VENERAÇÃO E TRISTEZA
(continuação)
doloroso dos "Padres-operários", em que algumas medidas sábias e de uma temperada energia do Vigário de Cristo foram mal compreendidas e o fizeram sofrer tanto. E assinalemos um outro ponto, com o qual daremos por findas estas notas. É a tomada de posição inteligente, original, subtil, do Santo Padre Pio XII em relação a um aspecto concreto da materialização progressiva das atividades humanas: a mecanização da existência e a preponderância perigosa das ciências naturais e da técnica no teor de vida, e mais ainda na estrutura mental do homem moderno. A última alocução de Natal do falecido Pontífice, a este respeito, deve ser qualificada como um verdadeiro acontecimento na história da cultura católica.
É-nos grato, no momento em que, em espírito, nos curvamos reverentes ante os despojos mortais de Pio XII, rememorar tudo isto, e também os demais fatos que não tivemos tempo de mencionar.
Mas a expressão de nosso reconhecimento não seria completa se, neste instante de tanto significado afetivo para nós, deixássemos de citar uma dádiva incomparável que Pio XII nos fez, a nós campistas, dando-nos por Bispo Diocesano este admirável Pastor que é D. Antonio de Castro Mayer.
Assim, é com o coração a transbordar de emoção, que imploramos à Virgem Santíssima que recompense de tantos benefícios aquela alma pela qual o universo inteiro reza enternecido.
COMENTANDO...
ESPIRITO FRANCISCANO E COMBATIVIDADE
Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira
“O seu jornal — disse-nos certa vez um devoto de São Francisco de Assis — é combativo, e frequentemente chega a ser duro para com os pecadores; a espiritualidade franciscana, pelo contrário, quer sempre conquistar pelo amor. Trata-se, pois, de duas orientações antagônicas e incompatíveis”.
Estranha idéia: duas virtudes incompatíveis! Ou será que, para o nosso interlocutor, a fortaleza não é uma virtude, mas um vício? ... Apraz-nos, entretanto, não lhe atribuir tal conceito. Basta ter urna noção sumaria da moral cristã, para não cair em erro tão completo.
Gostaríamos que ele examinasse conosco a figura do meigo e doce franciscano Santo Antonio de Pádua, de quem frequentemente se esquece o cognome de "martelo dos hereges". Santo Antonio pregou e lutou incansavelmente contra os albigenses, contra os cátaros, contra os circuncisos, contra os valdenses.
Prodígio por ele operado em Toulouse, conhecido corno o "Milagre da mula", foi feito para provar a um albigense, homem influente na cidade, o dogma da presença real. O herege desafiara o Santo, dizendo que deixaria sua mula três dias sem comer, e depois a levaria à praça pública. Seria, então, apresentado ao animal um monte de feno e aveia; ao lado, estaria o ostensório com uma Hóstia consagrada, nas mãos de Frei Antonio. Se a mula, em lugar de comer, se proseasse diante da Santíssima Eucaristia, estaria demonstrada a presença real. E o milagre se realizou, perante toda a população atônita.
Em 1225, reuniu-se em Bourges um grande concílio contra os maniqueus, convocado pelo Papa. O Arcebispo de Bourges começava a ser conquistado pela heresia. Santo Antonio foi disso prevenido por revelação divina. Convidado para fazer o sermão de abertura do concílio, julgou que não seria contrário ao espírito franciscano atacar de público os vícios do Prelado, apontando para ele com o braço estendido, e exclamando: "E a vós que me dirijo, a vós que usais a mitra..." Vertendo lágrimas, o Arcebispo reconheceu seus pecados.
O celebre milagre dos peixes, que saíram da água para ouvir o admirável pregador da Verdade, não foi senão um episódio de sua acirrada luta contra a heresia, em Rimini. Prova disso é o seguinte trecho do sermão pronunciado pelo Santo na praia: "Bendito seja o Deus eterno, porque os peixes das águas o honram mais do que o fazem os homens hereges".
O norte da Itália vivia sob a opressão do Marquês de Treviso, que praticava crueldades inomináveis, tomava os bens da Igreja, impedia as práticas religiosas. Quando suas tropas invadiram Verona, toda a vizinha Pádua tremeu. Antonio, solicitado pelo povo, foi procurar o terrível capitão, a fim de evitar o ataque à cidade. De que linguagem usou ele então? Só falou com bondade e doçura? Não! Eis suas palavras: "Ó inimigo de Deus, tirano cruel, cão raivoso! Até quando continuarás a derramar o sangue inocente dos cristãos? Sabe ao menos que não escaparás aos castigos que Deus te reserva: eles serão proporcionados aos teus crimes". Prostrando-se aos pés do Santo, o Marquês prometeu corrigir-se.
