AÇÃO POPULAR
(continuação)
que utilizam peças teatrais e músicas claramente revolucionárias. Promove greves, por toda parte prega as "reformas de base" — sobretudo a reforma agrária — fomenta as ligas camponesas e as invasões de terra. Seus documentos são muito incisivos a respeito: "Nas regiões de latifúndios (...) lutar (...) por uma Reforma Agrária. Radical (...). Por outro lado, nas regiões onde a propriedade estiver menos mal distribuída (...), combate à contradição secundária, que nos parece ser a existente entre o trabalhador e seu patrão imediato. (...) As invasões de terras, por exemplo, são aconselháveis sempre que se julgarem as condições necessárias (especialmente as de segurança na operação)" (Informe de 5-6-1963 do Setor Camponês da AP). A Ação Popular estimula a luta de classes em todos os setores da sociedade. Apoia a rebelião dos sargentos, que são vistos como "o esforço de um Brasil sem gorilismo" (Informe n° 2, de 3-6-1963, do Secretariado Nacional, apud op. cit., p. 38).
Sua principal base de operação permanece a Juventude Universitária Católica: "Procedia da JUC, foi organizada por militantes cristãos e aproveitou o prestígio e influência política que a JUC tinha conseguido. Teve acesso fácil a certos meios eclesiásticos. (...) A JUC e a JEC, além de funcionar "quase como nossa linha auxiliar", eram instrumentos valiosíssimos para a conquista de novos adeptos. (...) a AP conseguiu projetar-se em certos meios católicos internacionais, como se fosse, oficialmente, uma força da Igreja (...)" (op. cit., p. 42). Em dezembro de 1963 — observa em outro livro o Pe. E. Gallejones — a Comissão Episcopal da ACB proibiu aos membros da JUC pertencer à AP, "a não ser quando, munidos de sólida preparação doutrinal, entrassem nela para transformá-la. Estranha recomendação, se levarmos em conta que a AP tinha sido fundada por jucistas e era por eles liderada!" ("UNE em foco", CIU, Rio, 1964, p. 26).
A UNE, da qual já falamos — com uma máquina de influência montada em todo o País — tornou-se a segunda base operacional da AP. Passou esta a utilizar logo outras bases de operação, como "a SUPRA [Superintendência da Política Agrária], o Ministério do Trabalho e, principalmente, o Ministério da Educação, onde o Ministro [democrata-cristão] Paulo de Tarso colocou grande número de militantes da AP em cargos de muita influência" (op. cit., p. 43). Para a consecução de seus objetivos, a Ação Popular integrou uma Frente Única com as demais forças esquerdistas, inclusive o PCB; participou do Pacto de Unidade de Ação (PUA), da Frente de Mobilização Popular (FMP), ao lado do CGT, da UNE, UBES, etc.: "Para com os outros grupos, especialmente os marxistas, nossa orientação é de um trabalho comum, dentro do espírito de frente única" (Informe de 5-6-1963 do Setor Camponês); "a Frente Única para a AP é um princípio ideológico, na medida em que postulamos o pluralismo (ideológico) na vanguarda revolucionária" (Doc. do Setor Universitário, p. 2 — grifo nosso).
Esta Frente Única evoluiu para uma situação de quase subordinação ao PCB. Nas resoluções do l° Encontro Nacional do Setor Universitário (janeiro de 1964), lamentava-se que "em relação a esse grupo (PCB), muito de nossa atuação tem-se caracterizado por certa ingenuidade. Frequentemente nossas posições são definidas a partir da linha do PCB" (apud "AP — Soc. Bras.", p. 40).
Por isso em diversos IPMs a AP foi relacionada como órgão subsidiário do Partido Comunista Brasileiro (cf. "O Globo", Rio, 8-9-1965).
Em seu esforço de preparação revolucionária os "apistas" não se esquivaram, por fim, à militarização: "Em fins de novembro de 1964, as autoridades militares do Rio Grande do Sul descobriram a trama de uma conspiração dirigida, ao que tudo indica, pelo ex-deputado Brizola. Entre os implicados na "Operação Pintassilgo", como era conhecida, figuravam diversos membros da Ação Popular. O plano da operação dava informes detalhados a respeito da ação militar (...)" (op. cit., p. 39, nota 4). Documentos dessa época falam na atuação "não institucional" reservada aos G5 (grupos de 5) "para enfrentar uma eventual luta insurrecional" (Doc. do CE/CM, de setembro de 1964, apud op. cit., p. 39). As tarefas desses grupos "poderão variar desde a ação armada (guerrilhas, luta urbana, etc.) a ações políticas em geral (guerra psicológica, resistência passiva, greves, denúncias, ampliação de novos membros, etc.)" (Doc. A-2, de junho de 1964, apud op. cit., p. 39).
