Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 183 | página 02-03

Da paleontologia à metafísica, história de uma extrapolação

(continuação)

(in "Sur quelques questions fondamentales de la biologie d'aujourd'hui", PC, 1954, n° 31, p. 71).

Seria fastidioso multiplicar aqui os depoimentos de cientistas autorizados, nesse mesmo sentido. Basta o que foi referido para mostrar que todo o sistema proposto pelo Pe. Teilhard se fundamenta numa hipótese que, mesmo sob forma mitigada, não mais resiste à crítica científica, e que para ele assumiu o valor inquestionável de uma verdade metafísica.

A concepção do universo teilhardiana

Ao utilizar sua crença inabalável na evolução, Teilhard não se limitou à interpretação dos fenômenos materiais cujos vestígios se encontram sepultados sob a poeira dos tempos, mas quis atingir a realidade mais profunda que está subjacente a tudo o que se observa no universo. Passaremos a mostrar como se caracteriza esta concepção evolutiva do universo, sempre apresentada pelo seu autor como uma elaboração de natureza científica, onde há lugar até mesmo para verdades de ordem sobrenatural, desde que encaradas sob o ângulo do "dogma" evolucionista. Iremos indicando pari passu as semelhanças, que se tornarem patentes, com as teses do materialismo dialético, e que despertaram a simpatia de Garaudy.

O Universo é uma Evolução

O alcance do processo evolutivo teilhardiano não tem limites, abrangendo todas as realidades espirituais e materiais do universo. No folheto de divulgação intitulado "Comment je crois" diz o Padre taxativamente: "Creio que o Universo é uma Evolução. Creio que a Evolução ruma para o Espírito. Creio que o Espírito se eleva no pessoal. Creio que o pessoal supremo é o Cristo Universal" (apud TC-RE, p. 27).

Matéria-prima do universo

A matéria-prima do universo, designada pela palavra "Weltstoff", ou "Tecido do Universo", contém dentro de si todas as realidades num estado incoativo, tanto as de ordem material (“le hors des choses”) como as de ordem psíquica (“le dedans des choses”): "...a Matéria original é algo mais do que o fervilhar de partículas tão maravilhosamente analisado pela Física Moderna. Sob esta capa mecânica inicial temos de conceber, adelgaçada ao extremo, mas absolutamente necessária para explicar o estado do Cosmos nos tempos seguintes, uma camada "biológica". Dentro Consciência e, portanto, Espontaneidade; a estas três expressões de uma mesma coisa não é lícito fixar experimentalmente um começo absoluto, como a nenhuma outra das linhas do Universo" (PH, p. 53).

Em outro texto encontramos formulação mais explícita: "Não há concretamente Matéria e Espírito; mas existe só Matéria que se torna Espírito. Não há no mundo nem Espírito nem Matéria: o Tecido do Universo é o Espírito-Matéria. Nenhuma substância mais que esta poderia dar a molécula humana" ("L'Energie Humaine", Les Editions du Seuil, Paris, 1962, p. 73).

Lei de recorrência

Esta lei básica do sistema tem grande analogia com o caráter histórico do materialismo de Marx. De acordo com ela, toda realidade, sob pena de ser irredutível ao tratamento científico, deve mergulhar para trás, indefinidamente, suas raízes experimentais. Pois a fundamental unidade do universo e a interligação inexorável dos elementos cósmicos proíbem a todo ser novo introduzir-se no campo da nossa experiência, a não ser em função dos estados antecedentes do mundo experimental.

É ilustrativo ver como o R. Padre aplica esta lei no exame do caso específico da origem do homem: "Justamente porque (...) o Humano nasce não de um acidente, mas do jogo prolongado das forças de cosmo-gênese, é que suas raízes devem poder-se, teoricamente (e de fato podem, para um olhar advertido), reconhecer e seguir até perder de vista no passado, recuando para trás; não só na "mutação" neuropsíquica de onde saiu o primeiro animal pensante da Terra, no fim do Terciário; mas retrocedendo ainda até o mais baixo do tronco dos primatas; e mais baixo ainda, nos mecanismos por onde, há bilhões de anos, não cessa de urdir-se o Tecido do Universo" ("L'Apparition de l'Homme", Les Editions du Seuil, Paris, 1956, p. 298 — sigla AH).

