SACERDOTE Palavra do
Padre David Francisquini
Pergunta – Recentemente, coloquei-me a seguinte questão: é certo que os justos do Antigo Testamento podiam salvar-se, porque Nosso Senhor, após sua morte, desceu a eles no “seio de Abraão”; porém, não sei exatamente como operava a graça na Antiga Lei mosaica, já que ainda não havia ocorrido a Redenção, nem qual era o papel da circuncisão, visto que somente com o Batismo os homens ficaram livres do pecado original. Poderia explicar isso? E qual é a diferença entre a circuncisão e o batismo?
Resposta – Muito boa pergunta, perfeitamente pertinente, pois a graça sempre foi necessária para a salvação, antes e depois da Redenção operada por Nosso Senhor Jesus Cristo pelos méritos infinitos de sua Paixão e Morte.
Como todos devem se lembrar, no pequeno catecismo a graça se define como o dom gratuito do Senhor, dado a nós pelos méritos de Jesus Cristo, para fazer-nos filhos adotivos de Deus, participantes de sua natureza divina, capazes de realizar obras sobrenaturalmente meritórias e de conseguir a vida eterna.
De fato, esta última consiste na visão da essência divina, objeto da beatitude suprema para as criaturas racionais. Mas essa visão ultrapassa a natureza de toda inteligência criada e, por isso, nenhuma criatura racional pode desejar essa beatitude nem produzir obras meritórias proporcionadas à vida eterna se não for movida por um agente sobrenatural, no caso a graça divina. Porque somente Deus pode deificar-nos, por meio de uma participação criada na sua vida incriada: aquilo que em Deus existe de modo substancial, encontra-se à maneira de acidente na alma que participa da bondade divina.
São Paulo o diz de modo claro: “A vida eterna é uma graça de Deus” (Rm 6, 23), fazendo eco às próprias palavras de Nosso Senhor à Samaritana junto ao poço: “Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas o que beber da água que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser
nele fonte de água, que jorrará até a vida eterna” Jn 4,14). Por isso pergunta o Catecismo Romano: “E que outra coisa diremos ser a glória senão a perfeição e a plenitude da graça?” (IV Parte: Da oração, n. 11).
Graça santificante na Antiga Lei e Nova Aliança
Até os anjos tiveram necessidade da graça a fim de se voltarem para Deus como objeto de sua felicidade, e nisso eles se igualam aos homens, porque também nós recebemos a promessa da beatitude celeste, e uns e outros, de acordo com São Tomás de Aquino, fomos criados já no estado de graça, os anjos no Céu e Adão