Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 488 | página 16-17
| REVOLUÇÃO E CONTRA-REVOLUÇÃO |

Muitas crises? Ou uma só?

Plinio Corrêa de Oliveira mostra qual é, em profundidade, a verdadeira crise que devora todas as outras.

"Revolução e Contra-Revolução" – Autor: Plinio Corrêa de Oliveira. Livro de cabeceira das TFPs e de alguns outros movimentos europeus, a obra analisa o processo de descristianização da sociedade temporal e laicização da sociedade espiritual iniciado no século XV, que vai atingindo seu ápice nos dias que correm. Aponta também as metas e os métodos aptos a cortar o passo e extinguir o processo revolucionário.

* * *

Se existem duas palavras que estão nos lábios de muitos, são elas "confusão" e "crise". O que se vê de todos os lados, senão coisas que não se entendem e problemas que não se resolvem?

A confusão em boa parte decorre da impressionante soma de crises com que nos deparamos: crise da moralidade pública, crise da economia, crise da segurança, crise da educação, crise da saúde, "crise dos sistemas democráticos" (de que fala João Paulo II na "Centesimus Annus"), crise do Estado, crise da família, crise dos indivíduos... repete-se continuamente a palavra crise que, aliás, é em si mesma bastante expressiva: o "cr", depois o "i", parecem evocar, pelo som, um pequeno choque elétrico, que embora quase imperceptível, semeia o desassossego por toda parte em muitos momentos da vida.

O fenômeno pede uma análise mais profunda.

Imaginemos uma pessoa que simultaneamente passa a sentir diversos sintomas de doenças: ela tem dores de cabeça, tosse, perde a fome, sua temperatura sobe etc. Cada um desses sintomas é uma pequena crise. Mas tal pessoa seria uma desatinada se não procurasse encontrar uma causa unitária que os explicasse todos, tentando curar a dor de cabeça com uma terapia, a tosse com outra, a perda da fome e a febre com ainda outras mais etc.

O exemplo é corriqueiro e está ao alcance de todos.

O mesmo acontece com a sociedade.

O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira escreveu, justamente para os leitores desta revista, a obra "Revolução e Contra-Revolução", na qual analisa o tema. Suas considerações sobre este problema ultrapassaram logo nossas fronteiras, tendo o referido livro repercutido intensamente em outros países, ainda mais do que no Brasil.

As problemáticas complicadas têm muitas vezes soluções simples, e o diagnóstico do insigne colaborador desta revista vai diretamente ao ponto: essas muitas crises "não constituem senão múltiplos aspectos de uma só crise fundamental": a crise do homem (I,1).

Em sua obra, ele exemplifica de forma bela e expressiva:

"Quando ocorre um incêndio numa floresta, não é possível considerar o fenômeno como se fosse mil incêndios autônomos e paralelos, de mil árvores vizinhas umas das outras. A unidade do fenômeno 'combustão', exercendo-se sobre a unidade viva que é a floresta, e a circunstância de que a grande força de expansão das chamas resulta de um calor no qual se fundem e se multiplicam as incontáveis chamas das diversas árvores, tudo, enfim, contribui para que o incêndio da floresta seja um fato único, englobando numa realidade total os mil incêndios parciais, por mais diferente, aliás, que cada um destes seja em seus acidentes" (I,3,2).

Fala-se das queimadas e dos prejuízos que acarretam para o meio ambiente. Mas que é isso em comparação com esse incêndio que tomou conta da antiga Cristandade e que "acabou por atingi-la toda inteira, pelo calor somado e, mais do que isto, fundido, das sempre mais numerosas crises locais que há séculos se vêm interpenetrando e entreajudando ininterruptamente"?

Ensina o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira que a crise da qual nos estamos ocupando, é universal, una, total, dominante e processiva. Hoje nos detivemos em uma dessas características: a unidade. Pretendemos voltar ao assunto.

