Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 249 | página 04-05

Conclusão da pág. 3

UMA SEITA GNÓSTICO-MANIQUÉIA

Aliás não somente esse "cristianismo" mas todo o fundo da doutrina nazista permanece um mistério, pois uma coisa é o pouco que se liberava para uso externo e outra muito diferente era a verdadeira doutrina professada pelos altos iniciados do nacional-socialismo. No hebdomadário francês "Carrefour", de 6 de janeiro de 1960, a propósito da prisão do Prof. Heyde, acusado da eliminação sistemática dos doentes mentais ao tempo do Terceiro Reich, o jornalista e historiador Jacques Nobécourt declarava: "A hipótese de uma comunidade iniciática, subjacente ao nacional-socialismo, impôs-se pouco a pouco. Uma comunidade verdadeiramente demoníaca, regida por dogmas ocultos, bem mais elaborados que as doutrinas elementares do "Mein Kampf" ou do "Mito do Século XX", e servida por ritos cujos traços isolados não se notam, mas cuja existência parece indubitável para os analistas" (apud "Hitler et la Tradition ..", p. 258). Comentam Jean e Michel Angebert: "Em completa consonância com esse juízo, podemos afirmar que, apesar do desaparecimento dos documentos concernentes ao ensino iniciático dos quadros superiores da S.S., nos é dado facilmente reconstituir, à luz dessas explicações, a peça do puzzle mágico necessária à compreensão do fenômeno. Nossa explicação, com efeito, tem o mérito de reunir, em torno das pesquisas alemãs sobre as origens da humanidade branca, até a Idade Média em geral, e em Montségur em particular, o feixe histórico, cultural e esotérico da Weltanschauung nazista" (p. 259).

E acrescentam os dois autores: "Nenhum estudioso sério se pôs jamais a questão, que no entanto é fundamental, de saber por que a leitura de "A Cruzada contra o Gral" e "A Corte de Lúcifer na Europa", do autor alemão, coronel S.S. ademais, e membro da "Ahnenerbe" (organismo superior de pesquisa S.S.), Otto Rahn, foi tornada obrigatória pelo Reichsfuehrer S.S. [Himmler] aos oficiais superiores dessa nova Ordem Teutônica, conferindo assim àqueles livros valor de evangelhos. As obras desse gênero não eram todavia muito numerosas e o fato de se tornar sua leitura obrigatória prova que elas continham a chave da cosmogonia hitlerista por pouco que alguém se desse ao trabalho de a procurar..." (p. 259). E precisam mais adiante: "para nós, tudo se ordena em torno do tema central do Gral" (p. 260).

O teósofo Alfred Rosenberg e "O Mito do Século XX"

Rosenberg foi verdadeiramente a cabeça pensante da gnose nazista. Nascido na Estônia, de família germano-báltica, obteve em Moscou, no início de 1918, diploma de arquiteto, de lá fugindo para a Alemanha quando da revolução comunista. Dado a estudos teosóficos, entrou na Thulegesellschaft, o grupo de caráter ocultista a que atrás fizemos menção, chamando ali a atenção de Dietrich Eckart por sua cultura, que se sobressaía da mediocridade ambiente. Eckart apresentou-o a Hitler, que começava sua carreira política. Rosenberg foi um dos primeiros a se inscrever no partido nazista e "sua influência foi decisiva na formação espiritual do futuro senhor da Alemanha, no qual ele reforçou ainda mais o antissemitismo e o gosto pelo mistério" (p. 262).

Em sua obra-chave "O Mito do Século XX", Rosenberg rejeita o Antigo Testamento, e do Novo repudia principalmente as Epístolas de São Paulo. Para esse teórico do nazismo, "há um Cristianismo negativo e um Cristianismo positivo. O segundo se prende à imagem de Jesus vivo, o primeiro à de Jesus crucificado" (apud "Hitler et la Tradition.", p. 264). Rosenberg não considera o Cristianismo em sua origem como um inimigo, pois que exalta a personalidade de Jesus Cristo vivo, mas a exemplo dos gnósticos, aos quais adere por numerosas afinidades, rejeita o que qualifica como uma mistificação oriental, a saber, a Crucifixão e a Ressurreição do Salvador. O ódio à Igreja como corpo social se afirma ao longo do livro. A ideia de uma Igreja universal, única, que deve determinar e coordenar toda a vida do Estado, toda a ciência, toda a arte, toda a moral, em virtude de dogmas, isto não é para ele senão "um resíduo dessas ideias do caos dos povos que envenenaram nosso ser". Contra essa concepção levantou-se Martinho Lutero, que "opôs à monarquia política e universal do Papa a ideia de uma política nacional" (apud "Hitler et la Tradition...", p. 264) .

