Regime da Nicarágua confessa-se marxista-leninista
Carlos Sodré Lanna
Em sua edição de 2 a 8-10-81, o órgão oficioso da Arquidiocese paulopolitana, "O São Paulo", publicou entrevista de dois nicaraguenses que permaneceram 15 dias no Brasil. Trata-se do Pe. Pedro Leoz, do Centro de Educação e Promoção Agrícola, e de Juan Isidro B'Etanco, coordenador das Comunidades Camponesas Cristãs da Nicarágua. Este apresentou como objetivo da visita "informar e intercambiar o processo cristão da Nicarágua, que se fez através das Comunidades Eclesiais de Base, no processo revolucionário".
Sobre o processo revolucionário nicaraguense, "O São Paulo" reconhece que pairam dúvidas. E apresenta os "esclarecimentos" do Pe. Leoz sobre uma delas: qual a tendência ideológica de tal processo?
- "Não há nenhuma mais importante ou predominante. Somos um povo e um governo que analisa a realidade do país e age de acordo com essa necessidade", responde o sacerdote. Acrescenta a seguir que a Junta do Governo da Nicarágua vem respondendo satisfatoriamente aos objetivos primeiros propostos pela Revolução.
Entretanto, o problema ainda é a burguesia que não queria uma troca de sistema, apenas de governo.
"Nossa doutrina é o marxismo-leninismo"
A declaração do Pe. Leoz entra em rombuda contradição com o pronunciamento do ministro da Defesa nicaraguense, Humberto Ortega Saavedra, que afirmou:
- "Nossa força política e moral é o sandinismo, e a nossa doutrina é o marxismo-leninismo".
As declarações de Ortega, que é também comandante do "Exército Popular Sandinista" e chefe nacional das "Milícias Sandinistas", foram publicadas pelo jornal "La Nación", de San José (capital da Costa Rica), em 9-10-81.
É a primeira vez que um dos nove membros da direção nacional da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) identifica de modo tão claro o regime nicaraguense com a ideologia marxista-leninista.
Em seu discurso a cerca de 40 "especialistas" do Exército da Nicarágua, Ortega declarou ainda que "o imperialismo norte-americano, os inimigos de classe internos, a burguesia vende pátria,... organizações de direita e demais forças contra-revolucionárias .... não descansam, trabalham dia a dia para destruir nosso processo, apoiando os acampamentos dos guardas que foram derrotados pelo povo armado, e os contra-revolucionários de diversos países onde o povo tomou o poder, como em Cuba e no Vietnã".
Por isso, acrescenta Humberto Ortega, "nossa Revolução tem um caráter profundamente anti-imperialista, revolucionário, classista e antiburguês, .... nos guiamos pela doutrina científica da Revolução, pelo marxismo-leninismo".
"O sandinismo é a expressão concreta do desenvolvimento histórico da luta na Nicarágua; sem sandinismo não podemos ser marxistas-leninistas e o sandinismo sem marxismo-leninismo não pode ser revolucionário; por isso estão indissoluvelmente unidos". — "O marxismoleninismo é o instrumento de análise para entender o processo histórico da revolução nicaraguense".
Confisco em questão de horas
Ao definir sua concepção dos blocos internacionais, Ortega colocou implicitamente a Nicarágua no âmbito marxista, afirmando: "A humanidade se encontra polarizada em dois grandes campos: de um lado o imperialismo, o campo do capitalismo encabeçado pelos Estados Unidos e resto de países capitalistas da Europa e do mundo, e por outro lado o campo socialista, composto por vários países da Europa, Ásia e América Latina, encabeçados pela União Soviética".
Quanto à oposição ao processo revolucionário em seu país, o ministro nicaraguense disse: "Devemos tomar em conta a atividade contra-revolucionária dos setores burgueses que ainda estão na Nicarágua. ... Por um lado temos o atraso do país, a inexperiência da revolução por ser jovem; por outro lado, .... a atividade dos capitalistas .... e a atividade do clero contra-revolucionário, que se opõe a que os religiosos patriotas e revolucionários colaborem de cheio com a revolução, como o estão fazendo Ernesto Cardenal, Fernando Cardenal, Miguel D'Escoto e Parrales".
