“O Legionário era um órgão muito adequado, por sua influência sobre o movimento mariano — principal força integrante do movimento católico daquele tempo — para conduzir uma luta”
(continuação)
passava a ter uma tonalidade muito menos categórica. Pelo regime vigente desde 1891, o ensino era leigo, a Constituição não era promulgada em nome de Deus, não havia capelanias nos hospitais nem nos quartéis, e a colaboração entre a Igreja e o Estado se cifrava, de modo geral, a alguns pontos limitados e quase irrelevantes.
Pelo contrário, a Constituição de 1934 foi promulgada em nome de Deus, estabeleceu o ensino religioso nas escolas, as capelanias nas Forças Armadas, nos estabelecimentos penitenciários, nos hospitais do Estado etc.; e sobretudo consagrou como dispositivo constitucional a indissolubilidade do vínculo conjugal, admitindo também efeitos civis para o casamento religioso.
Isso tudo, para quem havia sido formado na escola de rígido laicismo do regime de 1891, representava uma influência muito grande da Igreja. Influência decorrente da vitória obtida pela Liga Eleitoral Católica nas eleições para a Constituinte de 1934.
Nessas condições, o Legionário era um órgão muito adequado, por sua influência sobre o movimento mariano — principal força integrante do movimento católico daquele tempo — para conduzir uma luta com a intenção de ampliar o mais possível, em nossas leis e nossos costumes, a influência benéfica da Santa Igreja Católica no Brasil; e acabar com os restos de laicismo, que ainda existiam em nossa legislação.
Porém, no final de 1947, quando o Legionário saiu de nossas mãos, encontrávamo-nos na orla de um período de tempestade interna nos meios católicos, tempestade essa que não veio senão crescendo até o inimaginável em nossos dias. E a quase totalidade das pessoas de então não tinha ideia das terríveis consequências a que nos arrastaria aquele mal incipiente.
Assim, por exemplo, a série de atitudes de franca revolta que os padres da esquerda católica tomaram contra o Arcebispo de Recife, D. José Cardoso Sobrinho, repercutiria naquela época como um escândalo incrível e impensável em todo o Brasil católico. A divisão dos católicos parecia uma situação mórbida, e o é realmente. Hoje ela está se tornando um espetáculo tristemente banal dentro da vida cotidiana...
Posto ante o início de penetração progressista no Brasil, nos anos 40, o Legionário lutou rudemente, e Catolicismo pretendia lutar ainda mais. E é o que vem fazendo com exemplar fidelidade e dedicação.
De outro lado, o Legionário fora um campeão do anticomunismo nos meios católicos, o que teve sua continuidade em Catolicismo.
“Metas têm sido objetivadas por Catolicismo através de uma pregação escrita, sistemática, metódica, inteligente, de verdadeira eficácia, contra o que representa hoje o pior inimigo”
Catolicismo — Tais metas vêm sendo atingidas pela revista ao longo de sua existência? De que forma?
Plinio Corrêa de Oliveira — Antes de tudo, essas metas têm sido objetivadas por Catolicismo através de uma pregação escrita, sistemática, metódica, inteligente, de verdadeira eficácia, contra o que representa hoje o pior inimigo. Ou seja, não só o comunismo e o socialismo expressamente tais, mas as formas mais ou menos veladas do que eu chamaria “comunismo-católico” e “socialismo-católico”.
De outro lado, também contra o progressismo a revista tem conseguido grandes resultados, pelo próprio fato de sua divulgação e pelo valor da matéria que nesse sentido tem publicado.
Logo que Catolicismo começou a circular — parece-me sobretudo importante realçar — agrupou em torno de si simpatias em vários estados da Federação nacional, e a partir delas formaram-se grupos de rapazes entusiastas da revista, que compareciam às anuais Semanas de Estudos por nós promovidas.
Essas Semanas de Estudos atingiram seu auge no Congresso de Serra Negra (1961), que na época representou um grande sucesso, tendo a ele comparecido cerca de 400 pessoas. As Semanas de Estudos, nesse sentido, morreram por excesso de crescimento. Quer dizer, pareceu-nos menos eficaz congregar grande número de pessoas — o que acarretava, inclusive, uma despesa muito considerável — do que reunir pequenos grupos ao longo do ano, para manterem contatos e trocarem pontos de vista com os dirigentes de Catolicismo.
Foi a concatenação de todos esses grupos que possibilitou a formação da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade, a tão celebrada e tão odiada TFP, hoje em dia conhecida em todos os rincões do País.
Há aqui um aspecto a salientar. Pressupõe-se geralmente, como indispensável para que uma organização prospere, e seja conhecida, que ela conte com o apoio da mídia. Ora, desde o início a mídia fechou-nos as portas. Porém, por meio da propaganda de rua — feita pelos nossos sócios e cooperadores, ostentando nossas insígnias — conseguimos uma notoriedade tal que, sem o apoio da mídia, a TFP é uma das organizações mais conhecidas no Brasil.
E não só no Brasil; ela é conhecida em muitos outros países, onde se abriram “bureaux-TFPs ou TFPs coirmãs e autônomas, que ali difundem os ideais da tradição, família e propriedade. Assim, nós temos um belo fenômeno de exportação doutrinária e ideológica feita pelo Brasil, creio que sem precedentes na História nacional.
Catolicismo — Qual o sentido do título da revista? Não será ele muito categórico para o relativismo do homem moderno, no qual a própria fé se vai evanescendo?
Plinio Corrêa de Oliveira — A pergunta é muito compreensível, mas ela joga com vários conceitos que, pelo próprio fato do relativismo imperante, já não são tão claros.
(continua)
Legenda:
I Congresso Latino-americano de Catolicismo (1961), em Serra Negra (SP). Na época representou um grande sucesso, tendo a ele comparecido cerca de 400 pessoas.