Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 232 | página 08

POR QUE PÔDE O SR. GARAUDY EXPOR SUAS 'HERESIAS" EM PLENO CONGRESSO DO PCF?

Alberto Luiz Du Plessis

O XIX congresso do Partido Comunista Francês, realizado em Nanterre, em fevereiro, foi palco de um fato inusitado e, para os padrões da agremiação, extremamente grave: um cisma público, criado por Roger Garaudy. É verdade que, anteriormente, já houvera divergências entre os comunistas franceses, mas todas tinham sido conservadas cuidadosamente "intramuros", de maneira que o partido dito "da classe operária" pudesse conservar, perante esta, uma face monolítica. É verdade também que, quando da invasão da Checoslováquia, o poeta Aragon, dissentindo da linha justa, criticara fortemente a ação russa, mas os poetas têm suas licenças, e o fato foi considerado apenas um arroubo de lirismo.

Com Garaudy a situação é completamente diferente. Intelectual brilhante, professor de filosofia, exegeta profundo da doutrina marxista, ocupava postos do maior relevo na hierarquia do PCF, tendo sintomaticamente desempenhado papel de primeira plana na preparação da atual colaboração entre comunistas e católicos em todo o mundo. As teses que vem de formular ofendem dogmas marxistas muito importantes (como sejam, a conceituação da classe operária e a da futura sociedade comunista), e a ocasião que escolheu ou que lhe concederam para sustentá-las não podia ser mais solene: em pleno congresso do partido, perante todos os delegados reunidos.

As teses de Garaudy

O comunismo sempre proclamou que a luta contra o capital devia ser levada a efeito pelos assalariados, entendendo por assalariado o trabalhador braçal, explorado pelo capitalista desumano, e condenado, pela lei de Marx da concentração da riqueza, a tornar-se cada vez mais pobre e miserável para que o patrão fique mais opulento. Considerando-se que Marx escrevia em plena sociedade vitoriana, na qual as condições do trabalho industrial eram frequentemente muito duras, conclui-se facilmente que a aplicação de sua lei levaria em breve aquela forma de sociedade a uma explosão. Com efeito, se as condições das massas eram duras e só tendiam a piorar, o desenlace se apresentava inevitável e próximo.

Como se pode constatar, não foi o que realmente aconteceu, e o nível de vida da classe operária nos países industrializados tem-se elevado bastante. Por um curioso conservadorismo vermelho, no Ocidente muitos trabalhadores continuam a votar em comunistas porque seu avô votava neles, mas a ideia de entrar num regime discricionário que lhes tire o automóvel ou prejudique a pescaria de domingo, lhes é certamente pouco agradável.

Além disso, sustenta Garaudy, neste mundo de automatização e de computadores os operários especializados, e até de alta especialização, começam a enxamear, ao mesmo tempo que a classe dos técnicos, antigamente associados ao patrão e à exploração, vai descendo da categoria das profissões liberais para a dos assalariados.

É baseado nestas constatações que Roger Garaudy lança suas novas teses, propugnando que o Partido Comunista deixe de ser exclusivamente o partido dos operários e passe a sê-lo de todos os trabalhadores, incluídos nestes os quadros técnicos e, horror dos horrores, até mesmo o odiado patrão, ao qual se reconheceria a importância de sua função dirigente e se atribuiria salário e posição condignos, mediante, naturalmente, sua renúncia à condição de proprietário. Claro está que a propriedade de todos os bens de produção seria do Estado, permitindo-se aos particulares unicamente o uso de seus bens pessoais, com o que estaria salvo o automóvel do nosso operário inscrito no PC, para sua grande satisfação, aliás.

Por outro lado, insistindo no caráter fundamentalmente relativista da doutrina marxista, Garaudy deixa entender que bem pode surgir, para os países desenvolvidos do Ocidente, uma forma de comunismo sui generis, diferente da que se implantou na Rússia de 1917 e em outros países subdesenvolvidos.