O problema não acabou em 31 de março
Relembrar tudo isto agora é de grande utilidade. Consta-nos que, por motivos vários, nem todos os eminentes representantes da Hierarquia Brasileira chegaram ao conhecimento de muitos desses fatos. Portanto é de se temer que bons católicos, hoje em dia, possam, a fortiori, desconhecer o problema.
Ademais seria ingenuidade achar que esse grave problema se resolveu com o 31 de Março. Para não ir mais longe, demonstra o contrário o resultado das recentes eleições para o Diretório Estadual dos Estudantes do Rio Grande do Sul. O candidato esquerdista, embora derrotado, conseguiu surpreendente votação em Seminários católicos. "No Seminário de Viamão (...) alcançou 133 votos contra 6 (...) e teria obtido 259 votos contra 16 se não houvesse anulação de uma urna. A mesma expressiva maioria conquistou nos Seminários Cristo Rei dos Jesuítas, no dos Capuchinhos e no Evangélico, este protestante" ("O Estado de São Paulo", de 3-9-1965).
Esse lamentável e doloroso episódio da Ação Popular mostrou a necessidade de se coibirem os erros em seu nascedouro. Pois se em tempo oportuno se tivessem tomado as providências propugnadas pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira no seu "Em Defesa da Ação Católica", poder-se-ia ter evitado este longo escândalo, assegurando ao Brasil o imenso benefício de uma AC compactamente católica, que sob as bênçãos de Nossa Senhora Aparecida fosse uma barreira contra o perigo comunista, como sempre foi o desejo dos Pontífices Romanos, e portanto o desejo de todos nós.
1) As citações de documentos cuja fonte não é mencionada foram extraídas de exemplares existentes em nosso arquivo.
2) O Revmo. Pe. Eustáquio Gallejones, S.J., no seu trabalho "AP — Socialismo Brasileiro", apresenta farta documentação sobre a atividade da Ação Popular, da qual transcrevemos aqui uma parte. Lamentamos, porém, não poder fazer nossas todas as conclusões de S. Revma.
Crise mental ameaça o futuro da humanidade
A CAMINHO DA ERA DOS PRECONCEITOS
Celso da Costa Carvalho Vidigal
Catolicismo, em seu n.° 178-179, de outubro-novembro últimos, publicou um estudo do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira sobre "Baldeação ideológica inadvertida e diálogo", com o subtítulo: "O mais recente estratagema comunista para conquistar a opinião mundial". Já pelo justo renome do autor, já pelo título, e até pela extensão do trabalho, antes mesmo de sua leitura podia-se perceber que se tratava de obra destinada a uma profunda atuação no mundo intelectual católico. Sua recente publicação em forma de livro, numa primeira tiragem de 5 mil exemplares (Editora Vera Cruz Ltda.), faz desde logo prever um êxito editorial não inferior ao que teve "A liberdade da Igreja no Estado comunista", que, nos diversos idiomas em que foi publicado, vai chegando à casa dos 140 mil volumes.
Permitimo-nos contudo supor que, como acontece com todas as obras sérias em nossos dias, alguns dos que leram o novo ensaio de Plinio Corrêa de Oliveira nesta folha não lhe dedicaram toda a atenção que merecia, ou seja, não tiraram dele todo o proveito possível, e não extraíram as consequências mais importantes que ali se impõem. Em sua conclusão está dito que "o comunismo é o grande beneficiário da baldeação ideológica inadvertida e do emprego das palavras-talismã, especialmente da palavra-talismã diálogo", e que "essa imensa manobra comunista é susceptível de ser inutilizada pelo simples fato de que alguém a desvende aos olhos da opinião pública". Infere-se daí que, em face da ameaça apocalíptica que o comunismo representa nos dias que correm, a atenção que os leitores deveriam dar ao artigo levá-los-ia naturalmente a envidar todos os esforços para divulgá-lo. Não é bem o que se está vendo.
Apesar da gravidade e da clareza da advertência acima reproduzida, pode-se dizer que, se "Catolicismo" e a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade não tomassem a peito dar uma, divulgação especial a "Baldeação ideológica inadvertida e diálogo", este cairia, de modo geral, no esquecimento, e o tema de que trata não seria suficientemente conhecido. Isso, muito embora esta folha disponha de vasto círculo de leitores, dentre os quais é certo que uma boa maioria acompanha habitualmente e com atenção o que ela publica.
