Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 334 | página 04-05

Entrevista exclusiva do Revmo. Pe. José Olavo Pires Trindade a "Catolicismo"

EM DEFESA DA DOUTRINA TRADICIONAL DA SANTA IGREJA

Sobre o estrondo publicitário promovido contra o Vigário de Miracema, Revmo. Pe. José Olavo Pires Trindade, por certos órgãos de comunicação social, especialmente a TV Globo, "Catolicismo" solicitou àquele Sacerdote uma entrevista.

São as seguintes as questões formuladas por nossa reportagem, às quais o zeloso Vigário de Miracema se dispôs gentilmente responder.

Injúria à liberdade religiosa

CATOLICISMO: Pe. José Olavo, durante a recente campanha publicitária movida contra V. Revma., negaram-lhe o direito de defesa? De que modo?

Pe. JOSÉ OLAVO: Aparentemente eu poderia me defender, porque os jornalistas me procuravam para dar entrevistas. Mas na realidade não pude fazer valer esse direito. Logo percebi que não se tratava de colher informações exatas, mas de uma campanha que só tinha um sentido. A princípio concordei em dar entrevistas, mas dentro de determinadas condições, que permitissem um tratamento adequado a questões tão delicadas e sérias, como sejam as questões de ordem moral. Os jornalistas e repórteres em geral apareciam aqui no fim de semana, justamente nos dias em que um Pároco está assoberbadíssimo com suas funções. Era justo e legítimo, por exemplo, que eles concordassem com o pedido que fiz de responder às perguntas por escrito. Nenhum deles concordou. Percebi então que a questão não era objetividade, mas sensacionalismo tendencioso. Depois começaram a me fotografar à revelia. Quando chegou a TV Globo, as coisas descambaram mais ainda. Os repórteres da TV Globo ostensivamente demonstraram que estavam a serviço dos elementos que promoviam agitação. Depois perderam toda a linha. Queriam entrevistar-me e filmar-me a qualquer custo, usando de expedientes os mais censuráveis, como o de telefonar simulando o caso de um doente grave para ser atendido. A única defesa era o silêncio digno.

Numa capela onde se realizava a cerimônia de dois casamentos, invadiram a igreja, interrompendo a cerimônia, chegando até a arredar uma das nubentes para me focalizarem melhor e somente depois pude prosseguir a cerimônia do casamento. Depois que eles foram afastados da igreja por umas pessoas ali presentes pude prosseguir na cerimônia do casamento. E com esse material assim colhido tão insultosamente, com injúria a um Sacerdote, com injúria aos nubentes, com injúria à Religião da maioria dos brasileiros, com injúria à Constituição, que assegura livre exercício do culto religioso, eles teceram as primeiras cenas do programa "Fantástico" do dia 20 de agosto e as últimas cenas do programa do dia 27. E o grupo de pessoas que ali são focalizadas estão revoltadas contra eles, que documentaram o próprio delito.

Em tal clima, como defender-me? Põe-se uma questão muito grave: contra a prepotência e o arbítrio de uma TV que diz atingir uma audiência de 50 milhões de expectadores, não existem recursos fáceis para um Sacerdote, para um cidadão defender-se? Sou arrancado do trabalho silencioso e modesto de uma paróquia do interior e brutalmente exposto diante de quase metade da população brasileira, como alvo de calúnias, deformações caricaturescas, deturpações, sem sequer poder pelo menos manter-me num digno silêncio. Onde ficam aqui os tão propalados "direitos humanos"? Eis um tema que deveria sensibilizar os defensores de tais direitos.

Popularidade

CATOLICISMO: Certa imprensa referiu-se a uma manifestação do povo contra V. Revma. Qual a verdadeira versão dos fatos?