Formas de energia e mudança de estado

Um dos aspectos que tornam mais chocante a concordância da concepção do universo teilhardiana com a marxista está justamente nos conceitos relacionados com energia e mudança de estado, que iremos definir com as próprias palavras de Teilhard de Chardin.

■ 1 — Energia do Universo: “... Energia material e Energia espiritual se sustêm e se prolongam. No fundo, de alguma maneira, não deve haver, funcionando no Mundo, senão uma única Energia" (PH, p. 62).

■ 2 — Energia tangencial e energia radial: "Porém, em cada elemento particular, esta energia se divide em duas componentes distintas: uma energia tangencial que torna o elemento solidário com todos os elementos da mesma ordem (isto é, da mesma complexidade e da mesma centre idade) que ele próprio ocupa no Universo; uma energia radial que o atrai na direção de um estado sempre mais complexo e centrado, para a frente" (PH, p. 62).

■ 3 — Mudança de Estado: Dada esta definição de energia e de suas duas componentes, o autor, baseando-se talvez em comparações metafóricas com fenômenos da mecânica, introduz o conceito tipicamente marxista de que a mudança de estado, ou mutação, é um salto qualitativo brusco, resultante de incremento crítico quantitativo. Assim, o elemento cósmico, dotado de determinada energia tangencial e radial, ao receber mais energia tangencial continua em sua ordem até o momento em que, ocorrendo um incremento crítico de tal energia, rompe-se o equilíbrio, verifica-se um aumento de energia radial, e portanto o elemento passa a um estado superior.

Vale a pena acompanhar a aplicação destes conceitos para reconstruir aquele momento culminante do processo evolutivo, em que foi gerado, por via de mudança de estado, o primeiro homem. O relato, nos termos textuais do autor, é digno de figurar entre as mais cerebrinas montagens do gênero "science-fiction": "No final do Terciário, depois de mais de 500 milhões de anos, a temperatura psíquica se elevava no mundo celular. De ramo em ramo, de camada em camada, já o vimos, os sistemas nervosos iam, pari passu, complicando-se e concentrando-se. Finalmente se construiu, entre os Primatas, um instrumento tão notavelmente flexível e rico, que o passo seguinte não poderia ser dado sem que o psiquismo animal, na sua totalidade, se encontrasse como que refundido e consolidado sobre si mesmo. Pois bem, o movimento não se deteve, uma vez que nada na estrutura do organismo o impedia de prosseguir (...). Por um acréscimo "tangencial" ínfimo, o "radial" se desenvolveu e, por assim dizer, saltou ao infinito para a frente. Na aparência quase nada mudou nos órgãos. Porém, em profundidade, houve uma grande revolução: a consciência saltando e fervendo, numa espécie de relações de representações supra-sensíveis; e, simultaneamente, a consciência capaz de perceber-se a si mesma na simplicidade recolhida de suas faculdades — tudo isto pela primeira vez" (PH, pp. 182 e 186).

Este fenômeno de mudança de estado teria ocorrido em diversas etapas do desenvolvimento do "phylum" (tipo morfológico em evolução) humano. Teria havido três fases de transformação filética brusca, que, representadas num gráfico em função do tempo, se disporiam em três estratos curvilíneos sucedendo-se descontinuamente e substituindo-se sucessivamente (vide gráfico). Precedê-los-ia uma camada mais antiga que mergulharia até as profundezas do Plioceno, onde se teria realizado a primeira mutação. O ingresso do primata evoluído na esfera humana teria ocorrido a uns 900 mil anos. O autor adverte, porém, haver dúvidas quanto a este estrato pré-primitivo. Em seguida temos um estrato primitivo (A), contendo o tipo anatômico pré-hominídeo surgido a uns 600 mil anos; um estrato intermediário (B) onde se define o tipo neandertalóide, desde cerca de 120 mil anos; e por fim o estrato moderno, do homo sapiens, atingido há uns 45 mil anos. A passagem de um "phylum" de determinado estrato a outro só seria possível através do mecanismo de mudança de estado, supra descrito. Mais pormenores referentes à filogênese humana segundo Teilhard encontram-se no excelente trabalho de Atanasio Aubertin, já citado, onde está demonstrada a inconsistência desta cronologização e destas hipóteses sobre mutações humanas. Ver também a obra "Science of Today and the problems of Genesis", do Pe. Patrick O'Connell (The Radio Replies Press Society, St. Paul I, Minnesota, EUA, 1959).