O "comandante da revolução", grau militar máximo que se confere na Nicarágua, deixou claro em seu discurso que a aliança com outros setores que colaboraram para a vitória da FSLN é meramente tática, e reiterou que o atual regime é o que deve manter a hegemonia do processo.
"Esta burguesia vende pátria foi aceita porque permitimos, mas a qualquer momento podemos tomar suas fábricas sem disparar um só tiro, porque não são capazes de empunhar suas armas contra nós, pois são covardes". O confisco das propriedades da burguesia que permanece no país, concluiu o chefe sandinista, pode ser executada em apenas meio dia.
Por outro lado, o ex-líder sandinista Gregório Cuadra, asilado na Costa Rica, revelou que o regime nicaraguense aumentou o número de bases militares no país com a ajuda de Cuba e da Rússia.
Em suas declarações, publicadas também pelo jornal "La Nación", de San José, Cuadra informou que seis novas bases foram instaladas, com contingentes de 500 a 1.200 homens e equipadas com tanques russos e aviões cubanos. Acrescentou ainda que o irmão de "Che" Guevara, Domingo Guevara, é agora "o homem forte da Nicarágua", assessorando os serviços de segurança do regime.
Noite Sandinista
No dia 28 de fevereiro de 1980, outro líder sandinista da Nicarágua, Daniel Ortega, atual chefe da Junta de Governo nicaraguense e irmão do mencionado ministro da Defesa, veio ao Brasil. Ele participou de uma reunião no Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA), em homenagem aos guerrilheiros sandinistas nicaraguenses, sendo freneticamente aplaudido por grande número de membros das comunidades de base, "teólogos" de várias confissões religiosas, padres e freiras. O anfitrião do encontro foi o próprio Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, Arcebispo de São Paulo e Grão-Chanceler da PUC-SP, tendo dirigido a sessão Frei Betto, o dominicano envolvido com o movimento terrorista em 1968.
Na ocasião, D. Pedro Casaldáliga, Bispo-Prelado de São Félix do Araguaia (MT), colocou a jaqueta do uniforme sandinista e afirmou: "Eu me sinto, vestido de guerrilheiro, como me poderia sentir paramentado de padre". A plateia delirou.
"O São Paulo" destacou o evento, estampando então na primeira página: "Fé, política, revolução e evangelho é uma só verdade. Nicarágua é apenas um começo".
Daniel Ortega declarou naquela noite de 1980 que na Nicarágua "ser cristão é ser revolucionário". Agora seu irmão completa: ser revolucionário é ser marxista. Ou seja, ser ateu, concluímos.
Todo esse comprometimento eclesiástico com a revolução nicaraguense foi denunciado com base em farta documentação, por "Catolicismo" de julho-agosto de 1980, n.°s 355-356.
Agora, aquela denúncia ganha novas cores, pois a própria revolução sandinista arranca sua máscara e mostra sua verdadeira face.
Humberto Ortega Saavedra, chefe das milícias populares sandinistas.
Livre iniciativa ou mitos socialistas?
Mário A. Costa
WASHINGTON - "Levaremos conosco ideias profundas e construtivas, destinadas a desfechar uma estratégia de cooperação para o crescimento global, que beneficiará tanto as nações desenvolvidas quanto as em desenvolvimento". Foi o que declarou o presidente norte-americano Ronald Reagan, em Filadélfia (EUA), pouco antes da Conferência de Cancún, no México, onde se reuniram líderes de 22 Estados para estudar o relacionamento entre países desenvolvidos e em desenvolvimento, da qual participou o Brasil, ocupando papel de destaque.
