Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 439 | página 14-15
| ESTADOS UNIDOS |(continuação)

por elas. Numa página, a sua filha tinha escrito que queria matar a mãe. A professora escreveu à margem: "Não a mate, somente dê uma sova nela".

Em muitos colégios brinca-se com a morte e o suicídio. Um jogo muito usado é o chamado "bote salva vidas", no qual as crianças têm que se imaginar num bote à deriva em alto mar, e ameaçando afundar pelo excessivo número de pessoas a bordo. As crianças então têm que decidir quem será jogado fora do bote. Noutras ocasiões se pede à criança que imagine quem vai cometer suicídio. Ela então tem que apresentar as razões, escrever uma nota explicando seu suicídio, e decidir que meio vai usar.

As discussões de problemas sexuais começam já nos primeiros anos. Por exemplo, em alguns Estados da Federação as crianças de 6-7 anos são induzidas a "brincar" usando tatos indecorosos, e descrevendo suas sensações. Em aulas de 5º Grau (10 anos), as crianças, em grupos mistos, devem discutir detalhes da anatomia de ambos os sexos, bem como formas de atividade sexual, incluindo formas contra a natureza. O manual de professores indica que estas aulas incluem 'fotografias, leituras, contatos". No 9' Grau (14 anos), a aula é dividida em dois grupos, meninos e meninas. Ambos devem engajar-se numa competição para descobrir quem conhece mais detalhes da anatomia do sexo oposto...

Um livro de texto, entre outras coisas, diz: "As relações sexuais pré-matrimoniais são aceitáveis tanto para o homem como para a mulher, se estão engajados numa relação amorosa estável. Certas autoridades na matéria aconselham até que os noivos devem viver juntos antes de se casarem". O livro recomenda a legalização da prostituição, defende o homossexualismo e passa a expor modelos "alternativos" de matrimônio, como o "matrimônio aberto, no qual pode haver relações sexuais extra-matrimoniais, sem afetar o vínculo entre o casal" ("Washington Times", 25-5-86). É preciso dizer que este curso de "higiene sexual" é obrigatório!

Religião incomoda

O mal nunca é introduzido sem que o bem seja expulso. A partir dos anos 1960, quase todas as referências à religião têm sido cuidadosamente expurgadas dos livros de texto do ensino público nos Estados Unidos, num minucioso trabalho de censura.

No decurso do ano de 1986, três estudos chegaram à mesma conclusão de maneira inteiramente independente: os temas religiosos e o papel da religião na vida e na história dos povos têm sido quase completamente censurados nos livros de texto. É curioso notar que um dos estudos foi conduzido pelo próprio Ministério da Educação; outro por uma organização esquerdista, "People for the American Way"; e o terceiro por uma organização conservadora, o "Family Research Council".

Com uma tal educação, não é de estranhar que o índice de alfabetizados tenda a diminuir. Nos anos 1930, a margem de analfabetismo nos Estados Unidos era muito reduzida: 1,5% dos brancos nativos, 9,9% dos brancos estrangeiros, e 16% dos negros eram analfabetos. Hoje em dia, o índice de analfabetismo é calculado em 25%, sendo que entre os negros ele atinge até 40%. Uma comissão do governo, num estudo realizado em 1983 e que teve enorme repercussão, chegou à conclusão de que existem 23 milhões de analfabetos norte-americanos. Outros estudos apresentam cifras ainda maiores. Um estudo privado, realizado pelo "Committee for Economic Development", concluiu que 25% dos adultos nos Estados Unidos são "analfabetos funcionais", e que outros 40% são "analfabetos marginais" ("The Phyllis Schlafly Report", novembro 1985, pp. 1-2).

Para terminar, uma pergunta que todo bom católico não pode deixar de fazer. A Conferência Episcopal norte-americana iniciou há seis anos a publicação de uma série de documentos pastorais sobre temas mais candentes da realidade nacional. Já foi publicada em 1983 uma Carta Pastoral Coletiva defendendo o desarmamento unilateral dos Estados Unidos. Este ano foi a vez da Pastoral sobre a economia, na qual os Srs. Bispos criticam o capitalismo, e propõem soluções de cunho social-democrata e igualitário.

Não seria a hora de os Srs. Bispos lançarem uma Carta Pastoral sobre o lamentável estado da educação no país, reafirmando os admiráveis princípios da pedagogia católica tradicional?

Mário A. Costa

Novas métodos pedagógicos parecem estar na raiz do aumento do índice de analfabetos nos Estados Unidos.

Problemas emocionais e desligamentos dos padrões morais tornam-se frequentes entre crianças norte-americanas.


| DISCERNINDO, DISTINGUINDO, CLASSIFICANDO |

O tipo humano se conhece pelo traje

C.A.

