Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 352 | página 06-07

A violência na televisão, um tema em debate

Gustavo Solimeo

Seiscentas mortes violentas e dois mil atos de agressão, entre socos, pontapés, tiros, facadas, pauladas, envenenamentos e outros recursos. Essa é a dose de violência que a televisão oferece semanalmente a 95% dos paulistanos, através dos 150 filmes que apresenta nesse período. Os números crescerão, naturalmente, se forem computados os incidentes violentos contidos no restante da programação: telejornais, reportagens, documentários etc. Mas o quadro completo da violência na TV deveria incluir não só os crimes contra a pessoa, mas também as catástrofes, acidentes, greves, revoluções etc.

Quem "consome" a violência

Segundo dados da imprensa, 95% dos lares paulistanos — desde as ricas mansões do Morumbi e os apartamentos de luxo da classe alta, até os cortiços e barracos das favelas — possuem aparelhos de televisão. Mas quem mais tempo dedica à assistência à TV, segundo as mesmas fontes, são as classes mais modestas, por não disporem de outras alternativas de lazer.

Pesquisa realizada em 1978 pelo Grupo Mídia de São Paulo revela que o público infantil constitui a maior audiência de televisão até às 21 horas, quando o público adulto começa a predominar; contudo, ainda às 22 horas, 8 a 10% dos telespectadores da Grande São Paulo ainda são menores de 14 anos, o que pode representar cerca de 300 mil crianças.

Assim, um seriado policial "enlatado", classificado na ocasião entre os 10 programas preferidos pelo público infantil, podia ser assistido por não menos de 805 mil crianças ou adolescentes. E mesmo os seriados mais violentos, exibidos mais tarde, podiam contar com um público de 100 a 200 mil crianças. Enquanto isso, a novela das 18 horas de certo canal era assistida normalmente por 1.100.000 crianças, perdendo só para a novela das 19 horas do mesmo canal, a qual contava com um público infantil ainda maior, especialmente nas classes menos favorecidas da população.

A pesquisa indica ainda que o horário vespertino da televisão, embora convencionalmente considerado "horário infantil", na realidade apresentava apenas 31% de programação destinada especialmente a esse grupo, sendo a maioria dos programas dirigidos aos adultos: filmes, cursos, telejornais, programas de variedades ou femininos, etc. Paradoxalmente, a maior carga de publicidade comercial recaía nesse horário: 61% dos anúncios comerciais exibidos até as 19 horas, contra 39% no horário dos adultos, isto é, depois de 19 horas.

Um dado que impressiona na pesquisa é o número de horas que a criança da Grande São Paulo passa diante do vídeo: 3 a 4 horas por dia! Essa é a média, considerada alta, da criança norte-americana.

Dominância da violência

Uma pesquisa do sociólogo Roosevelt Pinto Sampaio sobre os meios de comunicação de massa no Rio de Janeiro, em 1976, definia a audiência da televisão pelas seguintes características: "Público predominantemente feminino, maior percentagem de crianças (até 12 anos) e de indivíduos com mais de 40 anos, maior audiência das classes pobres e predomínio de telespectadores de instrução primária".

O sociólogo constatou na programação da televisão "uma dominância de programas voltados para a violência, principalmente nos dramas/ficção, que enfatizam incidentes e motivações de violência física intencional". Verificou ainda que "os programas infantis possuem um grande apelo à violência" e que "a maioria dos incidentes violentos toma por base o uso do corpo como se fora a arma, seguindo-se a utilização do revólver ou outras armas de fogo, de mão, depois das armas brancas ou de corte, realmente as formas mais comuns de execução violenta no meio real".

Diante desse quadro, é natural que muitos se perguntem se não haveria uma relação entre a violência difundida através do vídeo e a violência real que cresce assustadoramente nos grandes centros urbanos do País.

Infelizmente, faltam estudos a respeito e os dados disponíveis não permitem chegar a uma conclusão definitiva, no que se refere ao Brasil. Mas algumas conclusões podem ser tiradas a partir do estudo de como o problema se põe, por exemplo, nos Estados Unidos.