Mais ainda: "Para o filósofo [Rosenberg] todos os acontecimentos são significativos e dão conta da luta eterna que opõe neste mundo as forças da luz e as forças das trevas. Nessa perspectiva, todos os hereges e, por conseguinte, em primeiro lugar os cátaros são considerados como os heróis de uma tragédia de dimensões cósmicas. Nessa luta dos elementos germano-nórdicos da Europa contra o universalismo romano, contra o catolicismo dominador, "esse foi um combate gigantesco"; na história dos albigenses, dos valdenses, dos cátaros, dos huguenotes, dos reformados, dos luteranos, deve-se ver o quadro entusiasmante de uma luta épica" (pp. 264-265). Ainda segundo "O Mito do Século XX", a alma germânica e nórdica rejeita a concepção estática de um Deus único, soberano do universo, rompe com o Antigo Testamento, fiel nisso ao espírito de Lutero, que foi, bem tarde aliás, "libertado dos judeus e de suas mentiras". Prosseguindo nessa catadupa de blasfêmias, acrescenta o profeta do nazismo que a morte não deveria ser considerada, conforme o quer o Cristianismo, como o salário do pecado: ela é, pelo contrário, um simples fenômeno natural "o qual não perturba nossa eternidade que era antes e continuará a ser depois" (apud "Hitler et la Tradition ..." p. 268). Não é tudo isso uma cópia fiel do gnosticismo da escola neoplatônica de Alexandria?

A estranha personalidade de Hitler

Sobre a personalidade enigmática de Hitler, dizem os autores citados: "O que é certo é o aspecto profético, místico e visionário desse moderno feiticeiro, que pode igualmente apresentar ao mundo a fisionomia hedionda de um cínico, de um ser duro e insensível, capaz de condenar à morte, sem o menor escrúpulo, todas as pessoas que pudessem embaraçá-lo" (p. 279). Revelando um grande poder hipnótico ao falar tanto a uma pessoa quanto a uma enorme multidão, houve quem afirmasse que ele era manipulado por potências invisíveis, os "superiores desconhecidos" evocados por Hermann Rauschning, o qual descreve o Fuehrer como posto em contato com seres misteriosos que o aterrorizavam: "Uma pessoa de sua intimidade disse-me que ele acordava à noite dando gritos convulsivos. Clama por socorro. Sentado à beira da cama, acha-se como paralisado. É tomado por um pânico que o faz tremer a ponto de sacudir o leito. Profere vociferações confusas e incompreensíveis. Arqueja como se estivesse a pique de sufocar. A mesma pessoa relatou-me uma dessas crises com pormenores que eu me recusaria a crer, se a fonte não fosse tão segura. Hitler estava de pé, em seu quarto, cambaleando, olhando em torno de si com ar alucinado. "É ele! É ele! Veio aqui", rosnava ele. Seus lábios estavam azuis. O suor escorria em grossas bagas. Subitamente, pronunciou algarismos, sem nenhum sentido, depois palavras, pedaços de frases. Era horrível. Ele empregava termos bizarramente alinhavados, completamente estranhos. Depois tornou-se de novo silencioso, continuando porém a mexer os lábios. Fizeram-lhe fricções, deram-lhe a ingerir uma bebida. Em seguida, subitamente ele rugiu: "Ali! Ali! no canto. Quem está lá?" Batia o pé no assoalho e urrava. Asseguraram-lhe que nada de extraordinário se passava e então ele se acalmou pouco a pouco" (Hermann Rauschning, "Hitler m'a dit" — apud "Hitler et la Tradition...",' p. 282) .

