O PAPA ESBOFETEADO
Nelson Ribeiro Fragelli
nosso correspondente
ROMA — No Canto XX do "Purgatório" de sua "Divina Comédia", assim descreve Dante Alighieri o gravíssimo ultraje de Anagni, cometido na pessoa do Sumo Pontífice pelo embaixador do Rei da França:
"Veggio in Alagna intrar lo flordaliso,
E nel Vicario suo Cristo esser catto.
Veggiolo un'altra volta esser deriso;
Veggio rinnovelar l'aceto el fele,
E tra vivi ladroni esseranciso" .
Corria o mês de setembro de 1303. O Papa Bonifácio VIII acabava de celebrar em 1300 o primeiro Ano Santo — instituição que a partir dele tornou-se costume na Igreja até nossos dias.
Na França reinava Filipe IV, dito "o Belo" — neto do grande São Luís IX, modelo de soberano católico, que no leito de morte ditara ao filho as magníficas "Instruções" de como bem reinar.
O neto de São Luís, entretanto, não parece ter aproveitado as lições do avô. Por uma querela entre marinheiros, quase levou a França à guerra contra a Inglaterra, o que não ocorreu devido à intervenção do Papa. Tendo o monarca mandado prender o Bispo de Pamiers, o Pontífice fez-lhe saber que o Prelado devia ser julgado por uma corte especial. E a esse propósito dirigiu ao Rei da França paternais admoestações, na Bula "Ausculta, fili".
Ao recebê-la, Filipe IV convocou os Estados Gerais e moveu-os a apoiá-lo contra o Vigário de Cristo. Despachou então para Anagni — terra natal de Bonifácio VIII, onde já se tornara costume residirem os Papas em certos períodos do ano — uma embaixada chefiada por Guilherme de Nogaret.
Legista e articulador da política do Rei contra o Papa, o embaixador francês penetrou com seus sequazes na pequena cidade do Lácio na noite de 7 para 8 de setembro. Queimaram a porta da catedral, e por uma passagem coberta atingiram o palácio pontifício.
Bonifácio VIII compreendeu o que se passava e preparou-se para tudo sofrer revestido de sua inteira dignidade. Envolveu-se no manto pontifical, ordenou que lhe colocassem a tiara e tomou numa das mãos as Chaves e na outra a Cruz. Assim aguardou os invasores, sentado em seu trono. E nessa posição o encontraram e ultrajaram os enviados de Filipe IV. O legista sacrílego esbofeteou o Vigário de Cristo e o constituiu prisioneiro. Pouco depois, libertado por intervenção do povo de Anagni, Bonifácio VIII partiu para Roma onde, no mês seguinte, morreu de desgosto. Desde então, os Papas não mais retornaram a Anagni.
Revestido de características tão graves, o acontecimento é apontado por vários historiadores de valor como o fato que simbolicamente marca o fim da Idade Média. Séculos de influência salutar da Igreja, modelando a mentalidade dos povos e formando a civilização cristã ali se encerram. A partir de então, instaurou-se nova mentalidade. O laicismo passou a predominar nas relações entre o Poder espiritual e o Poder temporal, entre os Estados, os grupos sociais e os indivíduos. O espírito sacral que, embora já em decadência, presidira até aquela ocasião a vida dos povos integrantes da Cristandade, foi abatido.
Não sem razão, portanto, é Filipe o Belo considerado o primeiro dos soberanos modernos.
Quem hoje visita Anagni — sobretudo por ocasião do aniversário da terrível injúria ocorrida há quase sete séculos — encontra a pequena cidade aprazível e acolhedora, bem parecida ao que era no tempo em que abrigava os Papas.
Erguida no alto de uma montanha onde continuamente cantam os ventos, suas construções de pedra, simples e imensas, sucedem-se sem nenhuma preocupação geométrica, deixando entre si lugar para vielas, becos e ladeiras. Arcos e pórticos de antigos edifícios conduzem a outras travessas ou praças, que o visitante percorre, já quase sem saber em que século está vivendo...
