Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 232 | página 06-07

SÉRIE DE ARTIFÍCIOS

(continuação)

aceitai receber a Sagrada Eucaristia na mão". Sem explicação alguma e bem acentuado tipograficamente pelos autores (em negrito), este conselho poderia parecer essencial para defender a fé na presença real. Baseando-se em que princípio o afirmam? Que a Igreja deixe liberdade para comungar deste modo ou da maneira tradicional, é uma coisa; mas com que autoridade e com que justificativa se insinua a condenação de um modo praticado durante séculos na Igreja e que agora a Sé Apostólica concede como lícito, por razoáveis motivos pastorais, a todos os que solicitarem?" (p. 941).

Mais um sofisma. Ao lê-lo, seríamos levados a crer que a Igreja nada tem a opor à comunhão na mão. Seria mera questão de costume, que razões pastorais deveriam regulamentar. Ora, não é isto que contêm os Documentos pontifícios mais recentes. De uma consulta feita pela Santa Sé sobre a matéria, resultou que a maioria dos Bispos de todo o mundo se pronunciou contrária a essa maneira de comungar, o que levou Roma a não modificar a praxe tradicional. Além disso, no mesmo Documento em que concede para algumas Dioceses a faculdade de permitir a comunhão na mão (ao lado do modo tradicional), a Santa Sé declara que se trata de um abuso, cuja generalização levou-a a esta tolerância. De tudo, pois, se deduz que, os autores do "Vade-mécum do Católico Fiel" têm toda a razão quando desaconselham a comunhão na mão. Temos nisto um exemplo típico do "sentire cum Ecclesia".

• 3.° EXEMPLO. - Mais adiante o Pe. Caprile censura outro trecho apócrifo do "Vade-mécum": "Lemos contudo [no "Vade-mécum"], a respeito de decretos conciliares, uma afirmação que nos deixa estupefatos: "É preciso recordar que o sacrossanto e infalível Concílio de Trento, cujos decretos de forma alguma estão ab-rogados, nem poderiam ser, declarou...", etc. Assim tal como soa, a afirmação não resiste: os decretos e definições doutrinais são irreformáveis, mas não os disciplinares. Portanto, poderia ser plenamente legítimo, por parte de quem tem autoridade para tal, prescrever uma coisa, no campo disciplinar, contrária ao que prescrevia o Tridentino" (p. 941).

Basta transcrever o texto verdadeiro, para desfazer a estupefação do Pe. Caprile, e justificar a nossa diante da deficiente cautela do colaborador da "Civiltà Cattolica": "Enfim, é preciso lembrar que o sagrado Concílio de Trento, cujos decretos continuam em vigor, declarou [...]" (p. 7).

Além disso, as palavras do Pe. Caprile, como as reproduz a REB, dão a entender que a parte disciplinar pode ser transformada ao talante de quem goza de autoridade. Não julgou assim João XXIII a disciplina, por exemplo, do celibato (cf. "Diálogo com Gilson", reproduzido em "Courrier de Rome"). A razão é que a disciplina deve-se ajustar ao Dogma, de tal forma que ela não possui uma elasticidade ilimitada.

• 4.° EXEMPLO. - Continua o Pe. Caprile: "Outra flor, habilmente camuflada: "Se no decurso de uma Missa ou de um ofício religioso, mesmo liturgicamente digno, os fiéis são chocados e escandalizados por proposições inadmissíveis ou ímpias no sermão, têm o dever de deixar ostensivamente a Igreja e protestar depois. É melhor faltar à Missa, ainda que fosse a da Páscoa, do que fazer-se cúmplice da desonra a Deus" (p. 11). Poderíamos concordar com tamanho zelo pela honra divina, sempre que da boca do sacerdote saíssem proposições manifestamente ímpias. Mas é o outro adjetivo, em forma disjuntiva, que desperta perplexidade: "proposições inadmissíveis". É fácil ver quanto subjetivismo é fomentado com este conselho: nada existe, na pregação, que não possa parecer inadmissível a alguém ou a algum grupo" (p. 941).