"Os ditos de Hitler: "Sigo o caminho que me indica a Providência, com a segurança de um sonâmbulo" vão no sentido da hipótese de poderes supranormais. Mas de onde teria ele recebido esses poderes? Do grupo Thule que o havia iniciado no esoterismo do Oriente? Do misterioso monge de luvas verdes enviado pelos sábios do Tibet? Ou de uma revelação mais antiga?" (p. 283). Hitler repudiava os caçadores, aos quais detestava. Acreditava na reencarnação das almas em corpos de animais, como os budistas e os cátaros, que aderiam à metempsicose (p. 287). Declarou um dia: "Mesmo aquele que se suicida, volta fatalmente à natureza — corpo, alma e espírito" (Adolf Hitler, "Libres Propos", Flammarion, Paris, 1952 — apud "Hitler et la Tradition .", p. 291, nota) .

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De tudo quanto se acha dito acima como resumo do livro de Jean e Michel Angebert, uma certeza nos vem: a do caráter gnóstico e ocultista do nacional-socialismo na ação e na intenção de seus principais chefes. E assim temos mais uma comprovação de que a gnose acarreta o socialismo como consequência natural.

Em sua obra "Do Fundo da Noite", sobre a luta entre comunistas e nazistas depois da Grande Guerra, Jean Valtin, um marxista, mostrava a surpresa e inconformidade das bases comunistas na Alemanha ao receberem das cúpulas instruções para não resistirem aos partidários de Hitler. E Goebbels, pouco antes da queda de Berlim, dizia em proclamação radiofônica que o nacional-socialismo, embora derrotado pelas armas, acabaria vitorioso com a implantação do socialismo no mundo. Ora, considerando-se as origens hegelianas do socialismo marxista, não poderão ser filiadas as correntes esquerdistas de hoje a uma das cabeças da hidra gnóstica e panteísta que vem espalhando sua gosma sobre as elites intelectuais do mundo moderno? Eis uma pesquisa que poderá ser muito elucidativa para explicar os fenômenos político-sociais... e religiosos de nossos dias. Sobretudo se esse estudo abranger também as atividades do IDOC e dos chamados grupos "proféticos", partidários de um falso ecumenismo esquerdizante.

Muito teríamos também que dizer do aspecto escatológico da gnose em suas roupagens modernas. Símio de Deus, o demônio propõe-se influir nos terríveis acontecimentos que estão para desabar sobre a humanidade como castigo por seus pecados e apostasia. Valha-nos a nós católicos fiéis à mensagem da Virgem de Fátima a certeza de que, após indizíveis sofrimentos e lutas dos bons, o Imaculado Coração de Maria triunfará sobre a serpente antiga, fomentadora da mentira da gnose e de todas as tramas de seus sectários.


Virtudes esquecidas

Ater-se ao que em toda parte, sempre e por todos foi crido

SÃO VICENTE DE LÉRINS

"Cânon da Tradição" (trecho do livro "Commonitorium adversus haereticos", compêndio de princípios dogmáticos contra os hereges, escrito em 434):

Com efeito, perguntando eu com toda a atenção e diligência a muitíssimos varões, eminentes em santidade e doutrina, que norma poderia achar, segura, tão geral quanto possível, e ordinária, para distinguir da falsidade da malícia herética a verdade da Fé católica, eis a resposta constante de todos eles: que todo aquele que queira descobrir as fraudes dos hereges mais recentes, evitar seus laços, e permanecer desta maneira são e íntegro em uma fé sã e incontaminada, há de fortificar sua fé, com o auxílio divino, por esta dupla muralha: primeiro, com a autoridade da Lei divina, e em segundo lugar com a tradição da Igreja Católica.

Ao chegar a este ponto, talvez alguém pergunte: sendo perfeito, como é, o cânon das Escrituras, e por si só suficientíssimo para todos os casos, que necessidade há de acrescentar a autoridade da interpretação eclesiástica?

E a razão é que, devido à profundidade da Sagrada Escritura, nem todos a entendem em um mesmo sentido, senão que as mesmas sentenças cada qual as interpreta a seu modo, de maneira que quase se poderia dizer que há tantas opiniões quantos intérpretes. De um modo a expõe Novaciano, de outro Sebélio, de outro Donato, e à sua maneira Ario, Eunômio, Macedônio, como também, por sua conta, Fócio, Apolinário, Prisciliano; de outra forma, Joviniano, Pelágio, Celéstio; e a seu modo, finalmente, Nestório.

