Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 352 | página 04-05

NO SERTAO OS RESTOS DE UM TESOURO

Quem fala na Bahia, pensa logo em Salvador. Por suas obras de arte colonial e barroca, por sua vida pitoresca, pelo trato agradável de seu povo, a antiga capital do Brasil merece a nomeada que a distingue.

Por isso, turistas de todas as partes do Brasil ou do Exterior são atraídos a visitá-la, desejosos de conhecer suas belezas naturais e os magníficos monumentos construídos sob influxo da Civilização Cristã em terras nacionais.

Quem, no entanto, já ouviu falar do sertão baiano? De seu povo comunicativo, vivaz e, sobretudo, fervorosamente religioso?

É para essa região, banhada pelo caudaloso rio São Francisco, que voltamos agora nossa atenção, convidando o leitor a nos acompanhar.

Em ocasiões anteriores, caravanas da TFP já haviam estendido até lá sua ação doutrinária anticomunista. Desta vez, vencendo as precárias condições das vias de acesso, foi novamente ao encontro daquelas populações ribeirinhas, colocadas, em boa medida, à margem da febricitação característica da sociedade de consumo. São vastas extensões deserdadas do que se convencionou chamar de conquistas modernas. As estradas não são transitáveis em boa parte do ano. As comunicações, difíceis. Para a maior parte daquela gente, a televisão é ainda (para felicidade deles) desconhecida.

Atingido várias vezes, ora pelo flagelo da seca, ora pelo das enchentes, enfrentando condições difíceis de existência, o baiano do sertão tem mostrado em tais circunstâncias uma grande capacidade de sofrimento. E aqui está um dos melhores elogios que se possam fazer de um povo, quando tal sofrimento é recebido com espírito sobrenatural, católico.

Mas não é só. Com grande paciência cristã, não lhe falta também uma nota de altaneria no defrontar-se com os reveses permitidos pela Providência.

Famílias desabrigadas, prole numerosa (com frequência os casais têm 10 filhos ou mais), carência de comodidades modernas, espíritos temperados pela dor: eis o espetáculo que oferece o sertão baiano. O viajante mais atento, contudo, percebe algo mais: a força da Religião que atrai aquela gente.

Trata-se de uma atração pelas verdades da Religião e pelo sobrenatural, que parece tocar a fundo as almas. Tem-se a impressão de que as pessoas estão sedentas mais de conforto espiritual do que de auxílio material.

Um fato neste sentido chamou a atenção dos caravanistas da TFP que participaram da distribuição dos donativos aos flagelados pelas enchentes do rio São Francisco. Em Bom Jesus da Lapa, ao chegarem os caminhões que conduziam os bens a serem entregues aos necessitados, centenas de pessoas se aproximaram, como é natural. Esperavam receber alguma coisa...

O que pediam esses desafortunados?

De todo o material que a TFP dispunha (alimentos, roupas, brinquedos, utensílios, etc.) o que despertou maior interesse e se tornou objeto de maior demanda foram Rosários e medalhas de Nossa Senhora. Qualquer donativo era recebido com muita gratidão. Mas, na hora da despedida, a insistência no mesmo desejo: tragam mais terços...

A reação é significativa. Revela, sem dúvida, a existência de sadias forças morais em meio a tantos fatores negativos existentes em nossos dias por toda parte. Eco de séculos de ação apostólica da única Religião verdadeira — a Católica, Apostólica, Romana — tais sentimentos de amor à Fé são penhor de bênçãos e proteção de Deus para nosso País. Como também de perdão. Pois se constituímos a maior nação católica da terra, é bem verdade que estamos a merecer a censura divina que hoje pesa sobre todos os povos da Terra, pela expansão generalizada de imoralidades e erros.

Mais um exemplo do espírito religioso naquela região: a frequência ao Santuário do Senhor Bom Jesus da Lapa.

Segundo informou à reportagem o prefeito local, nos três meses que antecedem à festa comemorativa da fundação do santuário — 4 de outubro — , para Bom Jesus da Lapa afluem mais peregrinos do que turistas para Salvador, durante o ano inteiro. Isso apesar da intensa propaganda turística em torno da encantadora capital do Estado, enquanto os meios de comunicação silenciam sobre Bom Jesus da Lapa.

No ano passado, calculou-se em mais de 600 mil o número de peregrinos procedentes de municípios e Estados vizinhos, que foram buscar junto à imagem do Senhor Bom Jesus o auxílio sobrenatural para suas provações. Muitos deles, percorrendo a pé centenas de quilômetros, geralmente descalços, lá chegam com os pés inchados e sangrando...

