Muralha inédita de mil quilômetros na fronteira da morte
ARNÓBIO GLAVAM
Se algo, hoje em dia, ainda é capaz de despertar a indignação no público, isto aconteceu! Nenhuma outra consideração ou exclamação prévia poderia comunicar maior significado ao fato. Passemos, pois, a sua narração.
O governo comunista da Alemanha Oriental concluiu, recentemente, a construção de um muro de proporções ciclópicas. Cobre ele toda a fronteira entre as duas Alemanhas, do Báltico à Tchecoslováquia. São mais de mil quilômetros de pedra rasgando a "carne viva" de uma nação.
Qual a finalidade dessa obra? Como seu similar — e quão menos gigantesco, o muro de Berlim — visa ela impedir que os infelizes alemães orientais fujam do maior cárcere que a História conheceu: o regime comunista.
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É pública e notória a deficiência congênita da economia marxista. A magnitude das privações sofridas por numerosos povos jugulados pelo regime socialista somente a História poderá, um dia, revelar. Um pequeno indício, entretanto, está ao alcance de todos. Nas proximidades de Hof, há uma aldeia fronteiriça entre as duas Alemanhas. Nela existe uma fábrica que, vista do lado ocidental, apresenta paredes limpas e pintadas de branco. Entretanto, com o auxílio de uma luneta, o observador poderá verificar todo o restante do prédio em mau estado, e com as paredes cinzentas e sujas.
Tal miséria não impediu que os vermelhos despendessem uma fabulosa soma na construção da muralha do Estado-prisão: aproximadamente seis milhões de cruzeiros por quilômetro. E são mais de mil quilômetros...
Mas, examinemos os detalhes desse monumento do despotismo e da brutalidade no século XX, que faria inveja a qualquer Nero ou Deocleciano.
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Os dispositivos para prevenir e impedir as fugas empregados na obra desafiam a mais fértil imaginação. Ao longo dos muros, em intervalos de seis metros encontram-se estranhas caixas brancas, aparentemente inofensivas. Basta, entretanto, que se aproxime qualquer pessoa, rompendo um fio elétrico oculto para que uma carga de 80 balas dispare contra o infeliz.
Para tornar ainda mais difícil qualquer tentativa de fuga, as autoridades policiais alemãs-orientais estabeleceram uma larga via de concreto com duas pistas, ao longo do muro, pela qual transitam continuamente veículos com policiais, poderosamente armados. Torres de vigia se levantam, também ao longo de todo o muro, onde guardas munidos de binóculos observam cuidadosamente todo o movimento junto à fronteira. Cães ferozes são espalhados ao longo do muro.
Não contentes com todas essas medidas, os comunistas foram ainda muito mais longe: as aldeias e pequenas cidades próximas da fronteira, de onde mais provavelmente alguém tentaria a fuga, foram cercadas com muros ou cercas eletrificadas. As entradas e saídas dessas localidades são fiscalizadas por policiais postados permanentemente nas porteiras. Quem nas referidas cidades ou aldeias queira entrar, deverá obter prévia autorização da polícia.
Talvez o leitor julgue tudo isso por demais trágico, e prefira não pensar. Atire, pois, de lado este jornal e procure esquecer o drama de milhões de pessoas a quem são negados os mais fundamentais direitos humanos. Mas, se quiser medir conosco toda a profundidade dessa tragédia, acompanhe-nos. E terá ainda muito a considerar...
Murar e contornar as aldeias e cidades com cercas eletrificadas ainda não pareceram aos comunistas medidas suficientes. Decidiram então investigar o procedimento privado de cada habitante desses lugares e expulsar os considerados pouco merecedores de confiança, obrigando-os a morar em regiões distantes. A operação resultou numa "colheita" excessivamente profícua para os vermelhos. Tantos foram os suspeitos, que a operação de banimento tomou proporções inesperadamente gigantescas. A aldeia de Liebau, nas proximidades de Coburgo, por exemplo, foi inteiramente destruída, e seus habitantes transferidos para pontos bem distantes da fronteira.
