| Colonos paranaenses partem para a Amazônia | (continuação)
essa invocação. Até a hora da partida, as grades e as portas da igreja mantiveram-se hermeticamente cerradas. Esses novos pioneiros, que continuam o desbravamento de nosso território iniciado há séculos pelos bandeirantes - não tiveram a alegria de ouvir os sinos bimbalharem festivamente em sua despedida.
A grande imprensa, solícita de modo geral em noticiar qualquer inciativa dos setores de esquerda, manteve-se silenciosa - ou quase tanto - a respeito do assunto.
Também os organismos federais, estaduais e municipais do Paraná não concederam a menor ajuda à esplêndida iniciativa. A nível político, a Acast conseguiu apenas o apoio de um vereador da cidade de Curitiba, o advogado Jorge Bernardi, que assessora juridicamente a entidade.
Inicialmente, Vanderley Saldanha recorreu ao Incra, mas não conseguiu auxílio. Mais recentemente, pouco antes de viajar para o Amazonas, procurou, em vão, entrevistar-se com o Ministro de Assuntos Fundiários, Gal. Danilo Venturini e com o governador do Paraná, José Richa. Pretendia ele solicitar ajuda para transportar os colonos da Acast. Dirigiu-se também, através de carta, à Fundação Roberto Marinho da Rede Globo, mas nada conseguiu.
O presidente da Acast declarou que também procurou a CPT, mas inutilmente. "A Pastoral da Terra nós procuramos, e eles não nos apoiaram. Eles disseram que iam estudar, mas depois acharam difícil".
A Sra. Marlene Ferraz, coordenadora da Acast e responsável pela segunda caravana de colonos que partiu dia 16 de julho, também procurou o apoio de entidades eclesiásticas: "Eu entrei em contato com a Cúria Metropolitana, pedindo ajuda. A desculpa deles foi que estava muito em cima da hora".
O que a CPT gosta e apoia
As primeiras 100 famílias de colonos partiram no dia 11 de junho. No dia 13 do mesmo mês, era lançada, na Reitoria da Universidade Federal do Paraná, a campanha Nacional pela Reforma Agrária. Além de outros organismos, propugnavam tal iniciativa a CNBB, a CPT e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI).
É de se lamentar que a CNBB, CPT e CIMI tenham deixado passar a excelente oportunidade de demonstrar uma verdadeira e séria intenção de solucionar os problemas agrários apoiando, por exemplo, esses colonos que conseguiram honestamente terras para cultivar.
Como sabemos, a Reforma Agrária pleiteada pela CNBB é de caráter socialista e confiscatório (cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, "Sou Católico: posso ser contra a Reforma Agrária?", Ed. Vera
Cruz, São Paulo, 1981, 350 pp.).
Quanto à CPT, tem ela se dedicado, como já dissemos, a organizar invasões de propriedades particulares, como forma de
pressão com vistas à aplicação da Reforma Agrária solicitada pela CNBB (cfr. "Catolicismo" n° 402, junho de 1984).
O CIMI - órgão também ligado à CNBB - a par de defender com ferocidade o latifúndio improdutivo das reservas indígenas, tem-se empenhado em difundir uma nova missiologia onde a vida tribal é apresentada como principal modelo de civilização (cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, "Tribalismo indígena, Ideal comuno-missionário para o Brasil no século XXI", Ed. Vera Cruz, São Paulo, 1977, 126 pp.).
Em vista disso, não espanta que a CPT tenha procurado espalhar um clima de insegurança, como meio de desestimular novas partidas.
Em comunicado publicado na imprensa, a CPT do Paraná assegurou:
"Mantivemos contato com representantes da Comissão Pastoral da Terra de Porto Velho, que nos informou da não existência de condições mínimas de sobrevivência no Projeto Novo Aripuanã, bem como da existência de várias famílias que se encontravam em Porto Velho, voltando do mesmo projeto em situação de desespero, doentes e sem condições de voltar para seus locais de origem".
E acrescentava o documento da CPT: "Incentivar ou apoiar iniciativas dessa natureza dentro dos padrões atuais, longe de ser uma solução para o desemprego e para os problemas das grandes cidades é, antes de tudo, uma transferência de problemas, vale dizer, é levar os sem-terra para morrer mais longe, é induzir ao suicídio coletivo".
Evidentemente não interessa à CPT perder massa de manobra como é o caso de desempregados e colonos "sem
terra" - para agitação no Paraná.
Isto fica claro quando se lê no mencionado documento que "no Paraná existem terras suficientes para resolver o drama que passam todos os sem-terras, boias-frias ou desempregados urbanos" ("Estado do Paraná", 19-6-84).