Precisa-se de novas vias

Saliente-se que o Partido Comunista Francês não aplicou a Garaudy a excomunhão seguida de expulsão sumária, que sua praxe reserva para todos os heterodoxos (ele mesmo, aliás, se professa comunista ortodoxo). Embora tenha sido excluído de suas funções de chefia, Garaudy continua no partido. Mais ainda, permitiu-se lhe que proferisse o seu discurso, embora fosse fácil evitá-lo, dada a evidente existência de censura prévia. Garaudy foi ouvido em silêncio, quebrado apenas nas passagens mais violentas por alguns apupos e, em outras ocasiões, por discretos aplausos de seus adeptos. Depois se falou muito contra ele. E foi só. Esta atitude tolerante da direção do PCF não indica por si só — sem necessidade de levarmos mais a fundo a nossa análise — que o discurso de Garaudy foi, pelo menos, um balão de ensaio, destinado pelas supremas cúpulas marxistas a testar a reação da opinião pública perante um comunismo mitigado? A indagação está longe de ser fantástica, pois, na França como por todo o Ocidente, o comunismo, se tem conseguido manter o seu eleitorado, não o tem visto porém ampliar-se, o que o impede de aspirar ao poder pelas urnas, do mesmo modo que — por ora, ao menos — não lhe é possível conquistá-lo pela força: de onde resulta a necessidade de procurar novos caminhos.

Muita gente gostaria

De qualquer maneira, é fora de dúvida que o comunismo como o preconizado por Roger Garaudy teria um grande poder de atração sobre muita gente. Inúmeros burgueses, viciados na tática do "ceder para não perder", teriam muita simpatia por um regime que, evitando por sua instauração as guerras e as revoluções sociais, afinal de contas ainda lhes garantiria uma posição razoavelmente confortável. Muitos clérigos e leigos católicos a quem as condenações e excomunhões papais dificultam a aprovação explícita do comunismo, não deixariam de argumentar que o "novo" comunismo não é o mesmo que foi fulminado pelos Papas, e poderiam assim promovê-lo mais às claras. Não é à toa que, como dissemos acima, Garaudy foi um dos principais artífices da recente aproximação entre católicos e comunistas.

Finalmente, os Partidos Democratas-Cristãos, particularmente o italiano e o chileno, encontrariam no "novo" comunismo uma desculpa válida para suas mal disfarçadas ânsias de união com os marxistas.

Se alguém não acha possível que Roger Garaudy tenha pensado em tudo isso, é certo, todavia que suas teses chegam em momento propício. É preciso ver, naturalmente, se a velha guarda dos PCs tolerará desvio tão grande dos princípios tradicionais, e se as vantagens do novo estilo compensariam o risco de uma cisão. Em todo caso, como observa o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira em recente artigo para a imprensa diária, as teses garaudianas apresentam "os traços configurativos de uma das mais subtis e importantes manobras comunistas de todos os tempos".

Legenda: Três flagrantes de Garaudy: O de cima é do XIX Congresso do PCF. O de baixo é um colóquio entre marxistas e cristãos, onde ele tem à direita um convidado protestante e um católico.


EM JULHO O 4° CENTENÁRIO DOS 40 MÁRTIRES

Conforme já tivemos ocasião de mencionar em nosso número de junho do ano passado, no próximo dia 15 de julho ocorre o quarto centenário do glorioso martírio dos Bem-aventurados Inácio de Azevedo, S. J., e Companheiros, chamados os Quarenta Mártires do Brasil. A esse propósito recebemos do Revmo. Pe. A. Santiago, S. J., diretor do boletim "Graças dos Mártires do Brasil", de Braga, a seguinte nota:

"Brasileiros, portugueses e espanhóis celebremos êste quarto centenário da maneira mais solene: com a canonização dos gloriosos Mártires (32 portugueses e 8 espanhóis).

Para isso empreguemos os dois meios para obtê-la:

1º MEIO - Alcançar por intercessão dos Bem-aventurados Mártires, pelo menos dois milagres. Recorramos todos: brasileiros, portugueses e espanhóis, com uma intensíssima campanha de orações, novenas, Missas, etc., pedindo ao Senhor que nos conceda os milagres necessários para a canonização.

