Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 232 | página 02-03

O Concílio-Pastoral holandês

Gustavo Antonio Solimeo

Cardeal Alfrink: "Tudo isso pode parecer uma aventura um pouco arriscada..."

A imprensa mundial — religiosa e leiga — dedicou recentemente extensas colunas à estranha atitude assumida pelos Bispos da Holanda em face da lei do celibato sacerdotal na Igreja Latina.

Essa tomada de posição não é um fato isolado, mas se insere na linha das deliberações do chamado concílio pastoral holandês, também conhecido por concílio de Noordwijkerhout, do nome da cidade em cujo Seminário menor se realizam suas sessões. A imprensa diária não deu o devido destaque a outras proposições chocantes do referido organismo, como, por exemplo, a da ordenação de mulheres, e aos graves erros doutrinários contidos em esquemas debatidos em suas reuniões. Mas, a nosso ver, não menos chocante é a existência e a estrutura mesma dessa assembleia. É o que procuraremos mostrar no presente artigo, no qual não nos ocuparemos do aspecto doutrinário, que merece uma análise mais detida.

Adiantamos desde logo que o IDOC não está alheio à organização do concílio-pastoral, e que não há exagero em afirmar-se que o seu funcionamento apresenta não poucas analogias com o que esta folha relatou a respeito dos "grupos proféticos", em seu número 220-221, de abril-maio de 1969.

Quem teve a ideia

Segundo "Informations Catholiques Internationales", a ideia de criar esse organismo "surgiu no espírito dos Bispos holandeses" durante a última sessão do II Concílio Vaticano: "No élan da experiência que acabavam de viver, impacientes de compartilhá-la com todos os seus fiéis, deram eles a conhecer, tão logo regressaram aos Países-Baixos, a intenção de organizar" o que veio a ser o concílio-pastoral (I. C. I., n.° 276, pp. 13-14).

Na realidade, a ideia partiu do PINK Pastoraal Instituut voor de Nederlandse Kerkprovincie (Instituto Pastoral da Província Eclesiástica Holandesa), que organizou o concílio e lhe imprimiu seu espírito (Pe. J. P. M. Van der Ploeg, O. P., "Evolution et crise du Catholicisme aux Pays-Bas", in "La Pensée Catholique", n.° 122, p. 77).

O diretor do PINK, Pe. Walter Goddijn, O. F. M., apontado por "Approaches" como membro do IDOC na Holanda ("Catolicismo", n.° 220-221, p. 17), é o principal artífice do concílio-pastoral e, ao mesmo tempo, seu secretário-geral (André Laforge, "CICES Bulletin du Cercle d'Information Civique et Sociale", 30 de junho de 1969).

Escreve o Pe. Van der Ploeg (art. cit., p. 77) que "é claro que o "concílio" é um instrumento pelo qual o PINK quer fazer penetrar suas ideias e mudar radicalmente a fisionomia e o corpo da Igreja Católica dos Países-Baixos". O que resulta praticamente em dizer que se trata de um instrumento pelo qual o IDOC quer fazer penetrar suas ideias e mudar radicalmente a fisionomia e o corpo da Igreja Católica na Holanda. E isto se demonstra não só pela participação preponderante do Pe. W. Goddijn na organização da assembleia e na direção dos seus trabalhos, e pela atuação nela de outras figuras ligadas, desta ou daquela maneira, ao IDOC (Pe. Schillebeeckx, O. P., L. Baas, etc.), como também pela cobertura que este emprestou ao concílio através de sua imensa máquina publicitária, e ainda pelo fato de que ali as pesquisas de opinião, os levantamentos estatísticos e coisas do gênero foram confiadas a entidades notoriamente vinculadas ao IDOC, como é o caso do KASKI (Instituto Sócio eclesiástico Católico).

