Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 504 | página 22-23
| COMENTE, COMENTE... |

Um agro-reformista em apuros

As primeiras sombras do ocaso já se projetavam sobre a cidade, numa tarde de agosto, quando nos reuníamos para rezar, encerrando mais um dia de campanha. Refiro-me ao vitorioso abaixo-assinado promovido pela TFP contra as reformas agrária e urbana, socialistas e confiscatórias, cujo resultado ––1.133.507 assinaturas, em apenas um mês –– surpreendeu a quantos ingenuamente criam na popularidade de tais reformas.

Nesse momento, vi aproximar-se de mim Sinfônio, um velho conhecido, a quem há muito não via, e que me segura pelo braço:

–– Olhe – disse com voz mansa não compreendo todo esse esforço da TFP para impedir a RA! Afinal, creio que feita com critério e moderação, algum benefício ela nos trará...

–– Benefício! – exclamei eu –. Mas Sinfônio, você bem sabe que há tempo vêm sendo feitas experiências de RA no Brasil. Aponte-me um só caso em que esta tenha trazido algum benefício real e durável para os trabalhadores, e a agricultura em geral. Para não falar da miserável situação em que a RA deixou a extinta URSS, e de seu fracasso retumbante em países como México, Chile, Portugal e outros.

–– Não! Não se trata disso. Veja, eu acho que uma certa RA tem de haver. Admito que nas terras produtivas não se deva mexer. Mas os latifúndios improdutivos...! Não são eles uma injustiça? Sou contrário à concentração de terras nas mãos de poucos, enquanto a grande maioria não as tem para plantar. Esses latifundiários, que mantêm terras incultas, são verdadeiros malfeitores e devem ser desapropriados sem perdão.

–– Estranho tanto zelo pela produtividade de nossos campos – interrompi – uma vez que a agricultura brasileira vem cumprindo galhardamente sua missão. Como você sabe, somos o primeiro produtor mundial de cacau, café, laranja e cana de açúcar, e possuímos o maior rebanho bovino do mundo: 120 milhões de cabeças de gado. Mas... já que você preza tanto nossa produtividade agrícola, vou apontar-lhe um latifundiário improdutivo gigantesco, contra o qual voltar-se-á certamente sua indignação.

–– É claro! Quem é ele? – interrompeu sôfrego meu interlocutor.

–– O Estado brasileiro – respondi –, que detém mais de 350 milhões de hectares de terras aproveitáveis para a agricultura.

Meu amigo Sinfônio não conseguiu esconder seu desapontamento. Embaraçado, tentou uma resposta, mas as palavras não lhe saíam dos lábios.

Fingindo não perceber sua confusão, prossegui:

–– Você já imaginou até onde poderia chegar o êxito da nossa agricultura, se todos os agro-reformistas se coligassem para exigir do Poder Público o aproveitamento racional, científico e urgente dessas terras devolutas?

Um tanto refeito do embaraço, meu interlocutor retrucou:

–– E quantos anos levaria tal colonização? Pois não chame a isso RA! Durante todo esse tempo os latifundiários continuariam a gozar de seus latifúndios improdutivos?

–– Mas então não é o incremento da produção agrícola o que você procura, com o conseqüente benefício para milhares de trabalhadores rurais, que poderão desta forma vir a ser proprietários? –– disse-lhe.

–– Sim, mas...

–– Ora – interrompi – o que você busca, na verdade, não é o bem dos trabalhadores, mas o mal para os proprietários.

–– Você me insulta!

–– Insulto foi o que você lançou há pouco contra os proprietários. Mais do que insulto, você os caluniou, Sinfônio, acusando-os de malfeitores. E nem o quadro alvissareiro dos êxitos que a agricultura brasileira vem obtendo, no plano internacional, arrancou de você um movimento de simpatia para com eles. Pelo contrário, o fato de o Estado, o maior latifundiário do País, conservar improdutivas suas terras, também não lhe causou nenhuma indignação. Como, pois, não concluir que o que lhe move é desejar o mal para os proprietários e não o bem dos trabalhadores?

O meu amigo, a essa altura da conversa, mal podia conter sua irritação.

–– Você acha justo então – vociferou – que uns tenham muito e outros pouco, ou quase nada? Você não vê que o que a RA visa é a eliminação das desigualdades sociais, através de uma mais justa distribuição das riquezas?

–– Ah! Afinal você confessa, Sinfônio. A RA, para vocês, não é uma questão de produção e bem estar, mas um problema de doutrina social e mesmo filosófico. Ou seja, por trás da RA, da RU e de outras reformas congêneres, está uma concepção igualitária e socialista da vida, uma pura teoria sem base na realidade, que vocês querem fazer prevalecer custe o que custar, ainda que o resultado seja a fome e a miséria.

O meu amigo, ou ex-amigo, retirou-se resmungando e proferindo desaforos. Eu ia já tomando. meu caminho, quando uma voz me detém.

–– O senhor me dá licença? Voltei-me e me deparei com uma modesta e simpática senhora, já sexagenária, que me falava um tanto desconcertada.

–– Tomei a liberdade de ouvir a conversa dos senhores. Desculpe-me! Mas agora compreendo por que, depois do fracasso do regime comunista, ainda há gente que se diz socialista. É porque os move o fanatismo ideológico, e não o verdadeiro bem dos pobres. Muito obrigada pelo esclarecimento! Comentarei o que ouvi com minhas amigas.

Caro leitor, faça como essa senhora. Comente também.


Página seguinte