 1908 e da Sagrada Penitenciaria de 28 de março de 1935.
ALEMANHA
Dr. José M. Rulz, Wallenhorst: "Para un estudio de sociologia religiosa sobre la "Igreja no Brasil" me seria de mucha ayuda recibir su prestigioso Mensario CATOLICISMO.
Sería posible también enviarme números atrasados de los años 1965-70, si es que le quedan todavía?"
• REMETEMOS exemplar dos números disponíveis no período indicado.
SÃO PAULO
Sr. Guilherme Pereira Cavalcante, Piracicaba: "Aprecio o jornal, embora não concorde, integralmente, com alguns pontos. Por exemplo: sou contra uma reforma agrária empreendida nos moldes marxistas, porém, sou favorável a uma política agrária, não espoliadora, que venha aumentar, consideravelmente, o número de proprietários rurais. Direito de propriedade para todos e não apenas para alguns".
• O PREZADO missivista não parece conhecer senão incompletamente a posição de CATOLICISMO em matéria de política agrária. Basta folhear a coleção do jornal para constatar que nunca nos opusemos a "uma política agrária, não espoliadora, que venha aumentar, consideravelmente, o número de proprietários”. Nossa posição a respeito da matéria está consubstanciada no livro "Reforma Agrária — Questão de Consciência" e na Declaração do Morro Alto, esta última publicada em nosso n.° 167, de novembro de 1964. E em mais de uma passagem ambos os trabalhos pleiteiam.
Ao compendiar as teses essenciais de RA-QC, a Declaração do Morro Alto apresenta no item 3 "várias medidas capazes de promover a melhoria das condições de vida do trabalhador rural", a serem postas em prática "na medida em que o comportem as condições que, bem aproveitadas, as propriedades rurais proporcionem". Uma dessas medidas consiste justamente na "remuneração que torne possível o acesso do trabalhador diligente e parcimonioso à condição de proprietário". E em mais de uma passagem ambos os trabalhos pleiteiam condições especiais de crédito e de assistência para os pequenos e médios arrendatários e parceiros, assinalando com satisfação que estes têm frequentemente encontrado por tal forma o acesso à classe dos proprietários.
A verdade é que no Brasil a propriedade agrária não é "apenas para alguns". Ela já se acha ponderavelmente difundida, e tende a se difundir cada vez mais pelo natural fracionamento das terras nas zonas de população densa.
Calicem Domini Biberunt.
A ATUAÇÃO DO PE. LINSOLAS E A "SECRETA" DE LYON
Fernando Furquim de Almeida
Os católicos foram muitas vezes, ao longo da História, levados a constituir sociedades cuja existência era mantida em segredo, porque as vicissitudes dos tempos os obrigavam a isso para terem liberdade de ação. Elas eram sempre conhecidas das autoridades eclesiásticas competentes, e, quando as circunstâncias o permitiam, as autoridades civis também tinham conhecimento de suas atividades. No século XVII, as autoridades religiosas e reais sabiam, na França, que a Companhia do Santíssimo Sacramento e a misteriosa Aa, a qual até hoje resiste à investigação dos historiadores empenhados em desvendar os seus segredos, trabalhavam pela propagação da Fé e se empenhavam na luta contra o jansenismo e o protestantismo.
Durante a Revolução Francesa, a necessidade do segredo em qualquer associação católica se tornou premente. Os revolucionários tentaram, de início, fazer com que clero e fiéis apostatassem. Dada a resistência que encontraram, passaram a perseguir a Igreja, e os católicos se viram compelidos a se unir em sociedades que, evidentemente, não podiam ser conhecidas dos governos ilegais que tiranizavam a França. Mesmo depois da concordata com a Santa Sé, a má fé de Napoleão era tão evidente, que várias sociedades católicas de caráter sigiloso foram fundadas, e só neste século vêm sendo pouco a pouco descobertas pelos historiadores. Entre elas, a Congregação Mariana de Lyon foi até há bem pouco tempo um enigma histórico.
Sua existência era conhecida, sabiase que suas atividades tinham sido inúmeras e importantes, mas o silêncio impenetrável dos documentos impedia o esclarecimento completo de sua participação na resistência contrarevolucionária. No entanto, era palpável o apoio que ela deu à Obra da Propagação da Fé criada por Pauline Jaricot, cujo êxito deve muito à Congregação de Lyon. Era também conhecido, em suas linhas gerais, o importante papel desempenhado por dois de seus congregados, Berthaud du Coin e Franchet d’Esperey, na luta dos católicos contra a poderosíssima polícia que Fouché organizara para Napoleão. Apesar dessas e muitas outras pistas, não se conseguia descobrir nada que conduzisse ao conhecimento de sua história. Muitos pesquisadores experimentaram a mesma frustração sentida pela polícia de Fouché, incapaz de encontrála, embora encontrasse a todo momento os indícios de que ela continuava trabalhando. Alguns historiadores, vendo todas as suas pesquisas malograrem, chegaram mesmo a chamála de "a Secreta" de Lyon.