Estatuto jurídico indefinido

A primeira dificuldade com que se depararam os promotores do concílio-pastoral foi o nome mesmo que lhe haveriam de dar. De início os Bispos Holandeses anunciaram um "Concílio Provincial", mas, "tendo os especialistas feito notar que o direito canônico reserva o termo [...] às reuniões de Bispos e Provinciais de Ordens, modificou-se o nome do futuro encontro para "concílio-pastoral" (I. C. I., n.° 276, p. 14). A esse propósito observa André Laforge no já citado número do boletim "CICES" que "o Episcopado procurou substituir o termo impróprio de "concílio" (que teria exigido uma prévia profissão de fé, evidentemente impossível de ser obter) pelo de "conselho", que é o que ele é na realidade", mas o nome de "concílio" acabou prevalecendo (p. 5). Na realidade, muitos dos participantes não poderiam fazer tal profissão de fé católica sem perjúrio, confirma o Pe. Van der Ploeg (art. cit., p. 77).

A Comissão Central do concílio-pastoral — na qual o Emmo. Cardeal Alfrink e o falecido Bispo de Breda, Mons. de Vet, representavam o Episcopado — foi a primeira a reconhecer que o estatuto jurídico dessa empresa sem precedentes na história da Igreja, era um tanto incerto (I. C. I., n.° 276, p. 14).

Essa mesma Comissão indicava que o organismo deveria ter, em suas linhas gerais, um caráter flexível, e que suas diretrizes, mesmo não passando pelos canais jurídicos das instâncias romanas, teriam, em todo caso, o valor de uma tomada de posição nítida, a respeito da qual, se esperaria uma não menos nítida resposta de Roma. A Comissão Central não excluía, contudo, que ao "concílio-pastoral" se seguisse um verdadeiro Concílio Provincial, o qual estaria capacitado, dentro da legislação vigente, a dar forma canônica às decisões do primeiro (ibid.).

Parece que não interessava a seus organizadores que o "concílio de Noordwijkerhout" viesse a ter um estatuto jurídico bem definido. O que é muito conforme ao estilo dos "grupos proféticos", cujo horror pelo "juridicismo" é sobejamente conhecido.

Organização e estrutura

Assim como seu estatuto jurídico não ficou inteiramente delineado, também a organização e estrutura do concílio-pastoral não têm um caráter rígido e definitivo, mas está em constante evolução e adaptação, segundo as necessidades estratégicas ou as vias "proféticas" pelas quais deva ele enveredar.

O Episcopado Holandês assumiu desde logo e por inteiro a responsabilidade pela realização da assembleia e confiou sua organização a um grupo de quarenta "peritos", entre os quais se encontravam donas de casa, industriais, marinheiros, sociólogos, psicólogos, teólogos, etc., sob a orientação do PINK e de seu diretor, o Franciscano Goddijn, o qual já vimos estar ligado ao IDOC juntamente com vários de seus colaboradores mais diretos (o Pe. Schillebeeckx, Baas, e a equipe do KASKI, por exemplo).

Segundo um dos elementos principais desse grupo de organizadores, o Prof. J. A. Tans, procurou-se inicialmente tomar por modelo o II Concílio Vaticano. Mais algumas dezenas de "peritos" foram convidados a constituir comissões encarregadas de elaborar os esquemas a serem debatidos. À Comissão Central competia determinar se os esquemas assim elaborados estavam em condições de entrar em discussão pública, ou se necessitavam de emendas. Essa comissão — na qual tinham assento, como dissemos, dois Bispos — servia ainda de elo de ligação entre os vários organismos conciliares e o Episcopado ("Le concile pastoral", in "Les catholiques hollandais", Desclée De Brouwer, p. 70; I. C. I., n.° 276, p. 14).

A verdadeira mola propulsora do concílio, ou, para usar a expressão de I. C. I., sua "cheville ouvrière", era o Conselho Conciliar, cujos sete membros eram recrutados rotativamente entre os quarenta "peritos" designados pela Hierarquia para organizar o certame. Os membros desse conselho, com mandato de um ano, é que orientavam os debates. Os componentes do colégio de quarenta "peritos" que não estavam em seu turno no Conselho, gozavam do estatuto de "conselheiros conciliares" e tinham assento nas reuniões públicas ao lado da mesa diretora (isto é, da Comissão Central) e do Conselho Conciliar propriamente dito (I. C. I., n.° 276, p. 14).

Mais tarde, em março de 1967, o Cardeal Alfrink anunciou medidas tendentes a democratizar os organismos conciliares.