2º MEIO - Pedirem ao Santo Padre os Chefes do Estado Brasileiro, Português e Espanhol, os Senhores Bispos, Reitores das Universidades, Colégios, Seminários, etc., que canonize estes quarenta Bem-aventurados Mártires, neste quarto centenário do seu martírio. São Mártires da Igreja Católica! Esta será a mais bela e solene maneira de celebrarmos este quarto centenário. Qual é a mãe neste mundo que não dá o maior prêmio que pode a um filho seu que deu a vida por ela? Ora a nossa Mãe a Santa Igreja Católica não pode proceder de maneira diferente e por isso não deixará de premiar seus quarenta filhos que deram a vida por Ela, com o maior prêmio que pode dar; e qual é ele? Colocar-lhes na cabeça a auréola de Santos, é essa o que todos esperamos e desejamos para os nossos gloriosos Mártires do Brasil, que deram a maior prova de amor pela sua Mãe, a Santa Igreja Católica, como disse o Bem-aventurado Inácio de Azevedo, o glorioso capitão desta falange de missionários: "Todos me sejam testemunhas como dou a vida pela fé e pela Igreja Católica", e o mesmo fizeram seus Companheiros!

Para comunicar graças, enviar donativos e obter a Vida dos Mártires — "Uma Glória Nacional" (10$00), o quadro grande dos Mártires, a seis cores (15$00), os postais dos Mártires (1$00), e sobretudo as suas estampas da Novena (cento 2$50) para a fazer, e o Hino dos Mártires, — dirigir-se a: Pe. A. SANTIAGO, S. J. — LARGO DAS TERESINHAS, 5, BRAGA, PORTUGAL".

Novena

É este o texto da oração composta para a novena aos Quarenta Mártires do Brasil para pedir milagres que permitam a sua canonização:

"Gloriosos Mártires que, abrasados de amor das almas, deixastes a família e a pátria e vos entregastes ao Senhor para trabalhar na sua vinha entre infiéis: atrai com a vossa intercessão e exemplo à vida missionária muitos jovens, a fim de que abrasem as almas no amor do Nosso Divino Rei e Capitão Jesus e as conduzam ao gozo do Céu. — Vós a quem o Senhor tanto amou, que ainda antes de chegardes às vossas missões, vos premiou as virtudes e o zelo com a palma do martírio, alcançai-nos a união de todos os cristãos, a conversão dos infiéis, e as graças que vos pedimos, se forem para maior glória de Deus e bem das nossas almas. Amém.

PATER. AVE MARIA. GLORIA PATRI.

V. Rogai por nós. Bem-aventurado Inácio de Azevedo e Companheiros Mártires.

R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

OREMOS. Todo-poderoso e eterno Deus, a nós que /to Bem-aventurado Inácio e seus Companheiros comemoramos numa só solenidade as palmas de quarenta Martírios, concedei-nos propicio, que possamos imitar a invencível constância na fé desta falange de Mártires, cuja glória no Céu jubilosos contemplamos. Por Cristo Nosso Senhor. R. Amém".


VERDADES ESQUECIDAS

A desigualdade entre os homens é providencial

Da Sagrada Escritura — Livro do Eclesiástico, capítulo 33, versículos 7 a 15 (tradução do Padre Matos Soares) :

Porque é que um dia é preferido a outro dia, uma luz a outra luz, e um ano a outro ano, provindo todos do mesmo sol? Foi a ciência do Senhor que os diferenciou, depois que criou o sol, o qual obedece às suas ordens.

E variou as estações e os seus dias de festa, e nelas se celebraram as solenidades a hora determinada. Destes mesmos dias fez Deus a uns grandes e sagrados, e a outros pôs no número dos dias comuns.

E assim é que também todos os homens são feitos do pó e da terra, de que Adão foi formado.

O Senhor, porém, pela grandeza da sua sabedoria, distinguiu-os, e diversificou os seus caminhos.

A uns abençoou [como os descendentes de Sem] e exaltou; a outros [como o povo de Israel] santificou e tomou para Si; e a outros [como os cananeus] amaldiçoou e humilhou, e expulsou-os [de suas terras],- depois de os ter separado. Como o barro está nas mãos do oleiro, para lhe dar a forma e disposição que deseja, e para o empregar nos usos que lhe aprouver, assim o homem se encontra na mão dAquele que o criou, e que lhe dará o destino segundo o seu juízo.