"Nessas condições, quem se atreverá a fugir do comunismo?" — perguntará alguém. E talvez acrescentasse: "Um dispositivo policial muito menos aparatoso do que este seria suficiente para desfazer, nos mais ousados, qualquer ilusão de fuga". Entretanto, assim não pensam os comunistas alemães. E excogitaram um supremo artifício de maldade, para acolher aquele que, escapando às balas, às cercas eletrificadas, às minas e à vigilância da guarda fronteiriça, lograsse alcançar o muro. Galgará o fugitivo, sedento de liberdade, o último obstáculo que se lhe afigura interpor-se entre ele e o mundo além da cortina de ferro; e ao agarrar-se ao topo da muralha para o último gesto de heroísmo, quiçá alimentado por derradeiro hausto de esforço, um turbilhão de dores lhe invadirá. O mundo lhe parecerá girar. Seus olhos se toldarão, e em poucos segundos encontrar-se-á no chão mergulhado numa poça de sangue. Olhará desesperado as mãos sem dedos. Estes ficaram no alto da cruel muralha.
Com efeito, no topo do muro, lâminas cortantes como navalhas aguardam aqueles que ousaram ser heróis. E é este o extremo recurso de perversidade engendrado pelos tiranos comunistas.
Pasme, leitor! Apesar de tudo, as fugas prosseguem.
Segundo informou "The New York Times", onze pessoas lograram alcançar a liberdade nos últimos nove meses. Sete das quais eram guardas fronteiriços; os próprios policiais escolhidos entre elementos reputados de maior confiança pelo regime. É um dos recursos para fugir: conseguir um posto de guarda na fronteira e aproveitar as facilidades inigualáveis que tal condição oferece. A estranha parcimônia dos nossos órgãos de comunicação em noticiar tais fugas nos deixam sem meios de conhecer as condições — provavelmente dramáticas — em que os fugitivos civis conseguiram deixar o país.
Que engenhosos artifícios ter-lhes-iam ditado a aflição e o desespero produzidos pelo jugo comunista! Sobretudo, que atos de heroísmo e destemor praticaram aqueles — quiçá muito mais numerosos do que se imagina - cuja vida o dispositivo militar tolheu, e cuja história as inexoráveis muralhas extinguiram.
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Irremediável situação? Não o cremos. "Deus escreve certo por linhas tortas", diz um velho adágio português. Um dia ver-se-á que a Providência Divina permitiu inimagináveis desafios à Sua Justiça e exemplos de heroísmo para servirem, uns e outros de escândalo, advertência e edificação dos povos. Dia virá em que, esmagado e varrido o comunismo da face da terra, reinará sobre a Rússia convertida e o mundo inteiro o Imaculado Coração de Maria, segundo a promessa feita pela Mãe de Deus em Fátima. Então se conhecerá a verdadeira história desta trágica e enigmática segunda metade do século XX.
O uso de cães amestrados pelos guardas de fronteira da Alemanha comunista tornou-se antiquado diante dos sofisticados equipamentos da nova muralha da morte. O desenho ao lado mostra seus requintes: 1) Linha de fronteira demarcada. 2) Marco. 3) Coluna. 4) Faixa desmatada, de 100 metros de largura. 5) Cercas de arame farpado. O espaço intermediário é minado. 6) Grade de metal dupla, minada, de 2,40 m de altura. 7) Grade de metal simples, de 3,20 m de altura, equipada com metralhadoras automáticas. 8) Vala para impedir a passagem de veículos. 9) Faixa de 6 m de largura para detectação de pegadas. 10) Caminho de patrulha. 11) Torre de observação, de madeira. 12) Torre de observação, de concreto, com holofotes. 13) Bunker de observação. 14) Interruptor de luz. 15) Rede de Comunicação. 16) Arame-guia para cães. 17) Passagem controlada. 18) Muro de concreto, de 3,30 m de altura, com lâminas cortantes no topo. 19) Muro com alarma elétrico e sonoro.
Ao tentar transpor a fronteira, Kari-Heinz Fischer foi atingido por uma mina que lhe arrancou o pé esquerdo. Morreu em consequência da hemorragia. A direita, vê-se em primeiro plano a grade de metal com dispositivos automáticos mortais SM-70. Pouco adiante situa-se uma trincheira de concreto, a torre de observação e a cerca com alarmes.
A TFP argentina fez campanha sobre os direitos humanos
A Sociedade Argentina de Defesa da Tradição, Família e Propriedade deu a conhecimento público alguns aspectos de um importante pronunciamento de sua homônima dos Estados Unidos, sobre a política de direitos humanos do Presidente Carter.
O documento constitui uma lúcida apreciação da discutida orientação da atual administração norte-americana em matéria de direitos humanos, assinalando suas unilateralidades e contradições em relação à América Latina, enquanto contraria os interesses fundamentais dos Estados Unidos e favorece a expansão comunista. Manifesta ainda que a preocupação com a defesa dos direitos humanos deveria consistir na ajuda às nações cristãs da América Latina e na defesa de sua soberania ameaçada pela subversão comunista. E não em defender os agressores marxistas contra a reação de legítima defesa de parte das nações agredidas.