Leis de complexidade-consciência e de cefalização

O exame dos fósseis sob a falsa luz da teoria da evolução terá certamente sido a inspiradora da hipótese segundo a qual o desenvolvimento do psiquismo do homem pré-histórico iria acompanhando o aumento de complexidade do seu sistema nervoso. Disto Teilhard de Chardim tirou uma lei geral que permitiria avaliar o grau de "energia radial" de um determinado estágio. Assim, segundo a lei por ele induzida, o grau de desenvolvimento da consciência em qualquer camada do processo evolutivo se mede pelo nível de complexidade da estrutura mais avançada existente nessa camada. Nas estruturas mais evolvidas o termo de comparação é o cérebro. Daí as denominações lei de complexidade-consciência para o caso geral, e lei de cefalização para os organismos dotados de cérebro.

A formulação desta lei implica em admitir tàcitamente a existência de impulso que faz caminhar a evolução num sentido de incrementação da consciência, ou, para usar um termo caro aos progressistas, há um avanço rumo à conscientização cada vez maior (ver mais adiante o que dizemos a propósito da lei de convergência).

Grandes estágios e mutações do "Weltstoff"

Exporemos resumidamente quais são, no sistema teilhardiano, os diversos estágios fundamentais do "Weltstoff" (designados por termos com o sufixo sfera), e as mutações que produzem esses estágios (sufixo de designação: gênese). Embora o último estágio e a respectiva mutação não sejam claramente definidos no sistema, mencionamo-los por coerência.

■ 1 - Cosmosfera: É o estágio correspondente às realidades cósmicas ainda sem manifestações vitais típicas. A mutação que o produz é a cosmo-gênese.

■ 2 - Biosfera: Distingue-se por apresentar manifestações vitais típicas. É alcançada através da biogênese.

■ 3 - Noosfera: Marcada pelo aparecimento do homem, dotado de consciência reflexa. Aqui se verifica o fato notável de que a própria evolução se torna objeto do conhecimento do homem, que passa então a comandá-la. A mutação correspondente é a noo-gênese. Neste estágio passa a ocorrer o agrupamento não mais de estruturas biológicas, mas dos próprios "grãos de pensamento". Ao fim deste processo todos os homens, depois de passarem por diversas fases de socialização e coletivização, viriam a constituir um todo supra-humano, com o que se completaria a fase de planetização ou mega-síntese.

■ 4 - Cristosfera: Definida pelo aparecimento de um phylum aperfeiçoado, com o advento de Cristo, que teria vindo dar o impulso definitivo para o acabamento da evolução. A incorporação de todos os seres em Cristo seria a Cristogênese, ou Pleromização, que estaria produzindo o Cristo Cósmico.

■ 5 — Teosfera: Estágio final em que o Todo Coletivo Crístico imerge em Deus. De algum modo haveria assim uma Teogênese.

Leis de convergência e de progresso; Ponto Omega

A simples formulação da lei de complexidade-consciência, e a apresentação dos estágios e das mutações que os geram, sugerem a existência de um princípio de aglutinação e de totalização de elementos cósmicos que preside ao processo evolutivo. Este princípio é a lei de convergência, que implica numa lei de progresso, rumo a um fim a ser atingido.

Diz Teilhard de Chardin: "Conhecemos os átomos, soma de núcleos e elétrons — as moléculas, soma de átomos — as células, soma de moléculas (...). Não haverá diante de nós uma Humanidade em formação, soma de pessoas organizadas? (...) E não é esta, ademais, a única maneira lógica de prolongar, por recorrência (na direção de maior complexidade centrada e de maior consciência), a curva de moleculização universal?" (VP, p. 321).