Um fenômeno perigoso
Acreditamos que aqui intercorre um fenômeno de nossos tempos que não parece ter sido, ainda, suficientemente analisado e comentado pelos publicistas católicos, se bem que condicione e determine um comportamento dos homens que nem sempre está de acordo com as boas regras. Esse fenômeno consiste em um hábito generalizado de não analisar com atenção e com objetividade os fatos que sucedem e as palavras de que se toma conhecimento. O público hodierno não está afeito a tirar deduções daquilo que vê, ouve e lê. É comum a tendência a não procurar estudar os acontecimentos, discernindo neles o que é essencial do que é acidental, separando o que é principal do que é secundário.
Para essa indiferença habitual diante das coisas que se sucedem em nossa vida quotidiana muito contribui a rapidez com que sempre novos assuntos invadem a esfera de nossa atenção, a enorme divulgação que, sem nenhum critério, a imprensa escrita e falada dá aos mais corriqueiros fatos que ocorrem em todo o mundo, dia a dia, e principalmente a crescente interferência que a televisão vem tendo na vida das massas e até das elites, educando-as — ou deseducando-as — pela imagem, afastando-as do convívio com os conceitos expressos através da palavra, naturalmente mais complexos e, ao mesmo tempo, mais completos do que aqueles que nos são fornecidos ou impingidos através do vídeo.
Adulteração do sentido das palavras
Essa preferência, que cada vez mais se verifica, pela imagem, em lugar da palavra e da proposição, e ainda pela literatura puramente narrativa, em vez da literatura com conteúdo doutrinário, enfraquece no homem a exata noção das coisas, prejudicando a nitidez de suas ideias. Nasce daí uma crise mental muito perigosa para o futuro da humanidade. Com efeito, a não ser que se empreenda uma revisão profunda nos processos de educação da juventude e nos hábitos de vida dos círculos dirigentes dos diversos grupos culturais, corremos o risco de ver surgir uma geração para a qual as palavras não terão mais significado definido ou, pelo menos, o significado delas terá contornos tão tênues que resultará praticamente impossível tratar de matéria doutrinária, por carência de instrumentos adequados, ou seja, de palavras representando conceitos claros e bem delimitados.
Um indício do pouco apreço que se tem às ideias que os vocábulos exprimem, ou deveriam exprimir, é a facilidade com que hoje, de uma maneira mais ou menos geral, mas especialmente na geração mais jovem, se altera o significado das palavras, utilizando-as num sentido inteiramente diverso do seu sentido próprio (e que nem analogicamente poderia aproximar-se deste), passando elas, pois, a representar um conceito totalmente diverso do conceito original.
Alguém poderia objetar que essa evolução do significado das palavras é fenômeno que sempre houve, como o demonstra a simples comparação entre um dicionário do século XIX e um de nossos dias. Contudo, não creio que se possa, honestamente, negar não só a singular celeridade que nestes tempos caracteriza tal transformação, como também a circunstância estranha de vir esta ultimamente se processando através do que chamaríamos — valendo-nos de uma expressão utilizada em física — de saltos qualitativos. Isto é, o vocábulo não conserva através dessa evolução, algo de seu significado anterior, mas passa a representar uma ideia totalmente diversa daquela que anteriormente representava.
A era dos preconceitos
Por causa desse descaso para com os conceitos, é inegável que cada vez mais caminhamos para o que poderíamos denominar de era dos preconceitos.
Etimologicamente, um preconceito é um conceito anterior a qualquer demonstração racional. Em sentido mais largo, qualquer estado de espírito não fundamentado, relativo a determinado fato, tem caráter pré-conceptual, ou seja, constitui fonte de preconceitos. Tempo houve em que muito se explorou essa palavra — ela então atuava com palavra-chave ou palavra-talismã — em acometidas de livres-pensadores contra os ensinamentos morais e sociais da Igreja, dos quais se dizia que não passavam de preconceitos que as luzes do século espancariam; mais recentemente, agro-reformistas "enragés" utilizaram-na para atacar aqueles que, como os autores de "Reforma Agrária — Questão de Consciência", defendem a propriedade privada em face da espoliação comuno-socialista: falou-se então em preconceitos medievais dos que insistem em conservar instituições já mortas e às quais só falta serem enterradas. Volta e meia espoucam, nas hostes revolucionárias, campanhas em que é introduzida a expressão "preconceito", sempre como palavra-chave, a fim de desacreditar uma ou outra instituição tradicional, cuja justificação subsistiria diante de qualquer ataque direto e a qual só um trabalho de sapa sistemática é capaz de destruir. Essas instituições tradicionais têm, via de regra, uma justificação doutrinária que deixou de ser explícita há muito tempo; isso porque, estabelecidas desde séculos, tornou-se desnecessário justificar sua existência e sua conservação, tal é a facilidade com que os homens se habituam àquilo que lhes é conveniente, por ser de acordo com a ordem natural. Faltando essa justificação e atacada a instituição como má por causa de algum defeito acidental, afirmando-se ainda que ela se baseia apenas em preconceitos, resulta fácil, muitas vezes, destruí-la, a menos que os interessados em conservá-la consigam demonstrar-lhe a legitimidade.
