Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 832 | página 42-43

| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

des, tendo ele que viver na casa do vigário de Tarring, de onde visitava a pé sua diocese. Intransigente com os usurários e com o clero corrupto, vivia com muita frugalidade e temperança, gostava de cultivar figos nos tempos livres, usava cilício e excluía a carne de sua dieta, comendo apenas legumes.

O rei Henrique III exilou São Ricardo e confiscou as propriedades do bispado.

O Papa Inocêncio IV confirma São Ricardo como bispo da Sé de Chichester, apesar da recusa de Henrique III.

Reforma do clero

De volta à sua diocese, São Ricardo empregou seus últimos oito anos de vida na reforma do clero, e para sanar males nele recorrentes codificou, com o auxílio de seu Capítulo, um corpo de estatutos para a organização da Igreja em nível diocesano. Como aqueles eram tempos que ainda conservavam restos de barbárie, os estatutos desciam a detalhes que hoje pareceriam supérfluos, mas com o tempo os mesmos foram incorporados às normas da Igreja.

A vida mundana de muitos clérigos levava diversos sacerdotes a contrair matrimônio secretamente, apesar dessa sacrílega aliança ser vedada pelo Direito Canônico e tais mulheres consideradas concubinas pela Igreja. São Ricardo decretou que o clero casado deveria ser privado de seus benefícios, e suas concubinas perderiam os privilégios da Igreja, tanto em vida como após a morte. Eram declaradas incapazes de herdar qualquer propriedade de seus maridos, e seus legados deveriam ser doados para a manutenção da catedral. Para evitar essa situação, os candidatos ao sacerdócio deveriam fazer voto de castidade e viver de acordo com ele. Estabeleceu também que, para sanar abusos, os vigários deveriam ser sacerdotes, possuir apenas uma propriedade para viver, não lhes sendo permitido ter outra paróquia sob um nome falso. Por não serem sacerdotes, os diáconos eram proibidos de ouvir confissões, indicar penitências ou batizar, sendo que neste último caso poderiam fazê-lo na ausência de um sacerdote.

Para maior decoro da liturgia, os sacerdotes deveriam celebrar a Missa com as vestes impecáveis e usar um cálice de prata ou de ouro, “completamente limpo”. Sobre o altar deveriam ser colocadas pelo menos duas palas consagradas para cobrir o cálice durante o Sacrifício, e uma cruz diante do celebrante. Para a Consagração, o pão deveria ser da mais pura farinha de trigo, embora o vinho pudesse ser misturado com água. Entretanto, esses elementos não deveriam ser guardados por mais de sete dias. Quando a hóstia consagrada era levada a um doente, devia ser encerrada em uma píxide ou estojo, e o padre ser precedido por uma cruz, vela, água benta e sineta.

Os arquidiáconos, para administrar a justiça, deviam contentar-se com seus honorários apropriados, não exigindo mais para apressar ou retardar uma causa. Deviam visitar regularmente as igrejas, para conferir se os serviços divinos estavam sendo devidamente ministrados, se os vasos sagrados e as vestimentas estavam em ordem, se o cânon da Missa era corretamente observado e distintamente lido, assim como as “horas” canônicas. Deviam ser suspensos os sacerdotes que, por pressa, suprimissem ou arrastassem as palavras.

O clérigos deviam usar o traje apropriado e não imitar o costume dos leigos. Não lhes era permitido usar o cabelo comprido ou adornos mundanos. Os nomes das pessoas excomungadas deviam ser lidos quatro vezes por ano nas igrejas paroquiais.

Encerrando uma vida de combates

Os reis ingleses tinham uma tendência absolutista, que mais tarde desfecharia no cisma de Henrique VIII, e São Ricardo, por ser muito cioso dos direitos da Igreja, teve muitos atritos com seu soberano. Entre outros, aquele em que desconsiderou a petição real em favor de um padre que ele reduzira ao estado leigo por ter seduzido uma mulher. Em outra ocasião, os habitantes da cidade de Lewes arrebataram um criminoso que havia se refugiado em uma igreja e o lincharam até a morte, violando assim o direito de asilo no santuário. São Ricardo os obrigou a exumar o corpo e dar-lhe enterro apropriado em solo consagrado. Costumava também impor severa penitência aos cavaleiros que atacavam sacerdotes.

Tendo recebido do Papa a missão de pregar a Sétima Cruzada (1248-1254), São Ricardo foi antes a Denver, a fim de dedicar uma capela a Santo Edmundo. Hospedou-se na MaisonDieu, uma casa para sacerdotes pobres, e aí faleceu à meia-noite do dia 3 de abril de 1253, com apenas 56 anos. Seus órgãos internos foram removidos e colocados no altar da capela.

De acordo com seus últimos desejos, o corpo de São Ricardo foi levado para Chichester e enterrado na capela ao norte da nave, dedicada a seu protetor Santo Edmundo. Mais tarde, em 1276, seus restos mortais foram trasladados para um novo mausoléu na mesma catedral. Foi canonizado pelo Papa Urbano IV em Viterbo, em 1262, apenas nove anos depois de sua morte.

O mausoléu com seus restos mortais na catedral de Chichester atraía muitos peregrinos, pois sua popularidade se aproximava à de São Thomas Becket em Cantuária. Em 1538, por ocasião do cisma na Inglaterra, o relicário do santo foi destruído pelo chanceler Thomas Cromwell (1485-1540), por ordem do herético Henrique VIII. Segundo persistente tradição, durante esse ato sacrílego alguém associado à paróquia de West Wittering, em Sussex (possivelmente William Ernley), valendo-se de sua posição de comissário real para supervisionar a execução do ato, teria antes tirado as relíquias do santo e escondido em sua própria igreja paroquial, salvando-as assim da destruição. 

Fontes utilizadas:

– G. Roger Hudleston, St. Richard of Wyche, The Catholic Encyclopedia, CD Rom edition.

– https://www.catholic.org/saints/saint.php?saint_id=316

– https://en.wikipedia.org/wiki/Ricardo_of_Chichester

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