TV e delinquência juvenil

O grande interesse dos efeitos da violência da televisão sobre as crianças torna-se mais compreensível ainda se se levar em conta que, segundo o FBI, o número de jovens nos Estados Unidos presos por crimes graves e violentos cresceu 1.600% entre 1952 e 1972. Ora, é justamente nesse período que a televisão passou a ter um papel preponderante na vida das crianças norte-americanas: entre 1948 e 1952 o número de residências com aparelhos de televisão passou de apenas alguns milhares para 15 milhões. Hoje, virtualmente todas as casas dos Estados Unidos têm pelo menos um aparelho. Esse período coincide também com um aumento assustador do índice de violência exibida na TV.

Por outro lado, a história dos delinquentes juvenis inclui invariavelmente uma grande assistência à televisão. Alguns especialistas afirmam que a TV agrava os antecedentes patológicos dos jovens.

A realidade é que o criminoso juvenil de hoje não é o mesmo de outras épocas. Comenta o "New York Times": "É como se nossa sociedade estivesse produzindo um novo tipo de assassino juvenil que não sente remorsos e que está pouco consciente dos seus atos". Uma psiquiatra verificou nesses delinquentes uma "total ausência de sentimento de culpa e de respeito pela vida". E, de fato, os jornais trazem diariamente as histórias mais espantosas: por exemplo, meninos de 10 ou 12 anos que torturam barbaramente suas vítimas antes de matá-las, para arrancar-lhes muitas vezes apenas uns poucos dólares.

Queda das barreiras do horror

Os estudiosos têm procurado relacionar esse comportamento tão patologicamente anormal com a violência apresentada na televisão.

Talvez parte da explicação esteja na própria maneira como a TV apresenta a violência. Segundo o sociólogo Roosevelt Pinto Sampaio, "as cenas violentas não estão centradas na mostra de grande dor ou sofrimento, pois, ao contrário, 71,42% do total de incidentes mostra apenas pequena ou nenhuma dor ou sofrimento, O que demonstra que a maioria dos programas busca explorar a ideia da violência afastada dos efeitos diretos".

Não é difícil ver como semelhante enfoque pode produzir não pequena deformação nas mentes imaturas dos jovens. A apresentação quase sistemática da violência desacompanhada de suas consequências negativas diretas (dor e sofrimento) tende a derrubar a barreira de horror que os atos violentos normalmente inspiram. Tende igualmente a eliminar qualquer sentimento de pena para com as vítimas. Assim despojada, a violência aparece apenas como uma saída "natural", entre outras. Em compensação, a violência é apresentada como vantajosa, pois oferece resultados imediatos: o herói (para não falar do bandido) sempre se sai das situações mais complicadas utilizando a força bruta.

Tão fácil como girar um botão...

Marie Winn, escritora norte-americana que vem há anos estudando o problema, considera que de fato existem razões para crer que a televisão esteja profundamente relacionada com o novo surto de agressividade juvenil, e particularmente com o surgimento de um novo e assustador tipo de delinquente jovem. Mas acha que há erro em querer estabelecer uma relação direta entre os programas violentos da TV e essa violência real. Para ela, a experiência da televisão em si mesma, independente de seu conteúdo, é que está no fundo do problema.

Ela argumenta que a televisão apresenta apenas a dose de violência que o público pede: basta verificar os índices de audiência para se dar conta de que, havendo possibilidade de escolha, o público sempre procura a alternativa mais violenta. Por que isso? Por uma reação subconsciente à situação de passividade em que a mesma televisão o coloca. Escolhendo programas tão "ativos" quanto possível, o telespectador tem a ilusão de "sentir" a atividade, com todas as sensações de envolvimento, gozando ao mesmo tempo da segurança da poltrona em que está sentado.

Essa sensação de "atividade" que a televisão enganosamente lhe dá — explica a escritora — acaba deteriorando significativamente a sua percepção da realidade. A distinção entre o mundo real da vida e o mundo irreal da tela vai perdendo a nitidez. Ao mesmo tempo, a sensibilidade aos acontecimentos reais vai sendo adormecida, de forma tal que as pessoas já não reagem emocionalmente a eles como protagonistas, ou ao menos como testemunhas, mas simplesmente como meros espectadores diante da tela luminosa:

Para Marie Winn, proibir a violência na televisão não resolve o problema. Porque o problema não está em que a televisão ensine como cometer um crime (embora com frequência o faça), mas sim em condicionar o telespectador, especialmente as crianças e jovens, a tratar as pessoas na vida real como os personagens do vídeo: podem ser "apagadas" com uma faca, um revólver ou um porrete com a mesma facilidade e a mesma ausência de sentimentos com que se faz desaparecerem os personagens da tela girando um botão.