Tarefa básica a realizar
Mencionamos acima a utilização da palavra "preconceito" como instrumento destinado a varrer do terreno as instituições tradicionais. Entretanto, os próprios responsáveis por essas campanhas revolucionárias são os principais disseminadores de novos preconceitos — que, esses, são autenticamente preconceitos — destinados a substituir as velhas ideias e instituições consagradas pela sabedoria quase bimilenar da civilização cristã. Esses preconceitos são propagados através dos vocábulos-talismã, tão bem definidos pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira nesse novo ensaio cuja divulgação em grande escala vem de ser iniciada. Dentre os vocábulos-talismã a palavra "diálogo" assume uma importância especial, e é na consideração e no estudo dos efeitos perniciosos que essa palavra, quando empregada em seu sentido talismânico, produz sobre o mundo contemporâneo, e no combate renhido ao estratagema comunizante assim levado a efeito, que consiste uma das tarefas básicas do cruzado do século XX, — esse soldado da Virgem Santíssima que quer dedicar a vida à preparação do Reino de seu Imaculado Coração, anunciado por Ela em Fátima.
AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES
Religião da irreligião,
aspecto subtil da
nova tática comunista
Plinio Corrêa de Oliveira
As populações da Alemanha Oriental estão sendo submetidas pelo Partido Comunista a um processo de descristianização que apresenta peculiaridades dignas de nota.
Sem dúvida, a perseguição religiosa não grassa ali com a violência dos piores tempos. Um mínimo de liberdade de culto é concedida. E o efeito desta concessão consiste em dar certo desafogo aos fiéis mais fervorosos. Este mínimo que se lhes concede parece a eles algo como uma miragem que toma realidade, um benefício que jamais ousariam esperar. Toda a sua preocupação se volta a conservar tal benefício quanto possível, e a dele fruir em paz. A tática que para isso instintivamente seguem consiste em não desagradar aos tiranos comunistas para evitar que, enfadados, estes retirem a magérrima concessão.
O efeito concreto de tudo isso é que o comunismo anestesia assim, e leva a uma passividade que entra pelas raias do colaboracionismo, precisamente muitos daqueles que, por seu fervor religioso, seriam o núcleo de oposição mais irredutível e mais empreendedor, contra a dominação ateia.
Tirando ainda outro partido - este de ordem internacional - desta tenuíssima liberdade de culto, os comunistas alardeiam nos quatro contos do mundo que já não perseguem a religião. Esse alarde, ampliado em prosa e verso pelo progressismo, que é sempre o instrumento de ação mais sôfrego, mais humilde e mais útil do marxismo, desarma por sua vez um número crescente de católicos, que minguam sua resistência contra a propaganda vermelha, acreditando ingenuamente que o comunismo está iniciando uma evolução, a qual o levará a ser sempre mais largo e simpático no que diz respeita à liberdade de culto.
Assim, o comunismo, operando nas demais nações de atrás da cortina de ferro no mesmo sentido que na Alemanha Oriental - em proporções embora variáveis - obtém com um mínimo de concessões, vantagens quase inapreciáveis, que vinte anos de violências, de objurgatórias e de propaganda explícita não lhe poderiam dar, nas atuais condições da opinião mundial.
Por maiores que sejam tais vantagens, elas não param aí. Num clima de relativa distensão religiosa, o PC, desembaraçado de conflitos ideológicos dramáticos, vai realizando uma obra implacável de aniquilamento da religião nas novas gerações. E disto os progressistas, sempre inteligentes, dedicados, meticulosos quando se trata de servir ao comunismo, não fazem alarde. Pelo contrário, guardam na devida penumbra o fato terrível e clamoroso.