CADA ÉPOCA forja um tipo humano característico, que se reflete — quase diríamos se desdobra — em mil diferentes aspectos da atividade individual ou social: no modo de cumprimentar, nos temas correntes de conversa, na decoração dos ambientes, enfim seria um não acabar se quiséssemos enumerá-los todos; e certamente a lista não ficaria completa. É fora de dúvida, porém, que um dos reflexos mais assinalados de um tipo humano se encontra no modo de trajar próprio à sua época.

Em nossos dias, por exemplo, não é possível referir-se às vestimentas em moda, sem que logo nos ocorra a impressionante decadência moral que se observa no homem contemporâneo.

Mas não se trata apenas de uma decadência moral. Trata-se também de um adelgaçamento da personalidade. A extravagância e mesmo a aberração reinantes hoje em dia e a falta completa ou quase tanto de compostura no trajar, marcam o novo tipo humano que vem surgindo, o qual caminha já, a largos passos, para o "hippie" e para o "punk".

Ora, não só é grande o papel do vestuário no exprimir a personalidade, mas é ele também um elemento importante na formação desta. O Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, a esse respeito, observou com penetração de espírito: "Quando uma época se preocupa em elevar o homem (...) será ou tenderá a ser nobre, digno, varonil o traje, desde o Soberano até o último plebeu" (in "Catolicismo", n? 20, agosto/1952, "O traje, espelho de uma época").

O problema já se colocava nitidamente no século passado, quando o igualitarismo no vestir — que hoje em dia atinge um clímax — tendia a despersonalizar os indivíduos. A esse propósito, o conhecido escritor português, Eça de Queiroz — infelizmente autor de tantas páginas censuráveis e até ímpias — em sua carta "A Sturmm, alfaiate" (*), assim se expressa, com inegável verve e permitindo-se um compreensível exagero didático para acentuar a veracidade da tese que esposa:

"Meu bom Sturmm, a sua sobrecasaca é perfeitamente insensata. Ali a tenho, arejando à janela, nas costas de uma cadeira; e assenta tão bem nessas costas de pau, como assentaria nas do Comandante das Guardas Municipais, nas do Patriarca, nas dum piloto da barra ou nas de um filósofo, se o houvesse nestes reinos. Quero, pois, severamente dizer que ela não possui individualidade.

"... o casaco está para o homem, como a palavra está para a ideia, o casaco serve para tornar o homem apresentável e viável através das ocupações sociais (...)

"Eu desejava, através dessa veste, mostrar-me em Lisboa, onde a ia usar, sinceramente como sou. E, no entanto, que me manda V., Sturmm, num embrulho de papel pardo? V. manda-me a sobrecasaca que talha bem para toda a gente em Portugal, desgraçadamente: a sobrecasaca do Conselheiro!

"Digo 'desgraçadamente', porque vestindo-nos todos pelo mesmo molde, V. leva-nos todos a ter o mesmo sentir e a ter o mesmo pensar. Nada influência mais profundamente o sentir do homem, do que a fatiota que o cobre (...) o mais extraviado mundano, dentro duma robe-de-chambre, sente apetites de serão doméstico e de carinhos ao fogão.

"Maior ainda se afirma a influência do vestuário sobre o pensar. Não é possível conceber um sistema filosófico com os pés entalados em escarpins de baile, e um jaquetão de veludo preto forrado a cetim azul leva inevitavelmente a ideias conservadoras.

"Você, pondo no dorso de toda a Sociedade essa casaca de conselheiro, lisa, insípida, rotineira, pesada, está simplesmente criando um País de conselheiros!

"Dentro dessa confecção banalizadora e achatante, o poeta perde a fantasia, o dandy perde a vivacidade, o militar perde a coragem, o jornalista perde a veia, o crítico perde a sagacidade — e, perdendo cada um o relevo e a saliência própria, fica tudo reduzido a esse cepo moral que se chama o conselheiro! A sua tesoura está assim mesquinhamente aparando a originalidade do País! Você corta, em cada casaco, a mortalha de um temperamento. E se Camões ainda vivesse — e V. o vestisse —

tínhamos em lugar dos Sonetos, artigos do Comércio do Porto...".

Grupo de jovens contemporâneos. O trajes refletem desleixo e alguns acentuam de modo sensual as formas do corpo. O tênis, antigamente usado sã para esportes, tornou-se calçado habitual. É o triste tipo humano de jovem que se vai definindo neste fim de século...

(*) Eça de Queiroz, "Cartas Inéditas de Fradique Mendes e mais páginas esquecidas, Lello e Irmão Editores, Porto, 1951, pp. 43 a 47. Página seguinte