Ao divulgar nas ruas de Buenos Aires esse pronunciamento da TFP norte-americana, a TFP argentina observa, em um comunicado, que o país vem sendo alvo de uma campanha internacional, conduzida em nome dos direitos humanos. Esse vozerio põe a nota tônica nos eventuais excessos repressivos — sem dúvida censuráveis — na luta contra a subversão, mas ignora completamente os incontáveis crimes cometidos pelo terrorismo.
A TFP da nação vizinha ressalta ainda a marcada unilateralidade da mencionada campanha, pois, embora está destaque explicavelmente o restabelecimento das garantias constitucionais e dos direitos civis dos indivíduos, não mostra interesse proporcional na proteção do bem comum contra a agressão marxista.
A mencionada campanha anti-Argentina é ainda unilateral — continua a TFP — porque nada diz sobre as mil formas de crueldade que o comunismo exerce no mundo inteiro, especialmente nos países que a ele estão subjugados, sendo mais recentes e espantosos os genocídios do Vietnã, Cambodge, Laos e Etiópia.
Cabe acrescentar — conclui o comunicado da entidade — que a propaganda comunista contra a Argentina, baseada no tema dos direitos humanos, não teria tanta repercussão se não contasse com a colaboração de numerosos eclesiásticos e leigos católicos de vários países, os quais, direta ou indiretamente, lhe dão alento.
A TFP argentina em campanha no centro de Buenos Aires
E UMA HORDA INVADIU A CATEDRAL..
RAFAEL MENEZES
27 DE AGOSTO, 13 h. Envoltos no silêncio da catedral de São Paulo, uns poucos fiéis oravam, beneficiando-se do ambiente recolhido de uma tarde de domingo. A luminosidade discreta filtrava colorida pelos vitrais e tocava de leve as sólidas colunas, mas não chegava a dissipar a penumbra evocativa da presença sobrenatural no templo sagrado.
Na capela lateral, a chama rubi de uma lamparina bruxuleava indicando a presença do Santíssimo Sacramento. Em seu sobe-e-desce aflitivo, ameaçando a todo instante desgarrar-se do pavio, parecia ela simbolizar a alma que vacila na fé.
Subitamente, um alarido frenético. Fugiam os anjos da paz e da meditação. Estranha multidão invadia o lugar santo. O tumulto era tal que se diria uma horda de bárbaros a tomar de assalto o edifício.
Espantados, dois homens com ar interiorano cochicharam entre si. Um propunha chamar o Padre, pelo menos para evitar a profanação do Santíssimo Sacramento. Mas outro observou: "Os tempos mudaram muito... e os Padres também".
Em poucos minutos, a catedral fora tomada. Uns portavam faixas enunciando reivindicações frequentes, no momento atual, em meios esquerdistas. Uma delas proclamava: "Convergência Socialista".
Mulheres e homens subiam nos bancos e nos altares; ou sentavam-se no chão, à moda "hippie". Punhos cerrados, berros e assobios se misturavam com palmas e cânticos, num turbilhão que parecia ameaçar as grossas colunas do templo.
Os mais audazes instalaram-se no trono do Cardeal. Outros, não menos exaltados, galgaram os púlpitos.
"A-pra-ça-é-do-po-vo", "A-baixo-a-re-pres-são", "Sol-tem-nos-os-pre-sos", "A-nis-tia", "Li-ber-da-de - li-ber-da-de". Desses "slogans" ritmados em coro aos poucos foi emergindo uma paródia do "Peixe Vivo", com sabor de luta de classes: "Como pode um povo vivo / viver nessa carestia / dia e noite, noite e dia / com a barriga vazia / [...] e o patrão apertando a produção / só pensando na exportação".
Uma equipe turbulenta e destra em pouco tempo transformou o altar em palanque e uma voz de mulher irrompeu através dos alto-falantes: "Aqui estamos reunidos porque o povo precisa ser ouvido... " A fumaça dos cigarros começou a se expandir, mas a voz da animadora logo advertiu: "Não fumem na igreja, não fumem na igreja". E explicou o motivo: "...A fumaça incomoda"!
Profanação do lugar santo
Que manifestantes eram esses?
Não, caro leitor, não se tratava de uma horda que havia forçado a entrada no templo por ódio à Religião. Tratava-se de algo com o que não sonharam sequer os mais ousados e agressivos anticlericais do século passado em seus momentos de delírio. A reunião na Casa de Deus era dirigida por dois Bispos, acolitados por Padres e Freiras. Oficialmente, tratava-se de um encontro do "Movimento do Custo de Vida". O objetivo alegado: obter melhores condições de vida para o povo.
