Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 403 | página 10-11

FRANÇA: AS ROSAS MURCHAM NO ARRAIAL SOCIALISTA

Eduardo Queiroz da Gama

O SONHO DOURADO do socialismo autogestionário francês vai-se esboroando como um castelo de cartas.

Três anos após ter galgado o poder, Mitterrand encontra sérias dificuldades para levar adiante seu programa de governo. Não podendo fazer frente à oposição que se levanta contra a aplicação do programa elaborado pelo Partido Socialista, o presidente francês procura iludir a opinião pública. Seu plano consiste em fazer os franceses acreditarem que ele (o arauto flamejante da autogestão) é agora outro homem. Não seria mais o socialista convicto e irredutível de outrora, mas sim um estadista disposto a pactuar, mesmo em detrimento de seus princípios partidários...

Para levar a cabo essa maquiavélica manobra, Mitterrand conta com o apoio dos correligionários socialistas e de seus aliados comunistas: dos que formam a cúpula dos partidos, e entendem a necessidade da encenação, como ainda dos que pertencem às bases.

Estes, não compreendendo as novas regras do jogo, lançam-se numa furibunda oposição de esquerda ao governo esquerdista... e o prestigiam aos olhos de anti-esquerdistas ingênuos e de "inocentes úteis".

Vejamos como funciona o teatro de marionetes montado pela esquerda daquela nação.

Recentemente, milhões de franceses saíram às ruas para protestar contra a lei de ensino proposta pelos socialistas, que tornaria muito árdua a sobrevivência das escolas privadas na França (em sua grande maioria, católicas). Uma só manifestação, realizada em Versailles no dia 4-3-84, reuniu mais de 800 mil pessoas.

O governo socialista recuou em seus planos, introduzindo algumas alterações na lei contestada, a fim de acalmar a oposição. Isto feito, foi a vez de os socialistas e comunistas saírem às ruas, acusando Mitterrand de traidor...

Algo semelhante ocorreu no plano econômico. Depois de inúmeras e infrutíferas tentativas de aplicar a autogestão nas indústrias, Mitterrand anunciou reformas em seu programa, que incluíam, entre outras coisas, a demissão de milhares de funcionários (cerca de 25 mil) das empresas estatais. A medida gerou violentos protestos dos empregados das indústrias visadas, os quais foram liderados em suas manifestações por políticos do Partido Comunista e da ala radical do PS francês.

Com esse jogo o presidente socialista francês vai aparecendo no cenário político da nação como equidistante entre esquerda e direita. Quanto mais a esquerda protestar, mais a direita se inclinará a crer que Mitterrand realmente mudou, que se tornou deveras "moderado".

Evidentemente, o êxito de tal manobra depende mais da ingenuidade da direita que da sagacidade da esquerda. E o maior trunfo do chefe do executivo reside na inabilidade das lideranças da oposição, tanto no campo religioso quanto no político e econômico.

Até o momento, os vários setores da direita têm cometido o grave erro de lutar cada um por seu lado, buscando seu próprio interesse, sem procurar constituir uma frente única contra o socialismo e o comunismo. Tais reações isoladas oferecem ao governo socialista a possibilidade de enfrentar cada grupo de inconformados por vez, sem correr o risco de ver-se assediado, a um mesmo tempo, pela massa de seus inimigos.

Essa péssima tática da direita é utilizada sob a alegação de não "politizar" (entenda-se ideologizar) a reação antigovernamental, de se evitar a radicalização ideológica no confronto entre as duas correntes de opinião. Tal procedimento das cúpulas de oposição (altamente suspeitas quanto à sua autenticidade) tem sido a principal causa do êxito da manobra socialista.

Mesmo assim, a mencionada estratégia política – bastante velhaca – não tem impedido que a popularidade de Mitterrand (que se confunde com a do próprio socialismo) venha se desgastando vertiginosamente.

Sintoma inequívoco dessa deterioração constituem as sucessivas derrotas dos candidatos de esquerda em eleições

parciais realizadas na França, desde a ascensão do socialismo ao poder.