Por volta de 1962 foi descoberta a história dessa Congregação, escrita por Benoit Coste, seu fundador e um dos seus principais animadores. Baseandose nesse manuscrito, o Pe. R. Rouquette publicou na revista “Études”, em abril daquele ano, um artigo em que dava as linhas gerais dessa história. Em 1967, a coleção “Itinéraires”, das “Nouvelles Éditions Latines”, lançava o livro "Histoire Secrète de la Congrégation de Lyon", que o historiador Antoine Lestra acabara de redigir quando veio a falecer. Lestra utilizou sobretudo o citado manuscrito de Benoit Coste, um outro do mesmo autor, conservado pelos seus descendentes e intitulado "Souvenirs de soixante ans" (o qual não fala da Congregação, mas esclarece muitos fatos de que ela foi protagonista) e as memórias do Padre Jacques Linsolas, VigárioGeral de Monsenhor de Marboeuf, Arcebispo Primaz de Lyon ao tempo da Revolução. Tendo esse livro como guia, vamos resumir a história da "Secreta". Antes, no entanto, exporemos rapidamente a situação da Arquidiocese Primacial durante o período revolucionário.
A Revolução Francesa não encontrou a Arquidiocese de Lyon desprevenida. O Padre Jacques Linsolas, Vigário-Geral, era um sacerdote zeloso e previra o que ia acontecer. Desde 1782, em seus sermões exortava os fiéis a se manterem sempre firmes na Fé, e lhes recordava oportuna e inoportunamente as verdades da doutrina católica, mostrando todo o horror das consequências a que levaria a França a sua rejeição ou o seu esquecimento. Ao mesmo tempo organizava o movimento católico da Arquidiocese, de modo que, se necessário, ele pudesse passar facilmente às catacumbas, como os primeiros cristãos. A prudência do VigárioGeral foi a salvação da Igreja em Lyon. Quando o Arcebispo, Monsenhor de Marboeuf, foi obrigado a emigrar, a Igreja subterrânea do Padre Linsolas já estava em funcionamento, assegurando a continuidade da vida religiosa em toda a Arquidiocese. Ela assistia os fiéis, mantinha a distribuição dos sacramentos, continuava a formar novos sacerdotes em seminários clandestinos que se deslocavam continuamente, refugiandose em locais preparados com antecedência pelas associações que velavam pela segurança da Igreja, e combatia a infiltração revolucionária por todos os meios de que dispunha. Houve muitas prisões, muitos mártires, a Igreja subterrânea teve que enfrentar perseguições da polícia; nada conseguiu destruíla nem prejudicála seriamente, até a brusca reviravolta dada par Napoleão à sua política religiosa.
Assinada a concordata, e tão logo foi ela posta em prática na França com os artigos orgânicos (apesar dos protestos do Sumo Pontífice), como Monsenhor de Marboeuf morrera, Napoleão nomeou o seu próprio tio, Joseph Fesch, para substituílo. Fesch já era sacerdote quando teve início a Revolução Francesa, e não hesitou em jurar a Constituição Civil do Clero. Mais tarde pôs de lado a batina e acompanhou o sobrinho nas suas expedições militares, acumulando uma grande fortuna nas especulações que fazia com a intendência do exército. Estava em Paris, longe de supor que retomaria o estado eclesiástico, quando soube que Napoleão desejava nomeálo Arcebispo Primaz da França. Tratou logo de se reconciliar com a Igreja e abjurou os seus erros. Recebeu sua abjuração o Padre Jacques André Emery, Superior Geral dos Sulpicianos e partidário fogoso da reconciliação religiosa. A 15 de agosto de 1802 foi sagrado Bispo na Catedral de Norte Dame pelo Cardeal Caprara, Legado pontifício. Em 1803, Pio VII conferiulhe o chapéu cardinalício.
A cultura religiosa do novo Arcebispo era muito deficiente. O Padre Emery encarregouse de instruílo rapidamente, e ele passou algum tempo no Seminário de SaintSulpice. Enquanto não tomava posse da Arquidiocese, o Cardeal Caprara nomeou para governála Monsenhor de MonstiersMérinville, primeiro bispo concordatário de Genebra e Chambéry, que também voltara à Igreja.
