Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 900 | página 19
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4. Sobre os privilégios singulares da Mãe de Deus e dos homens

A Virgem Maria, amada de modo inefável por Deus, foi adornada de privilégios absolutamente singulares: admirável no seu nascimento, pela Imaculada Conceição; admirável na sua vida, por ter permanecido livre de toda culpa pessoal e ter sido ao mesmo tempo mãe e sempre virgem, de mente e corpo; admirável, enfim, no seu trânsito, pois — segundo antiga e venerável tradição — embora tenha sofrido a morte temporal para se assemelhar mais plenamente ao seu Filho, não pôde, contudo, ser retida pelos laços da morte, sendo assunta ao Céu em corpo e alma, gloriosamente.

Tais privilégios singulares e outras graças provenientes de Cristo Redentor redundam em sua honra, de modo que não podemos contemplar as excelsas dádivas da Mãe sem admirar e celebrar a divindade, a bondade, o amor e a onipotência do Filho.

Assim como a injúria feita à mãe atinge o filho, também a glória da mãe redunda em glória do filho. Portanto, dado que Maria teve uma união singular com seu Filho, convinha que, em previsão dos méritos do perfeitíssimo Redentor — autor de toda santidade, que veio ao mundo para destruir o pecado —, fosse preservada imune de toda mancha do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção, e ornada de graças e dons muito acima de todos os espíritos angélicos e de todos os santos, para que, verdadeiramente, como Mãe de Deus, Filha do Pai e Santuário do Espírito Santo, superasse em dignidade todas as criaturas.

Convinha também plenamente que o Filho, que amou sua Mãe com particular afeto, e quis que a integridade corporal dela permanecesse incorrupta e inviolada no próprio parto, para que “permanecendo a glória da virgindade, derramasse sobre o mundo a luz eterna”, não permitisse que aquele santíssimo corpo virginal — augusto tabernáculo do Verbo divino, templo de Deus, todo santo e todo puro — fosse reduzido ao pó.

5. Sobre o culto à Bem-Aventurada Virgem Maria

Como à Bem-Aventurada Virgem compete uma excelência singular, sendo saudada pelo Arcanjo mensageiro de Deus como “cheia de graça” (Lc 1,28) e por

Isabel, cheia do Espírito Santo, como “bendita entre as mulheres” (cf. Lc 1,42), nada admira que, como ela mesma profetizou — “todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1,48) —, seja proclamada, venerada, amada e invocada como “bem-aventurada” por todos os povos e em todos os ritos, com louvores que, através dos séculos, crescem continuamente; sendo proposta como exemplo para imitação.

E está muito longe de ser verdade que esse culto singular prestado a Maria diminua o culto divino de latria — a adoração devida ao Verbo encarnado, assim como ao Pai e ao Espírito Santo; pelo contrário, muito o favorece.

As várias formas de piedade mariana aprovadas pela Igreja — dentro dos limites da sã e ortodoxa doutrina, segundo as condições dos tempos, lugares e índole dos fiéis — têm por fim que, ao se honrar a Mãe, o Filho, em quem aprouve ao Pai que habitasse toda a plenitude (cf. Cl 1,19), seja conhecido, amado, glorificado, e que seus mandamentos sejam observados; e assim, por Cristo, que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6), os homens sejam conduzidos ao pleno conhecimento e adoração do único e trino Deus.

Esta doutrina sã e católica o Santo Sínodo ensina deliberada e firmemente, advertindo ao mesmo tempo os Bispos que zelem diligentemente para que teólogos e pregadores da Palavra divina evitem tanto toda falsa exaltação quanto excessiva estreiteza de mente ao considerarem a dignidade singular da Mãe de Deus.

Lembrem-se também os fiéis de ambos os sexos de que a verdadeira devoção não consiste em um sentimento passageiro, e rejeitem toda vã credulidade; antes, mantenham firmemente que a devoção procede da verdadeira fé, pela qual somos levados à imitação das virtudes da Bem-Aventurada Virgem, que foi “a serva do Senhor” (Lc 1,38), humildíssima e obedientíssima, que guardou fielmente, “meditando em seu coração” (Lc 2,19), tudo o que dizia respeito ao Verbo encarnado (cf. Lc 2,51), e foi proclamada bem-aventurada “porque acreditou” (cf. Lc 1,45).

De nada teria aproveitado a Maria a proximidade física com Cristo, “se não o tivesse trazido mais felizmente no coração do que no seio”.

Com a devida honra e reverência com que os irmãos separados — especialmente os Orientais, movidos por um impulso fervoroso de venerar de modo peculiar a