Se Marie Winn estiver certa (e há razões para acreditar que sim), então não bastará desligar o aparelho em determinados horários e evitar determinados programas. É preciso ter a coragem de adotar a solução que ela propõe, por mais penosa que possa parecer: expulsar a televisão de nossos lares.

Sem nenhuma defesa, as crianças tornam-se as maiores vítimas dos males da televisão, que as deseduca para a vida

Nota — Os dados e citações do presente artigo foram extraídos das seguintes publicações: American Opinion (Estados Unidos), julho de 1978; Folha de S. Paulo, de 22-9-78; O Estado de S. Paulo, de 2-7-78; 16-12-79; Roosevelt Pinto Sampaio, Estudo de conteúdo veiculado pelos meios de comunicação de massa, principalmente pela televisão, com particular referência ao sexo e violência (Tese de Livre Docência em Sociologia), mimeografada, Rio de Janeiro, setembro de 1976; Marie Winn, The Plug-In Drug, Bantam Book, New York, 2nd. printing, 1978.


Conclusão da página 5

A gratidão do povo...

funcionário da CODEVASF, conseguiu junto à direção desta, alojamento gratuito para caravanistas da TFP.

Em Barra, o prefeito João das Neves Leite ofereceu transporte aos caravanistas nas lanchas que obteve para os donativos em espécie, a ele entregues pela TFP em Bom Jesus da Lapa. E os Srs. Gustavo Silveira e Saul Bueno, respectivamente líder do prefeito e presidente da Câmara de Vereadores, acompanharam pessoalmente os sócios e cooperadores da TFP na distribuição dos donativos à população flagelada da cidade, em que estes colaboraram a pedido do prefeito.

As últimas cidades beneficiadas pela campanha da TFP foram Malhada e Carinhanha, junto à divisa com o Estado de Minas Gerais. A entrega do auxílio ao prefeito de Carinhanha, Sr. Francisco Lima Cunha, também contou com a presença de autoridades locais: o vice-prefeito, o promotor de Justiça, o Vigário e outras pessoas de destaque na cidade.

A visita a Carinhanha e Malhada, entretanto, foi precedida por uma bela manifestação de generosidade. As condições de acesso a essas localidades eram extremamente difíceis, sendo necessário percorrer estradas quase intransitáveis. Obrigada a fazer uma grande volta, a caravana da TFP passou por Guanambi. Embora essa cidade não estivesse incluída entre os municípios beneficiados pelo auxílio proporcionado através da campanha da TFP, os representantes da Sociedade receberam todo o apoio do prefeito, Sr. José Neves Teixeira, e de sua esposa, Sra. Maria Amélia Teixeira. Assim, graças ao prefeito de Guanambi os donativos puderam chegar a Malhada e Carinhanha. Tal ato de desprendimento desinteressado merece especial menção e torna-se digno de encerrar esta reportagem.


TFP comunica a autoridades: campanha encerrada vitoriosamente

Em telegrama ao Ministro da Justiça, Sr. Ibrahim Abi Ackel, ao Governador de São Paulo, Sr. Paulo Salim Maluf, e ao Comandante do II Exército, General Milton Tavares de Souza, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira informou sobre o encerramento da campanha pelos pobres do Nordeste nos seguintes termos:

"Tenho o prazer de comunicar a V. Excia. que se encerrou vitoriosamente a campanha realizada em São Paulo e nas principais cidades do País, por esta Sociedade, em favor dos pobres do Nordeste. No total foram coletados Cr$ 2.947.876,83 de donativos em dinheiro e em espécie. Grande parte desse montante foi distribuída aos flagelados das inundações do rio São Francisco, no sertão baiano, sendo levada diretamente por uma caravana de sócios e cooperadores da TFP aos prefeitos de sete municípios atingidos. Houve também distribuições a necessitados em Recife, Fortaleza e João Pessoa. Aproveito o ensejo para apresentar a V. Excia. os protestos de minha cordial simpatia e elevada consideração.