Aqui mais uma vez é preciso transcrever o texto autêntico do "Vade-mécum", em oposição à versão veiculada pela REB: "Se no curso de uma Missa ou de um ofício religioso, os fiéis se sentirem chocados por afirmações inadmissíveis, revolucionárias ou ímpias, ou por músicas inconvenientes ou blasfematórias para o lugar santo, eles terão o dever de protestar ou de retirar-se ostensivamente. Mais vale perder a Missa, mesmo no Dia de Páscoa, do que acumpliciar-se com o que ofende a honra de Deus" (p. 10).

O que dizer da interpretação segundo a qual a palavra "inadmissível" envolve uma atitude subjetiva? Inadmissível — qualquer dicionário da língua portuguesa ou italiana o diz — é aquilo que não se pode admitir, que ninguém pode admitir!

Por outro lado, há um sofisma em afirmar, ou pelo menos insinuar, que o fiel não pode fazer um juízo sobre estes fatos para saber como agir corretamente, porque fazê-lo seria subjetivismo. É evidente que os princípios morais são objetivos, e como seriam eles praticados se não houvesse um juízo pessoal em relação aos fatos, da parte daqueles que os praticam?

Mais adiante o Pe. Caprile irá insistir sobre o "subjetivismo" dos conselhos do "Vade-mécum do Católico Fiel". E, no entanto, ele confessa, ao mesmo tempo, que "não há dúvida alguma que possam existir, em certos lugares, tais inconvenientes [de que fala o "Vade-mécum"] (p. 942). Perguntamos nós, como saberá o fiel que em certos lugares há erros, que o Pe. Giovanni Caprile admite existirem, e em outros não os há, se ele mesmo não souber fazer uma análise e um juízo perfeito? Como poderá o fiel distinguir os bons inovadores dos maus? Será preciso seguir tolamente a todos? Este será o "laicato adulto" de que tanto falam os progressistas?

"Está penetrado de espírito diametralmente oposto à caridade"

A terceira crítica é esta: "o espírito, que de alto a baixo penetra esse escrito, é diametralmente oposto ao amor e caridade que no entanto — sem dúvida com as melhores intenções — os seus autores exortam a praticar e difundir" (p. 942).

O Revmo. Padre baseia esta crítica em dois pontos:

• 1 — O "Vade-mécum" estaria procurando insuflar nos fiéis certo "espírito de casta, certa auto-suficiência, certo desprezo pela massa", etc., etc., espírito este "latente", segundo S. Revma., em atribuir aos que seguem ou vierem a seguir o "Vade-mécum" as qualificações de "filhos piedosos, amantíssimos, inabaláveis, heroicos" da Igreja, "consciências imutavelmente cristãs", "fiéis à verdadeira religião", etc. (REB p. 942). A objeção parece-nos ridícula. Com efeito, se as verdades são objetivas, se existe, por isto, uma ortodoxia católica bem definida em seus pontos fundamentais, se esta ortodoxia corresponde ao autêntico espírito da Igreja, e se a Igreja é a única verdadeira, deve haver uma realidade que corresponda a tais expressões. Haverá sempre os que são fiéis e os que não são fiéis à ortodoxia católica. Mas isto não é regime de castas, pois está ao alcance de qualquer um, ajudado pela graça que nunca falta, ser "filho piedoso, amantíssimo, inabalável", da Igreja. Exortando os fiéis a serem tais, os autores não merecem crítica, mas louvor. Apenas uma interpretação tendenciosa e unilateral poderá ver nessas expressões as atitudes censuráveis do fariseu, como o faz o Pe. Giovanni Caprile.

• 2 — Seria igualmente contrário ao amor à caridade o conselho insistente de "traduzir tais atitudes em norma de vida" (REB — p. 942). E aí vem a relação de tudo o que o "Vade-mécum do Católico Fiel" sugere, na ordem das atitudes práticas.

Se os princípios do opúsculo estão corretos e correspondem à ortodoxia católica, não há motivo para censurar que eles se traduzam em norma de vida. Pelo contrário, o "Vade-mécum" seria falho se não tratasse deste ponto.