Nesse seu pronunciamento anterior à reunião de Cancún, Reagan delineou a política norte-americana em relação aos países em desenvolvimento, enumerou os múltiplos benefícios já concedidos a eles e realçou o valor da iniciativa privada nos empreendimentos e a cooperação desta com o governo como meio de os países em desenvolvimento alcançarem o progresso econômico e tecnológico. "Povos livres constroem mercados livres, que desfecham no desenvolvimento dinâmico para todos. .... Os países em desenvolvimento que mais crescem na Ásia, África e América Latina são os que mais liberdades dão a seus povos — a liberdade de escolher, de adquirir propriedades, de decidir onde trabalhar e de investir num sonho futuro".
E prova sua tese lembrando a situação das nações dominadas pelo comunismo. "Talvez a melhor prova de que o desenvolvimento e a liberdade econômica andam de mãos dadas possa ser encontrada num país que nega a liberdade ao seu povo — a União Soviética. .... Eles [os soviéticos] têm estado numa contínua maré baixa. .... Os 3% de toda a área agrária nacional que os agricultores soviéticos têm permissão para cultivar privadamente .... produzem 30% de todo o leite, carne e vegetais da Rússia, 33% dos ovos e 61% das batatas!" (Como se sabe, algo de análogo ocorre em muitos outros países da cortina de ferro).
Apesar disto, acentuou Reagan, "há uma vasta campanha de propaganda para convencer o mundo de que o capitalismo dos Estados Unidos é responsável pela pobreza e fome mundiais. .... No entanto, a cada ano, os Estados Unidos dão mais ajuda alimentar do que as outras nações combinadas. No ano passado, demos duas vezes mais ajuda oficial para o desenvolvimento do que qualquer outro país". E Reagan ainda acrescentou que os EUA prodigalizarão mais benefícios aos países em desenvolvimento, principalmente a setores privados da agricultura e ao campo energético.
Tal pronunciamento do dirigente norte-americano seria de molde a arrancar expressões de contentamento e apoio por parte dos países do Terceiro Mundo, que deveriam sentir-se estimulados a repudiar o sistema coletivista. Entretanto, a proposta de Reagan de incentivar o setor privado e a liberdade econômica não repercutiu favoravelmente em Cancún. Ao mesmo tempo, as sucessivas sugestões que a França socialista vem fazendo — também reiteradas em Cancún — para que os países do Terceiro Mundo formem um bloco monolítico a fim de resolverem seus próprios problemas, granjearam-lhe larga publicidade. De si, a proposta não é má. Entretanto, quem pode garantir que Mitterrand não quererá atrair gradativamente os países do Terceiro Mundo para sua área de influência e futuramente constituir com eles uma frente única hostil à política norte-americana, a qual ele vem paulatinamente criticando?
Se isto ocorrer, de imediato será o socialismo francês que lucrará, enquanto enfraquecerá a posição dos Estados Unidos no Ocidente, isolando-o. Ou seja, em última análise, será a Rússia que será beneficiada com o avanço do prestígio da França socialista entre os países do Terceiro Mundo. Esta, além do mais, se alcançar as "boas graças" dos terceiromundistas, certamente aproveitará para instilar junto a eles o veneno socialista.
Nessa atmosfera de expectativa, ocupa lugar decisivo o Brasil. Em Cancún acentuou-se a posição de liderança que o Brasil vai assumindo entre os países do Terceiro Mundo. Entretanto, o gigante brasileiro não poderá manter-se estavelmente só.
Com o tempo, ele mesmo terá que apoiar-se numa das superpotências que se digladiam: Estados Unidos ou Rússia. Alimentamos a esperança de que o bom senso brasileiro venha a prevalecer, desviando o País da influência nefasta do totalitarismo ateu e antinatural, seja na versão brutal do bolchevismo, seja em sua expressão mais recente e risonha, representada pela França de Mitterrand. (Agência Boa Imprensa — ABIM)
À reunião de Cancun (México) compareceram numerosos chefes de Estado e de governo.
O jangadeiro solitário
O brilho da Estrela d'Alva é intenso. Ao Oriente, o tom lilás vai levemente transformando o azul celeste, profundo no zênite, pálido ao nascente.