Sisuda em sua graciosidade medieval, Anagni conserva ainda, na forma sensivelmente pesada de seu silêncio e de sua imobilidade, o estigma de uma vida brutalmente truncada naquela noite de setembro, quase 700 anos atrás. Noite trágica em que um Papa ultrajado dela se retirou e seus sucessores nunca mais voltaram.
Numa de suas vias pitorescamente tortuosas, a seta indica: Palácio dos Papas. Entra-se. Construído no século XII, o palácio atrai o visitante. Mas a atenção deste concentra-se num só ponto, e não sossega enquanto não o encontra. E achando-o, o que viu antes e verá depois perde-se nas brumas. Tal ponto é a sala do trono pontifício, conhecida depois de. 1303 como a Sala do Ultraje.
Ela está praticamente sem móveis. Mas de modo algum vazia. Não há muito o que observar. No entanto, o homem com espírito de fé não se cansa de olhá-la. É pouco o que se teria a descrever, embora o que sugere ao espírito mereça um livro. Pois ali se vê um desenrolar histórico inesgotável. E as frases de Dante brotam na memória para ilustrar o imponderável do ambiente:
"Veggio in Alagna intrar lo fiordaliso... Veggiolo un'altra volta... Veggio rinnovelar..."
O Palácio dos Papas, em Anagni, palco do acontecimento que alguns historiadores consideram simbolizar o fim da supremacia do Poder Espiritual.
Embaixo: Sala do Ultraje, onde Bonifácio VIII foi insultado e preso pelo embaixador de Filipe IV, Rei da França.
Busto do Papa Bonifácio VIII, em Anagni (Arnolfo di Cambio, 1245-1302).
Falecem dois amigos de "Catolicismo"
Já estava pronto nosso número especial (agosto-outubro de 1981) sobre o revigoramento de modas e costumes tradicionais nos Estados Unidos, quando ocorreram os falecimentos de dois grandes amigos de "Catolicismo": o Arcebispo Metropolitano de Cuiabá, D. Orlando Chaves, S.D.B., e o cooperador da TFP no Rio de Janeiro, engenheiro João Carlos Thomaz Pereira. Esta folha não poderia deixar de registrar com dor a perda de ambos, que a títulos diversos batalharam meritoriamente em prol da causa da Igreja.
D. Orlando Chaves, S.D.B.
D. Orlando Chaves nasceu em Campina Verde, no Triângulo Mineiro, em 17 de fevereiro de 1900. Tendo ingressado na Congregação Salesiana (Sociedade Dom Bosco), ordenou-se Sacerdote em 10 de julho de 1927. A 29 de fevereiro de 1948 foi eleito Bispo de Corumbá e a 18 de dezembro de 1956 promovido a Arcebispo Metropolitano de Cuiabá.
Por ocasião do estrondo publicitário promovido contra a TFP em 1975, escreveu carta de aplauso à associação, "pela atitude destemida com que vem lutando contra a introdução do divórcio no Brasil". Depois de enumerar em sua missiva outras campanhas da entidade em favor da civilização cristã e contra o comunismo, o Arcebispo assegurou: "Felizmente, as acusações que fazem contra a TFP não têm fundamento e cairão por si".
Seu fecundo apostolado em terras matogrossenses lhe valeu grande estima popular. Faleceu em Cuiabá no dia 15 de agosto, festa da Assunção de Nossa Senhora.
João Carlos Thomaz Pereira
Nasceu a 16 de abril de 1938 no Rio de Janeiro, onde fez seus estudos e diplomou-se como engenheiro em 1963, pela Escola Nacional de Engenharia da antiga Universidade do Brasil. Mais tarde graduou-se Master de Engenharia Industrial pela Universidade Estadual de Oklahoma (Estados Unidos).
Conheceu a TFP na capital carioca em 1968, e, entusiasmando-se por seus ideais, tornou-se dedicado cooperador. Em fins de 1969 começou a sentir os primeiros sintomas da doença que iria marcar o resto de seus dias. Entretanto, em nada diminuiu seu empenho de dedicar à nobre causa que havia abraçado o melhor de suas atividades. Tendo sofrido sucessivas cirurgias, a partir de maio de 1979 passou a viver na expectativa de um desenlace fatal, manifestando então um espírito sobrenatural de confiança na Providência Divina e de holocausto, que impressionou profundamente aos que conviviam com ele.