Quanto à acusação de subjetivismo, levantada logo em seguida, a propósito do juízo pessoal que os fiéis deverão fazer ao pôr em prática essas normas, já a refutamos acima. No referente à afirmação do Pe. Caprile de que o "Vade-mécum" introduz no "pleno reinado do juízo subjetivo", que, "muito habilmente, se arvora em juiz até mesmo dos documentos eclesiásticos", não passa ela de mais um dos sofismas de que, como vimos, seu artigo está repleto. Os autores do "Vade-mécum" o que fazem é colocar a ortodoxia católica, baseada no Magistério infalível da Igreja — algo, portanto, de objetivo — como critério de interpretação destes documentos. Nem se percebe porque deveria ser de outra forma.

* * *

Pelos comentários acima, vemos como o artigo do Pe. Giovanni Caprile, S. J., não passa de uma série de artifícios para desacreditar o "Vade-mécum do Católico Fiel". Confessamos que essa maneira de agir causou-nos surpresa, tratando-se de um colaborador da "Civiltà Cattolica", órgão da milícia inaciana o qual tanto se distinguiu na defesa da Fé contra as investidas das heresias. Lamentamos semelhante maneira desleal de proceder, que nada esclarece em meio ao caos de que fala Paulo VI, e que S. Revma. se recusa a ver. Por isto mesmo, não presta esse artigo auxílio às almas desarvoradas na tormenta de nossos dias, e — o que é mais grave — ainda se empenha em dificultar a ação daqueles que, como os beneméritos Sacerdotes franceses autores do "Vade-mécum", com zelo e perspicácia procuram edificar as almas.


RELENDO TEXTOS ESQUECIDOS

Atanasio Aubertin

• "Há quem é como rico não tendo nada e quem é como pobre tendo riquezas". — PROVÉRBIOS 13, 7.

• "Bem-aventurados os pobres EM espírito, pois a eles pertence o Reino dos Céus". — SÃO MATEUS 5, 3.

A pobreza sobrenatural não é propriamente não possuir riquezas, mas é sobretudo um estado de espírito: o desapego das coisas da terra alimentado pelo dom do Espírito Santo, do temor de Deus. O espírito de pobreza é um estado sobrenatural, dom de Deus, por isso é chamado de bem-aventurança por Nosso Senhor Jesus Cristo. Nada tem isso a ver com a demagógica filosofia da miséria, dos socialistas e demo-cristãos, que negam ou veem com maus olhos a propriedade privada, como se o possuir fosse um pecado. A pobreza sobrenatural é um estado de espírito, dom de Deus, que pode subsistir tanto numa pessoa sem posses como em outra, com muitas riquezas.

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A miséria pode ser também castigo para o homem pelos seus pecados:

• “O Senhor não afligirá a alma do justo com a fome”. — PROVÉRBIOS 10, 3.

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O desentendimento entre os homens não é só uma questão de erro, de equívoco, de esquecimento, de desequilíbrio psíquico, etc., como quer a concepção tão em voga, que acena para tratados, acordos e diálogos como meios infalíveis que, de modo mágico, resolvem todas as oposições e contradições doutrinárias e de modos de vida. Pois, diz a Sagrada Escritura:

• "Os insensatos odeiam aqueles que fogem do mal". — PROVÉRBIOS 13, 19.

• "Aquele que segue o caminho reto e teme a Deus, é desprezado por aquele que segue por um caminho informe". — PROVÉRBIOS 14, 2.

O justo é um espelho vivo que reflete o brilho da sabedoria e justiça de Deus. Ora, o ímpio não reflete esse brilho, que tinha obrigação de refletir porque todo homem é chamado a ser santo. Daí o incômodo do ímpio em ver no justo aquilo que ele mesmo deveria ter. E esse incômodo gera inveja, e a inveja, ódio. Assim foi com Caim, que não tolerou ver a amizade de Deus com Abel, e a não aceitação de suas oferendas por parte do Altíssimo.