O povo... Tudo se fazia em seu nome, mas o verdadeiro povo estava ausente. O pai de família e a dona de casa, em nome de quem pretendiam falar os manifestantes, não compareceram. Viam-se apenas indivíduos que, apesar da balbúrdia reinante, eram disciplinados e obedientes às palavras de ordem. Pudemos observar algumas pessoas do povo que entravam, mas saíam logo. E não por medo da polícia, como se queria fazer crer, mas assustadas com o radicalismo dos manifestantes.
O nome de Deus não foi sequer pronunciado. No entanto, era necessário dar ao ato alguma aparência religiosa. Para tanto, D. Mauro Morelli lembrou o milagre da multiplicação dos pães. Disse o Bispo Auxiliar de São Paulo, na ocasião respondendo pela direção da Arquidiocese: "O milagre dos pães hoje não será realizado multiplicando uns poucos pães para alimentar uma multidão de famintos, mas pela redistribuição das riquezas que se encontram nas mãos de uns poucos". Ou seja, a utilização do milagre bíblico para dar uma tintura religiosa a uma surrada tese das esquerdas.
Enquanto D. Mauro falava, distribuía-se panfletos em grande profusão, nos quais se reivindicava desde a baixa do custo de vida até a derrocada do atual regime.
Dentre as publicações que circulavam na catedral chamava a atenção a revista "Versus", na qual se podia ler: "É belo ser comunista embora cause muitas dores de cabeça / É porque a dor de cabeça dos comunistas se supõe histórica / Na construção socialista planificamos a dor de cabeça o que não a torna menos frequente, mas pelo contrário". Isto em meio a muita propaganda socialista e trotskista ("Versus", n.° 24, set. 78, p. 34).
Os dirigentes, de sua parte, limitaram-se a dar um aviso: "Das publicações distribuídas na catedral nós só nos responsabilizamos pelo jornal do Movimento". E um deles declarou que já na manifestação que fizeram na Penha houve infiltração de "elementos estranhos" que provocaram as autoridades. Singular atitude essa de criar o caldo de cultura próprio a todos os agitadores, e dizer depois que não se responsabilizam pelo que eles fizerem.
No entanto, o Bispo Auxiliar de São Paulo, D. Mauro Morelli, procurou o Comandante da Polícia Militar, presente na ocasião, para dizer-lhe: "Não quero nenhum policial dentro da igreja, a não ser que vá rezar". Ato que, naquele momento ninguém realizava lá dentro.
Inexpressivo abaixo-assinado
Terminados os discursos, foram entregues aos dirigentes as assinaturas obtidas, durante seis meses, na Grande São Paulo, Campinas, Valinhos, Sorocaba, Votorantim, Mirandópolis, Andradina, Ribeirão Preto, Feira de Santana (Bahia) e Belém do Pará. Foram coletadas nesse longo período um milhão e 200 mil assinaturas junto a uma população que soma aproximadamente 15 milhões de habitantes, em prol de uma reivindicação em relação à qual, em tese, todos estão de acordo. Quem não deseja a baixa do custo de vida, na realidade, bastante elevado em nossos dias? Em outros termos, o abaixo-assinado pleiteia o óbvio.
Entretanto, apesar disso, e de contar com o apoio eclesiástico e com a publicidade abundante oferecida por certa imprensa, o "Movimento do Custo de Vida" não conseguiu mais do que aquela cifra. Significaria isso ser a maioria da população — que não assinou o documento — contrária à baixa do custo de vida?
Para justificar o número pouco expressivo de assinaturas colhidas, membros do "Movimento do Custo de Vida" fornecem uma explicação simplista: o povo não assinou devido ao medo da repressão. Assim, tenta-se justificar também a ausência popular na manifestação da catedral.
Muitos, entretanto, perguntam: se o objetivo consiste apenas em baixar o custo de vida, por que temer a polícia? Também os policiais não desejam tal melhoria?
A verdadeira explicação é outra: a maioria da população vislumbrou por detrás da questão, em tese simpática, do custo de vida, o espectro inconfundível da subversão.
Na véspera, o governo de São Paulo havia "reiterado a proibição da concentração na Praça da Sé, alegando ter informações de que as antigas Ligas Operárias, o Partido Comunista e a Convergência Socialista estão por trás do Movimento".
