Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 781 | página 34-35
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

cularizado e perseguido, a ter que aceitar textos ambíguos e métodos insinceros. Prefiro a cristalina ‘imagem de Cristo, a Verdade, ao invés da imagem da raposa ornamentada com pedras preciosas’ (Santo Irineu), porque ‘sei em quem pus minha confiança’, ‘Scio, Cui credidi!’” (2 Tim. 1: 12 )41. O Instituto Plinio Corrêa de Oliveira externou pública adesão ao corajoso pronunciamento de D. Schneider.

A encíclica Laudato Si

Em abril, com a presença de Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, a Pontifícia Academia das Ciências reuniu no Vaticano alguns cientistas “aquecimentistas”, ONGs ambientalistas e pregadoras da diminuição da humanidade. Ki-moon agradeceu o apoio do Papa às exigências ambientalistas42. Cientistas opostos ao catastrofismo verde não tiveram lugar. Alguns deles se reuniram então a poucos passos do Vaticano e pediram ao Papa “que não concedesse seu apoio aos catastrofistas do aquecimento global”, cujas teorias ameaçam principalmente o porvir dos pobres do planeta43.

Em junho, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato Si sobre ambientalismo, capitalismo e teologia mística, para a qual pedira a colaboração de Frei Betto. O longuíssimo texto, que não apresenta o estilo de encíclica, foi aguardado com ansiedade pela grande mídia e pelas ONGs verdes, mas teve seu impacto diluído pela falta de embasamento científico sólido. O presidente da CNBB, D. Sérgio da Rocha, elogiou a arremetida da encíclica contra “o estilo consumista”, e extremistas verdes sonharam reverter com ela seu descrédito na opinião pública. Rubens Ricúpero, ex-ministro do Meio Ambiente no Brasil, enalteceu o documento, em particular sua ideia “radicalíssima” sobre “a necessidade de criar um governo supranacional”44. O ex-frade Leonardo Boff comemorou a “espiritualidade ecológica” da encíclica, que apela para místicos pagãos, inclusive islâmicos ou herméticos, bem como para teólogos condenados pela Igreja, como Teilhard de Chardin e Romano Guardini. Frei Betto destacou que a Laudato Si “faz eco à produção da Teologia da Libertação [...] e abraça a teoria evolucionista do Universo”45. O líder do MST, João Pedro Stédile, comentou: “Chávez morreu, Fidel está doente. O Francisco tem assumido esse papel de liderança, graças a Deus. Ele tem acertado todas”46. Por sua vez, Al Gore, arauto do ambientalismo radical, declarou: “Eu me faria católico por causa desse Papa”47.

A apresentação do documento foi feita conjuntamente pelo Cardeal Peter Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, pelo metropolita cismático John Zizioulas, pelo Prof. Hans Joachim Schellnhuber, ativista que veicula as teses malthusianas mais radicais, e por Carolyn Woo, presidente da agência humanitária internacional da Conferência Episcopal dos EUA, que financia ONGs promotoras do aborto e de anticonceptivos, e recruta ativistas LGBT48.

O Prof. Denis Lerrer Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, observou que a encíclica “está baseada numa relativização da propriedade privada” e que por ela “o Brasil se veria destituído de sua soberania sobre a Amazônia”49. O Dr. Evaristo de Miranda, da Embrapa, constatou que a encíclica usa 74 vezes a palavra “natureza”, 55 vezes “meio ambiente” e uma só vez “Jesus Cristo”50. Para o Prof. José Manuel Moreira, da Universidade de Aveiro, Portugal, o “preocupante é a mistura de ‘slogans’ da esquerda radical” no texto51.

Em julho, o Pontífice reuniu no Vaticano mais de 70 prefeitos de todo o mundo, de predominância esquerdista, ocasião em que os incitou a pressionar a reunião da ONU sobre mudanças climáticas (ou COP21), no mês de dezembro em Paris. Foi criada no Vaticano a “Aliança pelo desenvolvimento sustentável urbano”, que também deve promover a “gender equality” e a “gender-sensitive solutions”, fórmulas da ONU para a Ideologia de Gênero52. Na festa da Imaculada (8 de dezembro), o Vaticano promoveu o show “fiat Lux”, que durante uma hora usou a Basílica de São Pedro como tela para uma projeção chocante da ideologia ambientalista radical panteísta, anticristã, gnóstica e igualitária, misturada com trechos da Laudato Si que horrorizou numerosos fiéis da Capital dos Papas53.

O projeto de tratado a ser assinado na COP21 visava instaurar uma espécie de governo ecológico planetário que incluiria um Tribunal Internacional de Justiça Climática para julgar os países que não cumprirem as metas da utopia verde. E criava o Fundo Climático Verde, para o qual os países “ricos” contribuiriam graciosamente com um mínimo de U$ 100 bilhões anuais54. Essas metas pareceram extremamente radicais e inexequíveis. O Secretário de Estado dos EUA anunciou que não assinaria tratado algum55. Especialmente na África, o Papa Francisco declarou que seria catastrófico a COP21 não atingir esses objetivos de natureza política, econômica e científica, acompanhando assim a política de governos de esquerda. Em dezembro, a COP21 reuniu em Paris 40.000 representantes de 195 países e aclamou como sucesso um acordo escorregadio que mascarou um fracasso das metas radicais, o qual teria frustrado governos, ONGs e a própria Santa Sé.

Em setembro, o Papa discursou no Congresso americano a favor dos imigrantes, do combate à mudança climática, do fim da pena de morte e da proibição da venda de armas, posições centrais da agenda do presidente Obama. Análogo discurso foi proferido numa sessão plenária da ONU em Nova York, cidade onde ele celebrou Missa campal (Madison Square Garden), tendo a leitura da Epístola sido feita por notório ativista do “casamento” homossexual. A Missa precedeu sua presença no Congresso das Famílias realizado em Filadélfia56.

Teologia da Libertação e líderes filocomunistas

O ano de 2015 começou sob o signo do restabelecimento das re-lações diplomáticas entre EUA e Cuba, apoiado pelo Papa Francisco. Uma frase de 1973 atribuída a Fidel Castro parece ter-se efetivado: “Os EUA virão dialogar conosco quando tiverem um presidente negro e no mundo houver um Papa latino-a-mericano”57. Em 10 de maio, o Papa recebeu no Vaticano o ditador Raul Castro. Este afirmou que se o pon-tífice “continuar falando assim, começarei a rezar e voltarei à igreja. E não digo isso como piada”58. Logo depois, o fundador da Teologia da Libertação, teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, participou pela pri-meira vez de uma cerimônia oficial no Vaticano. Ele teve sua teologia revolucionária — outrora condenada — elogiada em artigo publicado no jornal “L’Osservatore Romano”59, e se considerou feliz pela “mudança na atmosfera” da Santa Sé60.

Em julho, a viagem pontifícia aos países “bolivarianos” começou pelo Equador, cujo presidente esperava que ela tivesse um efeito apaziguador, pois grandes manifestações antissocialistas bradavam: “Fora Correa!”.

A etapa da Bolívia ficou marcada pelo presente oferecido pelo presidente Evo Morales ao Papa: um

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