Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 502 | página 18-19
| HISTÓRIA |

Há 500 anos as naus de Colombo aportaram na América

Carlos Sodré Lanna

Nas celebrações e protestos contra o V Centenário, a voz da Igreja desde o Descobrimento até nossos dias

Grande propaganda contra os missionários e os colonizadores vem sendo feita por ocasião da passagem de cinco séculos da descoberta das Américas, que se comemora no dia 12 do corrente.

Essa colossal onda publicitária, que se levanta contra tão gloriosa data, início da cristianização de nosso Continente, tende a contestar a própria missão dada por Nosso Senhor Jesus Cristo à sua Igreja “Ide, pois, e ensinai a todas as gentes” (Mt. 28, 18-19).

Defensores do neotribalismo missionário e indigenista, os principais nomes da Teologia da Libertação têm condenado a conquista e a evangelização da América e vêm preparando há tempos seus protestos contra as celebrações do V Centenário.

Soneto ao "irmão Judas"

Em julho de 1986, reuniu-se em Quito (Equador) a II Consulta Ecumênica da Pastoral Indígena Latino-Americana. Representantes de 15 países do Continente lançaram um “manifesto indígena”.

Nele expressa-se, pela primeira vez com apoio católico, uma “recusa total das celebrações triunfalistas do V Centenário”.

Para os delegados dos índios “não houve o tal descobrimento, mas uma invasão com suas implicações: genocídio pela ocupação, usurpação de territórios, desintegração das organizações sócio-políticas e culturais e sujeição ideológica e religiosa”.

Da Associação de Teólogos do Terceiro Mundo, o antigo religioso franciscano Leonardo Boff e Virgilio Elizondo lançaram um manifesto contra a evangelização da América. Dizem eles: “No dia 12 de outubro de 1492 começou para a América Latina e para o Caribe uma sexta-feira santa de dor e de sangue, que prossegue até agora sem conhecer o domingo da Ressurreição. 1492 é a data dos conquistadores e não das populações autóctones. Não é a lembrança duma bênção, mas o pesadelo de um genocídio”*.

Assim se expressa sobre o mesmo assunto, aqui no Brasil, Dom José Maria Pires, Arcebispo de João Pessoa (PB): “Pode-se celebrar o V Centenário por uma festa triunfal mas também por uma celebração penitencial pedindo perdão pela destruição das civilizações índias e a deportação de africanos em escravidão”. ("La Croix", 2-11-1990).

Por sua vez, D. Erwin Krautler, Bispo do Xingu, afirma: “Na América havia 90 milhões de indígenas e 70 milhões foram exterminados. Tenho que dizer que a Igreja tem em tudo isso culpa histórica. Ela deve fazer exame de consciência e não celebrar o descobrimento” ("El País", Barcelona, 29-4-1991).

Nesse triste elenco, não poderia faltar Dom Pedro Casaldáliga. O bispo de São Félix do Araguaia afirma, em circular aos diocesanos, no Ano Novo de 1991:

“Na Igreja urge falar a verdade sobre o V Centenário, já que desde o primeiro momento da conquista da América a mentira acompanhou a cobiça, a espada e a catequese".

Na mesma circular, Dom Casaldáliga faz esta significativa revelação de seu pensamento:

“Acho que Deus nem sequer é juiz. Ao final o problema de Deus vai ser condenar alguém. Há pouco tempo fiz um soneto a Judas. E o chamo Judas, irmão Judas, companheiro”. E a seguir pergunta: “Tu achas que Judas foi pior que eu?”

Em uma segunda circular, no Ano Novo de 1992, Dom Casaldáliga comenta novidades da campanha contra a celebração do V Centenário: “Para as vítimas, o V Centenário é a memória subversiva de 500 anos de invasão militar, política, cultural social de genocídio. É também a memória subversiva da eliminação de 90 milhões de seres humanos, indígenas e negros, durante o colonialismo, e que hoje continua no massacre disfarçado das populações operárias, camponesas indígenas e do povo pobre em geral. Nenhuma página da história humana narra um genacídio-etnocídio maior”.

A verdadeira doutrina católica sobre a evangelização da América

Em face das novidades que esses neomissionários querem nos inculcar, cumpre conhecer a verdadeira doutrina católica a respeito.