A assembleia plenária compreenderia, além do Conselho Conciliar, da Comissão Central, dos Bispos e dos "peritos", representantes do "povo de Deus" eleitos dentre o Clero, Religiosos e leigos de todas as Dioceses. A esta assembleia caberia aceitar ou rejeitar os projetos que a Comissão Central apresentaria na conformidade do deliberado nos "grupos de discussão" e comissões de estudos. Os projetos aprovados pela assembleia plenária deveriam ser homologados pelo Episcopado, se não fossem de alçada da Santa Sé. Se o fossem, a Comissão Central deveria apresentá-los a Roma para serem ratificados. Em caso de resposta negativa da Santa Sé, a Comissão Central se esforçaria "por fazer com que a resposta venha à província eclesiástica dos Países-Baixos acompanhada dos motivos da negação" (I. C. I., n.° 285, p. 12).

Mas o próprio Prof. Tans reconhece que os trabalhos se têm desenrolado de maneira bem diversa da prevista (obra cit., p. 70).

Atualmente, a assembleia plenária — sempre sob a presidência de um leigo — é o órgão supremo e decisivo do concílio. Fazem parte dela os oito Bispos da Holanda (os quais nunca presidem e, embora ocupem um lugar de destaque nas sessões, têm direito a voto como outro membro qualquer); uma delegação de três Sacerdotes e sete leigos de cada uma das sete Dioceses do país; uma delegação de dez representantes dos Religiosos e Religiosas; os cinco membros da Comissão Central; e mais quinze membros nomeados diretamente pelos Bispos (os componentes das delegações são eleitos). O total de membros com direito de voto é de 108, e se distribuem da seguinte forma: 8 Bispos, 15 Sacerdotes seculares, 15 Sacerdotes regulares, 7 Religiosas e 7 Religiosos não Sacerdotes, 26 homens casados, 12 mulheres casadas, 6 leigos não casados, 8 leigas não casadas, 2 não especificados. Quanto às funções ou profissões dos leigos, a distribuição é a seguinte: ensino, 9; assistência social, 8; imprensa-rádio-TV, 5; atividades educacionais, 4; trabalhadores, 3; médicos, 3; engenheiros, 2; militares de carreira, 2; analistas, 2; prefeito, 1; pesquisa, 1; ajuda pastoral, 1; estudantes, 9. A média de idade dos membros da assembleia plenária é de pouco mais de 42 anos, sendo o mais velho o Cardeal Alfrink, com 69 anos, e o mais jovem um estudante de sociologia de Amsterdã, com 19 anos ("La Documentation Catholique", n.° 1557, pp. 174 e 181). Segundo "The Tablet" (17 de janeiro), nove mulheres indicaram como profissão "dona de casa", o que não aparece na relação acima, fornecida pela "Documentation Catholique". Nesta não aparece também o número de ex-Padres casados, que no entanto faziam até parte das comissões encarregadas de elaborar os esquemas, como é o caso de J. Weterman. A não ser que estejam incluídos no enigmático item de não especificados...

Valendo-se do direito de indicar diretamente quinze membros do concílio, o Episcopado nomeou alguns "conservadores", procurando, dessa forma, afastar a ideia de um "partido único" progressista, a votar sempre unanimemente no plenário. Por ocasião da 3a sessão os "conservadores" pediram que o Cardeal Alfrink aumentasse consideravelmente a sua delegação, para que as opiniões que vivem entre os fiéis fossem melhor representadas; a recusa de Sua Eminência foi categórica (Pe. Van der Ploeg, p. 77). É verdade que na 4a sessão os Bispos aumentaram o número desses "católicos inquietos" — como eles mesmos se chamam — de três para oito, mas isso pouco representa num conjunto de 120 delegados e foi praticamente neutralizado pela nomeação simultânea de seis membros de menos de 25 anos, de tendências diametralmente opostas (I. C. I., n.° 335, p. 8).

