Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 841 | página 14-15
| AUTODEMOLIÇÃO DA IGREJA |(continuação)

Podia-se imaginar recusa pior?

Na Bélgica, o ministro da Saúde Frank Vandenbroucke recusou-se a moderar as proibições dos encontros familiares durante as festividades de Natal. As pessoas sozinhas, em geral idosas, só podiam receber no máximo dois contatos próximos.

Nessa avalanche de atos contra os festejos do Natal em 2020, só nos é possível coletar, para o espaço destinado a este artigo, alguns poucos dentre os numerosos exemplos.

Na Bélgica, o ministro da Saúde Frank Vandenbroucke recusou-se a moderar as proibições dos encontros familiares durante as festividades de Natal. As pessoas sozinhas, em geral idosas, só podiam receber no máximo dois contatos próximos. Nas lojas, os clientes só poderiam permanecer durante 30 minutos; restaurantes e locais de festa foram proibidos. Cada lar só podia convidar uma pessoa. A polícia podia intervir nas casas, caso ouvisse ruídos festivos; as fronteiras dos países vizinhos foram fechadas. O primeiro ministro chamou a isso de ‘festejar um Natal mais íntimo’, mas o jornal Le Figaro definiu muito objetivamente tal atitude como ‘toque de recolher’, que só é praticado na guerra ou por ditaduras militares como as marxistas. Deram como pretexto para isso as medidas antipandemia; porém, muito significativamente, foram autorizados os museus e as piscinas...3

No mundo atual, com sua odiosa e escancarada autodemolição, não espanta que os bispos belgas tenham acatado tais proibições. Sem negar que elas coarctavam a prática religiosa, sugeriram trocar as missas por cerimônias online (aliás, intrinsecamente inválidas); vetaram os batismos; e imploraram ao governo, como exceção, que os fiéis pudessem visitar os presépios, a título particular. O culto público está impedido até o dia 15 de janeiro. Canonistas julgaram ilegais as normas episcopais, definidas por Dom Athanasius Schneider como próprias de falsos pastores. Em sentido análogo se pronunciaram alguns cardeais e bispos — honrosas, porém isoladas exceções.

Na França — filha primogênita da Igreja — o presidente Macron ordenou o toque de recolher entre as 21 horas e 7 da manhã, suscetível de ser suspenso nas noites dos dias 24 e 31 de dezembro. O primeiro ministro Jean Castex sublinhou que “isso não quer dizer que poderemos comemorar o Natal e o Ano Novo como nos anos precedentes”. Atestados foram exigidos para qualquer movimentação, salvo raras exceções. Foram proibidas até o dia 20 de janeiro as festas tradicionais ou não, em locais públicos, restaurantes e outros locais de alimentação. Desaconselharam albergar membros da família, quando numerosos, e recomendaram limitar os parentes à mesa. De início, só 30 pessoas poderiam assistir simultaneamente a uma missa ou cerimônia. Até a progressista Conferência Episcopal julgou a limitação irrealista e inaplicável; e o Conselho de Estado — a mais alta jurisdição administrativa francesa — ordenou ao presidente suprimi-la. Em Lourdes, onde curas milagrosas reconhecidas pela ciência se contam aos milhares, até o juiz administrativo local julgou inadaptadas e injustificáveis as interdições. Houve em toda a França numerosos protestos diante das igrejas.4

Na Alemanha esse criminoso processo anda muito avançado, e os estados de Baviera, Saxônia e Berlim fecharam as lojas no período natalino, exatamente quando se compram os presentes para alegrar a data. Os demais estados imitaram em graus diversos, enquanto a Chanceler Angela Merkel confessou em lágrimas que poderiam ser os últimos Natais com nossos avós. Só foram toleradas reuniões familiares de até cinco pessoas, fato que o prefeito socialista de Berlim celebrou. O primeiro ministro bávaro fechou lojas, escolas e creches, além de recusar uma suavização dos bloqueios às festas familiares.5 O Reino Unido proibiu de vez as reuniões de família no Ano Novo.

Exceções que não compensam as proibições

Uma exceção proveio de um país composto por maioria de protestantes e uma quarta parte de católicos. Nos Estados Unidos, a Casa Branca comemorou brilhantemente o Natal, desafiando assim a onda anticristã da mídia e dando um bom exemplo ao público com o encorajamento das festas natalinas. Também nos EUA, em Salem, capital de Oregon, rumoroso protesto popular clamou ‘Queremos Deus’. O bispo limitou o comparecimento às missas a 25% da capacidade da igreja, como se fosse reação suficiente!

Proibições que não são exceções

Como era previsível, por corresponder ao que se sabe e se espera, repetiram-se também na China as proibições. Naquele diabólico reino igualitário, o Partido Comunista proibiu celebrar o Natal, considerado como ópio espiritual; interditou as ceias e cerimônias; ameaçou com punições; mandou que isso fosse substituído pelo estudo da doutrina do Partido. Na grande província de Gansu as árvores de Natal foram removidas até das páginas online, e na Universidade de Shenyang foi proibido até o canto do Stille Nacht.

Merece punição um mundo que recusa o Salvador

A onda universal de dolorosas recusas à comemoração do Natalício de nosso Redentor indica que os flagelos anunciados por Nossa Senhora em Fátima, La Salette e em tantas outras ocasiões podem ter começado a se abater sobre a humanidade, e de momento adquirem a forma de uma pandemia.

Ante o abismo de impiedade que se agigantava, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira costumava implorar a vinda do reino de Cristo por meio de Maria; pois o Menino Jesus veio em Belém por meio da Virgem das virgens, enquanto a Jerusalém orgulhosa recusava seu Salvador. A nossa profissão de Fé por meio do Credo, associada à profissão de nossa confiança em Nossa Senhora, por meio da Salve Rainha, devem ser nosso canal de comunicação com o Céu, para reparar com vigorosa resistência católica as ofensas e ingratidões perpetradas no Natal. Assim rumaremos à era grandiosa em que o mundo inteiro, como esperamos, celebrará o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, com toda a devoção e todo o esplendor que Lhe são devidos.

Há dor maior que essa recusa?

Um motete que outrora se cantava na Semana Santa parece feito para o Natal de 2020: “Ó vós que andais pelo caminho, parai e vede se há uma dor semelhante à minha dor”. Isaías profetizou com essas palavras a crucifixão de Jesus no Calvário, tendo Sua Mãe a seus pés compartilhando as dores da Redenção. Poder-se-ia aplicar à Sagrada Família, em 2020, essas mesmas palavras: Parai, e vede se há dor igual.

Assim rumaremos à era grandiosa em que o mundo inteiro, como esperamos, celebrará o Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo, com toda a devoção e todo o esplendor que Lhe são devidos.

Notas: 1. Apontamentos de 24-12-65, sem revisão do autor. 2. La mia vita nel Cuore della Trinità — Diario della Beata Elisabetta Canori Mora, sposa e madre, Libreria Editrice Vaticana, 1996, p. 158-160. 3. https://www.lefigaro.fr/international/covid-19-en-belgique-noel-sera-plus-intime-20201128 4. https://www.lepoint.fr/societe/le-conseil-d-etat-rejette-la-limitation-de-30-personnes-pour-les-ceremonies-religieuses-29-11-2020-2403172_23.php 5. https://www.elmundo.es/internacional/2020/12/10/5fd26dc3fc6c8357608b4673.html Página seguinte