A restauração da liberdade de culto provocou entusiasmo em Lyon. Vamos transcrever o trecho em que Antoine Lestra, reproduzindo Benoit Coste, conta a reconciliação da Igreja Primacial de São João, que foi a primeira a ser devolvida ao culto:
"Sendo a igreja considerada ainda como lugar profano, os numerosos fiéis que nela se encontravam conversavam de chapéu na cabeça, como se estivessem num lugar público. Um padre se aproxima, e com voz forte comanda: ‘Silêncio! Respeito! Atenção!’ Imediatamente cessa toda conversa. Todos se descobrem. O estandarte da cruz, seguido par um clero numeroso, tomou posse da igreja em nome de Jesus Cristo. O grande sino fezse ouvir. No mesmo instante, como se Deus quisesse manifestar sua intervenção direta na reconciliação dessa basílica tão cheia de recordações, um raio derramou uma luz brilhante na profundidade das abóbadas. A tempestade ruge, a chuva torrencial purifica o exterior do templo, enquanto a água benta nas pedras da igreja purifica o interior".
Os católicos restauravam e adornavam as antigas igrejas para que pudessem ser reconciliadas. Às vezes era durante a noite, às escondidas, que eles faziam o trabalho, para colocar as autoridades no dia seguinte diante do fato consumado. A população aplaudia, e os templos que se reabriram viviam repletos de povo.
Esse entusiasmo, no entanto, levou a Igreja subterrânea a desvendar a sua organização. Napoleão mandou prender o Padre Linsolas e o manteve na prisão de Santa Pelágia, em Paris, durante muito tempo. De nada valeram as intervenções do Cardeal Caprara e muitos outros bispos, pedindo a sua libertação. Mais tarde o Padre foi exilado para Turim, e só voltou à França em 1814, depois da queda de Napoleão.
NOVA ET VETERA.
A GRANDE DEVOÇÃO DO BOM POVO PORTUGUÊS À VIRGEM
J. de Azeredo Santos
A Santa Mãe de Deus, como Rainha que é do Céu e da terra, estende o seu carinhoso domínio sobre todos os povos. Por todo o mundo é venerada e invocada sob os mais variados títulos. Mas Portugal ocupa lugar de destaque nessa emulação piedosa, nessa amorosa e santa competição a que se entregam os países católicos. Chega-nos agora às mãos um precioso livro que é uma comprovação eloquente dessa verdade: "Invocações de Nossa Senhora em Portugal d'Aquém e d'Além-Mar e seu Padroado", de autoria do Revmo. Pe. Jacinto dos Reis, publicado em 1967 por ocasião do cinquentenário das Aparições de Fátima.
"O português de tudo se serve para invocar Nossa Senhora: um passo alegre ou triste de sua vida, ou da vida nacional; um passo gozoso, doloroso ou glorioso da Virgem Maria; o nome da sua aldeia, da sua vila ou da sua cidade; os montes e os vales, as serras áridas e os campos verdejantes, os ermos onde a Senhora pessoalmente Se manifestou, ou onde se têm encontrado as suas velhinhas e pequeninas imagens, escondidas no tempo da mourama, para não serem profanadas e destruídas; as plantas quer sejam azinheiras de copa arredondada, carvalhos robustos, cedros altivos, oliveiras pacificas, quer sejam heras amorosas, abraçando velhas pedras de castelos, alecrim perfumado, ou a urtiga, "rústica, descortês", agressiva e picante; as fontes, os rios e as ribeiras que movem azenhas; as lagoas, os lagos e os mares, as ondas tormentosas e a bonança; a luz e as trevas; a amargura, a aflição e o alívio; as dores e os remédios; as necessidades, a pobreza e a abundância; as vitórias, a paz, a quietação e o repouso; as lágrimas e a consolação, o abandono, o desterro e o refúgio; a saúde e a agonia; a vida e a morte; o pecado e a virtude... O português de tudo lança mão para rezar, chorar e cantar aos pés da sua "rica Nossa Senhora Santa Maria" (p. 6).
Sem pretender esgotar o assunto inesgotável, cita o Autor mais de seiscentas invocações de Nossa Senhora em Portugal, nos territórios ultramarinos, e em todos esses lugares por onde o bravo povo lusitano passou dilatando a Fé e o Império.
Citemos, ao acaso, algumas dessas invocações nas quais a alma católica se reflete como num espelho de múltiplas faces: Nossa Senhora das Almas Desamparadas, das Angústias, das Auroras, dos Ausentes, da Batalha, do Bom Caminho, da Claridade, da Doutrina, da Entrega, dos Esquecidos, do Firmamento, Mãe das Almas, Mãe da Igreja, Rainha do Mundo, do Resgate, das Tribulações, das Verdades, das Virtudes, das Vitórias...
A respeito da invocação de Nossa Senhora dos Mártires, ligada aos primórdios da nacionalidade, narra o Pe. Jacinto dos Reis fato cheio de significação.
"Estava Lisboa em poder dos mouros — escreve ele — pelo que D. Afonso Henriques pretendeu conquistá-la. Tinha começado o cerco há poucos dias, quando os mouros pressentindo o perigo recrutaram uns cinco mil cavaleiros para atacar os sitiantes.