Quem fala em convergência deve identificar o alvo para onde se verifica a convergência. Para o Pe. Teilhard as linhas do desenvolvimento cósmico se dirigem para um ponto denominado Omega: "Por esse nome, Ponto Omega, designei (...) um pólo último, e por si subsistente, de consciência, bastante mesclado com o Mundo para poder recolher em si, por união, os elementos cósmicos chegados ao extremo de sua "centração" por arranjo técnico, e inteiramente capaz, por sua natureza evolutiva (isto é, transcendente), de escapar à fatal regressão que ameaça (por estrutura) toda construção de tecido de espaço e tempo" (in "Comment je vois", apud TC-RE, p. 143).

Antes de concluir, queremos citar outro estudo do Pe. Julio Meinvielle, onde o sistema teilhardiano é descrito e criticado justamente sob o ângulo da concepção do universo, de que nos ocupamos nesta parte, e onde se encontram maiores informações a este respeito. Trata-se do livro "La Cosmovisión de Teilhard de Chardin" (Ediciones Cruzada, Buenos Aires, 1960).

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Uma crítica completa do sistema evolucionista do Pe. Teilhard de Chardin envolveria aspectos diversos, a saber, o metodológico, o paleontológico, o biológico, o filosófico e o teológico. Não é objetivo deste trabalho apresentar todos os argumentos que as ciências experimentais, a filosofia e a teologia formulam para rejeitar tal sistema.

Como nos propusemos pôr em evidência as concordâncias dele com a Weltanschauung do materialismo dialético, fomos fazendo, ao longo de nossa exposição, referências a essas analogias. Uma compreensão maior a cerca dessas concordâncias se alcança analisando o fundamento filosófico subjacente (apesar de Teilhard garantir que elaborou apenas memórias científicas, destituídas de qualquer pretensão filosófica), a essa exótica montagem "científica".

Ë o que procuraremos fazer em próximo artigo.

SIGLAS

AH "L'Apparition de PHomme", Teilhard de Chardin, Les Editions du Seuil, Paris, 1956.

PC "La Pensée Catholique", Les Editions du Cèdre, Paris.

PH "Le Phénomène Humain", Teilhard de Chardin, Les Editions du Seuil, Paris, 1955.

TC-RE "Teilhard de Chardin o la Religión de la Evolución", Pe. Julio Meinvielle, Ediciones Theoria, Buenos Aires, 1965.

VP "La Vision du Passé", Teilhard de Chardin, Les Editions du Seuil, Paris, 1957.

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CALICEM DOMINI BIBERUNT

Em contato com o jansenismo

Fernando Furquim de Almeida

Pio Brunone Lanteri encontrou na Universidade de Turim um ambiente trabalhado pelo jansenismo e por todos os erros que preparavam a Revolução Francesa.

Foi no século XVIII que a heresia de Jansênio conseguiu penetrar na Itália, infiltrando-se rapidamente entre os fiéis. Passara a época brilhante do jansenismo elegante e literário, que empolgava as conversas nos salões franceses – esses verdadeiros centros propulsores da opinião pública – e se fazia rumoroso com as polêmicas célebres que suscitava. Repetidas vezes condenada, a seita se concentrara em núcleos misteriosos de onde difundia seus erros em segredo, numa campanha sub-reptícia e tenaz. Os jansenistas italianos de maior renome apareceram nessa nova fase, exercendo influência principalmente nos centros intelectuais e daí propagando as suas ideias. Foi a época de Pietro Tamburini e do Bispo Scipione de Ricci, que, graças ao apoio do Grão-Duque da Toscana, Leopoldo, conseguiram reunir o tristemente célebre Sínodo de Pistóia, tentativa de ressuscitar as teses jansenistas que tanto mal fez à Itália, embora rapidamente condenada pela Bula " Auctorem Fidei".