Pe. JOSÉ OLAVO: Não houve, na verdade, manifestação do povo contra mim. Pelo contrário, nunca a situação com os paroquianos de um modo geral esteve tão serena. Este ano a Semana Santa foi mais concorrida, tanto pelo número de pessoas que frequentaram os Sacramentos quanto pelo das que participaram das solenidades públicas. Repercute ainda o abaixo-assinado que foi feito no fim do ano passado em repúdio a uns grupos inframinoritários de fora, que tentaram iniciar uma campanha clandestina a favor da divisão da Diocese. Esse abaixo-assinado era de apoio também ao Sr. Bispo e ao Vigário de Miracema. Foi firmado por 10.300 pessoas. Por ocasião da atual campanha publicitária, em apenas quatro dias 2.887 miracemenses assinaram outro manifesto em apoio ao Vigário. Recebi ainda um abaixo-assinado de todos os pais que têm filhos frequentando as associações religiosas da paróquia, aplaudindo a orientação religiosa que proporciono. Sem falar em duas manifestações de homenagem que meus paroquianos fizeram.

Alguém poderia perguntar: Mas não há divergência da parte dos paroquianos quanto ao modo de proceder do Vigário?

Divergências há em todo lugar. Mesmo o Sacerdote mais liberal encontra quem o julgue por demais rigoroso. Porém, não foram os católicos que divergem, que não concordam plenamente com as normas da Paróquia, que deram motivo a essa agitação. Quem diverge com seriedade acerca desses assuntos não manifesta sua divergência por meio de passeatas, nem dando entrevistas, mas o fazem pelos meios normais, adequados e ordeiros. Em geral essas pessoas que divergem, depois de ouvir serenamente as razões que dou, acabam concordando. E mesmo quando não aderem, não seguem, no entanto, respeitam o ponto de vista do Vigário.

Note-se que antes de exigir procuramos persuadir, expondo lealmente as razões, num clima de liberdade.

Mas o que houve não foi isto. Foi algo estranho, que não se explica pela situação aqui. Foi uma movimentação artificial de pessoas totalmente alheias à vida da Paróquia.

Batismo e casais irregulares

CATOLICISMO: V. Rema. poderia explicar por que não se deve batizar crianças antes que os pais contraiam legítimo matrimônio?

Pe. JOSÉ OLAVO: Quando um lavrador joga uma semente na terra, ele procura assegurar que esta faça germinar aquela e garantir também o crescimento e os frutos da nova planta. No batismo, a Igreja deposita na alma da criança o germe da vida sobrenatural, infinitamente mais precioso do que qualquer semente. Como consequência, a Teologia e o Direito Canônico orientam o Sacerdote no sentido de uma pastoral que vise conservar e desenvolver a vida sobrenatural que a criança recebe. Existem normas concretas no Direito Canônico como também normas Diocesanas a respeito do assunto. Essas disposições visam, além de assegurar uma formação religiosa que desenvolva a graça do batismo, levar os casais a legalizarem sua situação conjugal diante, da Igreja. Por isso, é lógico que os pais que desejam batizar seus filhos na Religião Católica, se disponham a viver como católicos para poderem orientar os filhos. Por isso, exige-se que os pais não casados na Igreja, primeiramente se casem, para depois se batizar os filhos. Em minha paróquia, agindo assim já regularizei a vida conjugal de cerca de 1.000 casais. Afinal de contas, não vivemos em época de reformas, de conscientização? Quando não há possibilidade de os pais se casarem, estuda-se cada caso, e asseguradas as condições para o futuro religioso da criança, batiza-se a mesma.

Modas inconvenientes na igreja

CATOLICISMO: Quais as razões pelas quais as senhoras e moças não devem usar vestes decotadas e calças compridas dentro das igrejas?

Pe. JOSÉ OLAVO: Quando uma alta autoridade do Estado esteve há dois anos em Miracema, e em outras localidades aqui do interior, as professoras de determinadas escolas foram avisadas de que não poderiam comparecer para recepção dessa autoridade com calças compridas.

