Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 504 | página 08-09
| EPISÓDIO DO CARANDIRU| (continuação)

munistas –– o defensor da ordem é apresentado como tirano ou vilão, enquanto o marginal aparece como pobre vítima injustiçada. Eis o ponto nevrálgico da questão, cujo desconhecimento ou subestima falseia gravemente o debate.

Com efeito, vários dos soldados feridos durante a operação no presídio do Carandiru, salientaram não ter recebido visita de Padre, ministro ou representantes de entidades que se apresentam como defensoras dos direitos humanos... (cfr. “Jornal da Tarde”, São Paulo, 10-10-92).

Obviamente, dois pesos e duas medidas em favor não do homem honesto, mas do detido, que, ao mesmo tempo, era injusto agressor!

Como observou um policial, “agora fazem essa apologia da marginalidade. Hoje, só se preocupam em combater a Polícia Militar. Ainda vamos pagar caro por essa apologia dos bandidos. Nós, agora, é que somos os marginais. Está havendo uma inversão de valores” (“O Estado de S. Paulo”, 7-10-92).

Conforme a imprensa, a Casa de Detenção estaria sob o domínio de mais de 50 quadrilhas, onde os traficantes e ladrões de banco são regiamente tratados.

Privatização dos presídios

O problema, entretanto, não se restringe a isto.

Atualmente, cerca de 124 mil presos se comprimem nas pouco mais de 50 mil vagas de presídios existentes no País. E há 175 mil mandados de prisão (ou seja, um número de homens aproximadamente idêntico ao de todo o Exército nacional!) já expedidos pela Justiça e ainda não cumpridos, devido à falta de vagas nos presídios.

Nesse contexto, aflora a idéia de privatização dos serviços penitenciários. O Conselho de Defesa dos Direitos Humanos –– que encaminhou proposta nesse sentido ao Ministério da Justiça –– calcula que vivam em permanente ócio 95 % dos presidiários, expostos a um sistema que mistura imprudentemente criminosos primários com os de alta periculosidade (cfr. “Jornal do Brasil”, 11-10-92).

Caso a iniciativa privada tome em mãos a direção dos cárceres, pode-se admitir que tal situação gradativamente tenda a cessar.

Convém ressaltar, porém, que toda a questão da criminalidade se prende a causas muito mais profundas –– isto é, de natureza moral e religiosa –– que as meramente administrativas.

Contudo, é sabido também que o Estado –– inoperante e deficitário por natureza, em diversos campos –– não se vem portando melhor na organização dos presídios.

Entende-se, pois, a oportunidade da proposta formulada pelo mencionado Conselho, bem como pelo ilustre professor Luiz Flávio Borges D'Urso, em elucidativa entrevista publicada na presente edição.

Tomadas de posição em face do ocorrido

Importa assinalar que, logo após o evento na Casa de Detenção, a PM recebeu entusiásticas expressões de apoio de ponderáveis parcelas da população. Isto pode ser comprovado por meio das manifestações de rua organizadas por taxistas, motoristas de ônibus e caminhões, parentes de policiais e de vítimas de criminosos etc. que obstruíram o tráfego no centro da cidade durante longas horas, em apoio à PM.

Diariamente, e na mesma linha, as seções de leitores dos jornais tem publicado considerável número de cartas aplaudindo vivamente a PM, sugerindo ora a matança pura e simples dos marginais revoltados, ora que o Sr. Cardeal Arcebispo, P. Evaristo Arns, a OAB e organismos internacionais de esquerda levem para suas casas os bandidos, já que têm tanta pena deles. Gracejos espirituosos não desprovidos de cômica e oportuna mordacidade, a qual consideramos entretanto excessiva no que diz respeito ao Pastor da Arquidiocese paulopolitana

Cabe lembrar ainda que D. Arns, ao rezar Missa na Catedral pelos detentos mortos, criticou acerbamente a polícia.