Será, realmente, que a combatividade é incompatível com o espírito franciscano? .. .
Para que o Imaculado Coração de Maria confunda os planos dos sectários de Marx
Nas vésperas do último pleito eleitoral, o Exmo. Revmo. Sr. Bispo Diocesano publicou um luminoso documento de orientação para o Revmo. Clero e fiéis de Campos. Esse documento teve, através das páginas de nosso jornal (1), repercussão muito extensa no País.
A fim de alcançar da misericórdia divina mais especialmente o malogro dos esforços dos comunistas nas eleições que se avizinhavam, quis o zelo profundamente mariano do Exmo. Revmo. Sr. D. Antonio de Castro Mayer pedir ao Imaculado Coração de Maria que confundisse os planos dos sectários de Marx.
Assim, dispôs S. Excia. Revma., por meio do memorável Mandamento que abaixo transcrevemos, se consagrassem ao Coração Imaculado da Virgem Nossa Senhora todas as Paróquias desta Diocese :
“Aos Revmos. Párocos e Sacerdotes da Diocese de Campos.
Saudação, paz e benção em Nosso Senhor Jesus Cristo.
Segundo se pode deduzir por declarações públicas e alianças notórias, a infiltração comunista em vários partidos políticos ameaça a constituição de um Congresso Nacional com apreciável bancada marxista.
Diante desse fato, é preciso insistir junto aos fiéis sobre a obrigação de votar, e de não sufragar a não ser candidatos que apresentem uma segurança de que serão mantidos os princípios que regem a sociedade brasileira, o direito de propriedade, o direito dos pais à educação dos filhos, a manutenção da família com base no casamento indissolúvel, e a liberdade à Igreja de cumprir sua missão espiritual junto dos homens.
Sobretudo lembrem aos fiéis que esses benefícios de ordem social que usufruímos são frutos da graça divina, que se obtém com orações, sacrifícios e emenda de vida.
Por isso, para suplicar da misericórdia de Deus por intermédio do Coração Imaculado de Maria que afaste de nossa Diocese, de nosso Estado e do País o comunismo, determinamos que em preparação às eleições de 3 de outubro próximo:
- se reze com o povo o terço de Nossa Senhora, diante do Santíssimo exposto, nos dias 30 de setembro, 19 e 2 de outubro ;
- no dia 2 se faça a consagração da Paróquia ao Imaculado Coração de Maria segundo a formula que vai junto.
Dada e passada em Nossa Episcopal Cidade de Campos, aos vinte de setembro de mil novecentos e cinquenta e oito.
† Antonio, Bispo de Campos.”
É a seguinte a fórmula de consagração a que se refere o Mandamento:
"Em Fátima manifestastes, doce Mãe e Rainha gloriosíssima, o desejo de que todos os fiéis se consagrassem a vosso Imaculado Coração.
Quisestes, assim, que por meio de um novo vínculo conVosco as almas recebessem um novo alento para a prática da virtude e forças redobradas na luta contra o inimigo infernal.
Obedecendo com júbilo a vossos maternais desígnios, consagramos hoje nossa Paróquia de ... ao vosso Imaculado Coração.
Não permitais, Senhora, que essa consagração, que todos os aqui presentes fazemos de nós mesmos, seja um obséquio apenas verbal. Fazei, pelo contrário, que produza frutos copiosos de santidade e ação.
Colocando-nos sob a proteção especial de vosso amor de Mãe, pedimos, poderosa Rainha, que nos preserveis da corrupção deste século.
A impiedade, o orgulho, a sensualidade do mundo contemporâneo Vos arrancaram as graves admonições de Fátima e as lágrimas que vertestes em Siracusa. Dai-nos a graça de permanecer incólumes a estes pecados. Fazei que oponhamos às manifestações claras ou veladas do erro uma obediência inquebrantável à Santa Igreja e ao Sumo Pontífice; que oponhamos ao orgulho satânico da Revolução igualitária um zelo ardente pela hierarquia perfeita que a Providencia introduziu entre os Anjos, os homens e todas as criaturas; que rejeitemos a impureza em todas as suas formas, ainda as mais indiretas e disfarçadas.