Por outro lado, pesquisa publicada recentemente pela revista parisiense "Magazine-Hebdo" revela que apenas 26% dos franceses declaram-se favoráveis ao governo Mitterrand, 56% afirmam-se contrários e 18% asseveram não ter opinião formada.

Em outras palavras, apesar dos esforços empregados, as rosas murcham no arraial socialista. Entre elas, a rosa predileta da autogestão.

Um plano que ficou para depois

A autogestão é, por assim dizer, a menina-dos-olhos do socialismo francês. O principal objetivo de Mitterrand ao assumir o governo era promover a referida e tão decantada forma de socialização na França.

Para isto, o presidente francês apresentou a autogestão como um tipo de socialismo novo, de "face humana", com ares de menos totalitário do que os socialismos anteriores (embora, na realidade, fosse mais radical).

De início, o plano vingou. A imprensa francesa e internacional aplaudiu entusiasticamente Mitterrand. E a sociedade autogestionária excogitada pelo PS francês foi acolhida como a panaceia para os males do mundo: "nem capitalismo, nem comunismo, e sim autogestão", escrevia-se, gritava-se.., cochichava-se.

As "inteligentsias" do mundo livre, sempre sensíveis a qualquer lufada que sopre da esquerda, uniram-se de modo geral ao coro dos entusiastas da autogestão. Tudo caminhava de vento em popa para o socialismo francês.

Passados três anos, surpresa. A autogestão não é hoje mais do que uma bandeira desenfunada, e pende langorosamente ao longo do mastro socialista.

Em entrevista ao jornal parisiense "Libération" (órgão do PSF), Mitterrand adaptou sua tese autogestionária aos novos tempos. Propõe agora uma outra "terceira via" (a autogestão era uma delas; parece inerente à velhacaria do socialismo caminhar sempre através de "terceiras vias").

Consistiria esta numa simbiose entre a direita e a esquerda. No plano econômico, uma mescla de capitalismo (qualificado por Mitterrand como produtivista) e de socialismo (considerado distributivista).

Ou seja, o presidente francês acaba concordando que o socialismo desestimula a produção, e que só o capitalismo é capaz de promover o progresso material.

Mitterrand já ganhou um adepto para sua nova tese. Em declaração a uma rádio da França, o primeiro-ministro socialista espanhol, Felipe Gonzalez, não se pejou em afirmar que "o capitalismo é o sistema que melhor funciona"!

Assim, Gonzalez vai se adaptando também aos novos tempos.

Uma refutação que desinflou o balão socialista

Ao tratarmos das reações contra a aplicação da autogestão na França, afirmamos que a tática de não levar a polêmica para o campo ideológico foi, e continua sendo, o mais grave erro da direita.

Quando Mitterrand subiu ao poder, tinha contra si um grave inconveniente: a liberdade de discordar dos franceses. Implantar um regime socialista através da ditadura, como nos países do Leste europeu, pode não ser fácil. Mas introduzi-lo num país onde há liberdade de contestar, é muito mais difícil.

Desde o início de seu governo, Mitterrand contou com a preciosa colaboração das cúpulas de direita, no sentido de que estas não se preocuparam em apresentar uma refutação doutrinária contra o socialismo auto gestionário.

Mesmo a Hierarquia católica (que só saiu a público para dirigir e "moderar" as manifestações contra a lei de ensino), embora tivesse o dever inalienável de alertar e orientar os católicos neste momento de perigo, manteve-se desconcertantemente silenciosa.

Em meio a essa inconcebível situação, tudo parecia indicar que Mitterrand alcançaria seu intento. Entretanto, o que lhe poderia ser mais funesto aconteceu: em dezembro de 1981, veio a lume a Mensagem das 15 TFPs "Socialismo autogestionário: em vista do comunismo, barreira ou cabeça-de-ponte?", de autoria do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira.

Este documento, apresentando uma refutação doutrinária sólida e irretorquível do socialismo autogestionário, prova que este é, apesar das aparências, mais radical do que o próprio comunismo. A partir daquele momento, o balão socialista começou a murchar.

