BARBARIE PATERNA - AFETO FILIAL
Murillo Maranhão Galliez
Há algum tempo publicamos um artigo sobre os maus tratos que certos pais infligem aos próprios filhos (Cfr. "Pais carrascos: frutos atuais da Revolução", "Catolicismo" n.° 320, agosto de 1977):
De lá para cá, o tema da criança maltratada vem figurando na grande imprensa com frequência cada vez maior. Notícias, reportagens ou artigos aparecem quase diariamente em publicações dos Estados Unidos, Europa e América Latina. O que leva a crer que o número de crianças maltratadas, ou até assassinadas, pelos pais continua a crescer.
Muito significativo é este depoimento da Sra. Anne-Aymone Giscard d'Estaing, esposa do Presidente da França:
— "Desde que meu marido foi eleito presidente da República, a infância maltratada tem sido um dos assuntos mais freqüentes na correspondência que recebo. [...]. Aliás, mandei recortar, durante meses seguidos, todos os artigos que se referem a casos de crianças mártires na imprensa regional ou nacional. Pois bem, não há praticamente um dia em que não ocorra um caso grave em algum lugar da França".
Essa declaração e outras informações que aqui transcrevemos foram extraídas de uma interessante reportagem sobre o assunto publicada na revista francesa "Le Figaro Magazine", edição de 19/ 1/ 80, sob o título "Enfants martyrs: un mort par jour en France".
Novo tipo de selvageria
Com a finalidade de proteger a infância, a primeira dama da França criou uma instituição, a Fundação Anne-Aymone Giscard d'Estaing, que publicou recentemente um relatório sobre a infância maltratada.
Segundo o documento, haveria na França, cada ano, aproximadamente 40 mil, crianças vítimas de sevícias graves por parte de seus pais. E várias centenas morreriam por ano — uma por dia — em consequência delas.
Na Inglaterra, a Câmara dos Comuns constituiu, em 1976, uma comissão especial que procedeu a um recenseamento metódico dos dados recolhidos pelos serviços sociais e pelo Serviço Nacional de Saúde (National Health Service). Os números coletados foram assustadores: para cada grupo de 10 mil crianças de menos de quatro anos, 40 a 60 são gravemente maltratadas cada ano.
Nos Estados Unidos os relatórios das comissões especiais do Senado chegaram a conclusões ainda mais pessimistas: em média 1 milhão de casos de sevícias por ano — dos quais dois mil fatais — , o que equivale a 5% das crianças de menos de seis anos.
Tais cifras são provavelmente inferiores à realidade já que, na imensa maioria dos casos, uma verdadeira conspiração do silêncio impede que vizinhos ou testemunhas alertem os serviços sociais ou a polícia. Os pais que levam o próprio filho espancado ao hospital, costumam inventar os mais diversos motivos para explicar as contusões.
Quanto às crianças — e aqui temos o primeiro dado importante e comovente de seu comportamento — todas as enfermeiras e assistentes sociais interrogadas afirmaram: elas jamais denunciam seus pais, a não ser que já estejam separadas deles há muito tempo.
Frutos da concepção indesejada
De acordo com relatórios da polícia, arquivos de tribunais para a infância, e estudos feitos por pediatras e cirurgiões de grandes hospitais, o hábito de maltratar os filhos atinge todas as categorias sociais. Há alguns meses, por exemplo, uma clínica de Paris atendeu uma menina de um ano que tinha o corpo coberto de hematomas e morreu por ruptura do fígado. O pai era médico e a mãe psicóloga.
Quase na mesma época um lactente de seis meses morria de maneira misteriosa no serviço de cirurgia ortopédica de um hospital do interior. Por três vezes sua mãe já o tinha levado para ser socorrido com vértebras fraturadas. A equipe cirúrgica não atinava com a causa dessas fraturas em série. Não foi senão após a morte da criança que a mãe cedeu e confessou ao cirurgião: "Meu marido se distraía em jogá-lo para cima como se fosse uma bola. Mas, algumas vezes, em vez de segurá-lo, deixava que ele caísse no chão".
Demência? Não parece ser o caso. Talvez manifestação aguda de imaturidade e insensibilidade moral próprias a uma geração que sofreu um processo de degeneração mental, incutida principalmente pela televisão e por outros meios de comunicação social.
