Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 783 | página 10-11
| DESTAQUE | (continuação)

Lutero escrevia ao seu confrade agostiniano George Spenlein:

“Sê um real pecador, porque Cristo habita apenas nos pecadores”.12

No seu panfleto A Igreja no Cativeiro da Babilônia, Lutero deixa claro que o único pecado pelo qual uma pessoa pode se perder é o da incredulidade. Crendo, uma pessoa, por maior pecador que seja, estará salva:

“Veja quão rico é, portanto, um cristão, aquele que é batizado! Mesmo que ele queira, ele não poderá se perder, por mais que peque, a menos que deixe de crer. Porque nenhum pecado pode condená-lo, fora a incredulidade. Todos os outros pecados, enquanto retorne ou permaneça a fé na promessa de Deus feita no batismo, todos os outros pecados, digo eu, são imediatamente apagados por essa mesma fé, ou melhor, através da verdade de Deus, porque Ele não pode negar a si mesmo”.13

Em um sermão de 1532, Lutero pregava:

“Tirando a incredulidade, não há mais pecados: todo o resto são bagatelas. Quando meu pequeno Joãozinho vai defecar em um canto, a gente ri e acabou-se [...]. Resumo dos resumos: a incredulidade é o único pecado em relação ao Filho [de Deus]”.14

Lutero: a Missa católica, pior que um prostíbulo

O Papa São Gregório Magno (540-604) celebra a Santa Missa tão odiada por Lutero

Lutero pregava em 1524:

“Sim, eu o digo, todos os prostíbulos, condenados, entretanto, severamente por Deus, todos os homicídios, mortes, roubos e adultérios, são menos prejudiciais do que a abominação da Missa papista”.15

No já citado panfleto O Cativeiro da Igreja na Babilonia, Lutero dizia que o padre “oferecendo a missa como um sacrifício [...] é o auge da perversidade!”.16

O Espirito de Verdade não induz ao erro

As citações poderiam continuar, mas os textos apresentados são suficientes para deixar claro que as doutrinas e a personalidade do heresiarca — cuja revolta arrastou nações inteiras para fora do único redil de Cristo — nada têm de comum com a Igreja Católica.

Não se entende então por que o atual Papa, ele mesmo um jesuíta, Ordem religiosa suscitada por Deus para combater o Protestantismo, empreenda uma viagem para comemorar o centenário de uma revolta contra a Igreja.

A missão dada a São Pedro foi a de alimentar as ovelhas de Cristo;17 o encargo de confirmar os irmãos na fé;18 ele recebeu as chaves do reino dos Céus19 para conduzir as almas à bem-aventurança eterna.

O Concílio Vaticano I deixou claro que:

O Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro não para que eles possam, por sua revelação, dar a conhecer algumas novas doutrinas, mas que, pela sua assistência, possam guardar religiosamente e expor fielmente a revelação ou depósito da fé transmitida pelos apóstolos”.20

Com efeito, o Espírito Santo é um “Espírito de Verdade”21 e não pode inspirar o erro, seja por meio de palavras, atos, gestos ou atitudes.

“Um sinistro supermercado de religiões”

Em situação semelhante, por ocasião do quinto centenário do nascimento do monge apóstata, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, que dedicou sua vida à defesa da Igreja e do Papado, escreveu estas palavras de advertência:

“Não compreendo como homens da Igreja contemporâneos, inclusive dos mais cultos, doutos ou ilustres, mitifiquem a figura de Lutero, o heresiarca, no empenho de favorecer uma aproximação ecumênica, de imediato com o protestantismo e indiretamente com todas as religiões, escolas filosóficas etc.

E concluiu:

“Não discernem eles o perigo que a todos nos espreita, no fim deste caminho, ou seja, a formação, em escala mundial, de um sinistro supermercado de religiões, filosofias e sistemas de todas as ordens, em que a verdade e o erro se apresentarão fracionados, misturados e postos em balbúrdia? Ausente do mundo só estaria — se até lá se pudesse chegar — a verdade total; isto é, a fé católica apostólica romana, sem nódoa nem jaça”.22

A Igreja vencerá mais esta crise

No seu luminoso ensaio Revolução e Contra-Revolução, o mesmo pensador católico escreveu estas palavras cheias de esperança sobre a Igreja:

Alios ego vidi ventos; alias prospexi animo procellas, poderia ela dizer ufana e tranquila em meio às tormentas por que passa hoje. A Igreja já lutou em outras terras, com adversários oriundos de outras gentes, e por certo enfrentará ainda, até o fim dos tempos, problemas e inimigos bem diversos dos de hoje”23.

Aproximando-se o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima, peçamos a Ela que apresse o cumprimento da promessa feita nessa ocasião: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará”.

