Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 841 | página 12-13
| AUTODEMOLIÇÃO DA IGREJA |(continuação)

No Natal de 2020, a data certamente foi comemorada pela Corte Celeste diante do Santo Presépio, cujas relíquias podem ser veneradas na Basílica de Santa Maria Maggiore, em Roma. Porém devemos preparar-nos para uma dolorosa realidade, se procurarmos saber quantos fiéis ainda vivos nesta Terra acompanharam os festejos da Corte Celeste na Basílica; nas centenas de igrejas romanas; na própria Basílica de São Pedro; e também nos incontáveis templos católicos em todos os países.

Uma realidade histórica se repete

Em Belém, há mais de dois mil anos, o próprio Deus veio a nós como um Menino, Príncipe da Paz e Redentor da humanidade. Ele veio também para revelar as cogitações de muitos corações, conforme prenunciou o profeta Simeão: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 34-35).

Assim foi desde o primeiro instante da existência do Menino Jesus. Em Belém ninguém se interessou pela humildade, nobreza e virtude de Nossa Senhora e São José, num momento em que estava próximo o aguardado nascimento do nosso Divino Salvador. Numa noite gélida na Terra Santa, a Sagrada Família foi recusada com uma frieza quase criminosa. Só lhe restaram uma gruta e um estábulo com alguns animais.

Ao longe se divisava Jerusalém, a cidade orgulhosa e sensual. Lá os chefes qualificados do povo hebraico diziam aguardar o Messias prometido. Mas todos estavam longe do presépio, e essa contradição coincidia com os pensamentos de seus corações. Foi o que profetizou Isaías: “O boi conhece o seu proprietário, e o asno o estábulo do seu dono; mas Israel não conhece nada, e meu povo não tem entendimento. Ai da nação pecadora, do povo carregado de crimes, da raça de malfeitores, dos filhos desnaturados! Abandonaram o Senhor, desprezaram o Santo de Israel, e lhe voltaram as costas” (Isaías, 1, 4).

No Templo de Salomão, o Sumo Sacerdote e seus auxiliares foram insensíveis ao acontecimento registrado nas estrelas do céu, discernido com segurança por três reis remotos. Com propriedade, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira ponderou “ser arquitetônico que o Menino Jesus devesse nascer num palácio como o de Herodes, ou em alguma dependência do Templo. O rei deveria ter-lhe cedido seu palácio; e tão logo nascido, deveria ter sido levado ao Templo para adoração de todo o povo de Israel. Nada disso aconteceu. Ele nasceu numa manjedoura, porque fora recusado. Mas Jesus é o centro de tudo. Recusado, Ele recusa; recusando, Ele julga; julgando, Ele divide os homens entre bons e maus. Aos pés do cândido presépio faiscou essa tremenda verdade bíblica”.1

No mundo cristão, o que aconteceu?

Do mesmo modo como em Belém, patenteou-se em todo o mundo, neste último Natal, a desolação, o vazio e a recusa com que havia sido repelida a Sagrada Família, quando necessitava de hospedagem na cidade de seu antepassado, o rei Davi. No Natal de 2020, o drama de Belém se repetiu no mundo inteiro.

Em 2020, inúmeros templos e lares ficaram interditados de dar as boas-vindas ao Menino Jesus. O Vaticano fechou as portas da Basílica de São Pedro e preencheu as formalidades com uma cerimônia simples, escudando-se para isso na pandemia que se abate sobre o mundo como um látego de Deus. Em dezembro, o presépio da Praça de São Pedro foi montado com figuras que horrorizaram os fiéis [foto]. Muitos disseram que as imagens ‘parecem marcianos’, e para outros evocavam ‘os cultos satânicos condenados na Bíblia’. As crianças, sempre atraídas pelas belas figuras tradicionais do presépio, ficaram espantadas com o horror das estátuas. Foi mais uma afronta à Sagrada Família.

Tal simulacro de acolhida evoca a espantosa visão da Beata Isabel Canori Mora no Natal de 1813, já publicada em Catolicismo. Ela teve uma visão de um local inundado de luz, onde inúmeros santos rodeavam um presépio do qual o Menino Jesus docemente a chamava. Descreveu a cena ao seu confessor: “Só de pensar, me causa horror. [...] Vi o meu amado Jesus recém-nascido banhado no próprio sangue [...], nesse momento compreendi por via intelectual qual era a razão. [...] A má conduta de muitos sacerdotes seculares e regulares, de muitas religiosas que não agem segundo o seu estado, a má educação que é dada aos filhos por parte dos pais e mães, como também por aqueles a quem incumbe uma obrigação similar. Estas pessoas, [...] tão logo [o espírito de Nosso Senhor] nasce no coração das crianças, fazem-lhe uma perseguição mortal com sua má conduta e maus ensinamentos”.2

Cessados ou reduzidos à mínima expressão os atos de culto ao Menino Jesus e à sua misericordiosa vinda à Terra, os católicos se escandalizam na consideração da dor e das injúrias a Ele causadas na festa do Natal, que deveria ser toda de alegria.

Um órgão executivo máximo da União Europeia impôs severas restrições às cerimônias de Natal e proibiu os cânticos corais, atribuindo à Missa o caráter de ‘danoso superpropagador’ do vírus para a sociedade. Recomendou que os fiéis assistissem emissões online, TV ou rádio. A ingerência laica no Santo Sacrifício da Missa tornou-se mais odiosa ainda, pois impediu a comunhão eucarística. Com tal imposição de um punhado de tecnocratas da União Europeia, foram silenciadas as vozes de 300 milhões de europeus. Foram impedidos de cantar unidos, afogando assim os restos de piedade ainda crepitantes em suas almas.

Numa noite gélida na Terra Santa, a Sagrada Família foi recusada com uma frieza quase criminosa. Só lhe restaram uma gruta e um estábulo com alguns animais.

A Igreja fundada por Jesus Cristo tem sido traída, renegada, humilhada, pelo abandono do Filho de Deus. Essa generalizada não-celebração do Natal de 2020 deve incitar-nos a uma proporcionada reparação e pedido de perdão, acompanhada de um ato de amor que repare essa escandalosa proibição.

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