Muitas vezes esses pais-carrascos foram, eles próprios, crianças maltratadas. E encontram em seu passado doloroso uma pseudo-justificativa para seu comportamento desumano.
Tal atitude agressiva pode também manifestar-se por ocasião de uma separação ou de um divórcio. Determinado pai, abandonado pela mulher, bate em sua filha “... porque ela se parece com a mãe, uma sem-vergonha [...]".
Outras vezes ainda é a personalidade de um só dos filhos que desperta a violência e o sadismo dos pais. Seja porque a criança chora à noite, ou recusa a comida, ou mesmo quando, na escola, não corresponde ao que dela esperava a vaidade dos progenitores. E o caso daquela menina de nove anos, cujos pais, da classe média, a obrigavam, quando ela não sabia sua lição de cor, a recitá-la dezenas de vezes diante deles, de pé e inteiramente despida.
Ou então, é o caso de pais que, desejando ardentemente um filho, nasce uma filha, ou vice-versa. Vítimas dessa decepção foram duas meninas de nove meses, gêmeas, hospitalizadas com o corpo coberto de queimaduras produzidas por pontas de cigarro. Seu pai não podia suportar a ideia de não ter um filho!
Constatação muito importante é a seguinte: quase todas as crianças espancadas foram rejeitadas desde a sua concepção. Todas as testemunhas ouvidas concordam: em oito de cada dez casos a criança mártir é alguém cuja mãe havia desejado livrar-se dela pelo aborto.
É muito importante esse ponto para que se possa seguir o processo de degeneração daqueles cujo egoísmo exacerbado não permite que os filhos venham a perturbar seu desejo frenético de gozar a vida. Primeiro recorrem aos anticoncepcionais, depois ao aborto, finalmente ao infanticídio. O processo é o mesmo, a causa é a mesma; só os métodos variam conforme a etapa.
O comovente amor filial das vítimas
Diante de tais manifestações de barbárie, que medidas as autoridades pensam tomar?
Parece haver muita hesitação a respeito. A própria Sra. Giscard d'Estaing é muito cautelosa quando responde:
— "Até agora as únicas soluções adotadas são as sanções penais contra os pais, aos quais se retira a criança. Mas o objetivo é de conseguir manter a coesão familiar por uma ação de prevenção e informação".
Ela julga, entretanto, que convencer uma jovem gestante, que não deseja a criança, a levar a gravidez até o fim e depois entregar o filho para ser adotado não é uma solução satisfatória, pois repercutiria mal na opinião pública.
Tanto no hospital como em seu meio social ela seria tratada como mulher perdida ou ser monstruoso. E a Sra. Giscard d'Estaing acrescenta:
— "O meio em que vive é o mais das vezes extremamente coercitivo. Vendo uma jovem grávida que se recusa tanto a abortar quanto a criar seu filho, ele lançaria brados de horror".
Essa declaração, que causa perplexidade, leva a refletir sobre a deterioração moral da mentalidade da opinião pública na França. De fato, um aborto parece provocar menos repulsa que a entrega de um filho para ser adotado...
Aliás, a adoção determinada pela Justiça não se afigura, nas circunstâncias atuais, como solução eficaz. Por incrível que pareça, acontece frequentemente que as crianças assim "colocadas" judicialmente, fogem de seu lar adotivo para voltar àquele de seus pais. Mesmo se, a cada vez que o façam, estes as acolham com brutalidade.
"O fato de a criança haver sido maltratada estabeleceu uma relação sentimental muito forte entre ela e os pais" — constata a diretora de um serviço de orientação e ação educativa. "Tal laço pode parecer estranho mas existe, e tanto as crianças como os pais têm necessidade dele. Por isso cremos que é preciso evitar, tanto quanto possível, retirar a criança de sua família".
Esse é o segundo dado importante para analisar o comportamento das crianças.
O terceiro é, apresentado nesta cena comovente: na manhã do dia de Natal, em hospitais para onde haviam sido levadas com urgência por seus pais criminosos, crianças com os corpos macerados, com os membros fraturados em mais de um lugar, pequenos mártires, de repente iluminam a face com um sorriso de alegria, em que transparece toda a inocência da alma infantil. E isto por quê? Porque haviam reconhecido entre os visitantes a própria mãe que as maltratara.
