GorbaSHOW?
R. Mansur Guérios
A "semana que modificou a História da URSS", como classificam alguns os dias de golpe e contragolpe na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, poderia ser qualificada de "semana confusa".
Ante um Ocidente otimista e despreocupado, o dia 19 de agosto trouxe de volta o espectro sombrio do que acreditavam para sempre afastado: a perspectiva de retorno à guerra fria e, quiçá, de um confronto nuclear. Nos dias subsequentes, desenrolou-se, em velocidade frenética, um verdadeiro "show" de notícias que sucessivamente confirmavam, desmentiam e alteravam tais apreensões.
A tentativa de derrubada e a volta desajeitada de Mikhail Gorbachev, o infladamente poderoso presidente da URSS, secretário geral do Comitê Central do Partido Comunista, é de molde a levantar perguntas sem todavia obter-se respostas claras, seguras e concludentes. Exceto, parece, num ponto, adiante apresentado.
Para se compreender essa "semana confusa", é preciso considerar, sumariamente, o contexto da URSS nestes últimos tempos.
Reformas
Gorbachev e suas tão propaladas reformas – sem abandonar o comunismo –, ao contrário do prometido, não estavam conseguindo tirar a URSS da profunda crise que a domina de alto a baixo. As dificuldades econômicas, políticas, étnicas etc., somavam-se as reivindicações de independência de países que há décadas sofriam sob o tacão comunista.
A ambiguidade do presidente da URSS – por um lado dizia-se favorável à livre iniciativa e por outro confessava-se socialista convicto – está entre as causas da reserva Ocidental em auxiliá-lo ainda mais largamente, permitindo-o vencer a crise de seu país.
Há cerca de três anos, Gorbachev passou a aproximar-se da velha guarda do Partido, aparentemente para se colocar como meio termo entre os reformistas extremados e os assim chamados "conservadores". Mesmo assim – como pseudo-líder do meio termo – não conseguiu ele os auxílios que pretendia do Ocidente. Ultimamente Gorbachev parecia decidido a se afastar da ala "dura" do PC soviético, o que teria provocado nestes o desejo de derrubá-lo.
Na realidade, os fatos levantam indagações a esta visão simplista dos acontecimentos.
Sem segredos
Com efeito, já em dezembro de 1990, o ex-Ministro das Relações Exteriores da URSS, Edvard Shevardnadze, afastava-se do governo denunciando a preparação de um golpe. Dois dias antes do golpe, Alexander Yakovlev, antigo auxiliar de Gorbachev, denunciou o mesmo fato. Entre estas duas denúncias, várias outras fontes seguras – "Time", "The Economist", "Newsweek", "L'Express", "The International Herald Tribune" – alardearam, de modos diversos, tal preparação. É inexplicável que Gorbachev não tenha tomado medidas apurando o fundamento desses rumores.
Gorbachev, ao contrário, com uma tranquilidade que os fatos desmentiam, foi tirar férias na Criméia. Ocasião esta escolhida pelos golpistas para executar seus planos.
Os desdobramentos do golpe levantaram perplexidades:
– Seus protagonistas: homens escolhidos pelo próprio Gorbachev, alguns expressamente indicados para evitar traição;
– A execução do golpe: inteiramente amadorística. Os tanques só apareceram nas ruas muitas horas depois da "Comissão de Emergência" ter assumido o poder, substituindo um Gorbachev "doente". Sequer inventaram uma "doença" similar para o "reformista" radical, Boris Yeltsin. Este ficou livre e desimpedido para chamar a atenção do povo e arengar a massa que, aliás, só morosamente se pôs em movimento e se dirigiu a logradouros públicos, atraída pelos acontecimentos (cfr. "The Economist", 31-8-91, p. 19).
– Cenas patéticas: por ex., um civil tirando soldado de dentro de um tanque, ilustram a ilogicidade dos acontecimentos. Só muito depois de iniciado o golpe, quando a chamada "Comissão de Emergência" já dava mostras de fraqueza, começaram algumas escaramuças. Estas causaram proporcionalmente poucas vítimas para uma ação de tal envergadura.
No Ocidente, entre os governantes dos diversos países, eclodiu verdadeira histeria pró-Gorbachev. Poder-se-ia talvez compará-los a um bando de meninos reclamando a volta de seu parceiro de folguedos. A máscara de cordeiro de alguns esquerdistas, tidos como moderados, caiu ao apoiarem açodadamente o golpe. É o caso de François Mitterrand.
