Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 489 | página 18-19
Página 18-19 | HAGIOGRAFIA |

secretário, pedindo esclarecimentos sobre complexas questões exegéticas. As respostas plenamente satisfatórias, que revelavam não só os profundos conhecimentos como a piedade e a fé ardente do presbítero, levaram o Pontífice, penetrado de admiração, a conceber o projeto de pedir-lhe uma tradução completa da Bíblia, de que a Igreja então muito necessitava.

De fato, nessa época era usada comumente pelos católicos uma versão latina, conhecida por "Itálica", que fora preparada de acordo com uma versão grega chamada dos Setenta. Desta versão foram feitas muitas cópias eivadas de erros. Impunha-se, pois, uma nova tradução, que afastasse esses inconvenientes e ao mesmo tempo conservasse o mais possível elementos do texto com o qual os fiéis já estavam acostumados. Foi esse trabalho hercúleo que São Dâmaso pediu a São Jerônimo.

Este, prevendo embora as consequências que teria de enfrentar e as críticas de que seria alvo, aceitou a incumbência.

Defensor da virgindade de Maria

É conhecida a energia com que São Jerônimo defendia a doutrina católica contra a heresia, a ponto de a liturgia da Igreja celebrá-lo gloriosamente como "flagelo dos hereges".

Abrasado pelo amor de Deus, não suportava que hereges e pagãos insultassem a verdade ensinada por Nosso Senhor Jesus Cristo. As suas respostas mordazes, cheias de verve e cintilantes de inteligência, sabiam apontar no adversário os defeitos morais que o levavam a defender o erro.

Disso resultava o ódio contra ele, que extravasava em injúrias, perseguições e tudo quanto a maldade humana sabe inventar ao ver-se desmascarada.

Um desses espíritos heréticos era o extravagante e faceiro Helvidius, que escreveu um tratado atacando a virgindade de Nossa Senhora.

São Jerônimo refutou-lhe completamente os débeis argumentos, e terminou o seu escrito com uma advertência: 'Bem sei, Helvidius, o que posso esperar agora de tua parte. Eu te conheço: és daqueles que costumam esperar as pessoas nas esquinas para as enlamear. Previno-te, no entanto. Tuas injúrias serão minha glória. Vem, insulta-me com essa boca que blasfemou a Virgem Maria: é uma honra para o humilde servidor ser tratado como a Mãe de seu Senhor".

Análogas manifestações da eloquência polêmica do Santo tiveram de sofrer Joviniano, Vigilância, Pelágio e outros hereges ainda.

Na festa de São Jerônimo (30 de setembro), peçamos a Deus Nosso Senhor, por intercessão de Maria Santíssima, que nos conceda tanto a firmeza doutrinária do grande Doutor quanto sua fortaleza contra os hereges, em meio à crise progressista que assola a Santa Igreja em nossos dias.

Obras consultadas: 1. Vies des Saints illustrées pour tous les jours de l'Anriée, Bonne Presse, Paris, setembro/outubro. 2. Dom Guérariger, L'Année Liturgique, Maison Alfred Mame et Fils. Tours, 1922, Tomo V. 3. Dom Gaspar Letebvre, Missel Quotidien et Vespéral. Societé Liturgique, S.A., Paris, 1950. 4. B. Liorca et alii, Historia dela Iglesia Catolica, BAC, Madri, 1955, Tomo 1. 5. Doctrina Pontificia, Documentos Biblicos, BAC, Madri, 1955. 6. Le Breviaire Romain - Propre des Saints. Labergerie, Paris.

Apoteose de São Jerônimo, por Zurbarán.


Para entender este artigo

ARIANISMO: Doutrina do Bispo Ario (século III) que nega a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao negar a unidade e a consubstancialidade das três pessoas da Santíssima Trindade. Essa heresia foi condenada pelos Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381).

DOUTOR DA IGREJA: É aquela figura ilustre da Santa Igreja, que por sua santidade, ortodoxia de Fé, e sobretudo por sua ciência eminente nas coisas sagradas, foi honrado com esse título por decreto especial da Santa Sé. Foi posto na Igreja para ensinar.

PADRES DA IGREJA: São os escritores eclesiásticos mais antigos, que se distinguiram de modo geral pela ortodoxia de doutrina e santidade de vida, sendo reconhecidos pela Igreja como testemunhas da tradição divina, recebida de Nosso Senhor e dos Apóstolos.

