| GRANDEZA E NOSTALGIA NOS FUNERAIS...| (continuação)
mesmo por ocasião do enterro de Francisco José, em 1916. O país, então em guerra, tinha que manter seus homens sobretudo na frente de batalha.
A guarda-civil de Murau, na Estíria, envergava seu uniforme, adotado em 1820. A companhia de granadeiros de Friedburg, oeste austríaco, portava sua farda "branca como a neve" e capacetes de pele de urso. Todos eles têm longa tradição de fidelidade aos Habsburgos. A guarda-civil de Ried tivera como madrinha a Imperatriz Elisabeth - familiarmente conhecida pelo nome de Sissi - esposa de Francisco José. Ela mesma confiara ao comandante de então a bandeira que tremulava naquela cerimônia. Os Kollerschlager, atiradores de escol do tempo das carabinas, tinham no chapéu negras plumas de corvos.
Entretanto foi à antiga guarda pessoal do Imperador - os Trabanten - que coube a honra de desfilar junto ao esquife, ao lado dos membros da família imperial. A sua fidelidade através dos séculos tornou-a tão estimada, que após a queda da monarquia, jamais foi abolida pela República. Criada em 1286, na então cidade ducal de St. Veit, foi a partir de então agregada à pessoa do Imperador.
Tradicionais associações universitárias, em trajes do século XVIII, botas de cano alto e longas espadas, precediam o clero, imediatamente antes da imensa carruagem fúnebre. Sempre ligadas aos ideais do Império, foram elas as mais dedicadas guardas de honra da falecida Imperatriz, durante os 4 dias em que seu corpo passou em Viena.
Numerosas personalidades eclesiásticas compuseram o cortejo em paramentos sagrados de elevada pompa. Ordens militares e de cavalaria, aristocratas de alta linhagem, deram ao público a ideia de um passado redivivo, até então conhecido apenas nos livros e monumentos, nos sonhos de incontáveis austríacos ou na bruma da memória de uns poucos anciãos.
Em todos se refletia a gravidade do momento. Sabiam que por mais de seis séculos os Habsburgos governaram a Áustria, levando-a a um esplendor e importância que desapareceram com a perda do trono. O carisma da "arqui-família" consistiu antes de tudo na fidelidade à Santa Igreja, colocando a serviço dEla sua espada e sua influência em momentos ápices da História. A batalha de Lepanto e a evangelização da América testemunham essa dedicação. Um traço luminoso marcou especialmente os Habsburgos: no século XVI, quando a Igreja teve sua unidade terrivelmente rasgada pelo golpe do luteranismo, eles permaneceram fiéis a Roma, transformando Viena no centro da Contra-Reforma Católica, na Europa Central. O esplendor de suas igrejas atesta essa fidelidade. Fidelidade que lhes valeu, até o fim do Império, a honra de serem odiados pelos inimigos da Igreja. "É preciso aniquilar os Habsburgos, monarquia papista", era o brado jacobino, em 1918, no momento em que a derrubavam.
Não faltou aos Habsburgos um misto de coragem empreendedora, segura administração e sutil diplomacia, que tantas vezes consistiu em bem escolhidas uniões matrimoniais que lhes deram remos, asseguraram-lhes fronteiras e evitaram guerras: "Lasse andere Kriege führen, du glückliches Austria heirate!", dizia-se dos Habsburgos, dizia-se da Áustria. "Que outros façam guerras; tu, feliz Áustria, casa-te". Foi assim que a aura dessa dinastia envolveu-nos também a nós brasileiros, quando uma arquiduquesa de Áustria, Dona Leopoldina, tornou-se nossa Imperatriz.
A voz aveludada e grave do Pummerin contribuía para acentuar nas fisionomias, dentro e fora do cortejo, a brumosa inquietação de que o Império, que de algum modo tinha naquela cerimônia um prolongamento, desaparecesse definitivamente com o fechamento da sepultura de sua última Imperatriz. Olhos fixos na pequena igreja, cuja cripta abriga nobres sepulcros, todos permaneciam em reflexivo silêncio, disciplinados, resignados.
Duas vezes a banda toca o hino imperial "Deus proteja o Imperador", de Joseph Haydn. Nas duas vezes, grande parte do público o acompanha, cantando. Nesse momento, desce o corpo à sepultura.
Terminada a cerimônia, participantes e povo, pouco a pouco, se dispersam pelas ruas do centro, sob fina chuva e a luminosidade difusa e tênue de um crepúsculo nublado. Recolhem-se nos cafés, onde calmamente refletiriam sobre a fastuosa tarde: o fabuloso cortejo que, em curto trajeto, atravessara o centro histórico de Viena, parecia ainda percorrer os espíritos. Atravessando a capital austríaca, ele passou por aquelas existências, e marcou a história deste fim de século.
Dizem uns que naquela tarde o centro de Viena estava repleto de admiradores dos tempos imperiais. Isso é certo. Outros quiseram ver naquele esplendor uma ameaça à República. Também é certo que os que ali estavam não pensavam na República, naqueles instantes em que uma dor fazia reviver aspirações adormecidas e reanimava o amor por glórias passadas. Corações doloridos desligavam-se transitoriamente - pelo espaço de um cortejo, talvez - das penas presentes, fixando-se em ideais que nunca deixaram de fasciná-los. Eles ali tomaram forma, ainda que momentaneamente, e como que por encanto.
Participa do cortejo numeroso Clero, tanto o religioso quanto o secular