ESCREVEM OS LEITORES
Caridade: só para os hereges?
A propósito da secção "Virtudes Esquecidas" de nosso número 92, de agosto deste ano - na qual publicamos alguns fatos da vida de São Fernando III, Rei de Castela e Leão, que evidenciam como ele execrava os hereges - recebemos uma carta datada do Rio de Janeiro (D. Federal), anônima, onde se diz que tal trecho "arrepiou os cabelos de muitos Padres e Freiras". A mesma carta lamenta que censuremos certas pessoas tidas e havidas por católicas, tem lá sua alfinetada contra a "Inquisição Medieval", e caridosamente nos chama de jornal "patológico" sob o ponto de vista doutrinário. Abrindo exceção à nossa regra de jamais comentar cartas anônimas, cuidemos desta, não por indulgência para com o anonimato, mas pelo interesse do tema de que ela trata.
R. - A impressão que, segundo esse leitor - que não ousou dar seu nome, e portanto nos impede de nos certificarmos da veracidade desta sua afirmação - a impressão, dizíamos, que o tópico em apreço teria causado a "Padres e Freiras", só confirma que se trata de "virtude esquecida".
"Virtude" é certamente, uma vez que estamos diante de atos praticados por um Santo canonizado, cujo nome se encontra no Martirológio Romano, onde, no dia 30 de maio, sob o n.° 7, se lê: "Em Sevilha, na Espanha, São Fernando III, Rei de Castela e Leão, apelidado o Santo por causa da excelência de suas virtudes. Distinguiu-se pelo zelo em propagar a Fé (sublinhemos que o que a própria Igreja salienta no Santo está relacionado com as "Virtudes Esquecidas" de agosto). Depois de vencer os mouros, abandonou seu reino terrestre para subir ditosamente ao reino dos Céus" ("Martirológio Romano", - trad. de Frei Leopoldo Pires Martins, O. F. M., Ed. Vozes, 1954, p. 128). Não há, pois, dúvida de que a atitude de São Fernando III com relação aos hereges seja uma virtude.
Infelizmente, dir-se-ia que é uma virtude muito e muito "esquecida", porquanto só um lamentável esquecimento da doutrina católica poderia levar algum Padre ou Freira a ter "os cabelos arrepiados" à vista de fatos que deveriam antes edificá-los. Vamos dizendo isso, sempre na hipótese de que seja verdadeira essa afirmação da carta anônima.
*
A doutrina que nosso leitor esqueceu está nos Evangelhos, onde Jesus Cristo chama os hereges de "filhos do demônio", dignos, portanto, do inferno, ou seja, da fogueira, e de uma fogueira infinitamente mais atroz do que aquela com que a Inquisição punia os contumazes. Na discussão tida com os judeus e relatada por São João, no capitulo oitavo, chama Jesus os seus adversários de filhos do demônio, porque obstinados no erro e na mentira, tal qual em todos os tempos os hereges que apostataram da Igreja. Assim se expressa o Salvador: "Porque não compreendeis minha linguagem? Porque não podeis ouvir minha palavra. Tendes por pai o demônio, e cumpris os desejos de vosso pai. Este foi homicida desde o começo, e não permaneceu na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele mente, fala do que é seu, pois é mentiroso e o pai da mentira" (vers. 44 e ss.).
São Tomás explana esta doutrina na Suma Teológica (2a. 2ae., q. XI, a. 3, c.). A questão de saber se devemos tolerar os heréticos, responde "que, sobre os hereges, duas coisas devem ser consideradas: uma da parte deles, outra da parte da Igreja.
"Quanto a eles, é a heresia um pecado pelo qual não somente mereceram ser separados da Igreja pela excomunhão, como também do mundo pela morte. É, com efeito, muito mais grave corromper a fé, pela qual a alma vive, do que falsificar o dinheiro, por meio do qual se conserva a vida temporal. De onde, se os falsários, ou outros malfeitores, são sem demora e justamente condenados à morte pelos príncipes seculares, com muito maior razão os heréticos, tão logo convencidos de heresia, podem não apenas ser excomungados, mas também, com justiça, mortos.