A cena fala por si e dispensa comentários.
Egoísmo x inocência
De um lado temos os pais, com a alma encharcada de egoísmo, fruto do ambiente neopagão e revolucionário em que vivemos, querendo fruir a vida a todo preço, e para quem os filhos constituem um estorvo. Por isso recorrem à contracepção, ao aborto, à sevícia e até ao infanticídio.
Diante de tamanha selvageria qual é a reação das crianças?
Sorriem quando veem a mãe que as maltratavam. Não denunciam os pais que as espancam. Fogem de volta para aquela casa na qual as aguardam as sevícias — mas que sabem ser o seu verdadeiro lar — quando colocadas à força em casa alheia.
A inocência primeva, ainda mais quando vivificada pela graça santificante do Batismo, tem um senso do ser e uma noção profunda, embora não explicitada, da lei natural, que a própria rejeição, vinda de onde não poderia vir, não consegue esmagar.
A criança sabe perfeitamente, embora de modo implícito, que, pela ordem posta por Deus na criação e pela lei natural, ela deve receber de seus pais proteção, afeto, educação. Por isso ela se volta sempre para os autores de sua vida e, apesar dos maus tratos que tantas vezes deles recebe, procura preservar a coesão familiar.
A perda da inocência, ou seja, dessa visão primeira e maravilhosa das coisas, transforma as pessoas em seres egoístas e céticos, voltados exclusivamente para seus pequenos interesses. É um fruto típico do processo de degenerescência moral em curso no mundo atual e do tipo de formação, ou de deformação, que tal estado de coisas impôs às crianças.
E as vítimas do aborto?
Finalizando, uma observação a respeito da entrevista da Sra. Anne-Aymone Giscard d'Estaing.
Segundo suas declarações, tanto ela quanto seu marido, o presidente francês, encontram-se preocupados com a sorte das crianças maltratadas em seu país. Ela diz mesmo que é anormal que uma criança não tenha um representante para defendê-la diante da lei, já que os .magistrados, embora agindo de boa-fé, "hesitam em romper os laços de filiação pelo sangue, mesmo quando a relação pai-filho esteja profundamente deteriorada e se torne perigosa para a criança".
Compreendemos o interesse da primeira dama francesa e mais ainda a hesitação dos magistrados.
Mas já que a Sra. Giscard d'Estaing se mostra tão sensibilizada pela sorte desses pequeninos, parece-nos lógico indagar se ela não se mostra igualmente ou ainda mais tocada pelo destino dos 600 mil nascituros que morrem anualmente na França, vítimas do aborto provocado e liberalizado mediante uma lei promulgada pelo atual governo francês.
Seria coerente que ela, chocada pelo massacre das crianças que já nasceram, colocasse o peso de sua influência para conseguir a revogação de uma lei, que facilita a matança de tão grande número daquelas que estão por nascer.
A fisionomia desta menina francesa reflete bem o sofrimento do número crescente de crianças-mártires
O mesmo drama na Alemanha
Também na Alemanha Ocidental o governo está preocupado com o número crescente de casos de crianças maltratadas, e até mortas, pelos próprios pais.
Recentemente foi editado pelo Ministério para a Juventude, Família e Saúde um opúsculo de pouco mais de cem páginas intitulado: "Maus tratos de recém-nascidos e crianças. Reconhecer e ajudar. Uma instrução prática" (Bonn, 1979).
Trata-se de um manual organizado pelo Centro de Proteção à Criança, de Berlim, tendo por finalidade ensinar a reconhecer e prestar ajuda á casos de crianças maltratadas e a prevenir a ocorrência de casos futuros.
A obra transcreve muitas notícias publicadas na imprensa daquele país sobre sevícias infligidas às crianças por seus pais, algumas resultando em morte. Também publica fotografias impressionantes de lesões corporais encontradas nas pequenas vítimas, provocadas por este tipo asqueroso de violência, algumas das quais reproduzimos como ilustração nesta página.