Uma senhora não concordava que fosse impedida de entrar na igreja em traje masculino. No entanto, dizia-se que no seu emprego no Ministério da Justiça ela só usava saia, porque não ficava bem usar traje masculino. Li, há algum tempo atrás que, num clube noturno de alta categoria, recentemente inaugurado no Rio, as mulheres não podiam usar calça esporte e os homens não podiam trajar bermudas.

Se por razões de cerimônia, se por razões de deferência a uma autoridade, de bom gosto julga-se menos adequado o traje masculino para uma mulher, por que não pode o Sacerdote na Casa de Deus, por razões muito mais elevadas, por motivos sobrenaturais, exigir o mesmo, sobretudo se ele não está inovando nada, mas, ao contrário, seguindo uma tradição mais do que secular na Igreja? Sobretudo se ele está se orientando conforme a interpretação mais comum do texto do Deuteronômio, .que diz: "A mulher não se vista como o homem, pois isto é abominável aos olhos de Deus". Além disto, muitas das atuais modas têm um sentido evidentemente provocativo e exibicionista. Ora, o ideal de modéstia, de recato, de discrição que São Paulo recomenda às mulheres se opõe frontalmente a isto. Quem possui um pouco de senso das coisas evidentemente percebe que as vestes, hoje em dia, muitas vezes não estão de acordo com o ideal apontado por São Paulo.

Religiões falsas

CATOLICISMO: Qual a posição correta que V. Revma. e todo autêntico católico deve manter em relação a religiões falsas?

Pe. JOSÉ OLAVO: É uma questão de lógica. Sou contra outras religiões na medida em que elas contrariam os princípios da Religião católica. É uma incompatibilidade metafísica. Na medida em que uma doutrina contradiz outra, é uma negação da outra, quem defende uma tem que se opor à outra. Se uma religião nega a presença real de Cristo na Santa Hóstia ou a Virgindade perpétua de Nossa Senhora, evidentemente devo ser contra essa doutrina religiosa porque contradiz, nega verdades da Religião que defendo. Se minha atitude não fosse essa, eu negaria o próprio princípio da contradição. Seria o relativismo, o ceticismo, em suma, o fim de toda lógica, de todo o pensamento. Quanto às pessoas que pertencem a esses outros credos, desejo-lhes todo o bem, inclusive desejo de coração que elas possam participar um dia de toda a riqueza espiritual da Igreja Católica, desfrutada por nós, católicos. E evitamos, na posição que assumimos, toda a atitude, toda a expressão que possa desnecessariamente acirrar os ânimos de qualquer pessoa de boa fé e impedir um justo e legítimo diálogo.

Pe. Olavo e a TFP

CATOLICISMO: Falou-se muito, no decorrer da campanha publicitária, sobre as relações de V. Revma. com a TFP. Poderia V. Revma. esclarecer nossos leitores a respeito desse ponto?

Pe. JOSÉ OLAVO: A TFP é uma entidade cívica de inspiração católica que, pelos seus estatutos, visa defender no Brasil a civilização cristã, lutando contra o socialismo e o comunismo. Esta defesa é feita pela refutação das ideias socialistas e comunistas, como também através da apologia dos três elementos fundamentais da civilização cristã: a tradição, a família e a propriedade.

A referida entidade tem por objetivo igualmente a proteção dos desfavorecidos e, por isso, seus sócios e cooperadores visitam hospitais e favelas, distribuindo nestes locais principalmente víveres e roupas coletadas nas ruas.

Eu não sou membro da entidade, mas admiro-a calorosamente e concordo com ela sem restrições.