"Da parte da Igreja, no entanto, há a misericórdia que visa a conversão dos que erram. E por isso Ela não condena imediatamente, mas só após uma primeira e segunda correção, como ensina o Apóstolo (Tit. 3, 10). Depois, todavia, se o herege ainda se mostra contumaz, a Igreja, já não tendo esperança de sua conversão, provê à salvação dos outros, separando-o da Igreja por sentença de excomunhão, e em; seguida abandona-o ao juiz secular para ser morto".
Esta explanação do Doutor Angélico, que justifica plenamente a existência do Tribunal da Inquisição e a lenha que São Fernando III levava às fogueiras dos hereges, poderia ter sido lida pelo nosso missivista no próprio "Catolicismo", n.° 53, maio de 1955, em "Verdades Esquecidas".
A posição da Igreja, aliás, neste assunto, como nos demais, tem sido sempre a mesma, como se pode ver pelas decisões do IV Concilio Ecumênico de Latrão no século XIII, pela condenação de erros de João Huss pelo Concílio de Constança, no século XV, pela condenação da proposição 33 de Lutero por Leão X, no século XVI, pela Bula "Auctorem fidei" de Pio VI contra o sínodo jansenista de Pistoia, no século XVIII, etc. "Catolicismo", que se tem esforçado por esclarecer esses pontos olvidados da doutrina católica, várias vezes lembrou o ensinamento da Igreja, através de seus Papas, Doutores e Santos, com relação à repressão da heresia e dos hereges. Podem ver-se, por exemplo, os n.os 54 (as proposições condenadas de Lutero e João Huss), 55 (São Pio V ordena que, na guerra contra os huguenotes, as tropas papais não prendam vivo nenhum destes), 59 (Santo Inácio de Loiola indica a São Pedro Canísio as penas a que devem ser submetidos os protestantes alemães), 62 (a decisão do IV Concilio de Latrão), 68 (razões por que não se devem manter relações com hereges, extraídas das Questões diversas de São Tomás de Aquino), etc. E tudo isso em "Verdades Esquecidas", o que quer dizer que nosso leitor anônimo encontraria na mesma secção que tanto lhe arrepiou os cabelos a exposição da orientação tradicional da Igreja, na qual se enquadram muito normalmente a atitude de São Fernando III e o Tribunal da Inquisição.
*
É verdade que na Antiguidade e na alta Idade Média não se reprimiam assim as heresias, e mesmo Santos Padres se levantaram contra a execução de algum herege. É que o Cristianismo ainda não dominara então todo o mundo civilizado, a Cristandade estava ainda em formação e, pois, não se haviam deduzido todas as consequências desse tesouro que é doutrina da organização temporal segundo as normas e a serviço do Evangelho. Uma vez chegada a época histórica em que isso aconteceu — época que Leão XIII celebra com os maiores encômios (cfr. "Immortale Dei") — era normal que a Santa Igreja punisse com as penas mais severas o crime de heresia, dos mais perniciosos ao bem da Cristandade, e mesmo entregasse os contumazes ao poder secular para receberem o castigo conveniente como réus de grave crime contra a sociedade cristã. — Neste mesmo princípio se baseia a atitude mais mitigada da Igreja em territórios pagãos; como igualmente a dolorosa tolerância a que Ela se vê forçada em nossos tempos de apostasia de todas as nações. Sim, porque convém lembrar que nação oficialmente católica, com o Catolicismo como Religião de Estado, e exclusão de outros cultos, não há mais na terra.
*
A estranheza patenteada pelo missivista se prende ao esquecimento dessas verdades. Foi também por isso que se criou o ambiente interconfessional em que vivemos, no qual a Deus se concede apenas o direito de existir, e se relega a sua Igreja à condição de instituição privada, Esse "progresso", essa "civilização moderna" condenados por Pio IX é que levaram à apostasia geral lamentada pelo Céu na mensagem de Fátima.