Chefe de família modelar, deixou esposa e três filhos. Faleceu a 23 de agosto no Rio de Janeiro, onde residia, e foi sepultado no cemitério São João Batista.
Na Missa de sétimo dia, celebrada no dia 31 do mesmo mês, na capela do Palácio Guanabara, compareceram, além dos familiares e considerável número de amigos, os sócios e cooperadores da Secção carioca da TFP.
Dívida externa: a deles e a nossa
Peter Krone
Antes foi a Polônia que pediu à comunidade bancária ocidental a dilatação do prazo para saldar suas dívidas, aliás concedida sem dificuldades. Agora é a Romênia que anuncia o pedido de prorrogação do pagamento de um quarto de sua dívida de 10 bilhões de dólares para com o Ocidente.
Em seu conjunto, os empréstimos aos países de além-cortina de ferro já totalizam hoje mais de 80 bilhões de dólares, sem contar as dívidas da Rússia. Sete países da Europa Oriental contraíram empréstimos bastante elevados com entidades financeiras ocidentais: Polônia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária, Tchecoslováquia, Alemanha Oriental e Hungria.
A Polônia tem uma dívida estimada em 25 bilhões de dólares, vindo logo a seguir a Iugoslávia com 18 bilhões. O regime de Varsóvia está sem dinheiro até para comprar dinheiro... Uma encomenda de papel-moeda feita aos ingleses não foi entregue porque não havia dinheiro para pagá-la.
"E o Brasil? Sozinho, nosso país deve mais de 50 bilhões...", objetará algum leitor.
Há uma grande diferença, respondo. Lá, afundam em consequência do próprio regime antinatural a que estão aqueles povos submetidos à força. Aqui, afundamos misteriosamente em meio às riquezas. Bastaria desenterrar Carajás, mesmo levando-se em consideração o número de anos necessários para isso, e adotar medidas eficazes para o aproveitamento das potencialidades do País.
"Bastaria..." É claro que tais medidas em muitos casos seriam custosas e doloridas. Se deixamos crescer em nosso corpo social o tumor da estatização coletivista — parecida com a do Leste europeu — é preciso extraí-lo ainda que seja doloroso.
Haverá desemprego nas indústrias e nas cidades? — Encham-se os campos, cultivem-se os cerrados, estabeleçam-se planos inteligentes de colonização. Serão os brasileiros de hoje menos capazes, empreendedores e corajosos que os de outrora?
E as indústrias? Vivemos sem elas durante largo período de nossa História. Ademais, ainda hoje a lavoura alimenta, em boa medida, a indústria nacional. Voltemos, pois, ao bom senso abandonado. (Agência Boa Imprensa — ABIM)
Português deixa muletas a caminho de Fátima
LISBOA — José Ferreira da Silva, 35 anos, casado e pai de 4 filhos, não podia andar sem muletas. Suas pernas não dobravam e além disso doíam muito. Mesmo para se locomover de muletas foi necessário colocar-lhe placas de platina nos ossos das pernas.
Quando, porém, José fazia sua peregrinação a Fátima neste ano, aconteceu o inesperado: largou as muletas e passou a andar sem elas. "Foi um milagre que Nossa Senhora de Fátima me fez e só eu e Deus sabemos o que sofri até este momento, pois agora felizmente e com a graça de Nossa Senhora, caminho com alguma dificuldade, mas sem dor nenhuma e sem as muletas", explicou ele ao "Jornal de Aveiro", de 25-9-81.
Embora considere desnecessários os exames médicos — pois sua fé e devoção à Santíssima Virgem lhe são suficientes para acreditar — José Ferreira da Silva está disposto a ser radiografado para que a medicina possa dizer uma palavra sobre a sua cura extraordinária. (Agência Boa Imprensa — ABIM)