E se o ímpio não possui o brilho da justiça, é porque a repudiou, é porque odiou a lei de Deus. O ódio do ímpio ao justo é o ódio a Deus, que ele vê refletido no justo. É portanto atitude néscia o pensar-se numa colaboração entre católicos e comunistas, pois estes negam a totalidade dos Mandamentos de Deus, e por conseguinte odeiam toda alma católica, que como tal é espelho dos Mandamentos que eles repelem. Pio XI, de saudosa memória, diz na "Divini Redemptoris" que é impossível qualquer colaboração entre católicos e marxistas.


A MÁQUINA IDEOLÓGICA QUE SABE DISFARÇAR-SE

Luiz Sérgio Solimeo

É próprio a uma visão liberal e otimista das coisas, a ideia de que o homem hodierno — concebido sem pecado original e remido, pela ciência, de todas as antigas deficiências e debilidades — guia-se em sua vida segundo dados inteiramente objetivos, colhidos através da observação lúcida dos fatos, considerados em si mesmos, independente de critérios ideológicos, morais, e outros igualmente "subjetivos".

É justamente esta concepção primária, infelizmente tão generalizada pelo menos subconscientemente, que o Sr. VICTOR MANUEL SÁNCHEZ STEINPREIS procura desfazer em seu esplêndido trabalho sobre "LA IDEOLOGÍA POLÍTICA EN LA INFORMACIÓN INTERNACIONAL / La noticia, según el "matiz" y la "intención" de las agencias mundiales de prensa" (México, DF, 1969), apresentado como tese para a licenciatura em jornalismo na Faculdade Nacional de Ciências Políticas e Sociais, da Universidade Nacional Autônoma do México.

Mostra o Autor, baseado em sua experiência de vários anos como chefe da secção de telegramas internacionais de um grande jornal mexicano, que a "máquina da difusão mundial dos acontecimentos humanos" é movida por "fios ideológicos" (p. 13).

Com efeito, todo fato humano recebe por parte daquele que o observa (o repórter), prepara, transmite e publica em forma de notícia (agências e jornais), "uma carga de avaliação subjetiva sobre a bondade ou maldade do mesmo, sobre sua conveniência ou inconveniência. Não há, não pode haver notícias frias, escuetas, "objetivas". Pelo contrário, todo fato social desperta simpatia ou repulsa, aplauso ou censura, felicidade ou pena, alegria ou vergonha" (pp. 43-44). Isto sem considerar que as agências noticiosas são fundadas por homens que as fundam com uma finalidade, que têm relações com grupos políticos e ideológicos, muitas vezes com este ou aquele governo, que sustentam determinados princípios éticos e filosóficos. Diz muito bem o Autor que "infelizmente a vida do homem em sociedade se vê distorcida e muitas vezes falseada malevolamente pelos gigantescos meios de comunicação internacional, os quais montaram uma bem disfarçada máquina ideológica que permite manipular as mentes e vontades dos milhões de leitores do mundo, para orientar uma irracional aceitação ou rejeição de personagens, grupos. ideologias, governos, costumes ou movimentos políticos, econômicos, religiosos, raciais, etc." (p. 14).

Como exemplo da atuação desta "máquina ideológica disfarçada", o Sr. Victor Manuel Sánchez Steinpreis faz uma interessante análise dos telegramas fornecidos no dia 24 de maio de 1968 por várias agências noticiosas, sobre os acontecimentos que então agitavam Paris, e mostra como, por um jogo de omissões e adjetivação, os fatos são ali apresentados de modo a "justificar ou "explicar" a investida subversiva contra um Estado legalmente constituído" (p. 41).

Nenhuma das agências em questão dá a entender qual seja a ideologia dos baderneiros. Apenas dizem que "manifestantes", ou "jovens e não jovens", "estudantes", etc., revoltaram-se contra a medida de que fora objeto seu líder Cohn-Bendit, impedido de retomar à França pelo governo. Entre eles havia também "operários" e "elementos estranhos à classe estudantil". Ao descrever, por outro lado, as cenas de rua, acentuam os telegramas a violência da polícia, que chegou a atingir com bombas lacrimogêneas enfermeiros da Cruz Vermelha. Deixam de precisar que a polícia teve que intervir com violência devido à extrema agressividade dos agitadores, que dominaram de tal medo a rua que chegaram a erguer barricadas enormes. Como muito bem mostra o Autor, analisando-se a fundo a narração dos fatos, percebe-se que essas agências encobrem tratar-se de uma verdadeira ação de guerrilha urbana, organizada e levada a efeito por agitadores muito bem treinados, que seguiram uma estratégia muito bem preparada.

