Padre David Francisquini
Pergunta — Recentemente contei para um grupo de crianças, que preparo para a Primeira Comunhão, a fuga da Sagrada Família para o Egito depois do sonho de São José. Quando cheguei à passagem em que Herodes mandou matar todos os meninos de até dois anos, uma das crianças perguntou-me por que Deus, para salvar Jesus, permitiu a morte de muitos. Não teria sido melhor que todos fossem salvos, em vez de morrerem nas mãos de Herodes?
Resposta — Compreendo que a leitora faça a pergunta, pois muitas crianças levantam questões simples que os adultos não costumam colocar, por vezes deixando-nos desconcertados.
Para situar o problema, lembro que a Igreja celebra no dia 28 de dezembro a festa dos Santos Inocentes, vítimas da crueldade de Herodes, que ficou enraivecido pelo fato de o Menino Jesus ter-lhe escapado das mãos, pois via nele um rival do trono e queria matá-Lo.
Os ateus do século XIX contestavam a historicidade do fato, alegando que nenhum cronista da época trata do massacre relatado por São Mateus. Para esses incréus, seria paradoxal não haver outras fontes históricas para uma carnificina que o próprio Santo Agostinho descreve em termos patéticos:
“As mães arrancavam os cabelos. Queriam esconder seus filhos pequenos, mas essas débeis criaturas se traíam, pois não sabiam calar-se, não tendo aprendido a temer. Foi uma luta entre a mãe e o algoz; um agarrava sua presa com violência, a outra o segurava com esforço. A mãe dizia ao carrasco: ‘Eu, entregar o meu filho a você? Minhas entranhas lhe deram vida, e você quer esmagá-lo contra a terra?’. Outra mãe gritava: ‘Cruel, se há um culpado, sou eu! Poupe meu filho ou me mate com ele!’. Uma voz foi ouvida: ‘A quem procuras? Tu matas uma multidão de crianças para livrar-te de uma só, e Aquele que você procura escapa de ti!’. Enquanto os gritos das mulheres formavam um barulho confuso, o sacrifício das crianças era aceito no Céu”.
Os Padres da Igreja, de fato, imaginavam que centenas, senão milhares de crianças tinham sido assassinadas na ocasião. Na liturgia bizantina os Santos Inocentes seriam 14 mil, outras fontes elevam o número. Os exegetas modernos — baseando-se em estudos demográficos sobre a Palestina dos tempos de Nosso Senhor — calculam que, sendo Belém uma pequena cidade, o número das vítimas oscilaria entre 6 e 20 na aldeia, e mais uma dúzia no resto da comarca.
Assim sendo, do ponto de vista humano, o fato não teria a proporção que justificasse sua inclusão nas crônicas da época. De qualquer maneira, tal ato de crueldade corresponde perfeitamente ao caráter paranoico e cruel de Herodes. O historiador judeu Flávio Josefo conta que Herodes mandava executar imediatamente qualquer pessoa que parecesse ameaçar seu reinado, até mesmo sua mulher e filhos. O próprio César Augusto declarou que era mais seguro ser o porco de Herodes (uma vez que os judeus não comem carne suína) do que um dos filhos!
Sobre esses estudiosos da Antiguidade, afoitos para encontrar erros nos Livros Sagrados, Leão XIII comenta que eles “confiam nos livros profanos e documentos do passado, como se não pudesse haver em relação a eles a suspeita de erro; mas negam aos livros da Escritura uma fé pelo menos igual a esta, ante a menor aparência de inexatidão, e isso sem sequer se deterem para discutir” (Enc. Providentissimus Deus, nº 44).
Sem efusão de sangue não há perdão
Mesmo que o número das vítimas da crueldade de Herodes seja menor do que imagina a maioria das pessoas, fica de pé a pergunta da criança de catecismo: por que Deus permitiu que eles morressem para o Menino Jesus poder escapar?
A vida de Nosso Senhor é cheia de mistérios; no entanto eles nos permitem fazer hipóteses que deixem entrever os desígnios admiráveis da Sabedoria divina, e que também alimentem nossa piedade.
Uma primeira consideração é que o começo da vida de Jesus Cristo evoca a de Moisés. Ele foi resgatado das águas pela filha do Faraó, que havia ordenado o massacre de todos os judeus que viessem à luz. Dessa maneira, o papel redentor de Nosso Senhor foi prefigurado pela vocação de Moisés, que era a de libertar os judeus da opressão egípcia, e ficou inserida na história do povo eleito. Por isso São Mateus, logo após relatar o massacre dos Inocentes, acrescenta: “Cumpriu-se, então, o que foi dito pelo profeta Jeremias: Em Ramá se ouviu uma voz, choro e grandes lamentos: é Raquel a chorar seus filhos; não quer consolação, porque eles já não existem” (Mt 2, 17-18).
Outro aspecto a ser considerado está descrito na Epístola de São Paulo aos Hebreus, a respeito da Antiga Aliança de Deus com seu povo, e da Nova Aliança ou testamento selado por Jesus Cristo: “Um testamento só entra em vigor depois da morte do testador. Permanece sem efeito enquanto ele vive. Por essa razão, nem mesmo o primeiro testamento foi inaugurado sem uma efusão de sangue. Aliás, conforme a Lei, o sangue é utilizado para quase todas as purificações, e sem efusão de sangue não há perdão” (Heb 9, 22).
A imolação do Verbo Encarnado na Cruz devia fazer-se preceder também pela efusão do sangue dos pombos, que foram sacrificados na sua Apresentação no Templo, e ainda pela efusão