Método de trabalho

Tudo não obstante, o "IDOC Internacional" (n.° 16, p. 3) nos apresenta as sessões do concílio como decorrendo num ambiente verdadeiramente idílico: "A discussão se faz com toda a liberdade, e os Bispos tomam frequentemente parte nela, representando visões diversas. Há um verdadeiro diálogo entre todos os participantes e um Bispo pode interpelar um leigo ou um Padre sobre sua intervenção, e vice-versa. Os votos são dados em público e começam pelos do Episcopado, que não é sempre unânime".

De fato, apesar da disparidade de profissões, formação e idades, os membros do concílio pastoral, "com algumas exceções apenas, são todos adeptos de um mesmo complexo de ideias". Cabe acrescentar que "se encontram ali numerosos leigos que não conhecem nem a história da Igreja, nem sua fé, nem sua teologia, e que devem, entretanto, pronunciar-se sobre a fé, os costumes, a disciplina, as "estruturas" da Igreja Católica. Sua incompetência é manifesta, e sua ignorância dessa incompetência o é igualmente. Seu julgamento não tem valor senão para aqueles que querem servir-se dele para fazer triunfar suas próprias ideias" (Pe. Van der Ploeg, p. 77).

Segundo o IDOC, é o seguinte o método de trabalho adotado na assembleia plenária do concílio-pastoral:

Uma comissão de peritos constituída para cada tema elabora um esquema básico que, impresso, é entregue com alguma antecedência a todos os participantes da assembleia plenária. Esta, reunida durante três ou quatro dias em Noordwijkerhout, delibera sobre o esquema e sobre as proposições concretas que ele contém. Cabe-lhe pronunciar-se sobre:

a) a questão de saber se o esquema apresentado reproduz fielmente o pensamento religioso da comunidade da Igreja;

b) a oportunidade ou utilidade de fazer com que o esquema seja seguido de conclusões práticas sob a forma de recomendações pastorais nos domínios onde unicamente aos Bispos compete ordenar a sua execução" ("IDOC International", n.° 16, p. 3).

Calendário das assembleias

Dentro desse método de trabalho, o concílio-pastoral já levou a efeito as seguintes sessões:

"1a ASSEMBLEIA PLENÁRIA: 3, 4 e 5 de janeiro de 1968. Discussão sobre: Conceito e experiência da autoridade na Igreja (encaminhado a outra comissão para pré-discussão quando da 2a" assembleia).

2a ASSEMBLEIA PLENÁRIA: 7, 8, 9 e 10 de abril de 1968. Discussão sobre: 1 — Ajuda ao desenvolvimento; 2 — Nossa tarefa missionária no dia de hoje; 3 — A autoridade (tema da 1a assembleia).

3a ASSEMBLEIA PLENÁRIA: 5, 6, 7 e 8 de janeiro de 1969. Discussão sobre: 1 — A atitude moral do cristão no mundo; 2 — Matrimônio e família; 3 — O espaço necessário para o pleno desenvolvimento dos jovens.

4a ASSEMBLEIA PLENÁRIA: 9, 10 e 11 de abril de 1969. Discussão sobre: Como viver a fé hoje em dia; Renovação da prática da fé na Igreja. Nota de discussão: O sentido da vida de fé cristã num mundo secularizado.

5a ASSEMBLEIA PLENÁRIA: 4, 5, 6 e 7 de janeiro de 1970. Discussão de dois esquemas: 1 — Por um funcionamento fecundo e renovado do ministério; 2 — Os Religiosos" ("IDOC, International", n.° 16, pp. 4-5).

Neste mês de abril deverá reunir-se a 6a assembleia plenária do concílio-pastoral.

As comissões de "peritos"

Nas comissões de "peritos", encarregadas de preparar os esquemas, ou relatórios, a serem discutidos na assembleia plenária, têm assento e voto ex-Padres, protestantes e até mesmo ateus. Da comissão que elaborou o relatório sobre "O sentido da vida de fé cristã em um mundo secularizado", por exemplo, faziam parte, entre outros, o Pe. Van Kilsdonk, S. J. (capelão contestante da paróquia universitária de Amsterdã), o Pe. Smulders, S. J. (o qual declarou a um jornal socialista que certos dogmas, como o das duas naturezas de Cristo, devem ir para o "quarto de despejo"), o ex-Padre modernista, casado há dez anos, J. Weterman (que teve muita influência na formulação do relatório), dois protestantes, um ateu, o Pe. J. B. W. M. Möller, recentemente eleito Bispo de Groninga (cuja sagração constituiu uma bizarra cerimônia, celebrada em um mercado onde não faltava sequer um rebanho de carneiros verdadeiros — I. C. I., n.° 341-342, p. 7), L. Baas (do IDOC), presidente da Ação Católica, e sua secretária.