"Segundo os relatos das agências, tal como os analisei — conclui o Sr. Sánchez Steinpreis — os manifestantes foram atacados, não atacaram. A causa de seu descontentamento traduzido em violência foi a medida tomada contra um de seus líderes. O leitor fica com a impressão de que certa brutalidade exercida pela polícia foi a causa de que o furor dos "manifestantes" se tenha mostrado mais violento à medida que se prolongavam os distúrbios.

É aqui que se aprecia o conteúdo maior ou menor do "matiz" de avaliação pessoal [valorativo] que as agências noticiosas, as quais são manejadas por homens, introduzem em suas notas, inclinando-se para um ou outro lado dos atores de um conflito social, como o que nos ocupou nesta análise. Isso se pode apreciar ainda melhor quando as crises são políticas ou religiosas. As três agências, mais ou menos, deixam a impressão de que os "manifestantes" só promoveram desordens que não tinham um propósito definido contra o governo gaullista. Só protestaram contra o afastamento de seu líder Daniel Cohn-Bendit, mas seu descontentamento foi causado pela feroz violência que sofreram da parte das forças da ordem" (p. 58).

Considera ainda esse lúcido estudo o verdadeiro papel do jornalista, e sobretudo do jornalista católico, de servir inteiramente a verdade, tomando, ao descrever os fatos — sem nunca deturpá-los — posição a favor do bem, e ressaltando a maldade das ações que a este se contrapõem. Citando amplamente os textos pontifícios que se ocupam do assunto, mostra o Autor que a verdadeira opinião pública não é a massa cega guiada sorrateiramente por organismos que, a pretexto de "objetividade", lhe oferecem um noticiário falseado e despojado de todo conteúdo moral. Ela há de ser instruída, formada, guiada por uma imprensa que compreenda que seu papel é o de "aplicar corretamente as ideias à situação concreta de determinado momento histórico" (p. 120).


CALICEM DOMINI BIBERUNT

O P. Virginio funda a "Amicizia" em Paris

Fernando Furquim de Almeida

Nestes artigos, desejamos expor a história das Amicizie na Itália. No entanto, tratandose de um mesmo movimento, inspirado pelas ideias do Padre Diessbach, é necessário, pelo menos resumidamente, conhecermos as atividades das congêneres de outros países, pois, como é natural, tais atividades tiveram repercussões na vida das Amicizie italianas.

Vimos que o Padre Diessbach, obrigado a viajar constantemente, chamara de Turim o Padre Virginio, a fim de que este o substituísse em Viena quando ele estivesse ausente. O sodalício vienense progredira rapidamente, a ponto de permitir ao seu fundador a realização de um de seus mais caros projetos: a formação de uma escola de escritores católicos. Sem a preocupação das dificuldades materiais, os intelectuais ali reunidos podiam entregarse ao estudo, à meditação e a escrever artigos e livros que divulgassem o genuíno pensamento católico, combatendo do modo mais eficaz os erros revolucionários que se alastravam rapidamente nesses anos que precederam imediatamente a Revolução Francesa. Para avaliarmos o êxito que teve a iniciativa, basta lembrar que São Clemente Maria Hofbauer foi formado nessa escola, e só saiu para entrar nos Redentoristas. Mais tarde voltou para Viena e foi um dos esteios da renovação católica da Áustria nos primeiros anos do século XIX.