Pelo que, é necessário de toda necessidade que, às voltas com tais encruzilhadas do erro, seja o sentido católico e eclesiástico que indique a linha diretriz na interpretação da doutrina profética e apostólica.

Do mesmo modo na Igreja Católica cumpre buscar a todo custo que todos nos atenhamos ao que em toda parte, sempre e por todos foi crido [In ipsa item catholica Ecclesia magnopere curandum est, ut id teneamus, quod ubique, quod semper, quod ab omnibus creditum est]; porque isto é que é própria e verdadeiramente católico, como o declara a força e a índole mesma do vocábulo, que abarca em geral todas as coisas.

E isto o alcançaremos se seguirmos a universalidade, a antiguidade, o consenso. Isto posto, seguiremos a universalidade se professarmos como única fé a que professa em toda a redondeza da terra a Igreja inteira; a antiguidade, se não nos afastarmos um ápice do sentir manifesto de nossos santos Padres e antepassados; o consenso, enfim, se na mesma antiguidade nos acolhermos às sentenças e resoluções de todos ou quase todos os Sacerdotes [Bispos] e mestres.

* * *

O que fará, de acordo com isto, um cristão católico, se vir que uma pequena parcela da Igreja se desgarra da comunhão universal da fé? Que há de fazer senão preferir a saúde do corpo inteiro à gangrena de um membro corrompido?

E que fará se o contágio da novidade se esforçar por devastar não já uma parcela, mas toda a Igreja Universal? Neste caso, todo o seu empenho será o de apegar-se à antiguidade, a qual não pode já ser vítima de enganos de novidade alguma.

E se na antiguidade mesma se descobrir o erro de duas ou três pessoas, ou até de alguma cidade ou talvez província? Então o católico se esforçará a todo custo para opor à temeridade ou ignorância de uns poucos os decretos, se os houver, de algum Concílio universal, celebrado por todos na antiguidade.

E se, finalmente, surgisse uma questão, sem que o nosso cristão católico tenha algum destes auxílios a seu alcance? Então procurará um modo de investigar e consultar, comparando-as entre si, as sentenças dos maiores, daqueles somente que, mesmo vivendo em lugares e tempos diversos, por haver perseverado na fé e comunhão de uma mesma Igreja Católica foram tidos por mestres acreditados [magistri probabiles]; e o que eles, não um ou dois somente, mas todos à uma em consenso unânime, abertamente, repetidamente, persistentemente, houvessem sustentado, escrito, ensinado, tenha ele entendido que isso é também o que há de crer sem dúvida alguma. [Sigfrido Huber, "Los Santos Padres / Sinopsis desde los tiempos apostólicos hasta el siglo sexto" — Ediciones Desclée, De Brouwer, Buenos Aires, 1946, tomo II, pp. 335-338].


Medida atentatória da moral cristã

A TFP enviou o seguinte telegrama ao Sr. José Bonifácio, Presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, sobre um projeto de lei instituindo o exame pré-nupcial obrigatório: "A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade manifesta a V. Excia. sua profunda apreensão pelo fato de ter sido aprovado por essa DD. Comissão projeto de lei do Deputado Alfeu Gasparini (ARENA-SP), estabelecendo no País o exame pré-nupcial obrigatório. Tal medida, atentatória da moral cristã e da tradição brasileira, acarretará grave prejuízo para a instituição da família, fundamento sacrossanto da nacionalidade".

Em resposta, o Deputado José Bonifácio informou que a Comissão se definira pela constitucionalidade do projeto, porém contra o mérito do mesmo. A TFP telegrafou em seguida ao parlamentar mineiro, felicitando-o e à Comissão.


Rumo ao desenvolvimento global

Plinio Corrêa de Oliveira

O Comitê de Jovens Equatorianos Pró-Civilização Cristã é constituído por um grupo recente — e já em vigorosa expansão — de estudantes da pátria de Garcia Moreno. Animado por ideais antissocialistas e anticomunistas, que vão aglutinando movimentos de jovens em quase toda a América do Sul, os participantes do Comitê dirigiram ao Presidente da República, Sr. José Maria Velasco Ibarra, uma carta rogando-lhe não desse aplicação à lei de reforma agrária socialista e confiscatória em vigor no país. O documento, respeitoso, solidamente argumentado, cristalino, foi publicado por iniciativa dos missivistas no jornal “El Comercio” de Quito, no dia 17 de abril p.p. Sem dúvida alguma, é ele de porte a atestar o excelente nível cultural da mocidade equatoriana.