Como amostra das sevícias descritas na obra, citamos apenas alguns casos:
• "Der Tagesspiegel", 14/12/78 — Mulher de 20 anos foi condenada a 7 anos de prisão por ter deixado morrer de fome seu filho de 3 meses. Na tarde do dia em que a criança morreu, fora levar seu cachorro para passeio, deixando o filho em casa sozinho.
• "Frankfurter Allgemeine Zeitung", 25/3/78 — Mulher de 36 anos presa por ter maltratado a filha de 10 anos, que era surrada com correia de cachorro e obrigada a comer em tijela de cachorro. A menina apresentava inúmeras cicatrizes e hematomas, além de sinais que mostravam ter sido os cabelos arrancados aos tufos.
• "Der Tagesspiegel", 29/9/78 — Em virtude de o filho de 7 anos não ter querido comer direito o pão, a mãe perdeu a paciência e empurrou com violência o referido alimento pela garganta da criança, que veio a falecer dois dias depois, num hospital.
• "Der Stern", n.° 10, 1978 — Depois de ter chamado o médico dizendo que seu filho de 5 anos devia estar morto porque não respirava mais, a mãe declarou à polícia: "Bati nele porque não estava querendo tomar a sopa. Quando ele caiu no chão notei que sangrava pelo nariz, mas continuei a surrá-lo com o cinto e a dar-lhe pontapés".
Essas são apenas algumas consequências funestas de um estado de alma que se vai generalizando na época materializada e neopagã em que vivemos.
Duas crianças alemãs duramente maltratadas pelos pais. Nota-se claramente os hematomas e o estado de trauma psicológico.
PARA O COMUNISTA TITO, POMPAS FÚNEBRES DE REI...
Tito morreu... No mundo inteiro, do Oriente ao Ocidente, a atenção dos povos foi presa pela cadência fúnebre das manchetes que solenemente desfilavam ante seus olhos, propagadas pelos órgãos de informação. Dia a dia, a conta-gotas, exprimindo em cada palavra um sentimento de dor e compaixão, as notícias se renovavam na imprensa, rádio e televisão, descrevendo ao público a longa agonia, e, por fim, a morte do ditador.
Se fizéssemos um pequeno retrospecto histórico, chegaríamos à conclusão que depois da Segunda Grande Guerra — ou talvez um pouco antes — não se noticiou com tanto destaque a morte de um chefe de Estado. Entretanto, mais do que o destaque, o que especialmente chamou a atenção foi o caráter cerimonioso que cercou o enterro do "camarada" Tito — inteiramente oposto à praxe igualitária comunista.
Houve nisso autenticidade? Ou foi um show político e diplomático internacional, para pôr em evidência a figura e a obra do falecido chefe comunista?
Teria Tito realmente falecido no dia em que a notícia de sua morte foi divulgada? Ou teriam os líderes comunistas esperado o momento propício para anunciá-la?
Morte em hora oportuna
Para se apresentar uma sensacional cerimônia de amplitude mundial, é necessário que se escolha o momento em que a tensão internacional não atraia as atenções para algum outro assunto. Por exemplo, se a morte de Tito tivesse ocorrido no auge da crise do Irã, por ocasião da brutal invasão soviética no Afeganistão, ou ainda na época do recente e escandaloso caso cubano, teria diminuído enormemente a repercussão em todo o mundo do que se passou em Belgrado.
Ora, sendo os marxistas ávidos de tirar partido de todas as situações, não se pode excluir a hipótese de a hora do anúncio da morte de um personagem como Tito ter sido escolhida. Pois de tal maneira o velho ditador morreu num intervalo relativamente calmo, que não poderia ter falecido em hora mais oportuna, para se poder encenar em torno de seu cadáver o espetáculo que se desenrolou.
Real ou ficticiamente, poderíamos dizer que Tito morreu na hora certa, foi enterrado no momento certo, com a solenidade e cerimônia certas, nas circunstâncias mais apropriadas.
Se assim considerarmos, os funerais do ditador iugoslavo se nos apresentam como uma monumental cerimônia ornando um grande show.
No que consiste esse show? Qual é a sua finalidade?
Acreditarão os comunistas — propugnadores do mais radical igualitarismo — na importância da pompa e do cerimonial?