Em 1785, vendo as Amicizie se multiplicarem, o Padre Diessbach julgou oportuno dar início à fundação da sociedade em Paris. De acordo com seus planos, essa Amicizia deveria ser o modelo e o centro propulsor de todas as outras e estar dotada de todos os recursos necessários para cumprir essa missão. Ninguém melhor do que o Padre Virginio poderia executar o projeto. Já dera provas de seus dotes de bom observador nas cidades que visitara como "missionário", e em Milão revelara sua capacidade de organização criando a Amicizia dessa cidade. Apesar da falta que faria em Viena, foi ele o encarregado de ir a Paris.

* * *

Essa viagem, dada a amplitude do projeto, não seria breve como as outras. O Padre Virginio precisava não só estudar o ambiente, como criar condições para a fundação e orientá-la pelo menos em seus primeiros anos de existência. Impunha-se que ele deixasse um ou mais substitutos na Amicizia de Viena, e para isso o Padre Diessbach chamou de Turim o Padre Sineo de la Torre e o Padre Pietro Rigoletti.

A saída desses dois membros não prejudicou o desenvolvimento da Amicizia de Turim, o que prova a sua pujança já nessa época. A falta de documentos não permite reconstruir de modo completo as atividades do sodalício nesse período de sua história, mas sabese que ele aumentou consideravelmente sua biblioteca, organizou catálogos de livros escolhidos, e, embora faltasse ali uma casa de escritores como a de Viena, em suas reuniões se decidiu editar uma coleção de livros expondo as questões de doutrina católica então mais controvertidas. Vários desses livros foram publicados, antes das vicissitudes que assolaram o Piemonte durante a Revolução Francesa e o Império de Napoleão, as quais truncaram a realização dos planos da Amicizia de Turim, impedindo que se completasse a coleção projetada e que viesse a lume o boletim bibliográfico que o Padre Lanteri pensara lançar, onde a crítica dos livros orientaria os assinantes na escolha da boa leitura.

* * *

Não queremos terminar o artigo de hoje sem expor rapidamente o trabalho do Padre Virginio em Paris. Seguiremos o breve relato por ele deixado, e que foi inserido pelo Pe. Candido Bona no seu livro sobre as Amicizie ("Le Amicizie — Società segrete e rinascita religiosa" Deputazione Sub-alpina di Storia Patria, Torino).

Ao chegar a Paris, hospedouo a comunidade de Saint Nicolas de Chardonnet, fundada por Adrien Amboise, cuja obra pela santificação do clero foi elogiada por seu amigo São Vicente de Paulo. Nessa comunidade florescia, desde o século XVII, uma Aa eficiente, e não é temerário supor que os seus membros, avisados da chegada do Padre Virginio, lhe tivessem oferecido hospedagem para o ajudarem na instalação da Amicizia em Paris.

Na mesma casa se achava então o Padre Joseph Picot de la Clorivière, exjesuíta (a Companhia estava extinta) e muito relacionado nos meios contrarevolucionários franceses. Pensava também na formação de uma obra semelhante à que ia fundar o Padre Virginio. Passaram ambos a trabalhar de comum acordo, e as duas obras de tal modo se confundiram, que não se pode hoje distinguir uma da outra. Depois da Revolução Francesa, a Amicizia desapareceu, ao passo que a sociedade do Padre de la Clorivière prosperou e foi valente auxiliar da Contra-Revolução. Sob a tormenta revolucionária os dois amigos trabalharam juntos na clandestinidade, enfrentando grandes perigos e vendo muitos de seus colaboradores conquistarem a palma do martírio.

Descrevendo as dificuldades que teve de enfrentar nessa luta contra os brutais e intolerantes revolucionários que tomaram conta da França, o Padre Virginio, com a acuidade de observação que lhe era peculiar, registra o mal que faziam aos intrépidos defensores da Fé os católicos “prudentes”, partidários do ceder para não perder. Convém reproduzir esse trecho:

“Essa perseguição dos maus tornava mais viva uma outra espécie de perseguição que, apesar de ser por natureza menos assustadora, muitas vezes era mais penosa e nociva por suas consequências. Vinha ela de pessoas consideradas virtuosas e esclarecidas, frequentemente de conduta irrepreensível, e das quais não se podia, pelo menos junto a muitos, pôr em dúvida a retidão das intenções. Por preconceito, por falta de conhecimento exato da situação, por terem caráter fraco ou tíbio, ou por não terem o hábito de julgar as coisas à luz da fé, censuravam a todo momento os planos elaborados, mesmo quando concebidos pelo mais puro e mais prudente zelo, caso eles pudessem comprometer de algum modo os que deviam executálos ou viessem a desagradar os maus desejosos de dominar.

