Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 489 | página 08-09
| CRIMINALIDADE |(continuação)

Verdadeiras e falsas soluções

Um criminoso dorme em cada homem que não segue inteiramente a moral.

Pense comigo, leitor: é a polícia que mantém a ordem nas cidades?

Dir-se-ia que sim. Se a polícia desaparecesse, num instante o crime tomaria conta de tudo. Com a polícia, a cidade entra em ordem. Logo, é a polícia a causa da ordem.

Esta é uma meia verdade. Pois pela própria natureza das coisas os policiais são uma escassa minoria na população. O que pode um homem, ainda que fardado, armado, super-armado, contra cem, mil, dez mil pessoas?

"É que, por detrás deste homem, existe a força da lei".

Quanta ingenuidade! Sem dúvida a força da lei existe, mas é insuficiente para que a ordem se mantenha. Pois, como diz um provérbio italiano, "farta Ia legge, trovatto l'imbroglio". Ou seja, logo depois de feita a lei, é possível encontrar o furo pelo qual frequentemente ela se toma inoperante.

O que, então, faz com que ainda haja nas cidades um resto de ordem? Que por enquanto não tenhamos resvalado para o caos absoluto, e não estejamos debandando para a selva, cujos tambores, segundo música popular ecofanática, estão rufando para nos chamar?

O principal fator de ordem é a convicção da maior parte dos que obedecem, de que devem obedecer. De que este é um dever e uma vantagem.

A força do Estado não é ideada, não é construída para manter em ordem uma população que queira, inteira, sublevar-se; se isso acontecesse, também os soldados ficariam solidários com ela e adeririam ao motim.

O eixo principal da ordem - convém repetir - não é a força, é a convicção, ainda que implícita.

Ora, tal convicção está se evaporando. E aí se encontra o cerne do problema da criminalidade.

"Conexões psicológicas"

Quais as causas dessa evaporação? Poderia falar das omissões, tão graves, inclusive - infelizmente - de muitos eclesiásticos. É interessante, de passagem, abordar outro aspecto.

As conexões do crime com a droga, o permissivismo, a televisão (que frequentemente faz propaganda dele), têm sido estudadas. Seria de desejar que o fossem também algumas "conexões psicológicas" ainda mais importantes. Elas abalam justamente a convicção de que a ordem deve reinar na sociedade e conduzem à indiferença.

Parafraseando Rui Barbosa, poder-se-ia dizer que um criminoso dorme em cada um dos homens honestos que não seguem inteiramente a moral. Talvez esse criminoso não acorde nunca, ou seja, o homem não se torne um bandido. Mas atua dentro da cabeça de seu hospedeiro, causando nele uma tendência para ser indiferente ou indulgente para com o crime.

No fundo de seu subconsciente, esse homem pensa: – Eu não vou ser muito severo para com o delinquente, para não ter de ser severo comigo mesmo".

Por exemplo: será fácil, a quem não recua diante de pequenas trapaças nos negócios, rejeitar inteiramente o roubo? Será fácil, para quem se apoderou de milhões numa "jogada", condenar o pequeno ladrão que furta uma carteira numa feira-livre? Essa situação psicológica enfraquece terrivelmente a sanção social que deveria haver contra o crime.

Barreira do horror

Dito isto de passagem, convém voltar ao tema anterior.

Havia, não há muito tempo, uma barreira de horror que separava o delinquente do homem honesto. Essa barreira constituía a mais eficiente repressão ao crime. Hoje, está minguando a olhos vistos.

Ao par de muita reação temperamental diante da delinquência, há também uma atonia espantosa e uma quase indulgência em muitas rodas, de sorte que já não pesa sobre o criminoso a unanimidade da recusa nacional.

Por vezes o homem da lei é visto, pela sociedade, com antipatia enquanto o delinquente é considerado uma "pobre vítima"...

Por outro lado, as autoridades que aplicam a lei poderiam receber mais apoio. A sanção social poupa o crime, mas muitas vezes não poupa o homem da lei que o reprime. Pelo contrário, o cumprimento do dever por este é visto com indiferença, quando não com antipatia: Fulano é um duro, um "radical", um extremado, quase um extremista. E os delinquentes são "pobres vítimas do capitalismo"...