Não há dúvida, pois, de que a CPT prefere pressionar a desapropriação de terras no Estado do Paraná, provocando invasões e agitações, e não deseja contribuir para a colonização das imensas áreas ociosas situadas ao Norte do País.
Um sonho realizado
Desprovidos de ajuda governamental (exceção feita do governo do Estado do Amazonas), rejeitados pela CPT, pouco apoiados pela imprensa, só restou aos colonos da Acast empreender a viagem confiantes na Providência divina. E assim fizeram.
Cada colono teve que desembolsar Cr$ 35.000,00 para viajar em caminhões "paus-de-arara", e Cr$ 78.000,00 para ir em ônibus.
Inicialmente, os futuros colonos dirigir-se-ão a Porto Velho (RO), onde um barco fretado pelo governo do Amazonas conduzi-los-á pelo rio Madeira, até Novo Aripuanã.
As adversidades não conseguiram abater o ânimo dos colonos paranaenses. Na hora da partida - à qual assistimos - muitos pronunciaram palavras que exprimiam esperança e arrojo. Sebastião Rodrigues, mineiro de Mantena, 36 anos, observou com razão:
"Se nós, que somos brasileiros, não tomarmos conta, quem é que vai tomar conta?"
Essa seria uma boa pergunta a ser dirigida à CPT...
Outro mineiro, Cirilo Lourenço de Abreu, de Teófilo Otoni, 25 anos, afirmou: "Eu estou indo porque sou da roça. No meio da floresta eu me sinto outro homem. A gente vai com o plano de sofrer um pouco. Mas daqui para frente vai ter uma vida mais tranquila. Tendo terra, tem tudo. Daqui a dois ou três anos estamos recompensados".
O alagoano Cícero, natural de Murici, declarou: "O Brasil é nosso. Nós não estamos indo para outros países, estamos dentro do Brasil mesmo".
Infelizmente, pessoas como essas não contaram com a ajuda que mereciam dos órgãos governamentais. Um meio eficiente de as autoridades brasileiras esvaziarem as agitações articuladas pela esquerda católica seria o de incentivar, apoiar, e mesmo organizar movimentos como este. Alcançaríamos a tranquilidade social nos Estados do Sul e também do Nordeste, com a transferência dos flagelados das secas - e ao mesmo tempo povoaríamos os enormes espaços vazios existentes ao Norte do território nacional.
Ademais, cumpre lembrar que o eventual fracasso de iniciativas particulares, como a empreendida pela Acast (fracasso esse que pode ocorrer por falta de recursos materiais, se não houver apoio do governo federal ou estadual) só beneficiaria a esquerda católica. Esta, possivelmente, exploraria qualquer infortúnio de empreendimentos dessa natureza para conter um sadio movimento migratório rumo ao Norte. E isto seria lamentável.
Felizmente, apesar das dificuldades encontradas, os colonos conseguiram partir.
Esperamos que, com a ajuda do governo do Amazonas, alcancem eles sucesso nesse heroico projeto de colonização. E isso para que se tornem realidade as esperançosas palavras proferidas por Vanderley Saldanha pouco antes de partir:
"Mas aquele sonho de cada um ter a sua própria terra não morreu. Ele está praticamente realizado. Apenas uma semana separa a gente da terra da gente. Nós vamos chegar lá. Cada um vai tomar posse da sua terra. Vamos organizar uma comunidade agrícola, vamos fundar nossa cidade - que já está
batizada de Nova Curitiba. E vamos com fé em Deus e muita coragem!"
REVELAÇÕES DO SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS E A FRANÇA
Luís Carlos Azevedo
TENDO SIDO o número anterior de "Catolicismo" dedicado às recentes agitações ocorridas no Brasil, não foi possível comemorar a festa do Sagrado Coração de Jesus, que se celebrou a 29 de junho.
Em vista disso, apresentamos no presente número algumas considerações relativas a essa admirável devoção, em homenagem ao Coração que tanto amou os homens.
Na obra de restauração da autoridade real e reorganização da França no século XVI, Henrique IV aliou-se aos protestantes. E contrariando os mais altos interesses da Cristandade, foi sobretudo malfazeja sua coligação com os luteranos alemães contra a Casa d'Áustria.
Seu reinado concorreu, em boa medida, para que a ação profunda do Humanismo e da Renascença entre os católicos, não cessasse de se dilatar, determinando uma série funesta de consequências em toda a França.