“Essas censuras, muitas vezes acompanhadas de mil reflexões inspiradas pelo terror, introduziam mas almas fracas os germes da desconfiança, da incerteza e mesmo do desencorajamento. Para prevenir esses perigos, ou para remediálos, éramos obrigados a ter cautela, a nos resignarmos a adotar providências que tomavam muito tempo e retardavam consideravelmente as boas iniciativas. Depois de todas essas precauções, víamos com tristeza que as censuras indiscretas desses políticos tímidos conduziam ao malogro os mais úteis empreendimentos e desviavam muitas almas que, dominadas pelo terror, que confundiam com a prudência cristã, abandonavam o caminho que tinham escolhido. Poucas foram as obras de zelo e caridade, promovidas pelos Amigoscristãos, que não tiveram de enfrentar essas dificuldades e de se expor, por isso, à perseguição dos ímpios” (op. cit., p. 535).

* * *

O Padre Virginio permaneceu na França até 1801, escondido durante a Revolução e lutando sempre ao lado de seus amigos contrarevolucionários. Viu a Amicizia parisiense ser destruída, vários de seus membros serem vítimas de perseguição, e a França imergir no mar de sangue do Terror. Só quando o perigo começou a passar, ele voltou para Viena, retomando a direção da Amicizia dessa cidade.


NOVA ET VETERA

Não se mata a serpente pisando-lhe a cauda

J. de Azeredo Santos

Entre as forças de vanguarda empenhadas no processo revolucionário, ocupam lugar de destaque aquelas que atuam no setor artístico.

O fenômeno se registra há vários séculos, tendo origem na Renascença. Adquiriu maior nitidez no século XVIII, quando as chamadas "sociedades de pensamento", cooperadoras subterrâneas da subversão religiosa, política e social que vem solapando o Ocidente, proliferavam em vários ambientes, fazendo sentir sua influência sobretudo nos meios literários e artísticos.

Os mentores da Revolução tendencial sabem explorar habilmente a interação entre a arte e a vida, a ponto de em determinados casos se tornar difícil verificar se é o ambiente que influi na obra de arte ou se é esta que transforma os costumes. Exemplifiquemos com o movimento pré-romântico. Pode-se dizer que Werther, o personagem de Goethe, com a onda de suicídios que despertou, se confunde com os jovens da vida real daquela época doentia. O mesmo podemos afirmar do romantismo que, segundo Victor Hugo, não passava de liberalismo na literatura. E, mais recentemente, vindo até nossos dias, como ignorar o papel desempenhado pela chamada arte moderna na vanguarda do totalitarismo de direita e de esquerda, como instrumento revolucionário insubstituível na demolição das bases religiosas e morais nas quais se assenta aquilo que ainda resta da Cristandade?

Devemos distinguir, em todas as fases do processo revolucionário, dois grupos principais: 1 — o daqueles que são os verdadeiros iniciados, nas metas revolucionárias, que detêm em suas mãos a iniciativa e a liderança do movimento; 2 — o grupo, sempre mais numeroso, dos que acompanham esses cabeças de fila, movidos o mais das vezes por um espírito de emulação, por não quererem passar por reacionários ou fora de moda. Diria Dom Helder Câmara que esses tais têm receio de perder o trem da História, muito embora ignorem para onde serão levados.

Não escapando à regra, o atual movimento dos "hippies" e contestantes é passível da mesma classificação. Ao lado de hordas de inconscientes fanatizados que não vão além da falta de asseio, da imoralidade e da desordem, podemos entrever os verdadeiros iniciados, os adeptos do hippismo "negro", aqueles que compreendem a atual fase do processo revolucionário e se propõem fazer saltar por meios peculiares que eles bem conhecem as últimas pedras de embasamento da estrutura social dita alienada (há também os que recebem recados ou são bons observadores, e falam como se fossem de dentro).