Entretanto, mais notável ainda, nos dias de brutalidade e vulgaridade em que vivemos, foi a reação do Chefe de Estado. Enviou ele aos Jovens Equatorianos Pró-Civilização Cristã uma resposta que pode passar por um modelo de cortesia, de atenção e de elevação de espírito. Na impossibilidade de a transcrever por inteiro, cito-lhe aqui a parte mais característica:

“Distintos Senhores. / Li com atenção e respeito sua exposição de 14 de abril relativa aos problemas da Família e da Propriedade. Digo que li com respeito porque nestes dias em que todos, inclusive certos dignitários eclesiásticos, falam de mudança de estruturas, de liberação, de revolução e de tantos e tantos outros problemas que excitam à sedição e à perturbação da ordem, não podem deixar de merecer respeito aqueles que, como os senhores, defendem teses tradicionais, dignas de todo o respeito.

“Li com atenção a exposição que fizeram, porque, indubitavelmente, a argumentação é firme e os pontos de vista que apresentam têm grande transcendência.

“Entretanto, devo começar por declarar-lhes o seguinte: respeito absolutamente a Família tal como está constituída. Creio que a Família é o lugar onde a personalidade se forja, se desenvolve, e se assenta e vai, pouco a pouco, abrindo campo para maiores horizontes. Destruir a Família; destruir o respeito do filho ao pai e o amor do pai ao filho; introduzir na Família elementos estranhos sob pretexto de preparar a união das nações, parece-me um verdadeiro atentado contra a personalidade do homem ou da mulher, que é o que só interessa”.

E, depois de argumentar cerradamente a favor da reforma agrária, o Chefe de Estado conclui: “Perdoem-me estes conceitos, escritos, por assim dizer, ao correr da máquina, porque não tenho tempo para outra coisa; mas estou pronto a conversar amplamente com os senhores sobre tão inesgotáveis problemas.

“Dos Srs., atento e seguro servidor, / J. M. Velasco Ibarra, Presidente da República do Equador”.

O estilo é o homem. Este estilo define o presidente equatoriano, e, mais do que isto, seu modo de governar. Pois o estilo não é só o homem. Obviamente é também o presidente.

* * *

Grato é, pois, registrar que os Jovens Equatorianos Pró-Civilização Cristã não ficaram atrás. Responderam eles ao Sr. Velasco Ibarra nos seguintes termos:

“Excelentíssimo Senhor Presidente. / Queremos expressar-lhe, antes de tudo, nossa agradável surpresa diante da honra que representa receber uma resposta pessoal de V. Excia.

“E não queremos deixar de elogiar a manifestação de atenção que V. Excia. dá, deste modo, ao pensamento da juventude, da qual os Comitês de Jovens Equatorianos Pró-Civilização Cristã constituem uma parcela.

“Este gesto nobre da parte de V. Excia. aumenta o desejo dos integrantes de nossa entidade de colaborar com V. Excia. — no limite de nossas possibilidades — para a prosperidade e grandeza de nosso País.

“Somos sensíveis ao fato de que um Chefe de Estado tão ocupado por inúmeros problemas de governo, tenha aplicado uma parte de seu tempo para dirigir-se a nós, em nível de diálogo, a fim de tratar da grande questão da reforma agrária.

“Esta benévola atitude de V. Excia. nos coloca, pois, na condição de dizer a V. Excia. quais foram, em nós, as repercussões do conteúdo de sua atenciosa carta”.

E, depois de reafirmarem, com respeito e firmeza, sua posição contrária à reforma agrária, concluem:

“Para terminar, e já que V. Excia. teve a gentileza de falar de diálogo, depositamos nas mãos de V. Excia. as convicções que formulamos, como expressão do zelo que nos anima pelo bem do Equador.

“Fazemo-lo, assim, com a firme convicção de que, sendo nossa propaganda realizada num plano exclusivamente ideológico e pacífico, e com escrupulosa obediência às leis, V. Excia. continuará a assegurar-nos o livre desenvolvimento desta nossa campanha.

