Viagem no Tempo
No Puy du Fou, o suceder dos séculos da heroica Vendeia.
PARIS - Na pequena cidade do Lude, nascida à sombra do castelo do mesmo nome, junto ao legendário rio Loire, a escola privada necessitava de fundos. Além da tradicional quermesse, os pais dos alunos, seguindo o conselho da castelã, decidiram abrir velhos guarda-roupas e revestir-se de antigos trajes para reviver um faustoso baile do século XIX. "Quinhentos espectadores na primeira noite, mais de três mil na segunda", recorda Louis Jean de Nicolay, o atual proprietário do castelo.
Nascia assim, em 1957, o primeiro "son et lumière" (espetáculo de som e luz) da França.
A moda dos espetáculos históricos se espalhou. Desde então, o Lude criou uma meia centena de êmulos; castelos que revivem um passado rico em batalhas, reis e revoluções, em grandiosas encenações.
Puy du Fou
Particularmente rico em detalhes, cenas e perspectiva histórica é o espetáculo que se realiza, desde 1978, no coração da Vendeia, face ao castelo de Puy du Fou.
Parcialmente em ruínas, o castelo é o imponente cenário ante o qual se desenrolam as memórias de uma população e de toda uma região: o "bocage vendeano", tão sofredor com as atrocidades da Revolução Francesa, tão heroico na sua resistência à mesma, e pouco antes evangelizado pelo grande apóstolo mariano dos séculos XVII e XVIII, São Luís Maria Grignion de Montfort.
Aqui, a voz e a música vibram, juntando-se aos jogos de água, ao tremular do fogo, à variedade das luzes, aos efeitos de órgão, aos deslumbramentos pirotécnicos, para evocar uma epopeia rica em significados.
A fé, o amor à região, o gosto pelo passado redescoberto, pelo belo, pelo teatro levam mais de 600 habitantes de 14 comunas da região a apresentar e animar o espetáculo, representado para um público superior a 12.000 pessoas. Em doze anos, mais de 2.500.000 espectadores!
Os Maupillier
A representação conta a história e a tradição de uma longa e verdadeira dinastia de camponeses – os Maupillier – que habita no Puy du Fou desde a Idade Média e cujo primogênito, de século em século, de geração em geração, sempre se chamou Jacques.
A noite baixa sobre o castelo e, para iluminar seus muros seculares, acendem-se as luzes das recordações. Recordações de um povo inspirado por sua história.
Um vendedor ambulante aproxima-se, lentamente, para passar o serão junto à lareira, com a mãe e o pai Maupillier e as crianças que o esperam ansiosas, sobretudo o pequeno Jacques.
"Eu levo comigo a história a todas as crianças do país. Cantarei a canção de todos os Maupillier sobre esta terra de gigantes e de giestas em flor".
Ao pé da lareira, as palavras surgem, as imagens tomam forma: é o grande suceder dos séculos, o passar das gerações. A História surge em múltiplos quadros vivos que narram a glória, a guerra, o fausto, o trabalho, as pompas reais, a vida nos campos, as lutas da Vendeia.
Honra e heroísmo
Cavaleiros com reluzentes armaduras, distintos penachos, montando corcéis ricamente ajaezados, avançam com ímpeto, e nos fazem remontar aos tempos medievais: um aguerrido torneio se desenrola a nossos olhos, lembrando as épocas de Fé, de honra e de heroísmo cavalheiresco.
Visita real
O Rei Francisco I é recebido por Catarina, a castelã do Puy du Fou, na volta de Bayonne.
O tempo passa. O séquito medieval dá lugar às pompas da Renascença. Com abundância de detalhes, é recordada a visita do Rei Francisco I ao castelo de Puy du Fou, na volta de Bayon-ne. São os faustos reais que nos deslumbram, com as carruagens, a gente de caça, com seus imponentes mastins e falcões, o esplendor dos trajes, as mil festas do povo que recebe seu rei.
Antigo Regime
Os anos correm. E é relembrada a nossos olhos a vida quotidiana do castelo e da região, nos tempos brilhantes do Ancien Régime.
Homens esforçados, de andar seguro, madrugadores, homens de granito, que enfrentam a vida como ela se lhes apresenta. Homens de bom humor e de muito trabalho, que cravam a forquilha e que encontram tempo para o riso alegre, enquanto com o arado lavram a terra. Homens de fé. Homens das missões de Montfort.
Genocídio revolucionário
Mas, decorrido o tempo, a Revolução Francesa estende suas lúgubres garras de revolta, de crime e de ódio sobre a filha primogênita da Igreja. Um rufar de tambores anuncia-nos o perigo que se aproxima. A borrasca de 1793 – o Terror – vai-se desencadear sobre a região.
Na contraluz de tons trágicos avançam os soldados da Revolução, vindos de Paris. Vão iniciar a ferro e fogo o genocídio de todo um povo. As Igrejas são suprimidas. Em nome da liberdade, aprisionam milhares de pessoas. Em nome da fraternidade, matam até mulheres e crianças.
A narração cênica mostra-nos, entretanto, o vendeano que, emboscado nos caminhos, é capaz de todos os heroísmos. A Vendeia se recusa, se levanta, se abrasa e depois se lança contra a Revolução. Cada homem de pé é um cruzado. Cada homem por terra é um mártir.
Vemos partir os homens, com o escapulário sobre o coração e forquilha na mão. Cantam, ao longo dos caminhos, estrofes de Fé e de fogo. Vemos chorar as mulheres, que ficam à porta das casas, de braços pendidos, com os olhos fixos em seus maridos que se afastam. Ouvimos gritar os chefes, temíveis e altivos: Catelineau. D'Elbée, Bonchamps, Stofflet, La Rochejaquelein, Lescure, Charette.
Curiosamente, noto que o público, que até então a tudo assitira com uma unanimidade de sentimentos, se divide. Ora alguns se manifestam pró Revolução Francesa, ora muitos outros se mostram contrários a ela. Reflexo da divisão dos espíritos que até hoje a Revolução Francesa deixou no povo daquela nação.
Belle Époque
Finalmente das cinzas de uma região desolada pelas ondas da Revolução se ergue de novo um povo marcado de cicatrizes.
E é a vida quotidiana camponesa, com as atribulações do pós-Revolução, mas também iluminada com as cintilações aristocráticas da alta sociedade da Belle Époque, que nos é recordada.
A Guerra
Eclode a Guerra Mundial. Um outro Maupillier, um outro Jacques, na longa sequência dos primogênitos, nos é recordado: aquele que vai para o campo de batalha.
É a guerra das trincheiras, com suas agruras, suas novas armas, sua destruição em grande escala. São as incertezas da distância... Depois, um dia, dizem: é a paz. E a esperança do regresso.
O mundo vai aos poucos retomando a vida de todos os dias. Cada um se refaz de seus lutos. E vemos desenrolar-se a nossos olhos uma festa dos anos 30, a relembrar o "entre-deux-guerres", que conserva ainda algum brilho da existência de outrora. Mas a vida corre mais rapidamente. O chamado progresso entrou.
Epílogo feérico
Na janela dos Maupillier apaga-se a última candeia. O castelo parece imerso no silêncio. É a feeria final que se avizinha. Fogos de artifício, jogos de água e de luz anunciam o epílogo do tempo das recordações.
Silhuetas azuladas, que deslizam e bailam, parecem simbolizar almas e legendas, que revivem, ao som de melodias ligeiras, os sonhos e visões fulgurantes da História, sobre as águas de um tom profundo.
Francisco del Campo
Especial para "Catolicismo"