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Corroídos por um jansenismo difuso que afastava os fiéis dos sacramentos, os meios católicos italianos opunham, em geral, fraca resistência aos manejos dos revolucionários, que neles introduziam os seus erros e preparavam o assalto contra os governos legítimos, para mais facilmente abater as instituições da sociedade católica. Um só fato dará uma ideia clara da verdadeira confusão criada assim na região que nos interessa mais de perto, o Piemonte. Ao ser introduzida na Congregação dos Ritos a causa da beatificação de Pio Brunone Lanteri, o Relator Geral da Seção Histórica, Fr. Ferdinando Antonelli, O. F. M., mostrando os males causados pelo jansenismo e pelo processo revolucionário, lembrou que, no início da Revolução Francesa, quando a França obrigou, pela força das armas, o Rei Carlos Emanuel IV a renunciar, o Arcebispo de Turim, Beronzo del Signore, mandou colocar nos atos oficiais da Cúria as palavras "Liberdade, Virtude, Igualdade" e escreveu uma circular na qual se lia textualmente: "Eis-nos solenemente declarados livres, iguais e republicanos, irmãos e filhos caríssimos. Essa obra que em outros lugares encontrou obstáculos, exigiu longas inquietações e derramamento de sangue, foi realizada no Piemonte, bendito seja mil vezes o Altíssimo, em poucas horas, com grande paz, segurança e concórdia, Agradecemos também à grande nação vencedora, a qual, com suas forças por toda parte respeitadas e temidas, se apressou a unir-se no Piemonte, amistosamente, para juntas executarem esse feliz trabalho" ("Positio super introductione causae et super virtutibus ex officio compilata", p. IX. Fr. Ferdinando Antonelli cita nesse trecho a "Storia del Piemonte" de T. Chiuso, vol. II, p. 54).

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Os hábitos de estudo que Pio Brunone Lanteri adquirira com a educação paterna não premuniam os seus 17 anos contra o ensino velado do jansenismo que iria encontrar na Universidade: talvez, até, contribuíssem para torná-lo presa fácil de professores respeitados. Nossa Senhora, no entanto, velava pelo seu filho, e a docilidade com que ele seguia as inspirações da graça permitiram que a Virgem afastasse do seu caminho os mais graves riscos para a fé.

Logo ao chegar a Turim, o jovem estudante percebeu que só conseguiria preservar a sua vida espiritual se frequentasse mais assiduamente os sacramentos, intensificasse os hábitos de piedade e aumentasse o tempo reservado à meditação da doutrina católica. A resolução que tomou nesse sentido lhe permitiu viver no turbulento ambiente universitário sem cair nas seduções fáceis, características da vida estudantil. A meditação séria e bem cuidada, por outro lado, fortalecia a formação que recebera no lar e lhe possibilitava distinguir a verdade do erro nas lições que ouvia de seus mestres. A par de todas essas cautelas, em duas circunstâncias se percebe claramente a mão de Nossa Senhora a afastar do mau caminho o jovem e impedi-lo de cair em heresia.

A primeira se apresentou logo no início do curso. O Dr. Pedro Lanteri não renunciara ao desejo de ver o filho aproveitar os seus dotes de inteligência numa brilhante carreira que o levasse a uma cátedra universitária. Nessa época, os cursos de Teologia na Universidade de Pavia gozavam de grande renome no Piemonte e em toda a Itália, ao mesmo tempo que, por obra de Tumburini, o mais célebre de seus professores, eram um verdadeiro foco de jansenismo. Não percebendo o perigo que Pio Brunone correria se lá fosse estudar, o Dr. Lanteri fez o possível para convence-lo a ir completar sua formação em Pavia. Não se conhece as razões opostas pelo jovem aos pedidos insistentes do Pai. O fato é que a sua saúde começou a declinar e a deficiência de sua vista o impossibilitou de ler ou escrever durante muito tempo. Esses obstáculos o impediram de aproveitar bem até o curso que já estava fazendo e, muito provavelmente, contribuíram para que o Dr. Lanteri não insistisse mais, renunciando a seu projeto.

Não podendo ler, Pio Brunone prestava muita atenção ao que ouvia nas aulas, guardando na memória o essencial. Lembrando-se dessa época de sua vida, costumava dizer que aprendera Teologia muito mais com os ouvidos do que com os olhos. Esse processo tinha a grande vantagem de levá-lo a refletir mais sobre as lições que recebia e a confrontá-las com a doutrina tradicional que meditava todos os dias. Mas, deu também ocasião ao segundo perigo grave que correu o Servo de Deus.