Como pôde tal Mensagem (que só agora começa a circular largamente na França, inserida no livro "Autogestão socialista: as cabeças rolam na empresa, no lar, nas escolas", também de autoria do presidente da TFP brasileira) prejudicar tanto a escalada do socialismo?

Para alcançar a vitória, Mitterrand deveria conquistar duas coisas a um só tempo: a adesão dos franceses e a simpatia de outros países (principalmente os do Terceiro Mundo) à sua tese autogestionária. Aureolado com o prestígio que granjeasse fora da França, Mitterrand se apresentaria como o herói da autogestão aos franceses, procurando assim conquistá-los para sua causa.

Por outro lado, à medida que a autogestão fosse sendo introduzida na França, os meios de comunicação e as "inteligentsias" espalhariam pelos quatro cantos da terra os aparentes progressos autogestionários, enquanto meticulosamente silenciariam os fracassos.

Assim, ficaria criado um círculo vicioso: cada progresso da autogestão na França favoreceria o prestígio de Mitterrand no Exterior; tal renomada, por sua vez, representaria um argumento para fazer caminhar a socialização na França.

O segundo passo seria, evidentemente, alguns governos, sob a influência da experiência francesa, irem aplicando a autogestão em seus próprios países. E a América latina afigurava-se como campo fértil para a realização de tal experiência.

Ora, a Mensagem do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira contra o socialismo autogestionário destruiu a auréola de prestígio que Mitterrand gozava no Exterior, e levantou profundas e inequívocas objeções doutrinárias contra o programa do PS francês.

A monumental divulgação que este documento teve em todo o mundo (um total de 33,5 milhões de exemplares difundidos em mais de 150 países) neutralizou a claque de entusiastas da autogestão no plano internacional.

Sem prestígio no Exterior, Mitterrand não poderia implantar a autogestão na França. Desde então, o urubu socialista não conseguiu mais voar, uma vez que foi atingido por chumbo nas asas. Passou a caminhar, e, por vezes, a rastejar.

Ao término de seu terceiro ano de governo, o desventurado político francês abandona a autogestão, a lantejoula que deveria fascinar o mundo inteiro. Agora lança uma "terceira via", na qual até o capitalismo entra como ingrediente. E a autogestão é sumariamente arquivada.

É incontestável: a rosa autogestionária murchou. E o jardineiro socialista está tentando fazer um duvidoso enxerto a fim de obter novo tipo de rosa...

PROF. PLINIO FELICITA AÇÃO CONTRA O ABORTO

EM NOME do Conselho Nacional da TFP, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, através de telex remetido em 1-6-84, felicitou o deputado Hamilton Xavier (PDS-RJ), autor de recente parecer contrário à aprovação do projeto de despenalização parcial do aborto no País. Tal parecer recebeu voto favorável da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

"Felicito calorosamente a Vossa Excelência e a digna Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos deputados pelo voto favorável dado ao parecer em que o ilustre deputado assim se manifestou contrariamente à aprovação do projeto de despenalização parcial do aborto no Brasil.

"Essa atitude constitui memorável serviço prestado à Pátria e à Civilização Cristã".

Telex com texto análogo foi dirigido à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados.

VOTO A "CATOLICISMO" PELO SEU 400º NÚMERO

A CÂMARA Municipal de Pindamonhangaba enviou ofício de J. 690/84 à Redação de "Catolicismo", cujo texto reproduzimos abaixo:

Pindamonhangaba, 8 de maio de 1984

Prezado Senhor:

É o presente para levar ao conhecimento de V.Sa. que, de conformidade com o que dispunha o requerimento n° 416-84, de autoria do nobre Vereador Dr. Paulo Romeiro Ramos Mello, aprovado pela unanimidade de votos do plenário desta Casa Legislativa em sua sessão ordinária realizada ontem, ficou

registrado na Ata de trabalhos da referida sessão, um voto de efusivas congratulações com V. Sa. pela publicação da quadrucentésima edição do mensário o Catolicismo.

Associando-me a esta justa homenagem, aproveito o ensejo para externar-lhe meus protestos de elevada estima e apreço.

Ver. Luís Fernando Ramos Nogueira

Presidente

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