Dai-nos a graça de resistir à pressão de um mundo que cada vez mais persegue a virtude. Quando nos sentirmos isolados, incompreendidos, atacados, sustentai-nos com a força invencível de vosso Coração. Tornai nossos esforços proveitosos para a santificação dos que já Vos amam, e a conversão dos que vivem longe de Vós.
Por fim, concedei-nos que toda a nossa existência transcorra no amor veemente ao sofrimento e à Cruz, nutrido pela Sagrada Eucaristia e por uma intensa piedade para conVosco, bem como numa estreita união com a Cátedra de São Pedro, coluna da Verdade.
Assim, quando vier para nós o momento derradeiro, enfrentaremos a morte confiantes em Vós, para cantar as glórias de vosso Divino Filho por toda a eternidade.
Todos respondem: Amém".
(1) N. da R.: Publicado em «Catolicismo», n.o 91, julho de 1958.
«O Confisco Cambial
é Injusto e Contrário
ao Direito Natural»
Publicamos hoje o texto da carta lúcida, corajosa, e de alto valor doutrinário, que o Exmo. Revmo. Sr. D. Geraldo de Proença Sigaud, S. V. D., Bispo de Jacarezinho, escreveu a 13 de setembro p.p. ao Sr. Nilson Ribas, Presidente da Associação Paranaense de Cafeicultores, sobre o importante problema do confisco cambial e suas graves consequências.
Nesse documento, o ilustre Prelado, que alia a seus predicados de pensador e moralista vigoroso um profundo conhecimento dos problemas sociais e econômicos do Norte do Paraná, põe em evidencia o cunho intrinsecamente imoral do confisco cambial.
A Igreja é a mestra e tutora do Direito Natural. E nada é mais legítimo do que ver um de seus Bispos entrar em liça para defender em matéria econômica o princípio de propriedade contra a invasão do socialismo hodierno.
Em artigo publicado em outro local desta página, o Dr. Luís Mendonça de Freitas, economista de relevo na capital paulista, analisa com penetração e clareza o que seja o confisco cambial.
É o seguinte o texto da carta do egrégio Bispo de Jacarezinho:
"Não podendo ficar alheio ao espetáculo angustioso que oferece a lavoura do Norte do Paraná, em consequência do aviltamento do preço do café e do encarecimento da vida, principalmente do custeio das lavouras, venho por meio desta manifestar minha solidariedade aos cafeicultores e à população rural, e dizer uma palavra de benção e de orientação, como V. Excia. me pediu.
A causa desta situação calamitosa e artificial que a lavoura atravessa é, em última análise, o confisco cambial. Apóio a luta contra essa ingerência do Estado na economia particular, que a doutrina da Igreja considera injusta e contraria ao Direito Natural, e é proveniente de doutrinas socialistas. Pois o valor real da mercadoria é propriedade de quem a produziu. Na situação atual, a parte que o Estado toma do preço do café em divisas não é considerada propriedade do produtor, que é tratado como um tutelado. Todo o valor do café deve reverter em propriedade de quem o produziu. Ao Estado compete exclusivamente cobrar imposto sobre a mercadoria. Mas esse imposto deve ser justo e nunca chegar à maior parte do valor da mercadoria. Deve ser público e sujeito à fiscalização de quem o paga, antes e depois de ser pago. Deve ser análogo ao que as outras classes econômicas pagam, a fim de que haja distribuição justa e equitativa dos ônus e das vantagens na coletividade. Tudo isso não está acontecendo. A Igreja não se imiscui nas questões técnicas. Mas Ela deve pronunciar-se sobre os princípios do Direito Natural, que a atual situação do confisco cambial fere gravemente. Liberados os dólares que o café rende, o agricultor tem o direito de os vender, a quem lhes der melhor preço. Caberá ao Estado cobrar os impostos necessários para garantir à nação os recursos de que precisa para fazer frente aos gastos públicos e ao progresso da coletividade.
Vejo que muitos fazendeiros estão na iminência de restringir os trabalhadores de suas propriedades ao mínimo. Faço um apelo a todos que, caso se vejam na contingência de dispensar seus assalariados, permitam que eles continuem morando em suas casas de colonos, e que lhes dêem alguma terra onde possam plantar por conta própria. Lembro igualmente a solução humana de darem suas lavouras a meia, até que dias melhores permitam retomar o ritmo normal dos trabalhos agrícolas.