A cidade de Bom Jesus da Lapa, por sua vez, nasceu e parece viver no transbordamento desse estado de espírito de piedade e resignação cristã. Iniciou sua existência à sombra do santuário, quando o eremita Francisco de Mendonça chegou ao local, onde havia apenas algumas palhoças de índios tapuias. Isso pelos idos de 1691...

Transcorridos quase três séculos, um grupo de católicos da TFP é recebido com admiração e entusiasmo. Sentiam essas populações — cujos ancestrais foram certamente catequizados por missionários portugueses — que estavam diante de compatriotas movidos não só pelo desejo de amenizar lhes as carências materiais, mas, sobretudo, de levar-lhes uma palavra de alento, como irmãos na mesma Fé.

Durante a distribuição de gêneros em Barra, um cooperador da TFP, antes de iniciar a tarefa, e um pouco para amainar o vozerio buliçoso das crianças, rezou com elas uma dezena do terço. Silêncio geral. E todos, inclusive adultos, acompanharam em voz alta as orações. Depois, ordenadamente, formaram-se as filas e cada um recebia seu donativo, em geral acompanhado de uma palavra de estímulo do sócio ou cooperador da TFP.

Atitudes assim não se veem com frequência nas megalópoles modernas, anônimas, frias e pardacentas como o concreto de que são construídas.

Mas, graças a Deus, o sertão baiano e outras regiões esquecidas do Brasil não são assim. A distribuição de gêneros aos flagelados serviu à TFP de ocasião para uma notável descoberta de restos de um tesouro que o País foi perdendo ao correr dos séculos: o espírito religioso.


O Santuário do Bom Jesus da Lapa

O Santuário do Bom Jesus da Lapa começou a tornar-se ponto de irradiação de graças, há quase trezentos anos. Em 1691, Francisco de Mendonça Mar descobriu a gruta onde depositou a imagem que trazia do Cristo Crucificado, sob o título do Bom Jesus. No mesmo local colocou uma outra imagem, de Nossa Senhora da Soledade.

Francisco de Mendonça Mar nasceu em Portugal, em 1657. Exerceu a mesma profissão do pai, que era ourives em Lisboa, executando além disso a de pintor. Com vinte e poucos anos de idade, chegou a Salvador, na Bahia, onde começou a praticar seus ofícios.

Contam as crônicas que, no ano de 1688, foi encarregado de pintar o palácio do Governador Geral do Brasil, então sediado na Bahia. E, ao invés de receber o salário, foi levado à cadeia, com dois de seus escravos, e severamente açoitado.

Desiludiu-se, então, com as coisas do mundo. Tocado pela graça de Deus, tomou enérgica resolução: abandonar tudo e procurar apenas a salvação eterna. Decidiu-se a buscar o sertão e, no isolamento, sacrificar a vida para glorificar a Deus.

Francisco tinha nessa época aproximadamente trinta anos. Depois de distribuir os bens que possuía, vestiu um grosso burel e enveredou pelo sertão a dentro. Caminhou cerca de duzentas léguas entre tribos ferozes de índios antropófagos. Sofreu as inclemências do sol e da chuva, esteve exposto aos perigos das onças, cobras e outros animais que abundavam nas matas virgens. Nunca esmoreceu, fiel à inspiração interior que lhe prometia, para breve, encontrar um local onde se fixar.

Certa tarde, depois de vários meses de caminhada, avistou uma formação rochosa que fazia lembrar o Monte Calvário, com uma profunda abertura. Nessa gruta penetrou e começou a viver como eremita, na soledade e na oração.

Por uma curiosa coincidência, naquele mesmo ano descobriram-se as primeiras minas de ouro no território que se chamaria posteriormente Minas Gerais. Data dessa época o movimento de aventureiros, caçadores de ouro, mascates, vaqueiros e bandeirantes, que subiam o rio São Francisco, fazendo pouso na lapa onde se refugiara o ermitão. Os índios da redondeza também começaram a aproximar-se do solitário, recebendo dele os ensinamentos básicos da Religião.

Passaram-se treze anos, e, às portas da gruta já se tinha erigido um pequeno hospital e um asilo. O eremita a todos atendia, levando conforto tanto aos corpos quanto às almas, sendo ele próprio enfermeiro e protetor dos abandonados.