Seja dito de passagem que esse relatório ou esquema foi um dos piores que já passaram pelo concílio. Na opinião de um Padre convertido do protestantismo, excede ele em malícia a todos os outros até então apresentados; um leigo, o Eng.° H. de Goey, recusou-se a assiná-lo e retirou-se da comissão (Pe. Van der Ploeg, p. 78, nota 1; Laforge, p. 6).

Caixas-postais e "grupos de discussão"

Antes mesmo de inaugurado o concílio-pastoral, caixas-postais foram adrede colocadas em cada Diocese à disposição dos 5 milhões de católicos holandeses, e mesmo dos não católicos, que se quisessem manifestar. O IDOC nos informa de que até a realização da 5a assembleia plenária (de 4 a 7 de janeiro último) haviam chegado às Dioceses mais de 20 mil cartas, às quais foram dadas respostas pessoais, ou através da emissão radiofônica consagrada ao concílio ("IDOC International", n.° 16, p. 4). Não cremos que algum católico fiel tenha tido a ilusão de influir nos debates e decisões com suas cartas...

Além dessa singular maneira de participar dos trabalhos conciliares, uma outra existe: a dos "grupos de discussão". Eles não representaram propriamente uma inovação na Holanda, pois sempre existiram, sob esta ou aquela forma, nesse país cujo povo tanto gosta de "teologizar". Foram, entretanto, institucionalizados pelo falecido Mons. Bekkers, Bispo de Bois-le-Duc ('s-Hertogenbosh), por Ocasião de seu "pequeno concílio" local, e passaram a constituir o "elemento motor" da vida religiosa e eclesiástica da Holanda (I. C. I., n.° 276, p. 14).

Existem "grupos de discussão" ao nível das diversas circunscrições eclesiásticas: paróquias, decanatos, Dioceses, etc. Um comitê nacional lhes fornece o material para os debates, cujos resultados são depois apresentados à assembleia plenária do concílio-pastoral. O número dos grupos e círculos de discussão, compreendendo de dez a doze membros cada um, é de cerca de quinze mil (eram 7.127 antes da primeira sessão do concílio), informa-nos o "IDOC International" (n.° 16, p. 4). Além desses, há outros grupos de discussão, formados no seio das associações e instituições católicas, cujo número de participantes é difícil de estimar, e que enviam também o resultado de seus debates à assembleia plenária (ibid.).

"Essa generalização de um fenômeno que cria as condições de uma total liberdade, permite avançar mais eficazmente. Um novo clima estava criado", diz a propósito da influência desses "grupos de discussão" o Prof. Tans (p. 70).

Não é difícil ao leitor intuir o quanto os organizadores do concílio-pastoral, ou seja, o PINK (leia-se IDOC), valeram-se, para agitar o ambiente católico, do gosto do povo neerlandês pelos debates de caráter religioso. Essa a verdadeira razão do estímulo que dispensaram aos "grupos de discussão"; e da sua multiplicação "espontânea", como o IDOC deixa entrever na sua revista.

Orientação progressista... sem diálogo

No dia 15 de novembro de 1966, pouco antes da abertura do concílio-pastoral, o Emmo. Cardeal Bernardus Johannes Alfrink, Arcebispo de Utrech e Presidente da Comissão Central conciliar, concedeu uma entrevista à imprensa, na qual expôs as grandes linhas que a assembleia deveria seguir.

"Na Igreja de hoje, declarou, a marcha que nosso concílio-pastoral seguirá não pode ser senão "progressista", e eu me empenho em que se entenda este termo em seu bom sentido; sem a alternativa que ele evoca automaticamente... Somos uma Igreja em movimento e por esse movimento queremos seguir o Senhor que avança no mundo e no tempo" (1. C. I., n.° 277, p. 11).

