Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 781 | página 32-33
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

lhos”20. A frase pareceu um estímulo ao controle da natalidade, que era discutido na perspectiva do Sínodo. O porta-voz do Vaticano, Pe. Lombardi, como em outras ocasiões, retificou as palavras do Pontífice, mas a expressão chocou especialmente famílias que desejam viver na observância da Lei de Deus. No mesmo mês, o Pontífice recebeu em audiência privada uma transexual “nascida mulher”, e sua “esposa”21. A fotografia da recepção foi divulgada na iminência do Sínodo sobre a família. No mês seguinte, em uma audiência pública das quartas-feiras, o Papa recebeu um grupo de defesa dos católicos homossexuais dos EUA22. Em maio, um referendo na católica Irlanda aprovou o “casamento” homossexual. O arcebispo de Dublin alegou que a omissão do episcopado correspondia à linha adotada pelo pontificado: “Não dizer aos outros como votar”23. Em junho, a legitimação do “casamento” homossexual pela Suprema Corte dos EUA teve impacto mundial24. O acórdão derrubou leis e referendos estaduais que tinham excluído as uniões contra a natureza por via legislativa.

Em junho, os episcopados alemão, francês e suíço realizaram um simpósio reservado na Universidade Gregoriana de Roma sobre o “casamento homossexual” e a comunhão para os divorciados “recasados”. O Pe. Eberhard Schockenhoff foi um dos palestrantes escolhidos, por sua oposição ao ensino “autoritário” da Igreja sobre a anticoncepção. Ele prega uma moral liberada da Lei natural, defende o “recasamento” civil dos divorciados e não mais lhes nega a Comunhão25. Para o “National Catholic Register”, foi um conchavo para que o Sínodo aprovasse o “casamento” de homossexuais e matérias estranhas ao evento, como a sagração de sacerdotisas26.

Em setembro, o Papa Francisco promulgou dois Motu Proprio que aceleram os processos de reconhecimento de nulidade matrimonial. Estes não terão mais uma segunda instância de Roma, poderão demorar 30 dias e ser gratuitos27. Os documentos pontifícios adiantaram que o tema seria tratado no Sínodo. O jornal mineiro “O Tempo”28 concedeu destaque à matéria com o título “Igreja vai facilitar o divórcio”. O Cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, advertiu em Regensburg que a Igreja corria o risco de um cisma: “A reforma protestante começou do mesmo modo”, explicou29. A revista alemã “Die Zeit”30 avaliou existir uma guerra declarada em ambientes vaticanos que julgam que o Papa teria “tirado a máscara”. Ross Douthat, colunista do “The New York Times”, observou que o Papa havia inaugurado “uma guerra civil dentro da hierarquia eclesiástica, lançando cardeal contra cardeal e teólogo contra teólogo”; e que “o conflito estava ecoando em livros, declarações, editoriais e dominava o Sínodo sobre a família”31.

Apelos ao Papa antes do Sínodo: a “Filial Súplica”

O Papa Francisco fez chegar a toda a Igreja um inquérito para alicerçar o documento de base do Sínodo, o Instrumentum laboris. Do lado “progressista”, o episcopado alemão redigiu uma desoladora síntese das respostas, a qual revelou que poucos alemães praticam a moral católica ou aderem a verdades básicas da fé. Mas também desvendou o minguamento do progressismo: na diocese de Essen (850.000 fiéis), apenas 14 pessoas responderam; na de Mainz (740.000), 21; na de Magdeburg (86.000), 1832. Por sua vez, o episcopado suíço pediu que a indissolubilidade matrimonial não seja mais considerada como “um valor absoluto”, e que a união homossexual seja “reconhecida, prezada e abençoada” pela Igreja33.

O setor tradicional/conservador mostrou ter muito mais eco e voz na Igreja. Na Inglaterra e País de Gales, mais de 500 sacerdotes solicitaram em carta aberta ao Sínodo que este “se mantenha firme na doutrina e na pastoral da Igreja” baseada na Revelação e em dois mil anos de Magistério34. Cinco bispos americanos e um britânico solidarizaram-se com o pedido. Nos EUA, 1.185 sacerdotes assinaram apelo análogo. 140 ex-pastores protestantes, hoje na sua maioria sacerdotes católicos, solicitaram ao Papa não imitar o percurso das denominações protestantes que se desagregaram ao introduzir a revolução sexual em suas fileiras35.