Tal ação ocasionou uma dissolução crescente dos costumes, um modo frívolo e brilhante de considerar as coisas, um endeusamento da vida terrena, que preparou o campo para o acentuado progresso da irreligião, no decurso dos séculos XVII e XVIII.
Foi neste contexto desolador que Nosso Senhor Jesus Cristo manifestou-Se exorável em relação à Filha Primogênita da Igreja - a doce França - revelando à sua esposa mística, a religiosa visitandina Santa Margarida Maria Alacoque, a devoção ao Seu Sagrado Coração como o remédio inigualável para tantos males.
Recusa ao apelo de Jesus
Numa aparição ocorrida a 27 de dezembro de 1673, Nosso Senhor, após assegurar a Santa Margaria Maria o prazer singular que Lhe causava ser honrado "na figura deste Coração de carne, do qual queria fosse a imagem exposta em público", acrescentou ser este o meio "de tocar o coração insensível dos homens". E prometeu derramar com abundância, no coração daqueles que O honrassem, "todos os dons de que [Seu Coração] está cheio, e que, em todas as partes onde [a imagem do Sagrado Coração] fosse exposta, ela atrairia toda sorte de bênçãos" (1).
Para a efetivação desses desígnios de Amor e de Misericórdia, Nosso Senhor dirigiu, através da santa, seu Apelo ao próprio Rei Cristianíssimo, Luís XIV.
Tem-se conhecimento desse Apelo, que consta na chamada "Grande Revelação" (1675) de Nosso Senhor a Santa Margarida Alacoque, através das cartas da religiosa à Madre Saumaise, antiga Superiora do Convento de Paray-le-Monial, onde aquelas aparições ocorreram. Na época das missivas a superiora se encontrava na casa da Ordem da Visitação em Dijon, na França.
Na carta que escreveu a Madre Saumaise na primeira sexta-feira depois da Oitava do Corpo de Deus, a 17 de junho de 1689, a santa relata as palavras que ouvira de Nosso Senhor (2):
"Faz saber ao filho primogênito de meu Sagrado Coração [referia-se a Luís XIV] que, assim como o seu nascimento temporal foi obtido pela devoção aos merecimentos da minha santa infância (3), também alcançará seu nascimento para a graça e vida eterna pela consagração que fizer da sua pessoa a meu adorado Coração, que quer triunfar do seu e, por meio dela, dos grandes da terra" (4)
E na carta escrita a 25 de agosto de 1689, a insigne visitandina entra em maiores detalhes:
"Querendo o Padre Eterno reparar as amarguras e angústias que o adorável Coração de seu divino Filho recebeu nos palácios dos príncipes da terra, além das humilhações e ultrajes da sua Paixão, deseja estabelecer seu império no coração do nosso grande monarca, de quem quer servir-se para a execução de seu desígnio, que é mandar fazer um edifício onde se exponha um quadro deste Divino Coração, para ali receber a consagração e homenagem de el-Rei e de toda a Corte.
"Este divino Coração .... o escolheu [ao Rei] como seu fiel amigo, para impetrar da Santa Sé Apostólica a autorização de se celebrar missa em sua honra e obter os mais privilégios que requer a devoção a este divino Coração" (5).
É certo que Luís XIV teve conhecimento da "Grande Revelação", muito provavelmente através da Rainha da Inglaterra, que habitava então o Convento de Chaillot e que tomara conhecimento daquela Mensagem divina por intermédio da Madre Saumaise.
Infelizmente Luís XIV não atendeu ao Apelo do Sagrado Coração, transmitido através da religiosa visitandina.
Cascata de catástrofes desaba sobre a França
De 1689, ano em que Santa Margarida Maria escrevera as cartas com a "Grande Revelação", a 1789 transcorreu um século. Nesse período, abate-se sobre a França terrível borrasca: a Revolução Francesa.
O Pe. Bougaud, Vigário-geral de Orleans no último quartel do século passado, comenta com acerto o triste desenrolar dos acontecimentos no Reino Cristianíssimo, dada a infidelidade imensa de Luís XIV:
"De Luís XIV a França ia passar a Luis XV, de Luís XV a Voltaire, de Voltaire a Robespierre e Marat; isto é, do orgulho à corrupção, da corrupção à impiedade, e duma e outra a um ódio a Deus e aos homens que ia servir de exemplar castigo" (6).
"Neste triste século XIX, infiel à sua missão, viu [a França] voltarem-se contra ela os seus mais belos dons. Chamou debalde em seu socorro a ciência e o gênio. Já não é a mesma França. Já não cativa o mundo mediante o mesmo charme. Já não desfruta a mesma paz. Cada dia dá um passo para um abismo mais Profundo. Ontem, em nome de