Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 871 | página 32-33
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

5. Transformação da coluna vertebral da Igreja em uma sinodalidade cartilaginosa e tribal

Quando analisamos os textos sinodais, e sobretudo o “espírito” do Sínodo, isto é, o clima artificialmente criado de inquietação e urgência de mudanças, podemos discernir duas tendências principais. Uma, mais barulhenta e visível: a mudança da moral sexual, já comentada acima. A segunda é mais profunda, sutil e dificilmente compreendida pela média dos fiéis: ela visa mudar a constituição divina da Igreja.

Tal tendência não nasceu agora. Ela vem se gestando nos meios ditos progressistas há décadas. Denunciou este erro desde seu nascedouro o grande pensador e líder católico, Plinio Corrêa de Oliveira. Em 1943, em seu primeiro livro Em defesa da Ação Católica19, ele já apontava para a sanha destruidora dos herdeiros do modernismo, que na década de 30 e 40 se enfronhavam nos meios católicos para minar gradualmente a constituição divina da Igreja.

Cinquenta anos depois, o insigne professor alertou para a tentativa de introduzir na Igreja um modelo tribal de governo: “a maneira de fazer isso já pode ser vista claramente nas correntes dos teólogos e canonistas que pretendem transformar a nobre e óssea rigidez da estrutura eclesiástica, como Nosso Senhor Jesus Cristo a instituiu e vinte séculos de vida religiosa a moldaram magnificamente, em um tecido cartilaginoso, elástico e amorfo(…), de grupos religiosos nos quais a firme autoridade canônica está sendo gradualmente substituída pela ascendência de “profetas” mais ou menos pentecostalistas, eles próprios congêneres dos feiticeiros do estruturalismo-tribalismo”20

O que em 1992 podia parecer exagerado a um leitor superficial, os processos sinodais hodiernos estão claramente pondo em prática. O Instrumentum Laboris do Sínodo para a Amazônia de 2019, por exemplo, reconheceu o impacto da concepção tribal dos povos aborígines em suas propostas de reforma estrutural da Igreja:

“A Igreja deve se encarnar nas culturas amazônicas, que têm um forte senso de comunidade, igualdade e solidariedade e, portanto, não aceitam o clericalismo em suas diversas formas de manifestação. Os povos nativos têm uma rica tradição de organização social onde a autoridade é rotativa e com um profundo senso de serviço. A partir desta experiência de organização, seria oportuno reconsiderar a ideia de que o exercício da jurisdição (poder de governo) deve estar vinculado em todas as áreas (sacramental, judicial, administrativa) e de forma permanente ao sacramento da ordem”21.

A chave para essa autodemolição está na negação do sacerdócio hierárquico. Trata-se desuperar uma visão da Igreja construída em torno do ministério ordenado, a fim de avançar em direção a uma Igreja “ministerial integral”22.

Em termos mais claros: na “Igreja sinodal”, de pouco ou nada valerá o sacramento da Ordem e a sagração episcopal!

Disse com clareza o conhecido canonista Fr. Gerald E. Murray, “esta inovação deve ser resistida pelos bispos da Igreja. Ela entra em conflito com os ensinamentos dogmáticos da Igreja sobre a natureza do sacramento da Ordem, em particular sobre a natureza do episcopado.”23

Em 22 de abril de 1994, S. S. João Paulo II advertiu os cardeais e bispos participantes de reunião promovida pela Congregação para o Clero:

“Junto com o bom trigo, porém, cresceu, às vezes, o centeio de uma certa ideologia, tributária de uma visão de sinodalidade perpétua da Igreja e de uma concepção funcionalista da Ordem Sagrada, em sério prejuízo da identidade teológica tanto de leigos como de clérigos e, consequentemente, de toda a obra de evangelização”24.

Por sua vez, em 1997, a Instrução sobre Certas Questões relativas à Colaboração dos Leigos Fiéis no Ministério Sagrado dos Sacerdotes25, assinada pelos cardeais responsáveis por nada menos que oito dicastérios romanos e especificamente aprovada pelo Papa, após reiterar o ensinamento tradicional da Igreja sobre a diferença essencial entre o sacerdócio ministerial dos clérigos e o sacerdócio comum dos fiéis, extraiu a consequência de que “as funções do ministério ordenado, consideradas um todo, constituem, em razão de seu fundamento único, uma unidade indivisível”. E acrescentou outra razão teológica de suprema importância: “Uma e única, de fato, como em Cristo, é a raiz da ação salvífica, significada e realizada pelo ministro no desempenho das funções de ensinar, santificar e governar os fiéis. Esta unidade qualifica essencialmente o exercício das funções do ministério sagrado, sendo sempre um exercício, de várias maneiras, da função de Cristo, Cabeça da Igreja”.

O Cardeal Joseph Zen declarou recentemente ao diário Il Giornale: “Estamos muito preocupados com o que pode acontecer com o Sínodo dos Bispos. E receio que o Sínodo repita o mesmo erro que a Igreja holandesa 50 anos atrás, quando os bispos recuaram e aceitaram que os fiéis deveriam liderar a Igreja; então o número deles diminuiu. Rezemos para que nosso Papa tenha mais sabedoria”. 26

Legendas desta página:

– Indígena mapuche pratica rito ancestral segurando o rosto do Papa Francisco.
– Índios, junto com o Papa, fazem cerimônia simbólica plantando uma árvore nos jardins do Vaticano.
O Papa vestindo cocar indígena durante encontro com líderes locais no Canadá.
Página seguinte