Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 784 | página 30-31
| CAPA | (continuação)

Poullart des Places. O primeiro irá para Rouen, após ser ordenado, e ali conhecerá São João Batista de la Salle, de quem será biógrafo. O segundo, filho único de rica família, em sua curta vida será o fundador da Congregação do Espírito Santo e manterá estreitas relações com Montfort.

Com esses dois amigos e mais alguns outros condiscípulos, Luís Maria formou uma associação em honra da Santíssima Virgem.

No Colégio São Tomás Becket, só a partir do terceiro ano se podia entrar para a Congregação Mariana, estabelecida para os melhores alunos. Luís Maria foi admitido em 1688. Desta Congregação, afirma um historiador, “saiu uma multidão de jovens para se consagrar ao serviço dos altares, e os que permaneciam no mundo contribuíam para sua edificação”.14

“Zelo excessivo e indiscreto”

Decidido a ser sacerdote, Luís Maria ingressou em 1692 no seminário de São Sulpício, em Paris. Uma senhora amiga custodiou seus estudos.

Nesse seminário multiplicavam-se, por influência de seu fundador, Mons. Olier, as práticas da devoção mariana, às quais Luís Maria aderiu de corpo e alma.

Entretanto, a cruz de Nosso Senhor, tão amada por ele, o acompanhará por toda sua vida. Em São Sulpício ela não podia deixar de lhe fazer companhia, pois logo encontrou contradições. Seu condiscípulo Blain tenta descrever um paradoxo: “Reconhecia-se que ele era um santo e fazia-se o elogio ora da sua grande modéstia, ora do seu recolhimento, ora da sua humildade, muitas vezes das suas grandes mortificações e austeridades, outras vezes do seu amor pela pobreza e pelos pobres, da sua caridade e do seu zelo, e sobretudo das sua grande ternura e devoção pela Santíssima Virgem; e, o que é espantoso, duvidava-se se ele caminhava na via dos santos.” O depoente confessa humildemente: “Foi, entretanto, este mistério que me gelou relativamente ao padre Montfort, que me impediu de unir-me a ele, fazendo-me até recear o excessivo convívio na sua companhia.”15

Por isso, “com este jovem transbordante de generosidade, mas tão original, a autoridade usou meios excepcionais: contrariavam seus desejos, ridicularizavam seus modos, o confiaram — finalmente — ao diretor mais apto para reduzir ao máximo suas excentricidades mediante humilhações inverossímeis para nós. Ao cabo de seis meses, o mestre domador teve que reconhecer seu fracasso. Para os sulpicianos, Montfort continuava sendo um enigma”.16

“Não no Canadá, mas na França”

São Luís Maria foi ordenado sacerdote no dia 6 de junho de 1700, tendo-se preparado durante vários dias para a primeira Missa, celebrada numa capela da Virgem no seminário.

Citemos mais uma vez a Blain: “Creio poder afirmar que Grignion recebeu [nessa época] favores divinos. Tão semelhante aos santos pela sua vida, acredita-se facilmente que o tenha sido nas suas graças. A grande inocência unida à maior penitência, seus profundos silêncios, seu recolhimento íntimo, sua oração quase contínua e sua mortificação sem limites, tinham preparado sua alma para se aproximar do Esposo celeste, e apresentavam ao Espírito Santo um coração puro e disposto a todas as suas operações”.17

Como seu único desejo era salvar almas, o neossacerdote pediu ao Superior que o mandasse para o Canadá, então sendo colonizado. Mas não foi aceito. Pelo contrário, enviaram-no a Nantes.

“Desde o começo do sacerdócio, [o Pe. Montfort] traça o programa da sua vida: ir de paróquia em paróquia, catequizar os pequeninos, converter os pecadores, pregar o amor de Jesus, a devoção à Santíssima Virgem e reclamar, em alta voz, uma Companhia de missionários para abalar o mundo através de seu apostolado”.18

Mesa de trabalho sobre a qual o santo escreveu o Tratado da Verdadeira Devoção.

São Luís e Madame de Montespan

Um fato pouco conhecido na vida de São Luís foi sua aproximação da célebre ex-concubina de Luís XIV, Madame de Montespan (Francisca Athenais de Rochechouart de Mortemart), cujas relações ilícitas com o rei constituíram fonte de múltiplos escândalos.

Tendo caído em desgraça, a antiga favorita converteu-se sinceramente, ao que tudo indica, segundo o insuspeito memorialista Saint-Simon. Este afirma que ela “acabou por dar quase tudo o que possuía aos pobres. Trabalhava para eles muitas horas por dia em tarefas baixas e grosseiras, e obrigava a trabalhar quem a rodeava. A mesa, que ela amara em excesso, tornou-se mais frugal, os jejuns multiplicaram-se; a oração interrompia o seu convívio”.19

Outro testemunho afirma que “ela reencontrou a humildade cristã, procurou resgatar seus pecados e o escândalo do adultério por uma vida de jejum, oração e caridade. Faleceu em 1707, por ocasião de uma cura em Bourbon-l’Archambault, depois de ter feito uma confissão pública”.20

Por várias circunstâncias, Luís Maria teve que recorrer a Madame de Montespan para ajudar suas irmãs, por indicação do preceptor dos filhos dela, Pe. Girard, futuro bispo de Poitiers. Ele a visitou pela primeira vez em 1697. A marquesa ficou tão impressionada com sua virtude, que encaminhou duas irmãs do santo para a abadia de Fontevrault, da qual Madame de Rochechouart era abadessa.

Depois de ordenado, Luís Maria escreve: “Tive a honra de entabular várias conversas particulares com a senhora de Montespan”. A marquesa se interessou pelo seu futuro e lhe ofereceu um canonicato para o sustentar. “Agradeci-lhe humildemente, alegando que jamais queria mudar a divina Providência num canonicato ou uma prebenda”. Ela então recomendou que ele falasse com o bispo de Poitiers “a fim de lhe manifestar minhas intenções. [...] Obedeci-lhe cegamente para cumprir a santa vontade de Deus, que era a única coisa que me preocupava”.21

Finalmente, a célebre marquesa foi testemunha de um estupendo milagre do santo. Ele acabava de celebrar Missa em sua capela, e entrava na sacristia para fazer sua ação de graças, quando encontrou um cego. Perguntou-lhe se queria ser curado. À resposta afirmativa, “Montfort molhou um dedo na saliva, esfregou-lhe os olhos e, no mesmo instante, o cego recuperou a vista e gritou que estava vendo muito bem”.22 Isso só fez aumentar a veneração da grande dama pelo humilde sacerdote.

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