Os paroquianos do Pe. José Olavo manifestaram total repulsa à campanha publicitária contra seu Vigário e o Bispo de Campos


CATÓLIC0S NÃO PODEM VOTAR EM CANDIDATOS DIVORCISTAS
Os Bispos da província eclesiástica de Niterói, refletindo sobre as próximas eleições de novembro, julgam-se no dever de dirigir aos católicos de suas dioceses uma palavra de orientação Senadores e Deputados são legisladores. Grande é a responsabilidade que lhes cabe, como todos puderam verificar em 1977, quando foram aprovadas emenda constitucional e lei que implantaram o divórcio, contrariando a Lei de Deus e contribuindo para a dissolução do próprio fundamento da sociedade, que é a Família.
É evidente que nenhum católico pode contribuir com seu voto para levar ao Parlamento legisladores favoráveis ao divórcio ou a outros dispositivos legais contrários à Moral católica. Impõe-se, pois, uma sadia reação do eleitorado católico, na escolha de seus candidatos.

Niterói, 1.° de setembro de 1978
(aa) † José Gonçalves da Costa, Arcebispo Administrador Apostólico de Niterói
† Manoel Pedro da Cunha Cintra, Bispo Diocesano de Petrópolis
† Antonio de Castro Mayer, Bispo Diocesano de Campos
† Clemente José Carlos Isnard, Bispo Diocesano de Nova Friburgo
† José Fernandes Veloso, Bispo Auxiliar de Petrópolis


OS OBJETIVOS DE UMA PODEROSA E ORQUESTRA A CAMPANHA

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) foi objeto, nos meses de agosto e setembro últimos, de um bem articulado estrondo publicitário movido por poderosas empresas de comunicação social, tendo à frente a TV Globo, a maior emissora de televisão do país.

O estrondo visou igualmente a S. Excia. Revma. D. Antonio de Castro Mayer, Bispo de Campos, e seu Clero.

O que teria levado órgãos de comunicação social a desencadearem — com estranha fúria — uma campanha de difamação contra dois grandes baluartes da luta contra o comunismo e o progressismo em nossa Pátria? É o que, neste momento, incontáveis brasileiros se perguntam.

Com efeito, D. Antonio de Castro Mayer, teólogo de renome internacional, não é menos conhecido como destemido batalhador contra o progressismo e o comunismo. Sob sua orientação atuam valorosos Sacerdotes contra os quais a TV Globo também investiu.

A TFP é a maior entidade civil anticomunista do País e os serviços por ela prestados à Pátria são do conhecimento geral dos brasileiros. Conta ela, desde sua fundação, com o caloroso apoio de D. Antonio de Castro Mayer. Compreende-se, pois, que a TV Globo e outros órgãos de comunicação falada ou escrita tenham querido atingir aquela entidade e o Prelado fluminense.

Com intuito de oferecer a seus leitores as informações necessárias para formar um juízo abalizado sobre o que se passou, "Catolicismo" apresenta a seguir um breve relato dos fatos ocorridos.

Em Miracema, começa o estrondo publicitário

Teve início em julho último um movimento local contra o Vigário, Pe. José Olavo Pires Trindade. Um grupo de cerca de 40 pessoas (profissionais liberais e estudantes), dedicou-se a uma campanha oral, e logo depois à difusão de panfletos acusando o jovem Vigário de Miracema de empreender uma ação "moralizante" exagerada e fanática. E de ter constituído um grupo de oito cooperadores da TFP.

Como é característico em certas correntes, os folhetos escachoavam gratuitamente contra a TFP as clássicas acusações de entidade "nazifascista" e "paramilitar".

Num edital vazado em linguagem calma e elevada, a Cúria diocesana de Campos relatou com pormenores os fatos ocorridos em Miracema, apontando as distorções e inverdades contidas nos folhetos (ver "Catolicismo" n.° 333, de setembro de 1978).

Afirma o documento que o Pe. José Olavo Pires Trindade, fiel à orientação do Bispo, não fez outra coisa que seguir as normas ensinadas pela Moral tradicional da Santa Igreja, observadas na Diocese desde sua criação, em 1922. Nada foi nela mudado ou inovado.

O ímpeto dos condutores da campanha difamatória, porém, não arrefeceu. Estendeu-se ele a outros Sacerdotes da Diocese fiéis, também eles, à orientação de seu Bispo.