Ter-nos-ia entretanto causado bem-estar se, nessa mesma ocasião, S. Emcia. houvesse acrescentado um muito oportuno “Memento” em prol daqueles valorosos militares –– defensores da ordem e da lei ––, os quais se expuseram durante longas horas aos transes de graves apreensões pela própria integridade física, e de que foram partícipes suas respectivas famílias. A fortiori, pelos que, de modo inclemente e injusto foram feridos pelos amotinados.


| BRASIL REAL, BRASIL BRASILEIRO |

A missão providencial do Brasil

Dom Luiz de Orleans e Bragança, Chefe da Casa Imperial brasileira

Se analisarmos as origens psicológicas e morais de nossa Pátria, vemos que, de Portugal herdamos a bondade, a valentia e um certo senso prático que não descola da realidade. Dos negros recebemos uma apetência para o colorido, o maravilhoso. Dos índios, a esperteza. O resultado: um espírito brasileiro extremamente variegado, sutil, com facilidade para fazer correlações entre as coisas e grande senso do universal.

Uma senhora paulista que conheci, de tradicional família de quatrocentos anos, exprimiu certa vez o ideal de vida dela, mas que era, no fundo, o ideal de vida do brasileiro. Dizia ela para seu filho: “A vida, meu filho, é estar juntos, olhar-se e querer-se bem”.

Essa senhora não era uma filósofa, nem possuía estudos teológicos. Tinha apenas a formação católica e a cultura próprias de uma senhora de boa família de São Paulo, do fim do século passado, acrescidas de profundo senso católico. E desse entranhado senso católico aflorou algo maravilhoso, que foi a explicitação daquilo pelo qual o brasileiro reflete um aspecto de Deus: um certo tipo de bondade e benevolência, expressão, das mais elevadas, da virtude da caridade.

* * *

Nosso povo recebeu de Deus um território de dimensões continentais. Herdamos recursos, não só no campo agrícola, mas também de natureza mineral, praticamente inesgotáveis. Temos as maiores reservas de ferro do mundo e reservas de ouro ainda desconhecidas; somos ademais um dos maiores produtores de pedras preciosas.

Temos sobretudo qualidades de alma imensas. Dentre elas, a facilidade em admirar os valores dos outros povos, compreendê-los, e com isso ajudá-los na solução dos seus problemas.

O brasileiro é dadivoso por natureza, à semelhança de Deus, que criou o universo por pura generosidade.

O brasileiro tem, entretanto, ao lado dessa bondade, um senso de justiça muito grande. Quando essa bondade é rejeitada, quando a ordem das coisas é perturbada, primeiro ele procura afastar as dificuldades por bem. Dizem que, no Brasil, se dá um boi para não entrar numa briga e uma boiada para não sair dela. Isso é muito verdadeiro, e está muito afim com a vocação de nossa Pátria. Quando a bondade não é aceita, então o brasileiro vai até o fim para extirpar o mal que provocou aquela desordem. Nós vimos isso, por exemplo, na guerra do Paraguai.

* * *

O que significa isso para o futuro? Significa que o Brasil, voltando às suas origens cristãs, restabelecendo a plenitude da observância da Religião Católica, restaurando a vigência da Lei Natural e, com ela, a ordem orgânica, hierárquica, monárquica e católica, poderá tornar-se –– e deverá tornar-se ––, sob o signo da Cruz, uma das maiores potências da Terra.

Potência não só do ponto de vista da riqueza e do poderio militar, mas principalmente do ponto de vista da influência e da bondade, no universo. Deve fazer brilhar, na sua plenitude, aquela bondade, aquele senso de estar juntos, olhar-se e querer-se bem, no mundo inteiro. E fazer com que todos os povos vejam no Brasil esse ideal, e o imitem, e que haja uma grande harmonia entre as nações, uma grande paz, um grande bem-estar em todo o mundo.

Tal é a vocação principal do Brasil.

Nossa índole é feita para isso. O que nos falta é retornar à Religião de nossos pais, restabelecer a moralidade, a sociedade orgânica; é fazer com que cada brasileiro e cada família, cada corporação, município, província, região, cada Estado enfim, tenha toda a plenitude de personalidade que lhe é própria, e desenvolva suas potencialidades dentro de uma sociedade orgânica.

Parece-me muito oportuno citar, a propósito das considerações acima, as palavras pronunciadas pelo grande líder e pensador católico Plinio Corrêa de Oliveira, no Congresso Eucarístico de 1942:

“A missão providencial do Brasil consiste em crescer dentro de suas próprias fronteiras, em desdobrar aqui os esplendores de uma civilização genuinamente católica, apostólica e romana, e em iluminar amorosamente todo o mundo com o facho dessa grande luz que será verdadeiramente o Lumen Christi que a Igreja irradia”.

É para isso, para obter graças para tal luta, com vistas a essa grande conquista, que eu apelo a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.


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