PELAGIANISMO: Doutrina herética do monge Pelágio, difundida a partir do século V. Sustenta que o homem não precisa da graça sobrenatural para praticar o bem e alcançar a salvação. A natureza se basta a si mesma. Essa doutrina foi condenada pelo Papa São Zózimo em um sínodo realizado em Roma, no ano 418, e pelo Concílio de Éfeso (431).


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Um imaginário Mitrídates

O leitor bem conhece a história do rei Mitrídates, um soberano da Antiguidade pagã que, devorado pelo receio de ser envenenado, se pôs a ingerir doses sucessivamente maiores de veneno e acabou por tornar seu organismo insensível a este.

Imagine-se um outro "Mitrídates" hipotético, que se tornasse inconscientemente objeto de uma ação maléfica de inescrupuloso adversário, interessado em embotar sua lucidez intelectual e amortecer sua consciência moral. E para isso, lhe fosse ministrando, paulatinamente, doses de misterioso veneno. Ao fim do processo, o pobre homem teria sofrido, sem o saber nem querer, uma imensa transformação: teria ficado insensível ante o belo e o feio, ante o bem e o mal, a verdade e o erro.

Que juízo faríamos do criminoso que assim procedesse? Que providências tomaríamos para ajudar a pobre vítima tão maltratada? Isso não existe, diria alguém.

Sim, um tal veneno, na ordem material provavelmente não existe. Mas o leitor está igualmente seguro de que não existe na ordem psicológica?

Para muitos, algumas reminiscências do tempo em que eram crianças poderão aclarar as ideias. Considerem, por exemplo, como se vestiam os jovens daquele tempo. Imaginem que numa reunião familiar irrompesse um parente trajando jeans desbotados e rasgados; cabelo à "porco-espinho", brincos nas orelhas e e um alfinete de gancho atravessado na boca, à moda punk? É difícil calcular a reação de espanto e horror produzido naquele ambiente! Encontraríamos, hoje em dia, uma reação assim por parte daqueles que, entretanto, são contrários a essa moda?

O que se teria passado nas mentalidades de incontáveis pessoas para de tal modo se habituarem ao feio, ao desordenado, ao horrendo?

Mas, se o leitor se der ao trabalho de investigar a mudança de atitudes das gerações que se vão sucedendo, diante daquilo que outrora era reputado intolerável, certamente se surpreenderá com as revelações obtidas.

Experimente, pois, e se quiser nos escreva comunicando-nos seu depoimento; na medida do possível, com prazer o transcreveremos em nossas páginas.

Para facilitar seu trabalho, segue um exemplo: o verdadeiro católico, cumpridor dos Mandamentos, ao ver uma afronta feita a Nosso Senhor Jesus Cristo, a Nossa Senhora, isto lhe fere muitíssimo mais do que se fosse feita a si próprio. A razão é evidente: o amor a Deus está acima do legítimo amor a si próprio. Ora, a blasfêmia é uma ofensa direta a Deus Nosso Senhor, e deve provocar a mais indignada repulsa da parte de um filho da Igreja.

Houve tempo em que as coisas se passavam assim. Não muito distante de nós traços marcantes dessa integridade moral ainda se fizeram sentir.

Muitos talvez se recordem de que, no início dos anos 60, a propósito de um campeonato mundial de futebol ganho pelo Brasil, um certo matutino paulista publicou uma charge em que a imagem de Nossa Senhora Aparecida figurava com os traços fisionômicos do jogador Pelé. O repúdio da população católica brasileira foi unânime e imediato. Protestos ecoaram dos púlpitos das igrejas, e ganharam as páginas dos jornais. Atos religiosos de desagravo como Santas Missas, adoração ao Santíssimo Sacramento, procissões de reparação se multiplicaram. O jornal em questão viu-se obrigado a se retratar.

Ora, as blasfêmias que se propagam hoje em dia. . . são torrentes! Pouco tempo atrás, um cartaz blasfemo reproduzindo o Cristo Redentor, do Corcovado, foi usado para a propaganda de maillots; recentemente, uma emissora de TV levou ao ar o infame filme Je vous salue Marie; conhecido programa humorístico de uma das mais poderosas emissoras de televisão utiliza-se de uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré como elemento de seu número, repleto de vulgaridades e obscenidades... Iríamos longe nesta enumeração.

Onde, entretanto, os protestos da população católica? O que se passou com o nosso Brasil católico nesses 30 anos? Foi "mitridatizado"?!

Se o leitor se interessa, como nós, por tais assuntos, procure amigos e conhecidos, converse com eles sobre isso, e escreva-nos, se quiser... Estaria assim contribuindo para despertar do letargo o nosso imaginário "Mitrídates".

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