Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 502 | página 06-07
| RELIGIÃO | (continuação)

A devoção a Nossa Senhora Aparecida deitou raízes tão profundas na psicologia e na religiosidade do povo brasileiro que, nos momentos de crise como este pelo qual passa o País, para solidificarmos a fé autêntica e reencontrarmos a verdadeira identidade nacional, devemos reafervorar o amor à Padroeira. Só assim poderemos vencer as presentes dificuldades e caminhar rumo aos altos destinos históricos que aguardam nosso grande e querido Brasil.

O encontro milagroso

Foi em plena época colonial, quando a Nação estava forjando a sua personalidade através da catequização dos silvícolas, desbravamento das matas, conquista e povoamento do solo, que a Providência quis intervir milagrosamente em nossa História, pelo achado da imagenzinha da Aparecida.

A história desse encontro tem a beleza singela e sublime das narrativas evangélicas1.

Era o ano de 1717. Corria o mês de outubro.

D. Pedro de Almeida e Portugal, Conde de Assumar e Governador da Capitania de São Paulo, dirigia-se para as Minas Gerais, seguindo o curso do Rio Paraíba.

Ao chegar à Vila de Guaratinguetá, por ser dia de abstinência de carne, a Câmara Municipal solicitou aos pescadores da região que fornecessem peixes para o banquete que seria oferecido ao ilustre fidalgo português.

Entre os pescadores que se lançaram com suas barcas nas águas do caudaloso Paraíba encontravam-se Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso.

Em vão, porém, jogavam suas redes de um lado e de outro: elas voltavam sempre vazias, pois a temporada estava ruim.

Depois de muitos lances, João Alves, ao recolher sua rede, percebeu que havia apanhado alguma coisa. Surpresos, os três pescadores viram que se tratava do corpo de uma pequena imagem de barro, à qual faltava a cabeça.

Tornando a lançar a rede um pouco mais abaixo, o mesmo pescador recolheu a cabeça da imagem, o que deixou a todos maravilhados. Logo reconheceram que se tratava de uma representação de Nossa Senhora da Conceição.

A pescaria, até então infrutífera, tornou-se tão abundante que a barca quase afundava.

Prodígios confirmam a devoção

A devoção a Nossa Senhora Aparecida propagou-se graças aos prodígios e milagres que a cercaram, sendo o primeiro deles o próprio encontro da imagem.

Um dos pescadores, Felipe Pedroso, conservou a imagem por cerca de quinze anos em sua pobre casa, e depois fez presente dela a seu filho Atanásio, que a colocou num tosco altar.

Todos os sábados a vizinhança se ajuntava ali para rezar o terço e fazer outras devoções diante da imagem milagrosamente encontrada, a imagem “aparecida”, como diziam.

E o nome de “Aparecida” ficou designando a imagem: Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Numa das ocasiões em que os devotos ali rezavam o terço, as velas se apagaram, sem que houvesse vento, pois a noite estava serena. Silvana Rocha levantou-se para acendê-las, mas todos, maravilhados, viram que elas se acenderam novamente, sozinhas.

Este foi, segundo as antigas crônicas, o primeiro dos grandes prodígios operados pela Senhora Aparecida.

Logo vieram outros.

Várias vezes ouviram-se ruídos e estrondos onde se achava a imagem, e o tosco altar tremia, sem que ninguém tocasse nele. Estes fatos repetiram-se com insistência.

Compreenderam então que a Virgem queria que a imagem retirada das águas do Paraíba fosse venerada publicamente.

Para atender a esse manifesto desejo da Senhora Aparecida, ergueram-lhe uma capelinha, com o apoio do Padre José Alves Vilela, piedoso Vigário da Paróquia de Santo Antonio de Guaratinguetá, em cujo território a imagem fora encontrada.

“Famosa pelos muitos milagres realizados”

As graças e favores que a Senhora da Conceição Aparecida vem derramando sobre o Brasil são atestados por documentos dignos de todo o crédito.

Um dos primeiros a escrever sobre esses favores foi o mesmo Padre Vilela, o qual fez o relato básico do encontro da imagem e dos primeiros milagres da Aparecida. Num documento de 1743, o zeloso Vigário já se refere aos “muitos milagres que tem feito a dita Senhora a todos os moradores”.

A crônica da Missão pregada em 1748 pelos jesuítas ressalta igualmente a fama dos milagres: “Aquela imagem, moldada em argila ... é famosa pelos muitos milagres realizados. Muitos afluem de lugares afastados, pedindo ajuda para suas próprias necessidades”.