"D. Afonso, felizmente, informado, saiu ao seu encontro, e junto de Sacavém travou-se renhido combate, em que, embora morrendo muitos dos nossos, o pequenino Portugal venceu.
"Em reconhecimento da intercessão de Santa Maria "el-rei mandou logo fazer hi um oratório a Nossa Senhora dos Mártires". Tomada Lisboa, D. Afonso fez o voto de erigir duas basílicas: uma na parte oriental e outra na parte ocidental, sendo esta dedicada a Santa Maria que se começou a chamar basílica de Nossa Senhora dos Mártires, porque foi crutaram uns cinco mil cavaleiros para atacar os do sepultados alguns dos cruzados que morreram na conquista de "Lissabona". [...] Era então costume considerar mártires os guerreiros que morriam nas lutas contra os infiéis".
Depois de lembrar que nessa conquista D. Afonso Henriques teve o auxílio de cruzados que iam a caminho da Terra Santa, e que a Basílica de Nossa Senhora dos Mártires foi a primeira igreja paroquial de Lisboa, observa o Autor:
"No mesmo dia e à mesma hora em que se estava a celebrar, solenemente, a festa litúrgica de Nossa Senhora dos Mártires na sua Basílica de Lisboa, aparecia Nossa Senhora, pela primeira vez na cova da Iria, baldio da Freguesia de Fátima, distrito de Santarém, Patriarcado de Lisboa.
"Só Nossa Senhora sabe por que quis aparecer no território da principal Diocese de Portugal, apenas oito meses antes da restauração da Diocese de Leiria, e por que escolheu aquele dia e aquela hora" (pp. 348-349).
Há uma invocação portuguesa de Nossa Senhora particularmente cara ao Pe. Reis: é a de Nossa Senhora do Fètal, venerada desde tempos imemoriais em Reguengo do Fètal, Diocese de Leiria. "Andava uma pastorinha a guardar gado, nos outeiros, sobranceiros à povoação. [...] A pastorinha chorava. — Por que choras? — perguntou-lhe uma "fermosa" Senhora. — Tenho fome, minha Senhora. A minha mãe não tem pão na arca. A arca está vazia... Condoída, a "fermosa" Senhora recomenda-lhe que vá a casa e peça à mãe que abra a arca. Confiante, lá foi a pastora pela encosta abaixo. A mãe, duvidosa, abre a arca. Admiração! A arca estava cheia de tão "excelente pão que logo parecia não ser amassado na terra". "Confortada e já contente", dizem os cronistas, lá vai para o outeiro, para tomar conta do pequeno rebanho, que tinha ficado sob a guarda da Divina Pastora. A "fermosa Senhora" declarou-lhe, então, que é a Mãe de Deus e que é seu desejo ser ali venerada. De novo lhe ordena que volte ao povoado, e diga aos aldeões isto mesmo" (p. 259). Quando estes escolhiam o melhor sitio para a Casa que a Virgem pedira Lhe fizessem, "acharam uma imagem sua, muito linda, e junto a ela uma milagrosa fontinha" (loc. cit.).
O Autor narra como a partir de 1946 "coisas graves têm acontecido" no local em que se deram séculos atrás esses fatos extraordinários: "Na cabeça de alguém albergou-se persistente e teimosamente a infeliz ideia (que acabou por se tornar um fato) de arrasar a parte superior do outeiro onde a veneranda imagem foi encontrada, na extensão de cerca de 80 metros, entre a capela da Memória (a primitiva) e o atual santuário. [...] Entre o começo e o fim do lamentável arrasamento, mediaram alguns anos. Neste espaço de tempo... coisa incrível e de pasmar! A "milagrosa fontinha", já referida, meia embebida na parede da velha ermida da Memória, desapareceu! Ninguém a salvou! Nem as autoridades civis, nem as autoridades eclesiásticas, nem o povo! este lamentou e ainda lamenta o fato, mas, narcotizado pelo estupefaciente de quem todolo manda, não reagiu, não soube reagir, não pôde reagir, não o deixaram reagir. Assim se foi, para sempre, a milagrosa fontinha" (p. 261).
Não é isto a imagem do que estamos vendo por todos os lados? Mas apesar dos que se empenham em arrasar tudo o que lembra a Virgem, e em estancar a fonte de água viva que é a devoção Àquela que é nossa intercessora onipotente junto ao Trono do Altíssimo, apesar de tudo isto, a poucos quilômetros do Santuário de Nossa Senhora do Fètal a Santíssima Virgem aparece em 1917 a outros pequenos pastores para dirigir à humanidade mensagem de perdão e de advertência, de convite a oração e à penitência.
Bem haja o Revmo. Pe. Jacinto dos Reis por esse precioso livro, verdadeiro oásis em meio ao deserto da incredulidade moderna.