como a posse de armas atômicas é imoral”. É esta a doutrina da Igreja?
Para resolver este complexo problema moral, é preciso recordar que, ao longo de mais de um milênio, a Igreja ensinou coerentemente a legitimidade de uma guerra travada por uma causa justa. Esta doutrina, depois de Santo Agostinho e São Tomás, foi desenvolvida em seus vários aspectos pelos grandes teólogos espanhóis da “Segunda Escolástica”, como o dominicano Francisco de Vitória (1492-1546) e o jesuíta Francisco Suárez (1548-1617), e foi exposta pelos grandes moralistas e sociólogos católicos do século XX, como o padre Antonio Messineo (1897-1978) e o padre Johannes Messner (1891-1984).
A era moderna, no entanto, viu o nascimento e o desenvolvimento de armas como as nucleares, químicas e bacteriológicas (ABC), que diferem das armas convencionais não apenas em seu grau de poder, mas em sua natureza. Com efeito, são meios de destruição indiferenciada, que prejudicam os inocentes ou os próprios combatentes numa medida desproporcionada em relação aos resultados da guerra.
O Papa Pio XII abordou a questão em vários discursos, mas sobretudo na sua alocução de 30 de setembro de 1954 à VII Assembleia Médica Mundial, na qual pergunta: “A moderna ‘guerra total’, em particular a guerra ABC, é permitida em princípio? Não pode haver dúvida, sobretudo pelos horrores e imensos sofrimentos causados pela guerra moderna, que desencadeá-la sem justa causa (isto é, sem que seja imposta por uma injustiça evidente e gravíssima, de modo algum evitável) constitui um crime digno das mais severas sanções nacionais e internacionais. “Do mesmo modo, a questão da legalidade da guerra atômica, química e bacteriológica não pode ser suscitada em princípio, a não ser no caso em que deva ser julgada indispensável para a defesa nas condições indicadas. Mas, mesmo assim, todos os esforços devem ser feitos para evitá-lo, seja por acordos internacionais, seja estabelecendo limites muito claros e estreitos para seu uso, de modo que seus efeitos possam permanecer limitados às estritas exigências de defesa. “Quando, no entanto, o uso desse meio envolve uma extensão tal do mal que está totalmente além do controle do homem, seu uso deve ser rejeitado como imoral. Aqui não se trataria mais de ‘defesa’ contra a injustiça e da necessária ‘salvaguarda’ dos bens legítimos, mas de aniquilação pura e simples de toda a vida humana dentro do campo de ação. Isso não é permitido por nenhum motivo” (Discorsi e Radiomessaggi, vol. XVI, p. 169). O uso da guerra ABC, como se pode deduzir da passagem de Pio XII, só é permitido se for imposto por uma injustiça gravíssima, de modo algum evitável, e se for possível controlar de alguma forma os seus efeitos. Em um artigo dedicado a este tema em 2019 na “La Porte latine” (https://laportelatine.org/formation/morale/ doctrine-sociale/la-bombe-atomique-est-elle-immorale), o padre Bernard de Lacoste Lareymondie, diretor do Seminário Ecône da Fraternidade São Pio X, resumiu bem a posição católica: “De acordo com o quinto mandamento de Deus, nunca é lícito matar uma pessoa inocente diretamente. É inerentemente mau. É um pecado mortal contra a justiça. Portanto, mesmo no contexto de uma guerra justa, matar muitos civis para forçar o inimigo a se render é gravemente imoral. No entanto, se se trata de matar indiretamente uma pessoa inocente, a questão é mais sutil.
Papa Pio XII