Os viandantes regressavam a Salvador levando notícia de que, em pleno sertão, morava um homem que desenvolvia intensa ação apostólica, pregando e ensinando. Tais notícias chegaram aos ouvidos do Arcebispo da Bahia, que chamou o piedoso homem a Salvador. Após uma breve preparação, ordenou-o Sacerdote em 1706 e nomeou-o capelão do Santuário de Voto do Senhor Bom Jesus da Lapa e de Nossa Senhora da Soledade. Em homenagem a Maria Santíssima, tomou ele o nome de Padre Francisco da Soledade.

Padre Francisco voltou à gruta, organizou o culto e, percorrendo as cercanias, catequizava os índios, ministrava os Sacramentos, aconselhava e curava os doentes, consolava os escravos. O povo sentia-se movido a ir em peregrinação à sua gruta, a fim de ouvir sua palavra e agradecer as graças recebidas. Assim nasceu a romaria do Senhor Bom Jesus da Lapa.

Até o fim de seus dias - sua morte ocorreu provavelmente em 1722, aos 65 anos de idade — Padre Francisco desenvolveu incessante trabalho apostólico, desafiando pela sua abnegação e sacrifício, a impiedade e a ganância dos aventureiros corrompidos que por ali passavam. Destes partiram murmurações contra o eremita-missionário no sentido de que, quando jovem, devia ter cometido grandes crimes para receber tremenda penitência. Mais tarde, chegou-se a perpetrar um atentado, que destruiu a primitiva imagem do Bom Jesus.

Tudo isso em nada abalou a confiança e fervor dos devotos do Santuário, cujo número foi crescendo através dos anos. A memória do Pe. Francisco da Soledade é relembrada anualmente no dia 4 de outubro, data que é aceita como a de sua chegada à gruta e fundação da cidade de Bom Jesus da Lapa.

Em Barra, donativos em espécie foram entregues diretamente às famílias nos locais mais atingidos, indicados por dois representantes da Câmara Municipal, que acompanharam pessoalmente a distribuição

O primeiro caminhão carregado de donativos para os flagelados chega ao Santuário do Bom Jesus da Lapa, incrustrado no morro

Em Barra, as enchentes destruíram plantações de muitas famílias pobres — como esta, a quem o cooperador da TFP favorece com um auxílio

Com a ajuda material, uma palavra cristã de conforto, recebida sempre com gratidão e respeito


A GRATIDÃO DO POVO E DOS LÍDERES LOCAIS

Solicitados pelos Prefeitos a auxiliarem na distribuição dos donativos em espécie — gêneros, roupas, terços, medalhas de Nossa Senhora — entregues a estes, os sócios e cooperadores da TFP tiveram oportunidade de entrar em contato direto com os flagelados. Eis algumas das repercussões mais frequentes:

Uma mulher de condição modesta, 35 anos aproximadamente, conta aos caravanistas que sofrera imensamente nos últimos anos: sua mãe caíra gravemente enferma e não encontrara recurso algum para prestar-lhe assistência médica até que "Deus veio buscá-la". — "Vocês são os primeiros a me ajudar nessa longa e dura passagem"(Barra).

"Nós agradecemos de todo coração a generosidade do povo do Sul por ter lembrado de mandar para nós tanta coisa boa. Principalmente a Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, que como vocês disseram foi quem deu a ideia de fazer a campanha para o povo necessitado do São Francisco", dizia uma mulher de uns 80 anos em Bom Jesus da Lapa.

Viúva, 35 anos, quatro filhos: "Não tenho condições e com a cheia não recebi nada. A primeira coisa que recebi foi de vocês. Muito obrigada. Deus lhes pague" (Ibotirama).

Um flagelado, 55 anos: "Entre, meu filho. Sente-se um pouquinho. Vocês estão vindo de São Paulo, não é? É só vocês para fazer uma coisa dessa, passar por todos os sacrifícios da viagem, pois a estrada está muito ruim. E além do mais vêm até nossa porta para entregar à gente essa caridade. Não sei como agradecer. Vá com Deus, meu filho..." (Bom Jesus da Lapa).

Mulher de 58 anos: "Meu marido vivia trabalhando no plantio de feijão e quando estava perto da colheita veio a enchente, mas com o rosarinho peço a Nossa Senhora de Fátima desse folheto de vocês que Ela ajude muito a gente, não venha mais enchente" (Xique-Xique).

"Filho de Deus, me dê um rosarinho, pois eu troco todas essas comidas por ele", implora uma quinquagenária, em Bom Jesus da Lapa.

Outra mulher, já pelos 70 anos: "Entre, filho de Deus! Foi Deus quem mandou vocês aqui, pois eu estava precisando muito de uma caridade. É a primeira vez que recebo coisa tão maravilhosa. Que o Divino Espírito Santo ilumine e dê um lugar todo glorioso no Céu para o Dr. Plinio e também para vocês que vieram aqui".

