Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 488 | página 14-15
| ESPETÁCULO |

Viagem no Tempo

Na França, numerosos castelos revivem suas glórias passadas, em espetáculos de "son et lumière".
No Puy du Fou, o suceder dos séculos da heroica Vendeia.
A fé, o amor à região, o gosto pelo passado descoberto, pelo belo, pelo teatro levam mais de 600 habitantes da Vendeia (alto à dir.) a representar, em quadros vivos, a glória, a guerra, o fausto, o trabalho, as pompas reais, a vida nos campos, as lutas da região, desde a honra e o heroísmo cavalheirescos da Idade Média (alto) até às cintilações aristocráticas da sociedade da Belle Époque.

PARIS - Na pequena cidade do Lude, nascida à sombra do castelo do mesmo nome, junto ao legendário rio Loire, a escola privada necessitava de fundos. Além da tradicional quermesse, os pais dos alunos, seguindo o conselho da castelã, decidiram abrir velhos guarda-roupas e revestir-se de antigos trajes para reviver um faustoso baile do século XIX. "Quinhentos espectadores na primeira noite, mais de três mil na segunda", recorda Louis Jean de Nicolay, o atual proprietário do castelo.

Nascia assim, em 1957, o primeiro "son et lumière" (espetáculo de som e luz) da França.

A moda dos espetáculos históricos se espalhou. Desde então, o Lude criou uma meia centena de êmulos; castelos que revivem um passado rico em batalhas, reis e revoluções, em grandiosas encenações.

Puy du Fou

Particularmente rico em detalhes, cenas e perspectiva histórica é o espetáculo que se realiza, desde 1978, no coração da Vendeia, face ao castelo de Puy du Fou.

Parcialmente em ruínas, o castelo é o imponente cenário ante o qual se desenrolam as memórias de uma população e de toda uma região: o "bocage vendeano", tão sofredor com as atrocidades da Revolução Francesa, tão heroico na sua resistência à mesma, e pouco antes evangelizado pelo grande apóstolo mariano dos séculos XVII e XVIII, São Luís Maria Grignion de Montfort.

Aqui, a voz e a música vibram, juntando-se aos jogos de água, ao tremular do fogo, à variedade das luzes, aos efeitos de órgão, aos deslumbramentos pirotécnicos, para evocar uma epopeia rica em significados.

A fé, o amor à região, o gosto pelo passado redescoberto, pelo belo, pelo teatro levam mais de 600 habitantes de 14 comunas da região a apresentar e animar o espetáculo, representado para um público superior a 12.000 pessoas. Em doze anos, mais de 2.500.000 espectadores!

Os Maupillier

A representação conta a história e a tradição de uma longa e verdadeira dinastia de camponeses – os Maupillier – que habita no Puy du Fou desde a Idade Média e cujo primogênito, de século em século, de geração em geração, sempre se chamou Jacques.

A noite baixa sobre o castelo e, para iluminar seus muros seculares, acendem-se as luzes das recordações. Recordações de um povo inspirado por sua história.

Um vendedor ambulante aproxima-se, lentamente, para passar o serão junto à lareira, com a mãe e o pai Maupillier e as crianças que o esperam ansiosas, sobretudo o pequeno Jacques.

"Eu levo comigo a história a todas as crianças do país. Cantarei a canção de todos os Maupillier sobre esta terra de gigantes e de giestas em flor".

Ao pé da lareira, as palavras surgem, as imagens tomam forma: é o grande suceder dos séculos, o passar das gerações. A História surge em múltiplos quadros vivos que narram a glória, a guerra, o fausto, o trabalho, as pompas reais, a vida nos campos, as lutas da Vendeia.

Honra e heroísmo

Cavaleiros com reluzentes armaduras, distintos penachos, montando corcéis ricamente ajaezados, avançam com ímpeto, e nos fazem remontar aos tempos medievais: um aguerrido torneio se desenrola a nossos olhos, lembrando as épocas de Fé, de honra e de heroísmo cavalheiresco.

Visita real

O Rei Francisco I é recebido por Catarina, a castelã do Puy du Fou, na volta de Bayonne.