Pois Pio IX por ela responsabiliza em larga medida os "católicos liberais", isto é, aqueles que são batizados, se professam filhos da Igreja, mas vivem em amizade com todos os hereges e inimigos da Religião, e especialmente com os fautores da "civilização e progressos modernos". De maneira que, sem julgar das intenções (é campo que pertence a Deus), alerta "Catolicismo" seus leitores contra as atitudes estranhas de elementos que vivem dentro do redil católico. Não faz nada mais do que atender à recomendação do Papa Pio IX, de feliz e santa memória. Entre os vários documentos nos quais aquele Pontífice exorta os leigos militantes ao combate à atividade dos católicos que ele mesmo chama de "liberais", citemos o Breve ao presidente e aos membros do Círculo de Santo Ambrósio, de Milão, datado de 6 de março de 1873. A certa altura, diz ali o Santo Padre: "Se bem que os filhos do século sejam mais hábeis que os filhos da luz, seus ardis e suas violências teriam, sem dúvida, menor êxito se um grande número, entre aqueles que se intitulam católicos, não lhes estendesse mão amiga. Sim. infelizmente, há os que parecem querer caminhar de acordo com nossos inimigos, e se esforçam por estabelecer uma aliança entre a luz e as trevas, um acordo entre a justiça e a iniqüidade por meio dessas doutrinas que se chamam católico-liberais, as quais, apoiando-se sobre os mais perniciosos princípios, adulam o poder laico quando ele invade as coisas espirituais, e impulsionam as almas ao respeito, ou ao menos à tolerância das leis mais iníquas, como se absolutamente não estivesse escrito que ninguém pode servir a dois senhores. Ora, estes são mais perigosos certamente e mais funestos do que os inimigos declarados, não só porque lhes secundam os esforços, talvez sem o perceberem, como também porque, mantendo-se no extremo limite das opiniões formalmente condenadas, tomam uma aparência de integridade e de doutrina irrepreensível, aliciando os imprudentes amigos de conciliações e enganando as pessoas honestas, que se revoltariam contra um erro declarado. Por isso, eles dividem os espíritos, rasgam a unidade e enfraquecem as forças que seria necessário reunir contra o inimigo". Neste Breve de Pio IX tem nosso anônimo a explicação de nossa atitude para com determinados membros do laicato, e vê apontados os males que causam os que querem conciliar o Evangelho com o mundo, aqueles que abominam a "Inquisição Medieval".
*
Para sermos completos, atendamos a um outro tópico da carta que examinamos. Diz ela que "Catolicismo" cita "os Papas como os protestantes citam a Bíblia: não tem o seu espírito!"
É preciso saber que ninguém está obrigado a transcrever na íntegra todos os livros do autor cuja sentença aduz em seu favor. Aliás, seria impossível. Por exemplo, se nosso missivista desejasse aduzir uma opinião de Santo Agostinho, não precisaria trasladar os grossos e numerosos volumes desse Doutor. Seria pueril, patológico, pretender o contrário. De maneira que uma pessoa só é reputada por falsaria, como o são os protestantes no que tange à Escritura, quando se demonstra que falsificou o sentido de uma citação, ou porque lhe escondeu o contexto, ou porque lhe truncou os termos, ou porque a interpretou de maneira abertamente contraria à mente do autor. Mas isso é preciso demonstrar, como fazemos em relação aos protestantes, e não afirmar apenas, como faz conosco o leitor prudentemente incógnito.
*
E eis tudo. Eis como se justificam as atitudes enérgicas dos Santos, como se justifica a existência da Inquisição, como se justifica nossa secção de "Verdades e Virtudes Esquecidas", como se justifica a nossa apreensão com referência a católicos exageradamente conciliadores.
Poderá naturalmente nosso missivista continuar, nos extremos de sua caridade com os hereges, a nos chamar de "patológicos". Convirá, no entanto, em que São Tomás de Aquino, São Pio V, a Igreja e Nosso Senhor Jesus Cristo são boa companhia. Com eles pretendemos continuar.
* Outras Cartas *
D. Zoe Torres Soares, Santos (Est. São Paulo): "Muito boa a sua revista. Colaboração preciosa para leitura sadia, concisa, de conhecimento religioso exato, boa apresentação".