A divulgação da morte de Tito dispôs da propaganda do mundo inteiro. A imprensa, o rádio e a televisão não pouparam comentários e elogios ao velho presidente iugoslavo. E, apesar disto, os comunistas julgaram que a propaganda não teria seu verdadeiro gume se ela fosse apenas uma descrição teórica da pessoa e obra do ditador. Para perpetuar sua memória, consideraram necessário realizar seus funerais com cerimônia, pompa e protocolo, com a participação de chefes de Estado, presidentes de repúblicas, reis e chefes de governo. Sim, era necessário até a presença de reis, para lembrar as pompas quase extintas atualmente das antigas cortes.
O que equivale dizer que os comunistas — hábeis manejadores da guerra psicológica revolucionária — conhecem profundamente o valor do protocolo, da pompa e da cerimônia. Valorizam-nos quando desejam ser vistos com simpatia; achincalham-nos quando estes refletem valores da civilização cristã. Como desejam construir um novo mundo, ataviam-no com o cerimonial.
Do Parlamento à sepultura
Para os leitores que não tiveram oportunidade de conhecer com detalhes a cerimônia do enterro de Tito sentirem a realidade de todas estas considerações, examinemos os pontos essenciais do sucedido, focalizando principalmente as passagens mais carregadas de solenidade — enquanto tais, odiadas de modo especial pelos marxistas, mas utilizadas por estes para fins de propaganda.
No Parlamento, onde era o corpo velado, ouvia-se, ao término da vigília, a nona sinfonia de Beethoven. Ao meio-dia, o caixão bege em que se encontrava o cadáver foi carregado, em meio a profundo silêncio, até um reboque militar que o conduziria aos jardins de sua casa, às margens do Danúbio, onde seria sepultado.
Considere o leitor o ambiente de solenidade criado nos últimos momentos do velório, enquanto começam os preparativos para o cortejo. O silêncio que envolvia a sala, a nona sinfonia de Beethoven que toca, o caixão bege que é conduzido lentamente para a saída do edifício. O quadro dramático assim formado tem em si uma certa força de sugestão. Projeta um clima, envolvendo em mistério toda a cerimônia que se inicia.
Depois, o local onde seria enterrado Tito: os jardins de sua casa, localizada às margens do prestigioso rio Danúbio. Jardins... Não um, mas vários — tão mais adequados à casa de um aristocrata, ou de um burguês ocidental, e não à de um chefe de Estado comunista. Às margens do Danúbio... Quanto nisto há de sugestivo! Em nosso espírito começam a esvoaçar as notas melodiosas, leves, da famosa valsa de Strauss: "O Danúbio Azul". E a imaginação vê os jardins de Tito banhados em luz, sua casa protegida pelas sombras, e as águas ligeiras do Danúbio... "azul"... que passam, a alguma distância, envolvendo com seus murmúrios os jardins e a sepultura...
Para quadro final da cerimônia, não poderiam os líderes marxistas encontrar melhor lugar, tão evocativo e carregado em imponderáveis, próprio a emoldurar os funerais de um monarca.
* * *
Uma primeira saudação, do presidente da liga dos comunistas. Stevan Doronjski, exaltou sua atuação na Segunda Guerra Mundial e elogiou-a preocupação do ditador pelos destinos do comunismo internacional e o rompimento — ao menos aparente — efetuado por ele em relação a Moscou. Terminado o discurso, um coral feminino, trajando longos vestidos negros, como um antigo coro grego, entoou uma canção expressando dor pela morte de Tito, arrancando lágrimas dos presentes. Em seguida, soou a "Internacional" e o hino iugoslavo. E o cortejo iniciou, lentamente, sua marcha, percorrendo apenas 4 km em mais de duas horas, e detendo-se diante das delegações estrangeiras, bem em frente do primeiro-ministro chinês, Hua Guo-feng, e de Indira Gandhi, primeiro-ministro da Índia.
Não entraremos em considerações sobre o conteúdo do discurso. Este foi publicado nos jornais, e as afirmações nele contidas são tão comunistas como tantas outras. Atentemos, entretanto, para a lentidão do cortejo, tão adequada ao cerimonial, e a continuidade dos atos entre si. Não há intervalos, não há hiatos entre um ato e outro. Termina a sinfonia de Beethoven, inicia-se o cortejo. Proferido o discurso, o coro entra em cena, seguindo-se, sem interrupção, a entoação dos dois hinos e o início da marcha.