A iniciativa “Filial Súplica ao Papa Francisco sobre o Futuro da Família” — à qual aderiram o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira, TFPs da Europa, dos EUA e entidades afins — implorou ao Pontífice “uma palavra esclarecedora” que dissipe a “desorientação generalizada, causada pela possibilidade de que se tenha aberto no seio da Igreja uma brecha que permite a aceitação do adultério — mediante a admissão à Eucaristia de casais divorciados recasados civilmente — , e até mesmo uma virtual aceitação das próprias uniões homossexuais, contrárias à lei divina e natural”.

Na véspera do Sínodo, 11 cardeais publicaram a obra Permanecer na Verdade de Cristo, alertando contra a protestantização da Igreja alentada por um grupo de eclesiásticos tidos como muito próximos do Romano Pontífice36. Outro grupo de cardeais africanos e orientais publicou um opúsculo no mesmo sentido. Foram múltiplas as denúncias de erros doutrinários contidos no Instrumentum laboris, documento de base do Sínodo. O Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, havia publicado em março o livro Deus ou nada, denunciando o relativismo moral, a Ideologia de Gênero, o islamismo, o processo de destruição da família e a insinceridade de uma misericórdia sem conversão prévia. Ele sublinhou a impossibilidade, para um Sínodo e inclusive para um Papa, de mudar a doutrina revelada37. Episcopados inteiros denunciaram o sacrilégio e a heterodoxia contidos na proposta de dar a comunhão aos divorciados “recasados”. Entre esses destacaram-se a Conferência Episcopal polonesa e diversos episcopados da África.

O Sínodo Ordinário da Família

Durante o Sínodo da Família, Mons. Johan Bonny, bispo de Antuérpia, e Mons. Paul-André Durocher, ex-presidente do episcopado canadense, ambos da ala progressista, pediram respectivamente um relativo reconhecimento de casamentos ilegais e a ordenação de diaconisas. Por sua vez, o Cardeal Pell, membro da assembleia sinodal, entregou ao Papa uma carta assinada por nove cardeais deplorando respeitosamente a manipulação das exposições de bispos e de votações na aula sinodal. O setor progressista considerou nessa carta indício de um “complô” visando frustrar o Sínodo e deslegitimar o pontificado. Mons. Péter Fülöp, arcebispo de Hajdúdorog e cabeça do rito greco-católico húngaro, pediu aos padres sinodais que recusassem com clareza o “feroz e enorme ataque” do diabo contra a família. E Mons. Tomash Peta, arcebispo de Astana, Cazaquistão, apontou que a “fumaça de Satanás” — a qual, segundo Paulo VI, “penetrou no templo de Deus” — estava presente em propostas relativistas inadmissíveis ouvidas no Sínodo38.

Como epílogo, o Sínodo entregou ao Papa Francisco um Relatório Final. Alguns quiseram ver neste um triunfo do conservadorismo; outros, do progressismo. Para Roberto de Mattei, catedrático de História, tratou-se de um “documento ambíguo e contraditório que permite a todos cantar vitória”, embora “todos acabaram derrotados, a começar pela moral católica, que sai profundamente humilhada”39. O Cardeal Raymond Burke, prefeito emérito da Signatura Apostólica, refutou a tese de que tal Relatório Final possa abrir a porta à comunhão para os divorciados recasados: “O Sínodo não pode abrir uma porta que não existe e não pode existir”. E acrescentou que há uma expectativa de o Sumo Pontífice aprovar uma prática que “está em conflito com as verdades da fé”40.

O Relatório Final não tem valor magisterial nem disciplinar, cabendo ao Papa a última palavra, em documento de sua lavra. Entretanto, a polêmica se acirrou sobre questões mais discutidas durante o Sínodo Ordinário.

Mons. Athanasius Schneider, bispo-auxiliar da Astana, Cazaquistão, resumiu assim as suas conclusões sobre o documento sinodal: “‘Non possumus!’ Não aceitarei um ensinamento ofuscado, nem uma abertura habilmente disfarçada da porta dos fundos, para que por ela passe uma profanação dos Sacramentos do Matrimônio e da Eucaristia. Da mesma forma, não aceitarei uma burla do Sexto Mandamento de Deus. Prefiro ser ridi-

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