Surge em cena a TV Globo

O caso local de Miracema interessou, entretanto, à poderosa TV Globo. Quando a agitação naquela cidade alcançava alguma intensidade, lá apareceram os repórteres, que logo entraram em contato com os promotores da agitação.

Concomitantemente, jornais diários de grande circulação passaram a divulgar notícias sobre os episódios de Miracema, todas, invariavelmente contrárias ao Vigário. "O Fluminense" de Niterói, "Jornal do Brasil" e "O Globo" do Rio de Janeiro e o "Jornal da Tarde" de São Paulo, ocuparam-se de Miracema.

A campanha atingiu o seu auge quando a TV Globo, no programa "Fantástico", levou ao vídeo, perante dezenas de milhões de brasileiros, surpresos, o casinho local de uma pequena cidade pouco conhecida do interior fluminense, de 13 mil habitantes, pela qual os órgãos de divulgação jamais haviam manifestado interesse anteriormente.

"Fantástico" logo estendeu aos Vigários de Bom Jesus do ltabapoana, Varre-Sai, Natividade do Carangola, Santo Antonio de Pádua e São Fidelis, as acusações que lançara ao Pe. José Olavo.

Dois programas levou ao ar a poderosa tele emissora contra o Vigário de Miracema e de outras paróquias da Diocese de Campos. Preparava-se assim a mais violenta das ofensivas publicitárias já lançadas contra a TFP.

TFP: objeto único da articulação publicitária

A TV Globo posteriormente dedicou contra a TFP, duas edições do programa "Fantástico", em dois domingos sucessivos, dias 3 e 10 de setembro p. p.

Em seu primeiro programa, a tele emissora esgueirava jeitosamente contra a TFP a acusação de preparar mentalidades cheias de ódio e rancor, as quais estaria mobilizando através de exercícios paramilitares, constituindo assim perigoso potencial de subversão direitista. As antipatias que a emissora procurara levantar contra os Sacerdotes da Diocese de Campos, canalizava-as agora contra a TFP, atribuindo a esta a qualidade de inspiradora dos referidos eclesiásticos. A propósito desse acontecimento, a referida entidade deu a lume sereno e penetrante comunicado, sob o título "Sobre um Programa de TV: a TFP ao público brasileiro", divulgado em secção livre na "Folha de São Paulo", e mais 18 jornais de 13 cidades brasileiras. Demonstrava o documento o quanto é absurdo imputar à TFP aquelas acusações, quando o modo de ser e de atuar cortês, pacífico e ordeiro dos sócios e cooperadores da Sociedade é notório em todo o Brasil. Além disso, possui a TFP 1973 cartas de prefeitos, delegados e outras autoridades de todos os rincões do território nacional, louvando a atuação pública da entidade.

A TV Globo prepara in segundo lance de sua campanha contra a TFP

Caídas no vazio as acusações da primeira emissão da TV Globo, em vista do oportuno e irrefutável comunicado da entidade, não esmoreceu a poderosa empresa em seu intuito de denegrir a TFP. Buscava avidamente matéria para outro programa. Segundo constou, repórteres daquela emissora procuraram algumas famílias de sócios ou cooperadores da TFP, em São Paulo, onde esperavam encontrar pessoas contrárias à atuação desta, a fim de obter depoimentos contra os filhos e irmãos que trabalham pelos ideais anticomunistas da entidade.

No dia 7 de setembro, emissoras de rádio de São Paulo começaram a divulgar a notícia de que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo e a Representação da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) nesse Estado, haviam lançado um comunicado acusando a TFP de ter feito ameaças ao diretor do programa "Fantástico", na capital paulista, sua equipe e respectivas famílias. Tal notícia foi estampada em 15 diários de grande circulação.

A TFP distribuiu um formal e enérgico desmentido pelos jornais, rádios e TVs. Apenas seis diários de quatro cidades o publicaram.