Não há cerimonial sem cânticos, ou com atos desencontrados e realizados às pressas. Os líderes do comunismo, tão desejosos de dominar o mundo, planejaram, ensaiaram e executaram em todos os seus pormenores uma monumental cerimônia. Não faltou o pranto (autêntico ou encomendado) dos presentes, nem a presença, na hora adequada, da clássica beleza, exibida pelo coro vestido à grega.
Significativa é também a indisfarçada preferência pelas duas nações asiáticas. A China, como a Índia, representa a socialismo "brando", inaugurado por Tito, em oposição ao comunismo violento da Rússia. Ambas são adeptas das ilusões pacifistas espalhadas pelo ditador iugoslavo no mundo, e que constituem pressuposto mental e temperamental da distensão. Analisaremos mais adiante a história e as origens desse comunismo, quando discorrermos sobre a tática utilizada por Tito e o papel que lhe é reservado na conquista do Ocidente.
O cortejo prosseguiu lentamente, acompanhado pela escolta militar e organizações comunistas, com porta-bandeiras conduzindo cerca de 400 pavilhões, bem como pelos antigos companheiros de Tito, todos já idosos. Por uma curiosa "coincidência", abandonam conjuntamente o cortejo, após caminharem cem metros.
Registremos de passagem a ornamentação conferida ao cortejo pelas 400 bandeiras, e o que há de cerimonioso no abandonar conjuntamente o préstito.
Nos momentos em que a banda militar não toca, o silêncio permite ouvir os passos dos acompanhantes e o pranto do povo postado nas calçadas. Supérfluo seria insistir que a solenidade se faz sentir inclusive no silêncio e no choro — em cuja autenticidade é preciso muito esforço para se acreditar — , aparecendo sempre no momento exato.
Poderíamos traçar em poucas palavras o roteiro desse cerimonial: música, compasso, continuidade, discursos e prantos. Uma grande pompa fúnebre, realizada em todas as suas minúcias.
Mais uma vez perguntamos: por que isso, tão contrário à doutrina marxista, realizou-se na Iugoslávia?
Os dirigentes comunistas — experimentados nas táticas de guerra psicológica revolucionária — compreendem que realçando o cerimonial, realçam o comunismo.
No Ocidente, nada disso é feito para realçar os verdadeiros valores legados pela Cristandade. Pelo contrário, cada vez mais a popularidade e o prestígio são apresentados como algo que se consegue com a vulgaridade!
Todos rendem homenagem...
À chegada do cortejo aos jardins da residência de Tito, já o esperavam os chefes de Estado e delegações estrangeiras. Na primeira fila encontrava-se Brejnev, juntamente com o rei Balduíno, da Bélgica, e o primeiro-ministro chinês Hua Guo-feng, ladeado pelo príncipe Philip, da Inglaterra, e pelo presidente da Alemanha Ocidental, Karl Carstens.
Novamente pode-se notar a pontualidade e o acerto dos movimentos. Todos esperam, tudo está ordenado. E a cerimônia se desenvolve num clima de estudada solenidade, sem imprevistos que a desdourem. Inclusive a concórdia entre os presentes é completa. O taciturno chefe soviético ombreia com o rei da Bélgica, dissolve-se no meio de todos, sente-se homogêneo, bem aceito por governos em cujos países o próprio Brejnev incita a subversão.
Não tomaremos tempo do leitor transcrevendo a relação de todos os chefes de Estado e delegações presentes, num total de 110, dos quase 160 países soberanos existentes no mundo. Recapitulemos apenas o ambiente de cerimoniosa concórdia criado: os jardins da casa de Tito; as águas do Danúbio que correm; a pessoa de Tito, sempre exaltada; a solenidade do enterro; e o mundo inteiro, representantes dos quatro continentes, reunidos à volta do seu esquife.
...ao criador de um "novo sistema" para o futuro
Pronuncia o discurso de despedida o presidente da Iugoslávia, Lazar Kolisevaski: "[...]. Criamos — pela tua luta, Tito — a nova Iugoslávia, uma sociedade que, em muitos aspectos, é uma nova palavra na História”.
Qual é essa palavra dada pela Iugoslávia à História? É o que veremos a seguir.