Objetivos pouco precisos
O Boletim do Movimento, largamente distribuído, esclareceu ainda mais:
Custo de vida para os promotores da iniciativa tem um sentido muito amplo. Significa mais ou menos tudo e nada: direito de se organizar livremente, de se opor às políticas econômicas que não atendam a seus interesses; de se reunir em praça pública e exigir soluções para os problemas que mais os afligem; direito de greve; direito de organização partidária; distribuição das terras para os que nela trabalham. Sob a bandeira do "Custo de Vida" encontram-se exigências frequentemente apresentadas por agitadores e subversivos. E, além disso, os organizadores do Movimento lançaram um apelo para que se "mantenha a luta, por sua ampliação, que as pessoas se organizem e discutam novas maneiras de luta que o Movimento deve assumir daqui para a frente".
O coordenador Aurélio Peres disse: "Enquanto houver carestia neste país, nós estaremos lutando". E outra oradora acrescentou: "Não provoquem a polícia para que possamos continuar, pois não vamos parar por aqui". Ou seja, trata-se de um programa a longo prazo, no qual a encenação da catedral teria sido o primeiro episódio? Onde irá parar tudo isso? Quem idealizou tal programação?
O Clero presente inculpava um "pequeno grupo de universitários radicais de se apossarem das escadarias da catedral, durante mais de uma hora, provocando a polícia". D. Morelli, tomando o microfone apelou aos manifestantes para que não fizessem "aglomeração nas escadarias". O que significa esse apelo estéril, não seguido de providência concreta? Durante todo o tempo as escadarias estiveram tomadas pelos agitadores da chamada "Convergência Socialista".
O dispositivo mantido nas escadarias do templo mais parecia um "show" publicitário com o propósito de provocar a polícia e aviltar a autoridade. No dia seguinte, vários jornais, em manchetes, apresentavam os mantenedores da ordem como carrascos, que lançaram bombas em crianças e jovens, enquanto os agitadores não passavam de uns coitados e vítimas de violência policial, os quais apenas solicitavam a baixa do custo de vida...
Os slogans tinham vários matizes de agressividade.
Enquanto os agitadores gritavam "morras" ao atual regime e proclamavam — "Vai avançar o movimento popular", alguns Padres e Freiras, que desejavam comprometer-se menos, bradavam: "Abaixo a carestia". D. Mauro afirmou: "Acompanhei este movimento desde o começo, e se soubesse que estava sendo manipulado, não o teria apoiado".
E tudo terminou com um batalhão de apressados lixeiros a carregarem sacos e mais sacos de lixo, acumulados pelos manifestantes durante aquele autêntico "comício político", realizado dentro do local sagrado.
Os agitadores da escadaria só se retiraram quando a polícia lançou sobre eles gás lacrimogêneo.
Quem ainda é católico?
Preocupado em se justificar perante "os que estranham seja a igreja usada para esse tipo de manifestação", D. Mauro Morelli insistiu duas vezes: "Estou com a consciência tranquila, acho que fizemos bem em ceder a catedral para esta manifestação; o povo me pediu e eu cedi". E repetiu: "Estou com a consciência tranquila, não tenho remorso" ("Folha de São Paulo", 28/8/78).
O Bispo Auxiliar de São Paulo parece ter sentido o impacto negativo produzido pelo acobertamento que deu àquele tipo de manifestação. E à falta de melhores argumentos para defender-se, resolveu testemunhar em causa própria.
No espírito público, porém, já se levanta uma interrogação com a qual os organizadores do "show" do "Custo de Vida" na catedral parece que não contavam: muitos se perguntam para onde nos conduzirão tais manifestações, onde Bispos e comunistas, embora representando papéis distintos, atuam juntos e caminham para o mesmo fim.
De outro lado, a partir do momento em que igrejas servem de abrigo a subversivos e catedrais de proteção para manifestações de tal jaez, não se tornaram elas templos profanados? E os Bispos e Padres que promovem ou protegem esse novo tipo de culto são ainda católicos? Com o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira perguntamos: "Quem ainda é católico na Igreja Católica?" ("Folha de São Paulo", 5/1/75).
Cabe aos teólogos e canonistas responderem. Aos fiéis, porém, é impossível não perguntar.
Muitos participantes do "Movimento do Custo de Vida" não pareciam estar num recinto sagrado: uns sentaram-se desinibidamente no chão, outros fumavam como se estivessem na rua.
No interior da catedral de São Paulo, o tom dos discursos era de comício esquerdista. A flecha aponta D. Mauro Morelli, Bispo Auxiliar da Arquidiocese.