Madre Maravilhas de Jesus: exemplo de heroísmo em face da perseguição socialo-comunista
Santiago Fernandez
SANTA TERESA (século XVI) desejava que suas filhas se enclausurassem nos conventos do Carmo, em torno do Santíssimo Sacramento, como os mais fiéis guerreiros se encastelavam na fortaleza para melhor resistir à invasão. A partir dos conventos — à semelhança da estratégia militar da época — buscava ela empreender uma heroica resistência e guerra de reconquista, feita de orações e sacrifícios, que atraíssem as graças do Céu próprias a animar os defensores da Igreja, extirpar as heresias e determinar a vitória da causa de Deus.
Em nosso século, passados 400 anos, Madre Maravilhas de Jesus, carmelita descalça, e suas filhas espirituais, as carmelitas do convento por ela fundado — no Cerro de los Angeles, ao pé do famoso monumento ao Sagrado Coração de Jesus, na Espanha — seguiram com fidelidade heroica os ensinamentos de Santa Teresa, num dos momentos de perseguição religiosa mais terríveis da História da Igreja.
Bem junto ao Coração de Jesus
Com efeito, a proclamação da II República espanhola (1931-1936) — socialista — foi prontamente seguida das trágicas jornadas de maio de 1931: igrejas incendiadas, conventos devastados, sacerdotes assassinados. Do Cerro de los Angeles, as carmelitas viam as colunas de fumaça e ouviam o matraquear das metralhadoras. Naquela circunstância, Madre Maravilhas escreveu ao Núncio: em caso de ataque à imagem do Sagrado Coração de Jesus, poderiam as carmelitas sair de sua clausura e rodear o Monumento para defendê-lo?
O Núncio não acedeu, pois parecia-lhe uma temeridade. E, em 11 de maio, chegou uma ordem terminante do Bispo de Madri: "Dispersem-se". As religiosas refugiaram-se em casas amigas. A Madre permaneceu no Cerro de los Angeles, mas num outro prédio. Dali apelou ao Prelado. Este concedeu que as religiosas retornassem. Madre Maravilhas convocou-as e deu-lhes liberdade de escolha: ou voltar ao convento ou procurar locais mais seguros. Todas voltaram sem hesitar.
Madre Maravilhas tentou então obter do Santo Padre Pio XI, através do Preposto Geral do Carmelo, o que o Núncio não tinha ousado conceder. "Ver-se-ão obrigadas [as monjas] — escreveu — pela santa clausura, a contemplar como arrancam [Nosso Senhor] do seu trono, sem poder voar para perto dEle e defendê-Lo, ou pelo menos não deixá-lo sozinho entre seus inimigos, para que assim possa encontrar a seu lado corações muito pobres, mas muito amantes? Seria, Pai nosso, o mais cruel martírio, muito maior do que perder a vida. Se Nosso Senhor tem que suportar gritos de ódio de seus inimigos, que possa ouvir também nossos louvores". Na festa de Cristo Rei, do mesmo ano de 1931, o Geral dos Carmelitas, frei Guilherme de Santo Alberto, comunicava-lhes a aprovação papal: "Sua Santidade dignou-se conceder com sumo agrado o favor pedido, cumulando de bênçãos toda a piedosa comunidade".
Desde aquela data, durante os atribulados e ensanguentados anos da II República, essas carmelitas, sempre à espera do martírio, realizaram uma vigília contínua em previsão de possíveis ataques de surpresa das turbas socialo-comunistas.
Em 1936, o povo católico levantou-se contra o governo central, comunista, eclodindo então a guerra civil. Todas as manifestações comunistas em Madri anunciavam seu intento de partir ao assalto do Cerro de los Angeles. Desconhecidos vagueavam ameaçadoramente em torno do convento e do Monumento. Os familiares das religiosas pediam que elas se afastassem do local. Madre Maravilhas, junto com a comunidade, desinteressava-se de seu destino pessoal, e do convento. O Senhor — dita ela — o mantém de pé e pode derrubá-lo quando lhe aprouver. Todas suas preocupações iam para as injúrias feitas ao Sagrado Coração de Jesus e Seu Monumento.
Arrancadas do "Cerro"
Em 22 de junho de 1936, terminada a Missa, ouviu-se um alarmante repicar da sineta do torno. Do lado de fora, milicianos vermelhos e soldados de assalto queriam levar, detidas, as religiosas num caminhão. O capelão, Pe. Rafael — que depois morreria mártir, vítima dos comunistas — deu-lhes pela última vez a comunhão e deixou vazios de Hóstias os cibórios. As noviças pronunciaram, sob condição, seus votos solenes nas mãos da Madre Maravilhas. Estavam radiantes porque — tinham certeza — iam ao martírio!
Por fim, abriu-se a porta da clausura. As carmelitas saíram em cortejo, com seus hábitos marrons, seus véus pretos cobrindo-lhes os rostos e levando as capas brancas nos braços. Guardas e milicianos comunistas ficaram paralisados. A Madre então pediu permissão ao chefe da tropa para ir até o Monumento. Os vermelhos consentiram. Cantando o Te Deum, as carmelitas foram prosternar-se ante o Monumento ao Sagrado Coração de Jesus. O Pe. José Maria Vega, que logo seria também mártir de Cristo, recebeu a renovação da consagração de todas. Teriam sido felizes se, naquele momento, uma rajada de metralhadora as tivesse deixado prostradas para sempre ante a bendita imagem, escreveu o Pe. Jesús M. Granero S.I. Confundidos com o que viam, os milicianos as obrigaram a subir num veículo.
No caminho, cruzaram com um outro caminhão de milicianos. Estes queriam massacrá-las ato contínuo, mas os primeiros opuseram-se e as deixaram no colégio da Sagrada Família, na vizinha localidade de Getafe, que se encontrava sob bandeira francesa, e onde ficaram a salvo. Ali, de um mirante oculto, as carmelitas acompanhavam com suas orações reparadoras os atentados ao Monumento. Cargas sucessivas de dinamite explodiram em quantidade, mas o Monumento resistia. A cada tentativa frustra, as religiosas cantavam o Te Deum e o Magnificat. Mas, na primeira sexta-feira de agosto ouviu-se uma tremenda explosão: a imagem do Coração de Jesus fora derrubada em meio a horríveis blasfêmias. Madre Maravilhas disse então resolutamente: "Faltando Ele, não temos mais nada que fazer aqui. Amanhã Ines-mo saímos para Madri". Elas esperavam contra toda esperança.
Fidelidade heroica sob a perseguição comunista
A família de uma das religiosas havia emprestado à Madre um apartamento na rua Claudio Coelho, nº 33. O Carmelo instalou-se ali integralmente, e levou com rigor a vida conventual. As religiosas vestiam, prudencialmente, roupas civis, mas não podiam passar desapercebidas. Em frente funcionava uma "checa", prisão onde eram torturados e mortos os anticomunistas. Ecos dos gritos e fuzilamentos chegavam até às carmelitas.
Os cuidados esmerados, a sagacidade e a prudência de Madre Maravilhas nem sempre conseguiam despistar os vermelhos. Houve invasões de milicianos e "chequistas" no apartamento, com buscas e até revistas pessoais. Certa vez, durante um longo interrogatório no local, a Madre respondeu com tanta naturalidade ao chefe anarquista de nome Carcajo, que lhe apontava