Como é largamente conhecido, Josip Broz Tito foi um guerrilheiro que lutou pela independência da Iugoslávia contra os ocupantes nazistas, do meio para o fim da Segunda Guerra Mundial. Pertencia ele ao setor comunista da resistência iugoslava. Expulsos os alemães, os aliados constituíram um governo, que contava com a participação dos comunistas. E como sempre ocorre onde há participação comunista, em pouco tempo estes tornaram-se donos da situação, sendo Tito empossado como chefe de Estado.
Depois de algum tempo de governo, Tito começou, entretanto, a manifestar desagrado em relação a Moscou e a dar mostra de querer constituir um governo que, sendo comunista cem por cento, seria ao mesmo tempo contrário ao regime russo. Operou ele, por outro lado, uma mudança na política religiosa que tinha seguido até então. No pontificado de João XXIII, iniciou-se uma era de boas relações com a Igreja Católica. Com a prisão e o isolamento do Cardeal Stepinac, de um lado, e de outro a nomeação do Cardeal Seper — partidário de uma política de conciliação com o governo comunista — para um alto cargo no Vaticano, as relações da Santa Sé com o governo iugoslavo se distenderam enormemente.
Essa mudança deu lugar a um fato pioneiro: Tito foi o primeiro chefe de Estado comunista a visitar a Santa Sé, sendo recebido oficialmente por Paulo VI.
Tudo isso criou esperanças de que tal comunismo, na aparência independente de Moscou, se tornasse "doce" do ponto de vista religioso, como também no plano político-social. Neste campo, a "abertura" do comunismo iugoslavo verificou-se principalmente mediante certa liberalização do regime de propriedade privada. Tal "abertura" foi acolhida com simpatia por diversos setores da opinião pública do Ocidente, acentuando as esperanças de uma possível "conversão" do comunismo pelas vias da distensão. Pois o que começou a acontecer na Iugoslávia - divisão do marxismo, "dulcificação" do regime, aparente liberdade religiosa - parecia desmentir o mito de que o comunismo é fundamentalmente agressivo.
Objetivo: obter a capitulação pacífica do Ocidente
Assim, a Iugoslávia ocupou um papel importante no Ocidente, operando a derrubada das barreiras ideológicas e preparando o caminho da desastrosa política de "détente", iniciada mais tarde por Nixon, por ocasião de sua visita em 1972 a Pequim e depois a Moscou.
Como operação de guerra psicológica revolucionária, Tito valeu por cem bombas atômicas, porque sua política amoleceu gravemente - em graus de intensidade diferentes - a vontade de reagir do Ocidente. Foi ele, na ordem dessa nova modalidade bélica, uma peça-chave para a expansão soviética no mundo. Pois assim como Tito se mostrava amigo da conciliação, ao menos em alguma medida, também a Rússia certamente seria sensível a uma política de boas relações — pensavam os partidários da distensão.
O ditador iugoslavo foi, portanto, o ator que construiu uma mentira altamente útil para fazer caminhar a "détente". Naturalmente, esse show teria de provocar a generalização da ilusão distensionista, que contou no mundo inteiro, em larga medida, com a colaboração da imprensa, rádio e televisão, e — dói dizer — do próprio Vaticano.
Tudo leva a crer que se os russos puderem ganhar o domínio do mundo para o comunismo sem apelar para a guerra quente, eles de longe o preferirão. Para isso. necessitam os soviéticos atuar por meio da guerra psicológica revolucionária, que poderá levar o Ocidente, em virtude do pânico da guerra atômica, a aceitar um acordo com o comunismo. Sabem também os dirigentes do Cremlin que impor ao mundo inteiro o regime comunista é impossível. Será melhor talvez — pensarão eles - estabelecer um regime à Iugoslávia, talvez até mais brando, mais próximo ainda dos hábitos mentais do Ocidente, e por isso mesmo, passível de ser aceito por este.
Podemos, em vista do exposto acima, entender o significado das palavras do atual presidente da Iugoslávia, frente à sepultura de Tito. - "Uma sociedade que, em muitos aspectos, é uma nova palavra na História". Quer dizer, uma fórmula para amanhã, quando o Ocidente tiver que escolher entre a guerra e a vergonha...