Conluio?
Dominada a situação por Yeltsin e seus fiéis seguidores –capitalizando um descontentamento crescente, que tomou proporções de categórica reação anticomunista – procedeu-se ao retorno de Gorbachev. Este, para desconcerto de muitos, proclamou mais uma vez sua crença no socialismo e voltou a indicar o Partido como o meio de conduzir as reformas.
Diante das inexplicáveis incongruências manifestadas na execução do golpe, começaram a surgir, de fontes idôneas veiculadas por órgãos da mídia, suspeitas de um conluio entre Gorbachev e os golpistas. Vários pronunciamentos de personagens internacionais aventaram tal hipótese.
Entre eles Shevardnadze, em entrevista a uma TV francesa, insinuou essa possibilidade. O jornal "Troud", órgão dos sindicatos da Bulgária, disse que o golpe não passava de uma farsa. O presidente da Geórgia, Zviad Gamsakurdia, enumerou, em termos contundentes, as falhas primárias na consecução do golpe, concluindo ter sido tudo uma comédia.
Além disso, há o famoso caso da "caixa preta", contendo os códigos que permitem o lançamento de artefatos nucleares. Num primeiro momento, membros da "Comissão de Emergência" declararam deter a mesma. Depois, noticiou-se que ela jamais saíra do alcance de Gorbachev. Se confirmado tal fato, este nunca fora deposto, pois sempre estivera no comando de 287.000 homens que cuidam, em terra, mar e ar, das 12.000 ogivas nucleares e 18.000 bombas atômicas táticas. Finalmente, procurou-se desmentir tal hipótese, dizendo que os golpistas, depois de visitarem Gorbachev na Cri-méia convidando-o para associar-se a eles, levaram a "caixa preta".
Farsa?
Qualquer que seja a veracidade dessas hipóteses, dificilmente teremos uma resposta cabal para elas. É estarrecedora a ideia de uma farsa de tal monta. Por quê? Para quê?
Após o golpe – real ou de opereta – ficou patente a inconsistência das alegações de Gorbachev quanto ao "poderio" da "linha dura". Acenava ele para um "perigo" que não passou de fantasmagoria.
Seguiu-se, também, o desmontar em cadeia dos diversos comitês do Partido comunista disseminados pela URSS. E o esfacelamento do império soviético tomou impulso vertiginoso. Até o presente, dez das 15 Repúblicas que constituíam a URSS declararam-se independentes.
E de notar que à testa dessa onda secessionista, supostamente prejudicial ao comunismo, encontram-se na quase totalidade das vezes ... comunistas; dissidentes ou não, dizendo-se mais ou menos "arrependidos".
Em face de todo o ocorrido na União Soviética, uma pergunta se impõe: extinto o PC, o comunismo realmente deixou de existir?
Indenização - Muitos esquerdistas, entre os quais figuram diversos cripto-comunistas, têm afirmado que sim. E daí deduzem açodadamente que ... também o anticomunismo perdeu sua razão de ser.
Esse último ponto é para os comunistas ostensivos, os cripto-comunistas e os socialistas, de importância capital. Pois, a extinção do anticomunismo os indenizaria, em boa medida, pelos inconvenientes que a eliminação do PC e o desmoronamento parcial ou total da URSS parecem lhes estar causando. E isso a tal ponto, que não faltou quem se perguntasse: não será essa aparente ruína do comunismo manobra para tentar pulverizar o anticomunismo?
Na realidade, tudo não passa de dúvidas, confusão e um sinistro amálgama de manejos, acerca de cujo resultado final é prematuro fazer qualquer prognóstico. Com tal visão, parece concordar a imensa maioria dos que no Ocidente acompanham os acontecimentos com olhar lúcido.
Entre esses, não estão os ingênuos. O ingênuo é, por excelência, otimista. Como, reciprocamente, o otimista é por excelência ingênuo.
Uns e outros - otimistas e ingênuos - acham, ainda agora, que esse estranho curso dos acontecimentos resulta exclusivamente de propósitos elevados. E que, de tal conjuntura nascerá forçosamente para o mundo, dentro em breve, uma era idílica de paz, bem-estar e concórdia. Destes, positivamente divergimos. E diamentralmente.