Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 781 | página 36-37
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

crucifixo em forma de foice e martelo, concebido por um sacerdote subversivo já falecido61. O Pontífice também participou, ao lado de Morales — que usava uma jaqueta com a efígie do Che Guevara62 — , do “Encontro Mundial de Movimentos Populares” de 40 países.

Depois visitou o Paraguai, país que não integra a frente de governos “chavistas”, tendo ali proposto “menos egoísmo e mais hospitalidade”63.

Em setembro, sob um imenso poster do Che Guevara, o Papa Francisco celebrou Missa na Praça da Revolução em Havana. E num clima “muito tranquilo, fraternal e amigável”, segundo o porta-voz do Vaticano, visitou Fidel Castro64. A visita a Cuba transcorreu sob uma pesada vigilância policial. Dissidentes que desejavam estar com o Pontífice não foram recebidos. Alguns deles foram presos diante das câmaras dos jornalistas. A polícia deteve centenas de “suspeitos” e uma “limpeza social” dos pobres nas ruas maquiou a miserável aparência dos locais visitados. Segundo dissidentes, desde o reatamento de relações diplomáticas com os EUA, a repressão recrudesceu, pois a ditadura experimentou “um sentimento de impunidade”65. A viúva do dissidente Osvaldo Payá, morto em acidente suspeito, denunciou que o arcebispo de Havana, Cardeal Jaime Lucas Ortega y Alamino, trata os católicos e os dissidentes “com procedimentos análogos aos dos agentes de segurança do Estado” marxista66. O dissidente exilado Flavio Labrador propôs ao Papa Francisco “abraçar antes as vítimas que os carrascos”67. Seu apelo não foi atendido.

Em novembro, o arcebispo de Cali, Colômbia, Mons. Darío de Jesús Monsalve Mejía, presidiu uma jornada de recuperação da memória do sacerdote guerrilheiro Camilo Torres, morto enquanto combatia na guerrilha marxista dos anos 7068.

Sombrio fim de ano

Em setembro, a Arquidiocese de Nova York fechou quase 40 paróquias, por falta de sacerdotes e de recursos econômicos69. Em São Paulo, o Cardeal João Braz de Aviz, Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, explicou que a Igreja Católica perde anualmente cerca de dois mil religiosos e religiosas70. Em dezembro, o Global Sisters Report constatou que restam menos de 50.000 religiosas nos EUA — mesmo número de um século atrás — e que só 9% delas têm menos de 60 anos71.

Na Alemanha, segundo o episcopado, 218.000 fiéis abandonaram a Igreja em 2014, 39.000 a mais que em 2013, quando 179.000 deixaram de pagar o imposto dos fiéis72.

Centenas de igrejas católicas na Europa foram postas à venda e algumas já são hotéis, residências, museus, lojas, oficinas, supermercados, floriculturas, e até um bar estilo Frankenstein em Edimburgo, Escócia. A igreja de Santa Bárbara, Astúrias (Espanha), foi repintada por grafiteiros esotéricos e transformada em ponto de encontro de skaters (foto acima)73.

O bispo de Besançon, França, permitiu que se realizasse uma exibição equestre em sua catedral.

Cerca de 20 igrejas são fechadas anualmente na Inglaterra. A Alemanha fechou 515 numa década e dois terços das 1.600 igrejas católicas da Holanda serão desativadas proximamente74.

Em março, comemorando seu segundo ano de pontificado, o Papa Francisco afirmou que o mesmo seria “curto” — “4 ou 5 anos”75. Em julho, ele defendeu que a Igreja não deveria ter “líderes vitalícios”, para não se tornar uma ditadura76.

O tom sombrio com que o Pontífice se referiu numa alocução à III Guerra Mundial — que ele vê tomar conta da Terra — e a “falsidade” e a “mentira” que nota nas alegrias do iminente Natal, impressionaram os que o ouviram.

Em novembro, vazaram escândalos pela prisão de eclesiásticos e funcionários vaticanos que forneceram documentos privados da Santa Sé para livros desabonadores da Cúria Romana.


Venezuela
Bolivarianismo: “estrela cadente” no firmamento latino-americano

2015 foi um “annus horribilis” do socialismo bolivariano, cujo naufrágio na Venezuela tornou-se patente já nos primeiros meses. À insatisfação causada pela carência de produtos básicos — alimentares, hospitalares, de higiene pessoal, e muitos outros — o governo reagia prendendo executivos das respectivas redes distribuidoras ou os próprios fabricantes. A mídia estava quase toda nacionalizada e o governo se irritava com a atuação de jornalistas estrangeiros. Altas patentes das Forças Armadas foram presas por “conspiração”, enquanto o presidente do Legislativo, Diosdado Cabello, foi apontado como chefe de uma rede de generais que controla a exportação de droga. Maduro racionou a energia elétrica e sugou as moedas estrangeiras, a ponto de companhias internacionais fecharem seus negócios e empresas aéreas cancelarem seus voos. As Forças Armadas reprimiram protestos, invadiram fábricas para impedir que se tirassem fotos das filas em busca de alimentos. A inflação oscilou entre 200% e 500%, as cédulas perderam valor (a maior vale R$ 0,42), fazendo com que os próprios bandidos se desinteressem de roubá-las. O governo não tinha sequer papel para imprimir. Nos mercados oficiais, só se compram farinha, leite, xampu, papel higiênico e outros produtos essenciais, num sistema de rodízio semanal definido pelo último número do RG! A carência de itens chegou a 75% em agosto e gerou saques e violências com mortos. Nos hospitais, os parentes dos doentes procuram fora insumos médicos. Mais de mil médicos cubanos enviados ao exterior para sustentar o regime procuraram asilo nos EUA, a fim de fugir da miséria e da violência.

Maduro forjou atritos fronteiriços visando uma onda de popularidade nacionalista. Muitos colombianos tiveram de abandonar o país em condições dramáticas, cruzando córregos a pé, com os seus pertences nas costas. Eles foram arrancados de suas casas como na época stalinista77. O pretexto foi a acusação de que atuavam em máfias de contrabandistas, muitas vezes, aliás, ligadas ao governo chavista.

Os distritos eleitorais foram reconfigurados, rebaixando o número de deputados elegíveis em regiões opositoras e aumentando as cadeiras em bastiões chavistas. Líderes opositores foram encarcerados e candidaturas adversas, vetadas. Muitos venezuelanos fugiram da opressão socialista, da miséria e da criminalidade buscando o exterior.

Em dezembro, a oposição conquistou — mesmo com as irregularidades denunciadas — dois terços das cadeiras do Legislativo. Maduro reconheceu a derrota, mas logo convocou o exército para uma “guerra não convencional” contra “a direita e a burguesia, que entregam a soberania a partir das posições que conquistaram”78.

Brasil

Em março e abril, manifestações multitudinárias tomaram as ruas, em protestos contra o governo federal. De acordo com a PM, em 15 de março participaram 1,9 milhão de cidadãos em 212 municípios, sendo 1 milhão só em São Paulo. Em 12 de abril os números foram um pouco menores. As multidões, invocando a brasilidade, o hino, a bandeira, o verde-amarelo, patentearam que o governo perdera a credibilidade e, psicologicamente, a condução do País79. As tentativas petistas de efetuar manifestações em sentido contrário fracassaram.

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