Assim, continuar a manter viva a figura mítica de Tito, é favorecer essa possibilidade de acordo, que significa a capitulação ocidental.
Cerimônia para unir Oriente e Ocidente
Apesar de pregar, como último estágio de sua evolução, o igualitarismo e a anarquia completa, o comunismo utiliza-se do cerimonial a fim de chamar a atenção dos povos para uma atmosfera tática de distensão: a distensão simbolizada por Tito.
Quiseram os líderes comunistas que nos funerais todos os países burgueses se fizessem representar ao lado das nações do terceiro mundo, como também as de além cortina de ferro. Julgaram eles necessário que os funerais se realizassem em condições tais que a memória de Tito marcasse a História. E que houvesse — aqui chegamos ao ponto fundamental — uma prova de que a posição dele é igualmente bem vista pelos líderes do Oriente e do Ocidente. E que essa fórmula conduz à paz. Desejaram mostrar que ele foi um homem bem visto pela humanidade, um homem que encontrou um terreno comum em torno do qual todos os homens, das posições mais opostas, sorriem e se cumprimentam. Esta é a imagem do ditador iugoslavo que essa cerimônia projeta na História e na imaginação dos povos.
Era preciso estarmos em 1980 — época em que se pode dizer que as cerimônias acabaram, as pompas e os protocolos morreram - para que o comunismo, inimigo figadal de toda pompa, de toda cerimônia, de todo protocolo, deles fizesse uso para alcançar seus objetivos.
Grande lição para nós. Por toda a parte no Ocidente, os cerimoniais da sociedade — tudo o que ainda resta do cerimonial medieval e do Ancien Régime, na sociedade pós-Revolução Francesa está desaparecendo completamente. Muitos sentem vergonha do cerimonial, por vezes, até horror. Entre as democracias ocidentais campeia a vulgaridade, diametralmente oposta à cerimônia.
Cerimonial: necessidade para a Igreja e a sociedade
Muito mais grave, entretanto, é o rebaixamento e quase a extinção do cerimonial que existia na Igreja durante a época pré-conciliar. O comunismo nunca deixou de achincalhar o grandioso e verdadeiro cerimonial da Igreja, mas na hora de prestigiar a si mesmo utiliza-se dele, embora deseje que toda tradição de inspiração católica medieval, do Ancien Régime, do século passado ou mesmo de nossa época, morra.
Desde os primórdios, apesar de investida de uma missão divina, portadora da Revelação divina e apoiada pelas graças inerentes ao Novo Testamento, a Igreja Católica desenvolveu-se com um cerimonial próprio. E enquanto Ela brilhou em seu esplendor, não deixou de aprimorar seus ritos. Quando começou o processo definido por Paulo VI como de "autodemolição da Igreja", tendo a "fumaça de satanás" penetrado no templo de Deus, tal desagregação atingiu, antes de tudo, o cerimonial. E quando a "fumaça de satanás" encheu a Igreja, o cerimonial encontrava-se profundamente atingido.
O próprio Deus julgou necessário à sua Igreja, dentro da ordem por Ele criada, utilizar o cerimonial. Apesar de poder contar até com milagres para expandir-se, Ela precisava de um cerimonial para adornar sua doutrina. E assim, até pelos sentidos, Ela se tornasse compreensível: os cânticos, a beleza e o colorido do ambiente e dos paramentos, o odor do incenso, a postura, os gestos.
A importância de tudo isso, os comunistas deram provas de conhecer e fizeram sua aplicação prática. Para prestigiar-se: cerimônia; para achincalhar a Igreja e a civilização ocidental: vulgaridade.
Nisto vemos como o embate doutrinário — de tão transcendental importância — entretanto não basta. O cerimonial representa verdadeira necessidade, para a vida da Igreja e da sociedade temporal.
Cento e dez nações — quase o mundo inteiro — foram prestar homenagem ao homem-símbolo do comunismo "brando". Reis misturam-se a chefes comunistas. Na primeira fila, nota-se Brejnev (primeiro à esquerda), o Rei da Bélgica e o primeiro-ministro chinês Hua Guo-feng ombreando com o Príncipe Philip, da Inglaterra.
O cadáver de Tito deixa o Parlamento rodeado de pompas como que régias
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