* * *

A gratidão é virtude árdua de se praticar. Por isso mesmo, o paulistano, carioca, belo-horizontino, curitibano ou habitante de outras cidades que tenham contribuído para a campanha de Natal pelos pobres do Nordeste talvez não imaginassem com que calor de alma, com que transbordamento de gratidão seriam recebidos os pequenos donativos, feitos por cada um deles, por parte dos flagelados do vale do São Francisco.

Por outro lado, poucas vezes os caravanistas da TFP, habituados ao contato com brasileiros de todos os quadrantes do País, encontraram pessoas que dão mais importância ao apoio espiritual do que à ajuda material, apesar da extrema carência em que se encontravam. Essas qualidades do povo do sertão baiano transpareciam de modo notório no trato com os sócios e cooperadores da entidade.

"Quem dá aos flagelados empresta a Deus"

Esse mesmo espírito de gratidão refletiu-se na acolhida proporcionada aos caravanistas da TFP pelos prefeitos e por vereadores e outras autoridades civis da região.

O documento assinado pelos chefes do executivo dos municípios beneficiados afirma textualmente:

"As populações dos municípios de Bom Jesus da Lapa, Barra, Paratinga, Malhada, Carinhanha, Ibotirama e Xique-Xique agradecem, emocionadas, aos coirmãos brasileiros que, movidos por sentimentos de cristã e patriótica solidariedade, lhes proporcionaram valiosa ajuda na situação crítica em que as colocaram as presentes inundações.

Igualmente lhes agradecem a visita de afeto e de cortesia feita nesta ocasião, às cidades assoladas, pela abnegada e brilhante caravana de sócios e cooperadores da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade — TFP — , portadora dos donativos, bem como de inestimáveis palavras de alento e de confiança na Providência Divina.

A todos lhes pague Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, a qual saberá mostrar aos doadores quanto é verdadeiro o provérbio popular que aqui lembramos, ligeiramente adaptado: "Quem dá aos flagelados empresta a Deus".

Assinam a mensagem os seguintes prefeitos:

André Reynaldo Lopes de Noronha — Bom Jesus da Lapa

Israel Porto Novaes — Paratinga

Edson Quinteiro Bastos — Ibotirama

João das Neves Leite — Barra

Reinaldo Teixeira Braga — Xique-Xique

Vicente Cristo Lopes — Malhada

Francisco Lima Cunha — Carinhanha.

"Nem tudo está perdido"

As manifestações de agradecimento voltaram a repetir-se nos atos de entrega dos cheques, realizados com certa solenidade, em geral na prefeitura ou na residência do chefe do executivo.

A entrega do auxílio ao município de Malhada teve de ser efetuada no distrito de Iuiú, pois a sede do município estava completamente inundada e a cidade terá de ser reconstruída inteiramente em outro lugar. Além do prefeito, Sr. Vicente Cristo Lopes, e de sua esposa, Sra. Zelinda Nogueira Lopes, destacou-se a presença da Sra. Elza Silva Dantas, presidente da Comissão de Defesa Civil de Malhada, que muito se empenhou na distribuição dos terços aos flagelados.

Também a Prof.a Edite Maria de Souza Novaes, esposa do prefeito de Paratinga, participou pessoalmente e com todo empenho na distribuição de Rosários e medalhas de Nossa Senhora. Na residência do Sr. Israel Porto Novaes, diversas autoridades locais assistiram à entrega do cheque destinado a amenizar a situação dos flagelados.

O mesmo ocorreu em Xique-Xique, onde a Sra. Lenisse Miranda Siqueira Braga, esposa do prefeito, dirigiu a distribuição de terços e medalhas. Ao ato de entrega do cheque para os necessitados, estiveram presentes, além do prefeito da cidade, Sr. Reinaldo Teixeira Braga, autoridades e líderes de associações de classe locais.

Em ato semelhante, o prefeito de Ibotirama, Sr. Edson Quinteiro Bastos, ressaltou o valor da iniciativa da TFP, tendo em vista nossa época, "em que o mundo se desenvolve de uma maneira desordenada" e a cada passo que o homem progride "ele vai se esfriando, e o relacionamento humano se esvaecendo".