Notas: 1. http://www.news.va/en/news/joint-ecumenical-commemoration-of-the-reformation (Salvo indicação em contrário, todas as ênfases nos textos aqui citados são do autor deste artigo). 2. O historiador Pe. Ricardo Garcia-Villoslada, S.J., em seu livro sobre Lutero, apresenta argumentos e documentação muito convincentes de que este ato não se deu. Nem Lutero o menciona em seus escritos, nem tal fato é registrado por cronistas contemporâneos. Foi somente depois de sua morte que Melanchthon, que não estava em Wittenberg nessa época, mencionou o suposto ato. Caso ele tivesse ocorrido, posto que era véspera de Todos os Santos, uma festa muito concorrida na igreja do Castelo de Wittenberg, teria chamado muito a atenção e seria referido nas crônicas. (Ricardo García-Villoslada, Lutero El Frayle Hambriento de Dios, BAC, Madrid, 1973, v. 1, pp.334-338). Mas o que importa é que, real ou não, esse fato ficou como símbolo da revolta luterana. 3. Leão X, Exsurge Domine, 15.06.1520, Tradução: José Fernandes Vidal, em http://agnusdei.50webs.com/exsdom1.htm, acessado em 2/2/16. 4. Mark U. Edwards, Jr., Luther’s Last Battles, Concordia Theological Quarterly, Volume 48, Numbers 2 & 3 Abril-julho 1984, pp. 126-127 (emphasis original), http://www.ctsfw.net/media/pdfs/edwardslutherslastbattles.pdf, acessado em 29/1/16. 5. Idem, p. 133. 6. Werke, t. XXVIII, p. 452, 11, apud J. Paquier, Luther, Dictionnaire de Théologie Catholique, v. IX, première partie, col.1170. 7. The table-talk of Martin Luther, tradução: William Hazlitt, Esq. 8. Philadelphia: The Lutheran Publication Society. 1997, at http://reformed.org/master/index.html?mainframe=/documents/Table_talk/table_talk.html, (acessado 27/1/16). Fr Serafino M. Lanzetta, Kasper’s Perplexing Notion of “Mercy” Is Not What Church Has Always Taught – an extensive book review, and its implications for Marriage, at http://rorate-caeli.blogspot.com/2014/09/kaspers-perplexing-notion-of-mercy-is.html, acessado 1/2/126. 9. Let Your Sins Be Strong: A Letter From Luther to Melanchthon, Letter no. 99, 1 August 1521, From the Wartburg (Segment) Translated by Erika Bullmann Flores from: Dr. Martin Luther’s Saemmtliche Schriften Dr, Johannes Georg Walch, Ed. (St. Louis: Concordia Publishing House, N.D.), Vol. 15,cols. 2585-2590. http://www.iclnet.org/pub/resources/text/wittenberg/luther/letsinsbe.txt (acessado 27/1//16). 10. Werke, t. IV, p. 343, 22, apud J. Paquier, Luther, Dictionnaire de Théologie Catholique, v. IX, première partie, col. 1212. 11. Em 1532 Lutero fazia a seus convivas a seguinte confidência, recolhida nas Conversas à mesa: “O Espírito Santo me deu essa intuição nesta cloaca” (T.R., t. II, n. 1681, t. III, n. 3232ª, in Paquier, col. 1207). 12. Enders, Luthers Briefwechsel, I, p. 29, in Hartmann Grisar, S.J., Martim Luther his Life and Work, The Newman Press, Wstminster, Maryland, 1960, p. 68. 13. Martin Luther, The Babylonian Captivity of the Church – A prelude 1520, 3.8, at http://www.lutherdansk.dk/Web-babylonian%20Captivitate/Martin%20Luther.htm (acessado 281//16). 14. Werke, t. XXXVI, p. 183, 7, in Paquier, col. 1249. 15. Werke, t. XV, p. 774, 18, apud J. Paquier, col. 1170. 16. The Babylonian Captivity of the Church, n.7.11, http://www.lutherdansk.dk/Web-babylonian%20Captivitate/Martin%20Luther.htm. 17. São João 21:15-17. 18. São Lucas 22:32. 19. São Mateus 16:19. 20. Denzinger 1836. 21. São João 14:21. 22. Lutero pensa que é divino!, 10 de janeiro de 1984, “Folha de S. Paulo”, at http://www.pliniocorreadeoliveira.info/FSP_84-01-10_Lutero_pensa.htm#.VrE9ilkwCZM, acessado 2-2-16. 23. Revolução e Contra-Revolução, II, 12, at http://www.pliniocorreadeoliveira.info/RCR.pdf. acessado 3-2-16. Página seguinte