Numa continuidade impressionante, os Romanos Pontífices, desde Alexandre VI até João Paulo II, pronunciaram-se sobre o tema à margem das controvérsias históricas, de modo a não deixar dúvidas.

A Livraria Editora Vaticana acaba de publicar uma coletânea de 837 documentos papais somente do período 1493-1591, intitulada "Americae Pontificiae - Primi Saeculi Evangelizationis", aos cuidados do Pe. Josef Metzler, diretor da Escola Vaticana de Paleografia. Ela reúne as bulas de Alexandre VI até Gregório XIV, conservadas no Arquivo Secreto do Vaticano, sobre a evangelização das Américas.

Em sua célebre Bula "Inter Caetera", de 3 de maio de 1493, Alexandre VI afirmava que “a Fé católica e a Religião cristã sejam exaltadas sobretudo em nossos tempos e por onde quer que se ampliem e dilatem, e se procure a salvação das almas, e as nações bárbaras sejam submetidas e reduzidas à Fé cristã”.

Em29 de maio de 1537, o Papa Paulo III, com sua "Pastorale officium", condenava o comércio de escravos e afirmava que os indígenas deveriam ser considerados homens e não animais.

Pouco depois, o mesmo Paulo III, no documento "Exponi nobis super fecisti", concedia aos sacerdotes que trabalhavam nas Américas a faculdade de denunciar às autoridades os colonos que escravizavam os silvícolas do novo Continente.

São Pio V, em carta de 10 de agosto de 1568, elogiava o zelo pela conversão dos índios manifestado pelo Rei da Espanha, Felipe II. O Papa acompanhava com vigilante atenção a idoneidade das nomeações de vice-reis e autoridades menores responsáveis pela evangelização e proteção dos aborígines americanos contra possíveis excessos cometidos pelos colonizadores.

Confirmando a doutrina corrente na época, os Pontífices ratificaram o direito das nações ibéricas de colonizar a América e evangelizar seus habitantes. Para isso, delegavam responsabilidades e faculdades especiais aos reis de Portugal e Espanha, cuja reconhecida vocação apostólica exaltavam.

Quem percorrer os documentos papais do primeiro século de colonização, constatará o elogio feito à magna obra civilizadora. E também o minucioso cuidado da Igreja na correção dos abusos cometidos, pelo respeito aos direitos naturais dos índios e seu modo de vida no que tivesse de legítimo ou resgatável.

O Papa Gregório XIII publicou nada menos do que 155 documentos e, Sisto XV, 102, quase todos destinados a fixar normas para favorecer a conversão dos índios.

O IV Centenário do Descobrimento da América mereceu uma Encíclica do Papa Leão XIII, em 16 de julho de 1892, sob o título “Quarto abeunte saeculo”.

Pio XII, em mensagem de 8 de janeiro de 1948, chamou o processo de evangelização da América de “epopeia missionária”.

Por fim, João Paulo II, ao encerrar o Simpósio Internacional sobre História da Evangelização da América, no Vaticano, em 14 de março de 1992, reafirmou os ensinamentos de seus predecessores e recapitulou os “fundamentos de uma colonização cristã” desenvolvidos por Frei Francisco Vitoria (1480-1546), dominicano espanhol da famosa Escola de Salamanca.

O Papa lembra que o mestre dominicano explanou os direitos naturais dos índios como “seres racionais e livres, criados à imagem e semelhança de Deus, com um destino pessoal e transcendente pelo qual podiam salvar-se ou condenar-se”.

O Pontífice destaca que, “conforme a doutrina exposta por Vitoria, em virtude do direito de sociedade e de comunicação natural os homens e povos melhor dotados tinham o dever de ajudar aos mais atrasados e subdesenvolvidos”. Assim justificava Vitoria a intervenção da Espanha na América.

* * *

Nada mais contrário, pois, à posição dos neomissionários, do que o firme e ininterrupto ensinamento dos Papas a respeito da evangelização da América.

“A Voz das vítimas, Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1960 OUTRAS OBRAS CONSULTADAS: 1. Plinio Corrêa de Oliveira, Tribalismo Indígena, Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI, Editora Vera Cruz, São Paulo, 1979. 2. Alberto Caturelli, El Nuevo Mundo - El Descubrimiento, La Conquista y la Evangelización de América y La Culturà Occidental, Centro Cultural Edamex, Cidade do México, 1991.
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