Embalsama a madrugada a brisa fresca. No casebre próximo àquela encantadora praia do Nordeste brasileiro acende-se um lampião, abre-se uma janela. Jerônimo olha a espuma branca que acaricia a branca areia. E ouve ao longe o rugir de ondas que se espatifam contra arrecifes impávidos. É hora de começar a faina.
Cabaça d'água, frugal repasto no embornal, instrumentos de pesca... é tudo. Encomenda-se a Deus e à Virgem dos Navegantes, troca algumas palavras com a mulher, toma seu café e dirige-se à velha jangada construída com simples troncos de madeira.
* * *
O céu, há pouco róseo, enrubesceu, e logo mais estará dourado. E em douradas ondas navegará o jangadeiro para alto mar.
Só, Jerônimo parte para desafiar o oceano, ao sabor dos ventos, das tempestades ou das calmarias.
Nesse mar de audácias, o jangadeiro sente-se à vontade. Espírito lúcido como a claridade do dia, afoito como as correntezas, varonil como um guerreiro, Jerônimo contempla a vastidão das águas, e tem vontade de enfrentá-la a fim de que sua alma se torne grande como ela. Porque só a vastidão do mar pode encher sua alma sedenta de proezas.
Momento raro: ali está o tubarão faminto rondando a jangada. Pendurada no mastro que sustenta a vela, o pescador previdente tem a arma com a qual vai enfrentá-lo. Trata-se da abóbora que mantém cozinhando num caldeirão amarrado a um pequeno fogareiro. O jangadeiro lança na água a quentíssima abóbora. Engole-a o perigoso peixe... E sofre as consequências intestinas do alimento esfriado apenas superficialmente, pelo contato com a água. No interior do tubarão, a abóbora desprende todas as calorias acumuladas. O peixe se contorce, agita ás águas, foge para morrer mais tarde. É um inimigo vencido pela perspicácia.
* * *
E Jerônimo continua a labuta, com a água a lhe banhar as pernas e o sol a lhe tostar a pele.
Se a jangada vira, ele mergulha, dá um jeito de levantar o mastro e coloca-se de pé novamente. Dificilmente seus utensílios se perdem, porque ele os amarra sempre com cuidado.
É nessa luta cotidiana que o jangadeiro se realiza. Aquela vastidão do mar lhe satisfaz o espírito. Pobre, não cobiça riquezas e dispensa os mil dissabores e preocupações que estas costumam acarretar. Na solidão do mar, não precisa exibir-se a outras pessoas para aplaudirem sua audácia. Ele quer ser grande, sim. Mas daquele tipo de grandeza singela do mar, que ele admira e doma, e em cujos ares Jerônimo respira e cresce a seus próprios olhos. Ou melhor, aos olhos de Deus, em Quem ele crê e espera. E cuja solidão no Horto das Oliveiras, ele imita.
* * *
Antes do cair da tarde, é preciso voltar, aproveitando a maré.
Da praia, pode-se divisar aquele pequeno ponto branco que começa a despontar no horizonte. Aos poucos ele se aproxima, sendo saudado pelas crianças com saltos e gritos de alegria. São seus filhos. Em sua face, já marcada pelos anos de árdua labuta, estes percebem o dia de riscos e proezas por que ele passou.
Ao cair a noite, sentadas junto aos coqueiros, as crianças pedem ao jangadeiro com insistência para contar aquele episódio, que repetirão mil vezes ao longo da vida, do estratagema que Jerônimo empregou para vencer o tubarão feroz.
Um dia, porém, Jerônimo partiu. E não mais voltou.
Morrera em seu campo de batalha. O mar, em sua grandeza, era digna sepultura de tão grande alma.
Em cenários cheios de poesia, alimenta-se o espírito épico dos homens do mar;
Ao final da jornada, o jangadeiro rememora as lutas empreendidas e suas contemplações na vastidão do oceano.
Rumo ao alto mar, desafiando o perigo.
De manhã, a partida.