"Diante disso, prosseguiu o prefeito de Ibotirama, alguns não se conformam e lutam para angariar algumas coisas para amenizar o padecimento daqueles que sofrem neste momento tão angustiante". Frisou a seguir o reconforto que representava essa atitude, "porque sabemos que nem tudo está perdido: há sempre alguém que olha para outro que sofre... E a TFP, hoje, nos dá um exemplo de fraternidade. Embora tenha um trabalho contínuo, soube, na oportunidade, escolher aqueles que realmente sofrem no momento".

Acrescentou ainda que o auxílio da entidade chegou numa oportunidade em que a administração municipal já não sabia mais o que fazer diante das necessidades da população assolada pelas enchentes.

Desfazendo uma falsa imagem

Ao ato simbólico de entrega dos donativos em espécie em Bom Jesus da Lapa, compareceram sua Excia. Revma. D. José Nicodemos Grossi, Bispo diocesano, e diversas autoridades locais. Acompanhado de sua esposa, Sra. Lucyr Libório Lopes de Noronha, o prefeito municipal, Sr. André Reynaldo Lopes de Noronha, pronunciou tocante discurso em que expôs com inteligência e clareza a situação criada pelas enchentes e as medidas tomadas para solucioná-la:

"Pela segunda vez, a população assustada de todas estas regiões viu suas plantações serem destruídas, suas casas serem invadidas, a fome bater à sua porta, suas famílias ficarem desabrigadas. E, a tudo isso, como era natural, o poder público municipal de cada uma dessas localidades era impotente para atender. [...] Então tivemos que fazer um apelo. Primeiramente um apelo aos órgãos governamentais, aos governos estaduais e à esfera federal e a todos aqueles brasileiros que, com um pouco de sensibilidade, sentiam o drama que estávamos vivendo".

Após agradecer ao atendimento recebido na esfera estadual e federal, prosseguiu o prefeito de Bom Jesus da Lapa:

"Fiquei sinceramente emocionado. E, como já disse numa reunião em que estava presente o ministro Mário Andreazza [...], o povo da Lapa é um povo que sabe pedir, mas também sabe agradecer. E esse agradecimento vai a todos os membros, à coordenação nacional da TFP, a todos vocês [dirige-se aos representantes da Sociedade] que com um espírito verdadeiramente desprendido, encetaram uma campanha em benefício de seres que até o momento lhes eram desconhecidos, somente para provar que a solidariedade humana não tem limites".

O Sr. Lopes de Noronha pediu em seguida que se transmitisse a todos os membros da TFP o "agradecimento sincero, de todo coração" do povo de Bom Jesus da Lapa e de toda a região do São Francisco.

Por fim, pediu que esse agradecimento chegasse "ao nosso irmão brasileiro do Sul". E sublinhou que a campanha da TFP veio desfazer "uma imagem, que, às vezes, se cria aqui no Norte, de que o sulista é insensível ao sofrimento do nortista".

Após evocar seu testemunho pessoal, o prefeito insistiu que "essa impressão de que o brasileiro do Sul é insensível está aqui claramente desmentida" pelo atendimento com "uma rapidez fora do comum".

Mencionando a distribuição dos gêneros aos flagelados, feita naquele dia, o Sr. Lopes de Noronha recordou a avidez com que os donativos eram recebidos, "e o agradecimento estampado a face daquelas crianças e daqueles adultos contemplados com as dádivas".

Apoios generosos

Atendendo a solicitação do prefeito de Bom Jesus da Lapa, caravanistas da TFP ajudaram-no na distribuição dos donativos aos flagelados naquela cidade, sendo acompanhados na ocasião pela reportagem de "Catolicismo", que registrou apoios valiosos à ação em prol dos necessitados. Assim, por exemplo, a prestativa atuação de, jovens membros do Grupo de Escoteiros e Bandeirantes da cidade, que, chefiados pelo Prof. Leônidas Miranda, também auxiliaram na distribuição.

O líder do prefeito na Câmara Municipal, Sr. Raul Gomes de Sá, personalidade típica do sertão baiano, dedicou grande parte de seu tempo ajudando a resolver as dificuldades logísticas que a distribuição de gêneros comportava. Como

Continua

Em Xique-Xique, autoridades reunidas com representantes da TFP estudaram a maneira de fazer chegar aos flagelados os donativos coletados no sul do País

Transbordante de contentamento, um peão típico do sertão baiano recebe do prefeito de Bom Jesus da Lapa (centro) um pacote de gêneros, durante a distribuição feita no acampamento dos desabrigados pelas inundações

O prefeito de Paratinga assina o manifesto congratulatório dirigido à TFP. Sobre a mesa, terços e medalhas de Nossa Senhora destinados aos pobres.