Quantas vezes o bandido presenciou na TV, com indiferença, cenas infames que o levaram à conaturalidade com o crime?

Quase sempre é certo que o próprio bandido não praticaria o crime se tivesse sentido essa barreira de horror em seu quotidiano. Em sua casa, quem sabe, quantas vezes viu ele a família inteira presenciar na televisão, com indiferença, cenas infames? Faltou-lhe formação religiosa e moral adequada. Geralmente, tudo quanto podia desmontar nele as reservas morais contra o mal foi desmontado, antes da queda.

Ele cai. E ainda a ausência dessa barreira de horror que faz com que ele possa contar com a passividade dos que presenciam o crime. Que tenha onde se esconder depois de praticá-lo. Que conte com uma punição leve, se apanhado.

O criminoso sente que não há freios para sua tendência a fazer o mal. Então... faz o mal.

Assim como se diz que "todos os caminhos levam a Roma", também poder-se-ia dizer que hoje quase todos os caminhos levam à indiferença. E, a partir da indiferença, muitos caminhos levam ao crime.

Um exemplo de autofagia de segmentos de nossa sociedade. Dois jovens de classe média, no mês passado, mataram um policial e morreram tragicamente no Rio, em uma tentativa de rapto. Certa mídia os transformou em cavaleiros românticos, em busca de aventura. Todos ficaram com pena deles. Falou-se um pouco das artistas famosas que seriam suas vítimas. Do soldado que morreu, quase nada.

Invenções engenhosas também são colocadas a serviço da insensibilidade. Veja-se esta notícia, vinda da Alemanha:

"Pernas e braços sangrando, corpos esquartejados ou até cabeças têm aparecido em diversos pontos do país, criando pânico entre a população e - por incrível que pareça - divertindo alguns engraçadinhos. É que os 'cadáveres' são de látex, importados da Itália" ("Folha de S. Paulo", 17-8-91).

Desta e de muitas outras maneiras, tudo aquilo que causa horror à natureza humana vai se banalizando.

É como se a sociedade dissesse: – Crime, continue, você nos diverte.

Não é de estranhar que, como dissemos, o quadro da delinquência em nosso país pareça com uma ladainha de maldições.


Ao alcance de sua mão

Catolicismo julga que há muitas providências concretas que podem ser tomadas contra o crime, e que elas não devem ser negligenciadas. A impunidade legal que muitas vezes protege a ele, deve cessar. A propaganda indecente que recebe de certa mídia, absolutamente não pode continuar. Conviria, em particular, estudar com cuidado a aplicabilidade da lei italiana antissequestros. Conviria tomar todas as demais medidas cabíveis. Se o leitor está em condições de propulsionar algumas delas, é de seu dever fazê-lo, o quanto antes.

Algo mais, entretanto, deve ser executado numa esfera especial. Trata-se do ambiente geral do país, que não pode ser mudado nem pela polícia, nem mesmo pelas leis. Já que o fundo do problema está numa crise do próprio homem, a solução deve partir de cada um.

Permita-me indicar algumas maneiras de como isto se poderia fazer:

– Não perdendo nenhuma ocasião para manifestar, com calma e com argumentos, sua indignação contra o crime e os criminosos.

– Mostrando que, mesmo quando possam ter atenuantes, são culpados. E não meras vítimas da sociedade. Sua consciência certamente os acusa.

– Protestando contra a banalização da delinquência, subproduto da indústria cultural de certos jornais e TVs.

– Apoiando e elogiando, nas conversas, as autoridades que mais se destacam na luta contra o crime.

– Lembrando estar muita gente do lado delas, como se observa de maneira insofismável pela votação obtida em eleições por parte de algumas dessas autoridades que se candidataram.

– Criticando com severidade os omissos.

– Despertando o senso moral dos indiferentes.

– Analisando com cuidado as próprias eventuais "conexões psicológicas". Pois a ordem começa dentro da própria casa.

– Comentando, por exemplo, este artigo.

Saia da divagação. Faça algo de prático, e que está ao alcance de sua mão. Comece hoje. Contribua para fazer cessar esse estado de coisas, que ao pé da letra se poderia chamar uma dissolução".

A Providência divina o ajudará.


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