Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 796 | página 30-31

(continuação da página anterior)

Ele foi verdadeiramente batalhador e guerreiro. Sua vida foi de luta. Não só lutou contra os demônios, expulsando-os continuamente, mas combateu também contra o poder das trevas nesta Terra.

Ele foi verdadeiramente batalhador e guerreiro. Sua vida foi de luta. Não só lutou contra os demônios, expulsando-os continuamente, mas combateu também contra o poder das trevas nesta Terra, enfrentando de modo magnífico a conjuração secreta que se tramava contra Ele. Inclusive no momento em que O buscavam para prender, os soldados queriam saber quem era Jesus de Nazaré e Ele respondeu: "Ego sum" (Sou eu). Nesse momento, todos os soldados caíram por terra.

É a afirmação magnífica do guerreiro, que, simplesmente ao enunciar seu nome, derruba todos os adversários. Ele depois se entregou, declarando que se entregava porque assim o desejava. Pois se Ele quisesse, teria muitas legiões de anjos à sua disposição. Elas desceriam imediatamente e liquidariam seus adversários. Para se compor o feitio moral de Nosso Senhor, imagine-se o mais perfeito dos guerreiros de todos os tempos e ter-se-á, assim, uma pálida ideia daquilo que Ele foi.

Desde as mais altas atividades até a de trabalhador manual

Enquanto diplomata, o Divino Redentor, durante Sua vida terrena, foi perfeito. Ele tratou a conjuração do Sinédrio com uma inteligência extraordinária; ora com cuidado, se esgueirando, dizendo palavras que evitavam o confronto; ora enfrentando com argumentos de uma precisão diplomática perfeita. Quando, por exemplo, quiseram embaraçá-Lo, perguntando a respeito do dinheiro, se era lícito ou não pagar imposto a César. Ele, percebendo a malícia, disse: "Por que me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto! [Apresentaram-lhe um denário]. Perguntou Jesus: De quem é esta imagem e esta inscrição? — De César, responderam-lhe. Disse-lhes então Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". (Mt 22, 18-22).

Ele evitou assim se pronunciar sobre questão a respeito da qual não desejava se manifestar. Mas tapou a boca daqueles que estavam querendo atrapalhá-Lo.

Nosso Senhor Jesus Cristo como médico: quem foi médico como Ele? Como advogado: a bondade e a misericórdia com que Ele advogou a causa dos pecadores. O Evangelho revela que Ele soube alegar as atenuantes, soube encontrar os pontos necessários para a defesa; soube depois perdoar e conceder toda indulgência.

Ninguém advogou como Ele a causa dos réus, dos pecadores, dos pobres e de todos aqueles que precisavam de um advogado. Enquanto trabalhador manual: pode-se imaginá-Lo na oficina de Nazaré como carpinteiro, realmente trabalhador manual. O trabalhador autêntico sente-se realizado em Nosso Senhor. Ponto por ponto, em todas as atividades humanas, encontramos de algum modo atividades exercitas por Ele.

O feitio de inteligência e de espírito de Nosso Senhor era tal que acumulava ao mesmo tempo — e de modo como nunca ninguém alcançou — todas as formas e graus de inteligência correspondentes a todas as formas e graus de profissões honestas que possam existir. Acumulava tudo isso com uma perfeição difícil de imaginar, porque há habitualmente no homem uma limitação por onde as perfeições se excluem umas às outras, mas que n’Ele nenhuma se excluía.

Aquela atitude da multidão, quando Ele foi entrando pelo deserto, acompanhando-O e sem levar comida. Todos seguiam-no maravilhados. Só em determinado momento as pessoas se lembraram que tinham que se alimentar.

Todos os dons de todos os povos da Terra no Divino Salvador

Podem-se fazer considerações sobre todos os povos da Terra. Considere-se o francês com sua precisão, clareza e espírito ágil; o alemão com seu vigor, profundidade e senso do sublime; o italiano com seu dom teológico, subtileza e critério diplomático; o espanhol com a variedade de dons que possui para a arte, a literatura, a filosofia, a teologia e com o seu espírito guerreiro; os nossos caros portugueses, com todos os talentos que conhecemos e que herdamos.

Considerem povo por povo. Os árabes, os japoneses, os chineses, e chegar-se-á à seguinte conclusão: cada povo possui uns tantos dons e, porque tem tais dons, não pode ter os outros. Não é possível, por exemplo, ter a perfeição do espírito fino e leve do francês, e a perfeição do espírito vigoroso e combativo do alemão. São coisas que se excluem.

Mas em Nosso Senhor Jesus Cristo os dons não se excluem. Ele, como a cabeça da humanidade, tinha em Si todos os dons de todos os povos da Terra. Tudo se conciliando harmonicamente. Ele possuía a suprema grandeza do espírito, mas o charme francês levado a um ponto inimaginável; a força

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LEGENDA:
- O demônio tenta Nosso Senhor – Duccio Di Buoninsegna, séc. XIII. Frick Collection (Nova York).