Incapaz de estudar sozinho, e desejoso ao mesmo tempo de conhecer bem a Teologia, como era necessário para seu ministério futuro, Pio Brunone procurou a companhia dos colegas que melhor acompanhavam o curso, para com eles trocar ideias sobre os assuntos que estudavam e assim poder esclarecer os pontos obscuros das preleções. Às vezes pedia mesmo que um deles lhe lesse trechos de tratados para depois conversarem a respeito. Isso acabou por aproximá-lo de Luigi Pellegrino, aluno brilhante com quem passou a estudar com frequência e que seria mais tarde professor de Lógica na Universidade de Turim. Logo depois da morte do Venerável Lanteri, um seu discípulo, o Padre Aloisio Craveri, escreveu uma breve biografia do Servo de Deus, onde conta ter dele ouvido que essa amizade quase o conduzira ao jansenismo. Empenhados em aproveitar bem o ensino que recebiam, os dois jovens foram pouco a pouco admitindo alguns erros ouvidos em aula. Ao perceber que entrara em mau caminho, Pio Brunone tudo fez para dele arredar também Pellegrino, mas foram inúteis os seus esforços, o que o obrigou a se afastar definitivamente do colega.

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Desse perigo foi salvo por ter conhecido o Padre Nicolau José Alberto de Diessbach, Jesuíta suíço que lecionava no Colégio da Companhia em Turim e que desde logo se tornou o guia e o orientador de toda a vida de Pio Brunone, conduzindo com mão firme essa alma cujas virtudes heroicas foram recentemente proclamada por Sua Santidade o Papa Paulo VI. Nossa Senhora recompensara a fidelidade de Pio Brunone Lanteri, dando-lhe o amigo de que necessitava.


NOVA ET VETERA

Sob pretexto de diálogo, relativismo

J. de Azeredo Santos

Constante leitor de "Catolicismo" envia-nos recorte de jornal e deseja saber nossa opinião sobre "escândalo" ocorrido na Abadia de Westminster, onde um Sacerdote católico, pela primeira vez desde a pseudo-reforma, desejou fazer uso da palavra, o que, segundo telegrama de Londres, "originou um tumulto insólito naquele santuário da religião anglicana".

Esclarece o telegrama que "o presidente da União Nacional dos Protestantes, interrompendo o Padre Thomas Corbishley, ex-Superior da igreja dos Jesuítas em Londres, cujo sermão fazia parte do programa estabelecido por motivo da semana de orações pela unidade dos cristãos, declarou: "Estou defendendo as crenças de nosso reino protestante". Mas logo em seguida o manifestante foi retirado do local" (despacho da AFP, de 22 de janeiro p.p.)

É claro que esse presidente da União Nacional dos Protestantes ingleses batalha por uma causa lamentável, qual seja a da permanência de seu país nos erros de Lutero, mas nem por isso deixamos de acentuar a coerência de sua atitude. Não se acha ele atacado pelo vírus do relativismo, tão encontradiço hoje em dia não somente entre os protestantes, mas entre os próprios católicos. Com efeito, como é que um anglicano, resolvido a permanecer tal, e convencido, portanto, de que sua religião é a verdadeira, é a única verdadeira, pode suportar, impassível, a presença de um Sacerdote católico dentro de um templo anglicano, a pregar a religião de Roma?

Tudo devemos fazer para que tenha fim a cisão que há quatro séculos cobre de tristeza os verdadeiros filhos da Igreja. Mas, a união dos cristãos só pode ser realizada pela aceitação plena das verdades de nossa Fé.

O vírus do relativismo

Não nos é licito ocultar esta realidade em nossas tentativas de aproximação dos irmãos separados, sob pena de aparecermos aos seus olhos como falhos de seriedade em nossos propósitos de diálogo. Aliás, seria imperdoável ingenuidade imaginar que os não católicos deixam de perceber que a posição da Igreja na matéria tem que ser essa.