Depois de assinalar que os Bispos queriam esse encontro como prova de seu "espírito de serviço evangélico", o Primaz da Holanda fez notar que isso não facilitava a posição da Hierarquia, mas, pelo contrário, a tornava mais vulnerável. E prosseguiu: "Tudo isso pode parecer uma aventura um pouco arriscada, mas pode-se também considerar esse concílio como fruto do espírito que o Concílio Vaticano II ousou fazer nascer e que agora nos arrasta em sua aventura divina" (ibid.).

Na realidade, desde o início estava nitidamente traçada a orientação que seguiria a futura assembleia. Ela não seria senão progressista — não no "bom sentido" da palavra — apesar de esforços posteriores para dar-lhe uma certa aparência de debate livre, de "verdadeiro diálogo" (como diz o IDOC) , onde todas as correntes de opinião estariam representadas, podendo fazer-se ouvir em igualdade de condições e influir nas decisões finais.

Objetivos do concilio

O Pe. Walter Goddijn, O. F. M., diretor do PINK e secretário-geral do concílio, assim resume os objetivos deste:

"1) Fazer a Igreja dos Países-Baixos refletir, de um modo que corresponda às exigências e às necessidades do homem moderno, sobre a prática religiosa, a saber:

- o conteúdo da Boa Nova;

- sua celebração e sua pregação;

- as estruturas da comunidade religiosa;

- a atitude do fiel e sua ação em um mundo em transformação.

2) Tornar a Igreja dos Países-Baixos mais consciente:

- de sua tarefa específica e de sua responsabilidade no interior de toda a Igreja de Jesus Cristo;

- de seu serviço com relação a todos os homens.

3) Buscar os meios e os caminhos que permitam melhor desempenhar essa missão" ("IDOC International", n.° 16, p. 2).

Em que pese esse programa fixado pelo secretário-geral, a 2a assembleia plenária do "concílio de Noordwijkerhout" ainda se perguntava a si mesma qual seria o seu objetivo preciso: "Devem-se fazer proposições concretas — como o pedem tão frequentemente os jovens e... as mulheres — (escrevia então Marlène Tuininga, enviada especial de "Informations Catholiques Internationales") ou devem-se publicar declarações PROFÉTICAS? Pedir ao Estado que crie um imposto em benefício do desenvolvimento, ou pedir a todos os cristãos que sejam missionários? Fazer política ou teologia? Este dilema que, de fato, traduz a velha questão das relações da IGREJA-INSTITUIÇÃO ou da IGREJA-PROFÉTICA, esteve subjacente a todos os debates" (1. C. I., n.° 311, p. 7 — grifamos).

"Circunspecção em face de Roma"

Desde a solene inauguração do concílio-pastoral, os seus participantes têm-se mostrado "animados de uma certa circunspecção em face de Roma", segundo a expressão eufemística do Prof. J. A. G. Tans (obra cit., p. 72), que já dissemos ser um dos principais organizadores e mentores da assembleia.

E nem sempre os debates se mantiveram dentro do limite da "circunspecção em face de Roma". Foram mais longe. A 3a sessão do concílio praticamente rejeitou a Encíclica "Humanae Vitae" através de um texto formulado pelo Cardeal Alfrink, e lido por ele próprio diante do plenário (Pe. Van der Ploeg, p. 79).

Do mesmo modo, o "Novo Catecismo" holandês foi plenamente aceito pelo concílio-pastoral, sem sequer levar em conta as correções exigidas pela Comissão Cardinalícia que o havia examinado (ibid.).

O ponto, porém, de maior conflito com a Santa Sé foi a questão do celibato sacerdotal. Mal foi anunciado o concilio, uma comissão de nove Padres enviou a todos os Sacerdotes e Religiosos que exerciam o ministério na Holanda uma declaração na qual pediam que o celibato fosse dissociado do sacerdócio. "Fazendo assinar esta declaração pelo maior número de Padres e de Religiosos, os nove Sacerdotes esperam influir ponderavelmente nas discussões que o concílio pastoral consagrará a esse espinhoso tema", escrevia então a bem informada I. C. I., (n.° 276, p. 14).