O teatro é um dos mais poderosos meios de expressão e de canalização dessa atitude de revolta dos que sabem o que estão fazendo. Sob o título de "Sem dogma, nu, erótico, vital e místico", o crítico teatral Decio de Almeida Prado nos dá na revista "Visão", número de 14 de fevereiro do corrente ano, o seguinte retrato dos vanguardistas da ribalta, num prognóstico do que está para acontecer na década que agora se inicia:

"Olhei fixamente a minha bola de cristal, mas ela se negou a projetar a não ser o presente.

"Vi, na França e nos Estados Unidos, países miríficos que costumam prenunciar o nosso futuro com dois ou três anos de antecedência, jovens renunciando às salas outrora veneráveis dos teatros, para representar nas ruas, em praças públicas, em barracões, em garages, em velhos recintos abandonados. Não são propriamente atores, não encenam propriamente peças. Amam a pobreza como experiência moral, como meio de expressão artística e como repúdio à vida contemporânea. Buscam a comunhão, o êxtase coletivo, através da sexualidade, da revelação do corpo, do desvario dos sentidos, do desafio moral, da blasfêmia religiosa. É o teatro que tenta desesperadamente voltar às origens, reinventando para uso moderno a sagrada orgia dionisíaca.

"No Brasil, vi alguns atores de vinte e poucos anos conciliando, na medida do possível, o realismo com a explosão lírica, o depoimento psicológico com a libertação anárquica. As mulheres entram em cena, felizes por poder dizer palavrões. Escrever torna-se um ato de confissão executado em público, um incitamento a uma vida plena, furiosa, selvagem. A revolta, estado de espírito individual, substitui as preocupações sociais da revolução política".

Passando a "vaticinar para a década de 70", e depois de citar os "ídolos mortos e enterrados", tais como Sartre, Arthur Miller, Tennessee Williams, e "forças em declínio", como Brecht, Ionesco, "a distinção entre ator e espectador, entre palco e plateia", o racionalismo, "o teatro concebido como literatura", termina o comentarista: "Forças em ascensão: Antonin Artaud; a nudez considerada como desnudamento total da personalidade; o erotismo e a perversão do sexo; as formas teatrais não-ortodoxas; a mímica corporal; a improvisação; a conspurcação dos dogmas; o teatro entendido como espetáculo; os valores vitais, românticos; o misticismo difuso, não consubstanciado em doutrinas fechadas. Enorme consumo, por parte da crítica, nos próximos anos das palavras-chaves: cerimônia, sagrado, ritual, participação, exorcismo. Profeta teatral da década: Grotowski".

Extrapolemos esse quadro, digno de um Kafka, para o campo religioso: mutatis mutandis, não podemos dizer o mesmo com referência à confusão visada pelos mentores supremos do progressismo, e promovida por meio dos novos reformadores, mestres consumados na arte de perverter o povo de Deus (lembremo-nos de obras como o "Novo Catecismo" holandês), junto aos quais Lutero, Zwinglio e Calvino aparecem como canhestros e vacilantes aprendizes? Que fazem esses profetas do ateísmo e heresiarcas da era atômica senão espalhar o caos através da negação das bases em que se esteiam o Dogma e a Moral, para a construção de uma Igreja-Nova, desalienada, revolucionária, idealizada nos sombrios laboratórios a que, em seu tempo, já fazia alusão São Pio X?

Basta que atentemos para o que ocorre em torno de nós, em todos os setores da luta revolucionária, para nos capacitarmos de como se acha em desenvolvimento o plano tenebroso articulado pelo IDOC e pelos "grupos proféticos", em boa hora denunciados por "Catolicismo" em seu memorável número de abril-maio de 1969. Só através da revelação do que está sendo tramado nos bastidores, é que poderão ser aglutinadas as forças necessárias para a resistência, pois do contrário estaríamos em face de uma luta desigual entre cegos e videntes, e a pisar na cauda da serpente, em vez de esmagar lhe a cabeça, como convém.