Sr. Caio Vidigal Xavier da Silveira, São Paulo (Est. São Paulo) : "Visitei, no decurso de setembro último, a Exposição Retrospectiva de Jornalismo, realizada sob o patrocínio da Escola de Jornalismo Casper Libero, no edifício do Instituto Histórico e Geográfico desta cidade.
Num dos mostruários, colocado em posição de merecido relevo, encontrei o CATOLICISMO, juntamente com exemplares de outros jornais católicos do Brasil. E entre estes figuravam vários números do antigo "Legionário", de São Paulo, cujos colaboradores em grande parte ilustram as páginas do nosso mensário.
Estou certo de que essa informação interessará a V. S."
AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES
Masculinidade e extravagância
no perfil feminino ultramoderno
Plinio Corrêa de Oliveira
Um dos efeitos mais deploráveis do neopaganismo naturalista, igualitário e sensual de nossa época consiste em degradar a velhice, "enfeitando-a" com as aparências da mocidade, e em "realçar" a mulher, induzindo-a a ostentar a desenvoltura de maneiras e o ar de independência próprio ao homem.
Temos aí três damas bem modernas, que já atingiram uma idade... muito madura. No seu todo, qualquer coisa de másculo, uma robustez, um hábito de se guiar por si e de impor sua própria vontade, de se afirmar espalhafatosamente em público, uma alegria estrepitosa e triunfal que lembra de algum modo um "self made man" pletórico que fez bons negócios e gosta de se exibir... quanto mais melhor.
Além do ar másculo, o gênero "mocinha" se faz notar. Enquanto fica bem à velhice certa gravidade de semblante e de maneiras que até nas horas de lazer se conserva como fundo de quadro, estas senhoras riem, comem e se divertem com a garrulice de três mocinhas. Os padrões vistosos de seus vestidos, e sobretudo a extravagância como que festiva de seus chapéus, acentuam a impressão. A figura do centro usa na cabeça um conjunto rebuscado e heterogêneo de flores e de fitas, tudo em tons claros. A pessoa da esquerda ornamenta os cabelos com um chafariz fantasioso de pluminhas próprias a se mexerem ao mínimo sopro do vento, ou ao mais leve meneio da cabeça.
No total, tudo quanto neste quadro pode ser chamado tipicamente moderno tende a despojar a velhice de seus verdadeiros atrativos, e a recobri-la de atrativos falsos.
Como eram simpáticos, quanta confiança, quanto respeito incutiam aqueles velhos de outrora, que não ocultavam sua decrepitude física nem dela se envergonhavam, pois sabiam que através das exterioridades da decadência orgânica reluzia o apogeu moral de uma alma chegada à plenitude de seus valores.
Quem se sente propenso a ajudar as "moças" auto-suficientes de nosso clichê? Quem imagina poder receber delas um conselho cheio de sisudez, ponderação e serena elevação de alma?
Ó, os afáveis, os solícitos, os sábios conselheiros que eram em cada família o avô, a avó dos antigos tempos, não tendo outros prazeres senão os do lar, nem outra preocupação senão meditar sobre a vida e preparar-se para a morte!
* * *
Meditar sobre a vida, suas vaidades, suas ilusões, preparar-se para a morte: a velhice é por excelência a época apta a isto. Entretanto, a Igreja o recomenda a todos os seus filhos. E assim, Ela forma de tal maneira as almas, que a própria juventude não deve ter os ares de uma despreocupação leviana e de uma exuberância sem limites, mas deve pelo contrário reluzir pelas virtudes que na velhice estão normalmente em seu ápice.
Exemplo extremo, e por isto mesmo sublime, do que a Igreja realiza a este respeito, é o recolhimento, a auteridade, a incomensurável elevação de vistas a que a Regra convida as Carmelitas, ainda mesmo as mais jovens.
Nosso clichê apresenta aspecto parcial de um refeitório de Carmelo ( o da Via Borgo Vado, Roma ). As Monjas que nele aparecem têm a face coberta por um véu devido à presença do fotógrafo. Estão prestes a iniciar a refeição. A leitora está no púlpito, para entreter a comunidade com um livro piedoso.