PLINIO CORRÊA DE OLIVEIRA

Presidente do Conselho Nacional da

Sociedade Brasileira de Defesa da

Tradição, Família e Propriedade"


DEUS O QUER!

Do alto e majestoso Monte Scopus os exércitos da primeira Cruzada, sob o comando de Godofredo de Bouillon avistam afinal a cidade de Jerusalém. Todos os cansaços, contrariedades e delongas se esvaem diante do quadro grandioso que têm à sua frente.

Após os primeiros momentos de emoção e entusiasmo soam as trombetas e as armas rebrilham ao sol. A leste, fora das muralhas, admira-se o Monte das Oliveiras, de cujo cimo elevou-Se triunfalmente o Rei da Glória, na sua admirável Ascensão. É deste flanco oriental que se avista a Porta Dourada, por onde Nosso Senhor entrou no Domingo de Ramos. Mas o terrível grito de guerra ergue-se do flanco norte e é por ali que os altos muros sofrem a incontenível investida e os estandartes da Cruz irrompem na Cidade Santa.

No sopé do Monte das Oliveiras está o Horto de Getsemani. Na Quinta-Feira Santa, embrenhando-se pelo arvoredo, o Leão de Judá prostrou-se sobre a Rocha da Agonia e, enquanto orava, correu sobre ela o divino e rubro suor.

Em meio às ruelas tortuosas da cidade, não longe da esplanada onde existiu o templo de Salomão, ergue-se sobre os escombros do palácio de Pilatos uma capela em lembrança da Flagelação que aí padeceu nosso Redentor. Foi deste local que. Ele empreendeu sua Via Sacra...

...cuja quarta estação, a do Encontro de Jesus com sua Santa Mãe, acha-se a uns cem passos do início da Via Dolorosa.

* * *

“DEUS VULT!" — Deus o quer! Com este brado de guerra o Papa Urbano II arrebatava e mobilizava toda a Cristandade medieval para a primeira e grande Cruzada. Sua meta? A retomada, em nome dos direitos de Deus, dos Santos Lugares, que haviam sido conquistados pelos infiéis.

As longas colunas do exército cruzado partiram. Aguardava-o um caminho juncado de provações, de holocaustos e de esperanças coroadas de vitória: "Christianus alter Christus" (O cristão é um outro Cristo).

Uma após outra, as cidades iam cedendo às hostes cristãs e a cada guerra correspondia o reconforto de poder venerar mais um lugar santificado pela presença de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe: desde a gruta de Elias profeta, no Monte Carmelo, até a de Belém, na região de Judá; desde o litoral que presenciara a partida dos Apóstolos à demanda do Ocidente, até as tranquilas águas do Jordão, onde Jesus foi batizado. E por fim, Jerusalém, a cidade amada do Rei David, pranteada e objeto de increpação por parte do Messias, e tragicamente castigada pela justiça de Deus.

Da Europa, invejava-se a maravilhosa incursão daqueles guerreiros...

Entretanto — como é lamentável reconhecê-lo! — o espírito de cruzada declinou e as consequências foram fatais. Um a um se perderam os veneráveis caminhos e toda a Terra Santa.

Mas um resto permaneceu e este a Igreja conservou-o dentro de Si até nossos dias: a indelével e possante associação de ideias entre a epopeia de nosso Redentor, em sua Paixão e vitoriosa Ressurreição, e a gesta dos cruzados que, dotados de indômita combatividade, no auge de seu vigor, alcançaram esplendoroso triunfo. E o católico que, nos dias de hoje, durante a Semana Santa — cuja comemoração transcorreu neste mês — , deseja contemplar os Passos da Paixão e a vitoriosa Ressurreição do Redentor do gênero humano em perfeita consonância com a Igreja Militante, da qual é membro vivo, não poderá deixar de fazê-lo sem participar do espírito de cruzada, que consiste, em nossa época, na defesa intransigente dos sagrados valores da Civilização Cristã. Valores perenes, infelizmente atacados com violência pela impiedade hodierna.

O Monte das Oliveiras

A Muralha Norte

A Rocha da Agonia

A Capela da Flagelação

A Estação do Encontro