o de um sangue mais nobre e mais puro. O Vencedor iria triunfar por uma aparente derrota, reinar pela morte, obter sua glória na ignomínia do suplício. Quis que sobre o seu berço se abatesse uma terrível tempestade, e que ao sangue de sua circuncisão se acrescentasse o sangue dos seus primeiros mártires.
Os Santos Inocentes receberam o batismo de sangue
Isso trouxe também para o mundo uma grande lição, pois desde os primórdios da vida do Filho de Deus a vida da Igreja desenvolveria ao longo dos séculos o mistério da força na fraqueza, do triunfo na derrota, da ressurreição na morte. Durante toda a vida da Igreja na Terra, o massacre dos Santos Inocentes não cessaria jamais. Sempre inocente, sempre massacrada, a Igreja sairá sempre triunfante dos Herodes que fazem jorrar o sangue de seus filhos mais puros, que Ela engendra para a eternidade.
Por isso a Igreja celebra a festa dos Santos Inocentes, fazendo lembrar aqueles que, sem querer nem saber, deram sua vida ‘por’ Jesus Cristo. É verdade que não se encontram neles as características dos mártires: não assumiram a causa de Jesus, não viveram para dilatar o seu Reino e não deram a vida por Ele, nem foram mortos por sua fidelidade ou pelo testemunho de suas vidas. Entretanto, na missa celebrada em sua memória, os paramentos do sacerdote não têm o branco dos inocentes, mas o vermelho dos mártires. Porque os Santos Inocentes, mesmo não tendo morrido ‘pela’ causa de Nosso Senhor, morreram ‘no lugar’ do Menino Jesus, invejosamente procurado por Herodes. Pode-se, portanto, falar de um martírio de substituição.
A morte dos Inocentes nos lembra finalmente que, além do Batismo de água e o de desejo, há o mais puro dos batismos, que é o de sangue. Essas crianças não podiam salvar-se sem o Batismo; mas receberam o de sangue, por meio do qual foram limpas do pecado original e unidas ao Corpo de Cristo. Lavados com o próprio sangue, no lugar da água, essas crianças receberam uma participação não sacramental na morte salvadora de Cristo Senhor, e assim participam agora de sua glória. O Batismo que receberam é o mais excelente, maior até do que o Batismo sacramental com água.
O sacramento do Batismo deriva seu poder do Espírito Santo e da Paixão de Jesus Cristo. Embora o efeito dependa da causa, a causa ultrapassa em muito o efeito, e não depende dele (São Tomás, Summa III, q.66, a.11). Portanto, sem o batismo sacramental da água um homem pode receber o efeito sacramental da Paixão de Cristo, na medida em que ele é conformado a Cristo por meio do sofrimento por Ele (este é o Batismo de sangue). Da mesma forma, outros homens recebem o efeito do batismo pelo poder do Espírito Santo, sem água e sem sangue, mas porque seu coração é movido pelo Espírito Santo para crer e amar a Deus e se arrepender de seus pecados (este é o Batismo de desejo).
O triunfo antes de viver e a vitória sem ter de lutar
São Pedro Crisólogo faz uma bela meditação que fornece ainda outros elementos que respondem à pergunta da criança que interpelou nossa missivista:
“Até onde leva o ciúme? O crime hoje cometido mostra-nos que o medo de um rival por seu reino terreno enche Herodes de angústia; trama acabar com ‘o Rei dos judeus que acaba de nascer’ (Mt 2, 2), o Rei Eterno; ele luta contra o seu Criador e mata inocentes. Essas crianças, que falta cometeram? Suas línguas estavam caladas, seus olhos nada viram, seus ouvidos nada ouviram, suas mãos nada fizeram. Receberam a morte, eles que não conheceram a vida.
“Por que Cristo, que lê o futuro e conhece os segredos dos corações – Ele que julga os pensamentos e perscruta as intenções (Sl 138) – abandonou aqueles que, como Ele sabia, deveriam ser perseguidos por sua causa e trucidados por seu nome? O Rei do Céu que acabara de nascer, por que negligenciou esses companheiros de sua inocência, desprezou esse exército de soldados da sua idade, esqueceu as sentinelas postadas ao redor de seu berço, de tal maneira que, quando o inimigo quis atingir o único Rei, devastou toda a sua coorte?
“Cristo não abandonou os seus soldados, mas os honrou dando-lhes o triunfo antes de viver e a vitória sem ter de lutar. Ele queria que eles possuíssem o Céu de preferência à Terra, enviou-os antes d’Ele como mensageiros. Não os abandonou: Ele salvou a sua vanguarda, não se esqueceu dela.
“Bem-aventurados os que nasceram para o martírio e não para o mundo! Bem-aventurados os que trocaram o trabalho pelo descanso, as dores pela consolação, os sofrimentos pela alegria! Eles vivem, sim, vivem a vida real aqueles que sofreram a morte por Cristo. Felizes são as mães que deram à luz e alimentaram com seu leite essas crianças, felizes as lágrimas que derramaram por elas e que lhes valeram a graça do Batismo. Mães e filhos foram batizados por um dom único – elas nas suas lágrimas, eles no seu sangue. As mães sofreram o martírio dos filhos: a espada que trespassou os corpos dos pequeninos atingiu o coração das mães; e se elas foram associadas à sua paixão, é justo que também compartilhem a recompensa.
“Entenda bem quem ouve: o martírio não depende do mérito, é concedido pela graça. Nessas criancinhas, onde estava a vontade, onde estava a escolha, quando nelas a natureza humana era, por assim dizer, prisioneira? O martírio é uma dádiva de Deus, nada deve aos nossos esforços. Entregar seu corpo, desprezar sua carne, suportar torturas, tomar posse da glória pelo sofrimento, da vida pela morte, isso não pertence à força humana, é uma graça de Deus.
“Aquele que se dignou a descansar em nosso estábulo, que nos leve também às pastagens do Céu” (Sermão 152, PL 52, 604).