Toda a juventude da Alemanha Oriental, por exemplo, vai sendo submetida a uma propaganda ateística que deixou algo de seu caráter agressivo e descabelado, para tomar ares de correção e serenidade científica. O comunismo não se apresenta mais sob a figura de um agitador hirsuto, andrajoso, a urrar ameaças e blasfêmias. Utiliza hoje o propagandista de aspecto lhano, que fala da religião como de um conto de fadas que a ciência provou carecer inteiramente de base. Os representantes do regime não se limitam a organizar paradas militares, mas se aplicam a promover cerimônias bem cuidadinhas, limpinhas e risonhas. Algumas destas servem para ir modelando um estilo de vida novo, no qual o marxismo desempenha o papel de uma religião ao revés, com seu culto ao revés também.
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Assim, os Sacramentos são substituídos na vida dos jovens por cerimônias "ateístico-religiosas". É a religião da irreligião, mil vezes mais perigosa como instrumento de propaganda do que a irreligiosidade satanicamente violenta de outrora.
O demônio é sempre assim: muitíssimo mais perigoso quando se apresenta melífluo e risonho, do que quando se mostra uivante e ameaçador...
As fotos destas páginas, tiradas na Alemanha Oriental, nos indicam alguns aspectos do blandicioso sorriso do "new look" comunista:
• Pessoas trajadas como no Ocidente sorriem enternecidas. Paira no ar uma alegria análoga à de uma festa de batizado. Realmente, trata-se de um "batismo" marxista. Na Alemanha comunista, quando os pais dão um nome à criança recém-nascida, realiza-se uma festinha assim. A única pessoa que parece tensa, desconfiada, apressada em safar-se o quanto antes, é a jovem mãe, objeto de tantos sorrisos. Coitada: ela bem saberá por quê.
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• Jovens do PC são sujeitos a uma cerimônia ateia análoga à Crisma. Atente-se para o edifício: bastaria substituir por uma cruz a clássica pomba do pacifismo vermelho e os dizeres "Teatro da Paz", e teríamos a impressão de uma capela de aldeia. As jovens postadas em alas e as que desfilam bem poderiam ser de uma associação religiosa que se prepara para levar flores a uma cruz ou uma imagem em algum logradouro público próximo. Uma das moças, na primeira linha do desfile, traz até ao pescoço uma fita que lembra a de tantas associações de piedade. É mais um aspecto dulçuroso e "religioso" que o mefistófeles marxista tomou no momento.
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• Crianças vestidas com bons trajes, se acham aqui recolhidas numa atitude nitidamente cultual. São "jovens pioneiros" de organizações comunistas, reunidos ante o monumento de Marx e Engels, numa "oração ateia" que simula em suas exterioridades a postura que crianças católicas poderiam ter ao fazer uma oração autêntica diante de alguma imagem sagrada.
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• Não fosse o retrato de Lenine, e o leitor creria estar em um cartório de qualquer cidade do Ocidente, Trata-se de um casamento civil, adornado com aspectos de casamento religioso. A noiva tem flores no cabelo, flores na mão, e um traje branco. O funcionário do Estado a felicita com certa solenidade, como se o ato não tivesse na doutrina comunista o caráter estritamente burocrático e prosaico de um simples registro. A nota religiosa ao revés é insinuada pelas fotografias de Lenine e outros líderes marxistas, que lembram vaga mas insistentemente quadros de Santos. As bandeiras de alguma organização comunista, conduzidas por jovens, contribuem para marcar o ambiente com uma discreta nota ideológica. É a "religião" da irreligião que paira no ar...
E enquanto assim se constrói uma sociedade ateia, aclimatada em seu ateísmo, e que aceita como inteiramente normal e satisfatório o como que culto cívico ateu, em algumas raras igrejas homens e mulheres encanecidos, ou que estão próximos de encanecer, oram indolentemente resignados e quase satisfeitos. As pessoas que por eles passam os fitam exatamente com a risota e o desdém com que crianças que já não creem em fadas olhariam outras que se obstinassem em crer nelas.
Todas as aparências são de que a religião cambaleia ingloriamente, e caminha para a morte, enquanto a irreligião, nimbada pelo viço, pelas energias e pelo esplendor da juventude, contém em si todas as esperanças do futuro.
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Nossa Senhora, Medianeira de todas as graças, saberá por certo suscitar almas que, aquém e além da cortina de ferro, resistam à subtil e tremenda tentação de crer na autenticidade desse panorama, e de cruzar os braços diante da satânica manobra de envolvimento ideada pelo adversário. Mas essas almas não se encontrarão entre aquelas que, por covardia, por indolência, ou por uma pequena mas ativa dose de simpatia para com o marxismo, se obstinarem em acreditar no imenso "bluff" de distensão religiosa que os comunistas preparam para arrostar a humanidade.