Depoimentos: um anônimo e outro apaixonado

Dia 10 de setembro: vai ao ar a segunda emissão do "Fantástico" contra a TFP. Depois de apresentar um resumo do comunicado da TFP, e de dar a entender que as aludidas ameaças imputadas à TFP não passavam de "brincadeira de mau gosto ", a TV Globo apresentou dois depoimentos contra a entidade. O primeiro era de uma moça que se dizia irmã de um sócio ou cooperador da entidade. Mas a TV apresentou-a com o rosto envolto numa espécie de névoa para não ser reconhecida. Também não declarou seu nome, nem de seu suposto irmão. O segundo foi de uma senhora cujo nome "Fantástico" não declinou, mas que apresentou-se em condições normais de visibilidade. É realmente mãe de um cooperador da TFP São Paulo. Seu depoimento, feito com paixão, foi entretanto, como os demais, vago e impreciso. Não pôde ele, porém, deixar de produzir forte trauma em seu filho. Compreende-se este trauma, pois não se conhece outro caso, no Brasil, de uma mãe que tenho ido à televisão para falar contra o próprio filho.

Estranha orquestração de boatos

O presente relato não estaria completo se não tratasse de um conjunto de fatos que precederam de pouco ao grande estrondo.

Consistiram tais fatos em informações procedentes de diversas fontes de que a TFP seria vítima de invasão, assaltos ou agressões. Uma verdadeira onda de boatos neste sentido, correu, de modo a cooperadores ou sócios da TFP ouvirem, não raras vezes, de transeuntes ou pessoas que passavam defronte a alguma sede uma ou outra dessas ameaças.

Tais boatos intimidativos foram diminuindo à medida em que crescia a campanha difamatória conduzida pela TV Globo.

A parcialidade de certa imprensa

Por fim, cumpre registrar que, se as calúnias e distorções a respeito da TFP encontravam eco fácil em bom número de jornais diários de grande circulação, os desmentidos e esclarecimentos da entidade, pelo contrário, foram ignorados, quando não recusados, por vários desses mesmos órgãos.

Cristã e varonilmente paciente

Ficam aqui os principais episódios da recente campanha publicitária movida contra a TFP. Estaria elá encerrada? Não o sabemos. Após a quarta tele emissão, o programa "Fantástico" não voltou a atacar a entidade. Entretanto, não foi esse o primeiro estrondo publicitário contra a TFP. E quiçá não seja o último. "Alias vidi ventos aliasque procelas", aduz o referido comunicado da TFP citando Virgílio. E conclui: "A TFP já arrostou impávida outras tempestades. E continua segura do êxito em razão da promessa feita pelo Espírito Santo aos que são cristã e varonilmente pacientes" (Gal, 5, 22).


Sobre um programa de TV: a TFP ao público brasileiro

A Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), agradecendo as múltiplas manifestações de apoio que vem recebendo ontem e hoje, a respeito de um programa de televisão que a apresenta implicitamente como organização exacerbadamente direitista — conforme versão fantasiosa de quando em quando levantada pela esquerda, e sempre retrucada com êxito pela entidade — comunica ao público que:

1. ENTRE os vários reparos que merece a matéria posta no ar, no domingo dia 3, pelo programa "Fantástico" da TV Globo, o mais saliente diz respeito à ausência de caridade cristã, a combatividade exagerada e até o rancor que a emissora atribui à mentalidade dos participantes da TFP. Sentindo-se desta forma surpreendentemente mal interpretada, a TFP se apressa em dirigir a presente palavra de esclarecimento ao público. Este esclarecimento é oferecido em espírito de diálogo cordial com os que se tenham deixado impressionar pelas alegações de "Fantástico".