Ainda recentemente foi difundido em São Paulo um folheto sob o título de "O Diálogo Católico-Protestante", de autoria do Sr. Roberto S. Rapp e publicado pela Missão Bíblica Presbiteriana no Brasil, no qual entre outras coisas se lê o seguinte: "A Igreja está mudando algumas de suas práticas. Por exemplo: as imagens estão sendo tiradas de alguns templos católicos, o lugar do latim está sendo ocupado pelo vernáculo nas missas, e a batina dos sacerdotes está sendo trocada por um tipo de traje mais informal. (...) Todavia, como acima temos mostrado, a Igreja não está pensando em modificar as suas doutrinas básicas. Portanto, o "diálogo" entre a Igreja Católica Romana e as Igrejas Protestantes não é um verdadeiro diálogo. Um verdadeiro diálogo requer duas partes, e que cada uma das partes esteja disposta para ouvir o ponto de vista da outra parte e pronta para mudar a sua própria posição se for necessário. Roma, porém, não pode ouvir com simpatia qualquer ponto de vista que esteja em conflito com as suas doutrinas básicas, porque ela considera os seus dogmas imutáveis"..

Nem o batismo é poupado

Realmente, nenhum católico, ao entabular com protestantes o diálogo da salvação de que fala Paulo VI, pode ocultar as verdades fundamentais do Catolicismo, ou ceder um único jota daquilo que ensina a Igreja. Deve ele explicar a razão de ser de sua própria posição, mas nunca mudá-la para conquistar seus oponentes. Nosso Divino Salvador nos deu mais de um exemplo dessa santa intransigência (cf. Jo. 6, 53-72, etc.).

No entanto, o delírio das concessões não poupa hoje em dia nem o que há de mais essencial, como o Batismo, que pela lição do catecismo é absolutamente necessário para nos salvarmos.

Como é sabido, nem todas as seitas protestantes admitem esta verdade, ou a põem em prática de modo aceitável. Daí ministrar-se o batismo, ao menos condicional, aos convertidos de tais seitas. Ora, ainda há pouco, o Revmo. Pe. F. Bertram Jones, do Convento do Bom Pastor, Twyford, Berks, Inglaterra, estranhava em carta a "The Tablet" a frequência com que em seu país se vão aceitando sem mais exame os batismos realizados fora da Igreja Católica (n° de 8 de maio de 1965).

Ainda em matéria de falsas atitudes dialogantes, e já agora com os comunistas, temos uma amostra característica em um recorte de jornal que nos foi enviado de Roma e do qual transcrevemos — com as devidas ressalvas — os seguintes tópicos:

"Livro de um seminarista, premiado por um juri marxista, ilustrado por um Sacerdote salesiano e apresentado em uma sede comunista: esse o acontecimento extremamente significativo que animou ontem à tarde , o colóquio entre comunistas e católicos na Casa da Cultura da Via da Coluna Antonina. O livro: "O Comunismo e a Religião" (...). A certa altura, quando o idílio entre católicos progressistas e marxistas revisionistas ("ma non troppo") navegava em um mar de rosas, um jovem se levantou e perguntou: "Mas, afinal, se as coisas estão nesse pé, que sentido tem a "nota à margem" acrescentada pelo Concílio ao "Esquema XIII", na qual se citam e se consolidam as condenações pontifícias contra o comunismo?"

"Respondeu Dom Girardi (o sacerdote salesiano citado), com um sorriso de auto-suficiência: "A nota à margem não é senão uma nota à margem". Ou seja, explicou aos desprevenidos que tomam a sério os textos conciliares, é apenas uma anotação marginal, sem nenhum valor, sem nenhum significado, colocada ali tão somente para fazer calar certos pobres Bispos ainda enredados na coerência da oposição ao comunismo ateu" ("Il Tempo", de Roma, 10 de dezembro de 1965).

Condenações à margem

Por outras palavras, os progressistas se apropriam do Concílio, e em geral da doutrina da Igreja, apenas naquilo de que podem tirar proveito. Não são interlocutores leais que tentam trazer os comunistas para o seio da Igreja, mas parceiros que sob pretexto de diálogo ocultam a verdadeira face da doutrina católica, concorrendo assim para a confusão dos espíritos.

Tudo isso nos conduz à seguinte consideração: o verdadeiro diálogo da salvação, desejado pela Igreja, não será travado, da parte católica, por elementos laxistas e relativistas, que não se acham sinceramente persuadidos das verdades que professam, mas antes parecem delas se envergonhar, pois as ocultam. Conquistemos o respeito de nossos adversários apresentando-nos a eles sem disfarces nem dissimulações. Sem isso não há pensar em convertê-los.