José Belmonte


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Jeitinho e sonho

Talvez se possa dizer que "jeitinho" é como a palavra "saudade", intraduzível para qualquer outra língua. Pois o "jeitinho" brasileiro tem algo de inconfundível, e nossos conacionais parecem haurir isto já com o leite materno... para grande espanto de uma educadora alemã como Ina von Binzer, autora de saborosas cartas, publicadas em coletânea sob o título de "Os meus romanos".

Com muita vivacidade narra ela à sua amiga Grete:

"Imagine isto: outro dia, ao entrar na classe, achei-a muito irrequieta e barulhenta, e na minha confusão recorri ao Bormann [pedagogo alemão, cujos livros enchiam a bagagem de Frau Ina]. Quando obtive silêncio para ser ouvida, ordenei: 'Levantar, sentar' cinco vezes seguidas, o que no nosso país nunca deixa de ser considerado vergonhoso para uma classe. Mas, aqui, - oh! Santa Simplicitas! quando cheguei a fazer-lhes compreender o que delas esperava, as crianças estavam tão longe de imaginar que aquilo representasse um castigo, que julgaram tratar-se de uma boa brincadeira e pulavam perpendicularmente como um prumo, para cima e para baixo, feito autômatos, divertindo-se regiamente".

Creio que a boa educadora não viu tudo. Os meninos haviam intuído rápida e confusamente a situação, e instintivamente estavam dando um "jeitinho"...

Esta instituição nacional, que não está por pouca coisa nas glórias passadas de nosso Ministério das Relações Exteriores, o internacionalmente famoso Itamaraty, também agiliza as pequenas situações, causando pasmo aos não-brasileiros, entre outros ao jornalista Gilles Lapouge, com o qual tantas vezes "Catolicismo" não se encontra de acordo, mas que descreve com bastante cor local muitas coisas da viagem que fez ao Nordeste.

Diplomacia, aliás, e jeitinho, são termos correlatos. E se a verdadeira diplomacia consiste muitas vezes em dizer rombudamente "não", também é certo que por vezes é preciso saber fazê-lo, como se fosse um "sim". Isto se faz com jeitinho:

No Maranhão, diz Lapouge, "jamais se diz não... .Peça seja o que for, um navio, uma pimenta verde, um revólver, um serpent-minute, a resposta será favorável. Em seguida começa um jogo extravagante cujas regras são muito simples: é preciso dar um jeito para abolir este sim, para roer e desgastá-lo, mas pelo simples emprego de outros sim, jamais por um não. Empilha-se os sim uns sobre os outros até o momento em que a soma de todos estes sim, sorrateiramente, confecciona um não" ("Equinoxiales").

Lapouge exagera... mas existe algo que tem parentesco com seu exagero. Todos sabemos que no Brasil uma coletânea do jeitinho teria de ter o tamanho de um enciclopédia. Houve até um húngaro, cujo nome me escapa no momento, que escreveu a respeito um livro célebre, intitulado expressivamente "Brasil para principiantes". Vê-se que este aspecto do Brasil o fascinou.

Fazer narrações históricas para turistas será apenas um mero jeitinho? Sobretudo no Nordeste, os narradores são abundantes.

Eles "são minúsculos, cinco ou seis anos, dez na pior das hipóteses .... Eles se colocam na praça principal da aglomeração. Não há necessidade de que esta seja faustosa. O narrador se contenta com pouca coisa. Ele consome muito poucas matérias primas, mas ele lhes acrescenta sonhos....

A mais apagada das cidades brilha como uma Babilônia, uma Calicute. Eles a dotam de uma história heroica, fabulosa, a ser inscrita em folhas de ouro.

Eles a povoam de conquistadores e de escravos ensanguentados, de profetas e de mulheres fatais, de Beresina de barro e de sol, de exércitos em derrota, de triunfos e de emblemas (ibid.).

Concluindo, o jeitinho é um valor do Brasil. Mas ele será um mero expediente prático se não estiver a serviço de um País que sabe voar nos grandes horizontes do pensamento, da ação... e dos sonhos, como o destes meninos.

Leo Daniele


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