Contra o celibato eclesiástico

A 5a assembleia plenária do concílio-pastoral foi das mais movimentadas. Nela foram discutidos dois esquemas delicados: "Pelo funcionamento fecundo e renovado do ministério" e "Os Religiosos".

O primeiro fora elaborado por uma comissão de onze membros (entre eles um representante da igreja reformada holandesa), com a colaboração de 21 "peritos", cinco dos quais representavam igrejas protestantes, e seis eram mulheres.

No capítulo VII esse esquema aborda nada mais, nada menos, que o problema do celibato eclesiástico e o do sacerdócio das mulheres! Submetida à votação do plenário (no dia 4 de janeiro p. p.) a parte relativa ao celibato, 90 votantes em 98 se manifestaram a favor da "supressão da obrigatoriedade do celibato como condição de acesso ao ministério para o futuro Padre"; 86 pela "manutenção ou pelo reingresso no ministério, sob certas condições, dos Padres desejosos de se casar ou já casados"; 94 pelo acesso ao sacerdócio de homens já casados. Os Bispos abstiveram-se da votação (I. C. I., n.° 352, p. 8).

No dia seguinte ao dessa sessão, o Episcopado Holandês, ao fim de uma reunião com os Superiores das Ordens Religiosas, publicou uma declaração na qual afirma:

"Os Bispos são de opinião que seria um bem para sua Igreja que se pudesse admitir na Igreja Latina, ao lado do celibato eclesiástico escolhido com toda a liberdade, Padres casados, de um lado pela ordenação de homens casados e, de outra parte — em casos particulares e sob certas condições — pela reintegração no ministério de Padres que se casaram. Todavia, uma província eclesiástica não pode realizar isso sozinha, sem deliberar a propósito com o Santo Padre e com a Igreja Universal" (I. C. I., n.° 353, p. 7).

A gravidade desse pronunciamento é acentuada pelo fato de que dias antes fora publicada uma carta do Papa aos Bispos da Holanda, na qual, entre outros pontos, Paulo VI pedia que o Episcopado afirmasse seu acordo total e sem reservas com a Igreja Universal sobre o celibato eclesiástico (I. C. I., n.° 353, p. 5; "La Doc. Cath.", n.° 1557, p. 164).

A ordenação de mulheres

No dia 5 de janeiro, o concílio-pastoral passou ao exame da outra parte do esquema "Pelo funcionamento fecundo e renovado do ministério". Pela primeira vez em toda a história da Igreja uma assembleia eclesiástica considerava a possibilidade do sacerdócio feminino. Num total de 104 votantes — os Bispos participaram do escrutínio — 24 se abstiveram e 72 se pronunciaram a favor de um período de estudo e de transição abrindo uma evolução que "a longo prazo não excluiria a celebração da Eucaristia!" Dos oito Bispos, apenas o de Breda, Mons. Ernst, votou a favor; três, entre os quais o Cardeal Alfrink, se abstiveram da votação.

O esquema que incluía essa proposição foi apontado pelos Bispos como falho de bases bíblicas e teológicas; a essa crítica respondeu o vedetístico teólogo dominicano Schillebeeckx, apoiado pelo Jesuíta Piet Schoonenberg (I. C. I., n.° 352, p. 7).

Uma nova Igreja?

Em 1967 os Bispos da Holanda deram a lume um folheto de "diretrizes pastorais", editado pelo PINK. Contém ele uma passagem na qual, ao anunciar que mandara proceder a estudos sobre a possibilidade de tornar facultativo o celibato, o Episcopado usa uma expressão que pode talvez explicar muito do que se passa no concílio-pastoral, promovido pelo mesmo PINK. Lê-se ali que tais estudos foram determinados, não primeiramente "para ajudar individualmente os Padres em suas dificuldades, ou para evitar uma eventual escassez de Padres, mas para dar, tornando o celibato facultativo, contornos mais claros à NOVA FORMA DA IGREJA" (Pe. Van der Ploeg, p. 74 — grifamos).

Qual será essa nova forma da Igreja cujos contornos se quer precisar? Será por acaso aquela que o IDOC e os "grupos proféticos" querem conferir à Esposa de Jesus Cristo? — Voltaremos ao assunto.