Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 783 | página 08-09
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comemorará em 2017 o centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima.

Como pode o Papa Francisco participar ativamente das comemorações da revolta de Lutero contra a Igreja e o Papado sem dar a impressão a católicos e não-católicos de que ele admira os atos e as doutrinas do heresiarca?

Condenação solene dos erros de Lutero

Convém lembrar que na Bula Exurge Domine, de 15 de junho de 1520, o Papa Leão X condenou solenemente 41 dos erros defendidos por Lutero em 1517:

“Pela autoridade do Deus Todo-Poderoso, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de nossa própria autoridade, nós condenamos, reprovamos, e rejeitamos completamente cada uma dessas teses ou erros como heréticos, escandalosos, falsos, ofensivos aos ouvidos piedosos ou sedutores das mentes simples, e contra a verdade católica. Listando-os, nós decretamos e declaramos que todos os fiéis de ambos os sexos devem considerá-los como condenados, reprovados e rejeitados [...] Nós os proibimos a todos em nome da santa obediência e sob as penas de uma automática excomunhão...”

Do mesmo modo, o Papa condenava os outros escritos de Lutero:

“Ainda mais, por causa dos precedentes erros e de muitos outros contidos nos livros ou escritos e sermões de Martinho Lutero, nós do mesmo modo condenamos, reprovamos e rejeitamos completamente os livros e todos os escritos e sermões do citado Martinho, seja em Latim seja em qualquer outra língua, que contenham os referidos erros ou qualquer um deles; e desejamos que sejam considerados totalmente condenados, reprovados e rejeitados. Proibimos a todos e a qualquer um dos fiéis de ambos os sexos, em nome da santa obediência e sob as penas acima em que incorrerão automaticamente, de ler, sustentar, pregar, louvar, imprimir, publicar ou defendê-los”.3

Furor contra o Papado

Em seu estilo arrogante e vulgar, a resposta do heresiarca foi o panfleto de 4 novembro desse mesmo ano, Contra a Execrável Bula do Anticristo, no qual proclamava:

“Tu, então, Leão X, e vós cardeais e o resto de vós em Roma, eu vos digo em vossa face [...] a renunciar à vossa blasfêmia diabólica e impiedade audaciosa, e, se não mudardes, teremos vosso lugar como possuído e oprimido por Satanás e como o maldito assento do Anticristo.”

O furor de Lutero contra o Papado levou-o a incorrer sempre mais na vulgaridade, chegando a usar termos e a encomendar e promover gravuras inimagináveis (um exemplo acima).

Com um pedido de desculpas ao leitor, transcrevemos aqui uma amostra. Trata-se da apreciação feita por um historiador protestante do libelo de Lutero Contra o Papado em Roma, fundado pelo diabo, publicado na revista Concordia Theological Quarterly da Igreja Luterana do Sínodo de Missouri:

“Lutero superou até mesmo a violência e a vulgaridade da Contra Hanswurst [na qual atacava o duque católico Henrique de Brunswick] em seu libelo de 1545 intitulado Contra o Papado em Roma, fundado pelo diabo. Na esteira desses tratados, publicou uma série de xilogravuras escatológicas e violentas que, de um modo gráfico, sugeria como os bons cristãos deviam tratar o Papado. Nesses e em outros tratados, Lutero bestializava seus oponentes, com maior frequência comparando-os com suínos ou burros, ou chamando-os de mentirosos, assassinos, e hipócritas. Eles eram todos os asseclas do demônio. [...] [chamou o Papa Paulo III, 1534-1549] ‘Sua Sodomita Infernal’ Papa Paula III, e utilizou palavras como excremento por toda parte com toda naturalidade. Nas xilogravuras por Lucas Cranach, que Lutero encomendou no final de sua vida, [...] sugeria, mais uma vez, que o Papa, os cardeais e bispos deviam ser pendurados na forca com suas línguas de fora”.4

O mesmo artigo informa:

“Quando perguntado por que havia publicado as caricaturas, Lutero respondeu ter percebido que não tinha muito tempo de vida e que ainda tinha muito a ser revelado sobre o Papado e seu reino. Por esta razão, ele havia publicado as figuras, cada uma valendo por um livro, do que deveria ser escrito sobre o Papado. Era — afirmou ele — seu testamento”.5

Em 1529, Lutero proclamava:

“Sob o papismo nós estávamos possuídos por cem mil diabos”.6

Uma das mais suaves críticas de Lutero ao Papa é este seu comentário nas Conversas à mesa:

Anticristo é o papa e o Turco [o Grão-Turco] em conjunto; uma besta cheia de vida deve ter um corpo e uma alma; o espírito ou alma do anticristo é o papa, sua carne ou o corpo, o Turco. O segundo assalta e persegue a igreja de Deus corporalmente; o primeiro, espiritual e também corporalmente, com enforcamentos, fogueiras, assassinatos etc.”7

Doutrina da falsa misericórdia

A essência da doutrina de Lutero é a justificação somente pela fé. Mas a consequência dessa doutrina é um falso conceito da misericórdia de Deus. Analisando o livro do Cardeal Walter Kasper, Misericórdia: A Essência do Evangelho e a chave da vida cristã, Frei Serafino Lanzetta escreve:

“Historicamente, segundo julga Kasper, apoiado por O. H. Pesch, ‘a idéia de um Deus vingativo e castigador lançou muitos na angústia em relação à sua salvação eterna. O caso mais conhecido, e um prenúncio de graves consequências para a História, é o do jovem Martin Lutero, que foi durante muito tempo atormentado pela pergunta: ‘Como posso encontrar um Deus bondoso?’, até que ele reconheceu um dia que, no sentido da Bíblia, a justiça de Deus não é a sua justiça punitiva, mas a sua justiça justificadora e, portanto, sua Misericórdia’”.8

Essa doutrina está bem sintetizada na famosa carta de Lutero a Melanchthon em 1521:

“Se você é um pregador da misericórdia, não pregue uma misericórdia imaginária, mas a verdadeira. Se a misericórdia é verdadeira, você deve levar em conta um verdadeiro pecado, não um pecado imaginário. Deus não salva aqueles que são apenas pecadores imaginários. Seja um pecador, e peque fortemente, mas que sua confiança em Cristo seja mais forte, e alegre-se em Cristo, que é o vencedor do pecado, da morte e do mundo. [...] Basta que através da glória de Deus reconheçamos o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Nenhum pecado pode nos separar d’Ele, mesmo que matemos e cometamos adultério milhares de vezes por dia. Você acha que tal Cordeiro exaltado pagou apenas um pequeno preço com um magro sacrifício pelos nossos pecados? Reze forte porque você é um grande pecador. No dia da Festa de São Pedro Apóstolo, 1521”.9

Em outro lugar, escreveu Lutero:

“É conveniente que nós nos tornemos injustos e pecadores, a fim que Deus seja reconhecido justo em suas palavras”.10

Alguns escritores, mesmo católicos, procuram apresentar essas palavras de Lutero como meras hipérboles, uma vez que ele também fala contra o pecado. No entanto, essa doutrina do pecca fortiter (peca fortemente) é a consequência da “iluminação” que ele recebeu na cloaca do convento, ou seja, de que é somente a fé, sem as obras — a “sola fide” — que salva.11

Já em 1516, portanto antes de sua revolta pública,

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