O Padre João de Morais e Aguiar, Vigário em 1757, comenta que “se foi dilatando a fama até que, patenteando-se muitos prodígios, que a Senhora fazia, foi crescendo a fé... Os prodígios desta imagem foram autenticados por testemunhas e ainda continua a Senhora com seus prodígios, acudindo a sua santa Casa romeiros de partes distantes a gratificar os benefícios recebidos desta Senhora”.

Aparecida e a Independência do Brasil

O Brasil tornou-se independente sob a maternal proteção de Nossa Senhora Aparecida.

D. Pedro, então Príncipe Regente, viajando do Rio de Janeiro para São Paulo, quis rezar diante da imagem da Aparecida. Prometeu consagrar-Lhe o Brasil, caso resolvesse favoravelmente complicada situação política.

Foi isto no dia 22 de agosto de 1822. Quinze dias depois, a 7 de setembro, na Colina do Ipiranga, em São Paulo, nascia o Brasil independente, pelo brado histórico do Príncipe que se tornava assim nosso primeiro Imperador, D. Pedro I.

Visitas da Princesa Isabel

No ano de 1868, a festa da Aparecida, que então se celebrava no dia da Imaculada Conceição (8 de dezembro), teve um brilho especial.

A Princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro, quis participar das festividades junto com seu marido, o Conde d’Eu. Vinham pedir à Senhora Aparecida a graça de um herdeiro.

Para manifestar a sua devoção, a Princesa doou para a imagem um manto riquíssimo, enfeitado com vinte e um brilhantes, representando as vinte Províncias do Império e mais um para a Capital.

Anos depois, em 1884, Dª Isabel voltava a Aparecida para agradecer a graça recebida. Feliz, vinha acompanhada não só do Esposo, mas igualmente dos três filhos, os Príncipes D. Pedro, D. Luís e D. Antonio.

A piedosa Princesa quis honrar a milagrosa imagem da Senhora Aparecida oferecendo-lhe dessa vez uma riquíssima coroa de ouro, cravejada de brilhantes. Essa coroa serviu, vinte anos depois, para a solene coroação da imagem, por ordem do Papa São Pio X.

Coroação da Rainha do Brasil

Em 1903, os Bispos da Província Eclesiástica Meridional do Brasil rogaram ao Santo Padre que mandasse coroar em seu nome a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, por ocasião do cinquentenário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, a transcorrer no ano seguinte.

No dia 8 de setembro de 1904 reuniram-se em Aparecida oito Bispos e dois Abades, tendo à frente o Núncio Apostólico, D. Júlio Tonti, numerosos Sacerdotes e Freiras, autoridades civis e militares, além de uma grande multidão de fiéis, vindos dos mais longínquos pontos do território nacional.

Após a Missa Solene celebrada pelo Núncio, o Bispo de Petrópolis, D. João B. Braga, proferiu vibrante sermão e leu a fórmula da Consagração do Brasil a Nossa Senhora Aparecida, que o povo, de joelhos, ia repetindo.

A seguir, o Bispo de São Paulo, D. José de Camargo Barros, cingiu a fronte da imagem com a coroa oferecida pela Princesa Isabel.

Padroeira do Brasil

Em 1930, atendendo ao sempre crescente aumento da devoção a Nossa Senhora Aparecida, e verificando as graças e favores insignes que Ela derramava sobre todo o País, o Papa Pio XI, a pedido dos Bispos brasileiros, proclamou-A Padroeira de nossa querida Pátria.

Renovação da Consagração e apoteose da Padroeira

No ano seguinte, o Cardeal D. Sebastião Leme, Arcebispo do Rio de Janeiro, quis renovar, em união com todos os Bispos brasileiros, a Consagração de nosso País à Senhora da Conceição Aparecida, por meio de uma grandiosa cerimônia, com a presença da verdadeira imagem da Padroeira.

A viagem da Rainha do Brasil por via férrea foi um triunfo, com grande aglomeração de fiéis em todas as estações do percurso.

Na então Capital Federal, a Senhora Aparecida foi recebida e acompanhada por uma multidão calculada em um milhão de pessoas.

No dia 31 de maio de 1931, o Cardeal Leme leu a fórmula da Consagração, na presença de todo o Episcopado, das mais altas autoridades civis e militares, do Corpo Diplomático e da imensa multidão de fiéis.

Foi essa uma das maiores demonstrações de Fé da História pátria e selou defrnitivamente a união do Brasil com a Virgem Aparecida.

As graças e milagres continuam

A história de Aparecida tem o milagre na sua origem.

Pinturas nas paredes da nave central da Basílica Velha representam de forma expressiva alguns dos primeiros milagres que se tomaram famosos.

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