Faço votos que o Exmo. Sr. Presidente da República, em sua alta sabedoria e espírito de justiça, consiga corrigir agora os erros que se vêm acumulando desde administrações passadas, e coloque a economia cafeeira sobre bases sadias, deixando que as coisas cheguem a seu lugares naturais, e acabando com o artificialismo socializante em que nos encontramos. Espero, assim, que a Marcha da Produção não seja necessária. Mas se ela tornar-se indispensável, rogo a Deus que inspire a todos os seus componentes um espírito de ordem, de respeito à autoridade constituída, de solidariedade cristã e de patriotismo. Que todos rejeitem energicamente qualquer infiltração esquerdista, e que o temor de Deus, o amor à Pátria, e a consciência das graves responsabilidades da lavoura e das dificuldades da hora presente pairem sobre os atos, as palavras e as atitudes de todos.
Queira V. Excia. transmitir a seus companheiros da Associarão Paranaense de Cafeicultores estas palavras, e creia na alta estima, etc."
O QUE É O CONFISCO CAMBIAL
Luiz Mendonça de Freitas
Muitos dos leitores de "Catolicismo" talvez não estejam familiarizados com a expressão "confisco cambial", que designa o tema magistralmente analisado, à luz da doutrina social católica, pelo notável documento reproduzido em outro local desta edição: a carta que S. Excia. Revma. o Sr. D. Geraldo de Proença Sigaud, DD. Bispo de Jacarezinho, dirigiu recentemente ao Presidente da Associação Paranaense de Cafeicultores. Por esse motivo, pareceu-nos útil uma explicação sobre o que seja o confisco cambial.
*
Devemos, preliminarmente, recordar como se realizam as operações internacionais de comercio e como se completam os respectivos pagamentos. Para maior clareza da exposição, vamos começar raciocinando a respeito de uma operação comercial interna, isto é, efetuada dentro das fronteiras de um país e na qual, por conseguinte, só intervém uma moeda.
Tomentos o caso simples de uma transação qualquer entre um produtor agrícola e um comerciante do Brasil. O produtor de cem sacas de café que as vendesse no mercado interno receberia, em troca do artigo entregue ao comprador, seu valor em moeda nacional, em cruzeiros, de acordo com os preços em vigor na ocasião. Com o dinheiro recebido o produtor satisfaria seus compromissos, liquidaria débitos anteriores, faria novos investimentos, etc. Isto para uma operação interna, ou seja, saldada em cruzeiros. Vejamos o processo pelo qual é liquidada uma operação comercial com o exterior.
A remuneração do produtor de café que exporta seu produto é determinada por um processo um pouco diferente do exemplo anterior. O exportador recebe o valor correspondente à sua mercadoria, não em cruzeiros, mas na moeda dos países em que operam seus clientes. Por outro lado, para manter suas atividades, o produtor-exportador tem necessidade de cruzeiros, e não de moeda estrangeira. Ele os obterá vendendo ou trocando essas divisas por dinheiro nacional, ao preço estabelecido no mercado cambial. Se um fazendeiro tivesse exportado cem sacas de café a cinquenta dólares cada uma, e se o preço do dólar no mercado (ou seja, a taxa cambial) fosse de cem cruzeiros, sua receita seria de quinhentos mil cruzeiros, pois ele teria obtido com sua exportação cinco mil dólares (cem sacas multiplicadas por cinquenta dólares), os quais, vendidos à razão de cem cruzeiros cada um, lhe proporcionariam quinhentos mil cruzeiros.
A taxa de cambio, admitindo-se um mercado cambial livre, não é uma relação fixa, mas flutuante, e influenciável pelo volume da oferta, tanto quanto pelo da procura. Se, em determinado momento, vários fazendeiros que tivessem obtido dólares com a exportação pretendessem desfazer-se deles para adquirir cruzeiros, a taxa do dólar, ou sua relação de troca, tenderia a baixar, e digamos que poderia atingir oitenta cruzeiros, por hipótese. (Naturalmente, não nos interessa aqui entrar em detalhes técnicos sobre as possibilidades de limitar a área dentro da qual poderiam ser contidas as flutuações da taxa
(continua)