O tempo passa. O séquito medieval dá lugar às pompas da Renascença. Com abundância de detalhes, é recordada a visita do Rei Francisco I ao castelo de Puy du Fou, na volta de Bayon-ne. São os faustos reais que nos deslumbram, com as carruagens, a gente de caça, com seus imponentes mastins e falcões, o esplendor dos trajes, as mil festas do povo que recebe seu rei.

Antigo Regime

Os anos correm. E é relembrada a nossos olhos a vida quotidiana do castelo e da região, nos tempos brilhantes do Ancien Régime.

Homens esforçados, de andar seguro, madrugadores, homens de granito, que enfrentam a vida como ela se lhes apresenta. Homens de bom humor e de muito trabalho, que cravam a forquilha e que encontram tempo para o riso alegre, enquanto com o arado lavram a terra. Homens de fé. Homens das missões de Montfort.

Genocídio revolucionário

Mas, decorrido o tempo, a Revolução Francesa estende suas lúgubres garras de revolta, de crime e de ódio sobre a filha primogênita da Igreja. Um rufar de tambores anuncia-nos o perigo que se aproxima. A borrasca de 1793 – o Terror – vai-se desencadear sobre a região.

Na contraluz de tons trágicos avançam os soldados da Revolução, vindos de Paris. Vão iniciar a ferro e fogo o genocídio de todo um povo. As Igrejas são suprimidas. Em nome da liberdade, aprisionam milhares de pessoas. Em nome da fraternidade, matam até mulheres e crianças.

A narração cênica mostra-nos, entretanto, o vendeano que, emboscado nos caminhos, é capaz de todos os heroísmos. A Vendeia se recusa, se levanta, se abrasa e depois se lança contra a Revolução. Cada homem de pé é um cruzado. Cada homem por terra é um mártir.

Vemos partir os homens, com o escapulário sobre o coração e forquilha na mão. Cantam, ao longo dos caminhos, estrofes de Fé e de fogo. Vemos chorar as mulheres, que ficam à porta das casas, de braços pendidos, com os olhos fixos em seus maridos que se afastam. Ouvimos gritar os chefes, temíveis e altivos: Catelineau. D'Elbée, Bonchamps, Stofflet, La Rochejaquelein, Lescure, Charette.

Curiosamente, noto que o público, que até então a tudo assitira com uma unanimidade de sentimentos, se divide. Ora alguns se manifestam pró Revolução Francesa, ora muitos outros se mostram contrários a ela. Reflexo da divisão dos espíritos que até hoje a Revolução Francesa deixou no povo daquela nação.

Belle Époque

Finalmente das cinzas de uma região desolada pelas ondas da Revolução se ergue de novo um povo marcado de cicatrizes.

E é a vida quotidiana camponesa, com as atribulações do pós-Revolução, mas também iluminada com as cintilações aristocráticas da alta sociedade da Belle Époque, que nos é recordada.

A Guerra

Eclode a Guerra Mundial. Um outro Maupillier, um outro Jacques, na longa sequência dos primogênitos, nos é recordado: aquele que vai para o campo de batalha.

É a guerra das trincheiras, com suas agruras, suas novas armas, sua destruição em grande escala. São as incertezas da distância... Depois, um dia, dizem: é a paz. E a esperança do regresso.

O mundo vai aos poucos retomando a vida de todos os dias. Cada um se refaz de seus lutos. E vemos desenrolar-se a nossos olhos uma festa dos anos 30, a relembrar o "entre-deux-guerres", que conserva ainda algum brilho da existência de outrora. Mas a vida corre mais rapidamente. O chamado progresso entrou.

Epílogo feérico

Na janela dos Maupillier apaga-se a última candeia. O castelo parece imerso no silêncio. É a feeria final que se avizinha. Fogos de artifício, jogos de água e de luz anunciam o epílogo do tempo das recordações.

Silhuetas azuladas, que deslizam e bailam, parecem simbolizar almas e legendas, que revivem, ao som de melodias ligeiras, os sonhos e visões fulgurantes da História, sobre as águas de um tom profundo.

Francisco del Campo
Especial para "Catolicismo"


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