“Desde já gratos pelo que V. Excia. faça para garantir essa liberdade de vozes patrióticas e cristãs que se erguem no seio da juventude equatoriana, aproveitamos o ensejo para apresentar a V. Excia. respeitosas saudações e as expressões da mais alta consideração. / Antonio Chiriboga Torres, Diretor. / Ignacio Perez Arteta, Diretor”.

O Chefe de Estado equatoriano garantiu ampla liberdade de ação ao Comitê. E o autorizou amavelmente a publicar na imprensa a troca de cartas. É do jornal “El Comercio” de 21-5, que as transcrevo. Também “El Universo” de Guayaquil, as publicou.

O episódio, pela fidalguia de atitudes que revela de parte a parte, dignifica o país irmão. E não só ele. Nesta hora de crescente vinculação entre os povos da América Latina, honra-os a todos.

É, pois, com alegria que o ofereço à consideração dos leitores.

* * *

Outro documento que atesta a elevação moral e cultural a que se vai alçando a vida pública em nossa vasta família ibero-americana é a carta dirigida ao Tenente-General Lanusse, Chefe do Estado argentino, pelos membros do Conselho Nacional da TFP daquele país, a respeito da derrubada das barreiras ideológicas.

Publicamos dele a parte essencial:

“Em nossa condição de católicos e argentinos que não queremos um triunfo comunista em nossa pátria, de qualquer espécie que seja, consideramos indispensável dar a conhecer a V. Excia. as considerações seguintes:

“1- Não se pode ver no Sr. Allende um Chefe de Estado como os demais. Nos países comunistas, o Partido governante é mais do que o Estado, e na coerência dos princípios adotados pelo Governo chileno, Allende é mais o chefe de um partido marxista que um Chefe de Estado.

“Assim o entende a opinião pública, por mais que alguns setores da burguesia, do clero e do jornalismo queiram apresentar, de Allende, a imagem de um Chefe de Estado no estilo ocidental. Portanto, a recepção dele por V. Excia. será interpretada inevitavelmente, pela massa da opinião pública, como uma recepção a um líder marxista.

“2 - O governo tem uma influência pedagógica muito poderosa sobre o povo. É por isso que receber com honras oficiais ao marxista Allende, é um modo de convidar o povo argentino a aplaudi-lo, ou se isso não for fisicamente possível, pelo fato da entrevista se realizar em algum lugar remoto, ao menos a olhar com benevolência ou com aceitação a quem está conduzindo a nação irmã chilena para o comunismo.

“3 - Isto tem outra consequência interna de suma gravidade: tende a derrubar as barreiras psicológicas que separam a maioria dos argentinos da minoria comunista ou marxista, que quer fazer, em nossa pátria, precisamente o que Allende está fazendo no Chile”.

Como se vê, a argumentação é exímia pela clarividência, e a linguagem elevada.

Os diários “La Nación”, “La Prensa” e “La Razón” publicaram esta carta em 30 de julho p.p. Fora ela entregue anteriormente no Gabinete presidencial.

Não tenho em mãos a resposta do Tenente-General Lanusse. Divulgá-la-ei caso me seja comunicada pelos amigos argentinos. Espero que não fique aquém da brilhante missiva do presidente equatoriano.

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Os três documentos que publico servem de indício a um fato auspicioso. É o desenvolvimento latino-americano. Desenvolvimento moral, cultural e político, a iluminar as vias para o esforço do desenvolvimento econômico, o qual as riquezas naturais do Continente tornam tão promissor.


P.S. – Depois de escrito este artigo tenho uma informação decepcionante para o leitor. A Argentina é uma terra de donaire, elegância e belos gestos. Eu estava no direito de esperar também do Tenente-General Lanusse uma atitude digna de registro. Pelo contrário, da Casa Rosada veio, endereçada ao Sr. Cosme Beccar Varela Hijo, Presidente da TFP platina, apenas esta mensagem amável, banal, esquiva e vazia, assinada pelo Capitão de navio Cristián R. Belaustegui, Secretário Privado do Presidente da República:

“Tenho o prazer de me dirigir ao Sr., a fim de acusar recebimento da nota dirigida ao Exmo. Sr. Presidente da nação.

Sem outro particular, aproveito o ensejo para lhe expressar a garantia de minha maior distinção”.

Transcrito da “Folha de S. Paulo”, 15.8.1971