2. ESTAMOS certos, aliás, de que a grande parte da opinião pública nacional não se deixou impressionar por tal. Atuando nossa entidade em praça pública, de norte a sul do País, há cerca de quinze anos, todos os brasileiros conhecem a maneira exemplarmente legal e ordeira que lhe caracteriza as campanhas. Comprovam esse estilo de ação 1973 ofícios que possuímos, de delegados, prefeitos e outras autoridades de todas as latitudes do País, felicitando-nos por isto.

Nenhuma entidade possui, assim, mais antigo, firme e generalizado conceito de legalidade de procedimento e de alto padrão de trato com o público. O que, já de si, evidencia nos cooperadores dela, um espírito bem diverso do que imaginam alguns participantes do tele programa de domingo.

3. POR CERTO, ao longo desses quinze anos de ação pública — e à medida que o vêm exigindo os fatos — temos refutado as doutrinas que o comunismo internacional tenta obstinadamente inocular no País. Porém, os livros, artigos de jornal ou de revista, notas ou comunicados que em considerável quantidade vimos publicando neste sentido, se têm caracterizado por elevação e delicadeza invariáveis: o plano que nos situamos é exclusivamente doutrinário, sem jamais descermos a acusações de caráter pessoal. Isto ainda quando fomos alvo dos mais duros e estrepitosos ataques, não só doutrinários, como pessoais.

A quem deseja certificar-se dessa afirmação bastará consultar nossas publicações. Pelas muito consideráveis tiragens que têm alcançado, estão elas às mãos de todos.

Porém, para maior facilidade, pomos cordialmente nossas coleções ao alcance de quem as queira examinar.

E se alguém julgue encontrar algo que contrarie estas assertivas, queira indicar-nos em que obra e em que página está o texto incriminado.

4. POR TUDO isto, um dos nossos mais sensíveis pontos de honra está em que se reconheça o caráter cristãmente legal, ordeiro e cordial de nossa atuação, a qual - acrescente-se - sabemos, graças a Deus, eficaz e bem sucedida.

5. DADA a unilateralidade da qual tantas vezes dá mostra o espírito humano, é compreensível que essa mesma eficácia levante contra nossa entidade ressentimentos e queixas infundadas, em setores de opinião direta ou indiretamente influenciados pela campanha que, com implacável obstinação, o comunismo vem realizando para destruir no Brasil a soberania nacional e o que resta de civilização cristã. Entre comunistas professos, socialistas e inocentes-úteis, mágoas e objeções não faltarão, portanto, contra nossa entidade. Mas que tais objeções tenham chegado a influenciar brasileiros que, por certo, não aceitariam de ser classificados em alguma dessas categorias ideológicas, isso é o que nos desconcerta.

6. COM EFEITO, estávamos no direito de esperar precisamente o contrário. Consagramos largamente à defesa do País contra a infiltração doutrinária do comunismo, energias e tempo que poderíamos empregar em proveito pessoal. Cumprimos assim um dever de consciência defendendo a Pátria e a civilização cristã contra o mais radical, violento e implacável adversário.

E ninguém pode duvidar da atualidade e premência do perigo constituído por este. Pois tal perigo é notório. A ele estão expostos todos os povos livres. Em razão dele, já mais de uma vez foi vertido sangue de brasileiros. E, se provas fossem necessárias, temos colecionado 214 pronunciamentos de altas patentes das forças armadas, que nos últimos três anos têm alertado contra ele a opinião pública.

Teríamos faltado com a caridade, defendendo o Brasil contra esse adversário? Ou, pelo contrário, teríamos faltado com a justiça e a caridade se tivéssemos cruzado os braços diante dele?

A Lei de Segurança Nacional preceitua, em seu art. 1.o: "Toda pessoa natural ou jurídica é responsável pela segurança nacional, nos limites definidos em lei". Teremos manifestado falta de espírito de caridade, combatividade exagerada etc., simplesmente por havermos dado cumprimento a esse preceito, na esfera privada, e dentro da mais escrupulosa obediência aos ditames da boa ordem?

Conclui na pág. 6