Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 193 | página 01

FAZ CEM ANOS

"O CAPITAL" DE MARX,

O FRENÓLOGO

Cunha Alvarenga

Cem anos depois da publicação da obra mestra de Karl Marx, o malogro da propaganda e da ação direta leva o comunismo internacional a recorrer ao estratagema do diálogo relativista. Diante do açodamento com que os progressistas se vão deixando embair, os comunistas já proclamam encerrada na Igreja — cuja indefectibilidade não é para eles senão um mito — o que qualificam de era "de ódio, de fanatismo, de negação raivosa de uma ordem nova, de raivosa defesa da velha ordem fundada sobre o privilégio", uma era assinalada por "Nossas Senhoras peregrinas, suaves milagres anticomunistas, sóis que giram para anunciar o retorno da Rússia a Maria, — um verdadeiro e autêntico museu de horrores".

O ano que se inicia assinala o centenário de um acontecimento tristemente famoso: em 1867 Karl Marx publicava em Londres o primeiro volume de "O Capital", um dos livros que, através de enorme propaganda, influíram de modo decisivo, no mundo inteiro, para os avanços da Revolução no campo político, econômico e social.

Costuma-se marcar com o advento do filósofo alemão e sobretudo de sua obra máxima, que é justamente "O Capital", a passagem do comunismo da fase utópica e romântica para a fase científica. É bem verdade que entre as loas que se entoam aos tesouros de ciência possuídos por Marx não se menciona, por exemplo, que ele foi um fanático da frenologia. O fundador do socialismo científico dava aplicação prática à antropologia materialista, então nascente, correndo os dedos sobre o crânio dos recrutas de seu movimento subversivo, de modo a determinar-lhes as qualidades de liderança (ver a êste propósito Wilhelm Liebknecht, "Karl Marx — Biographical Memoirs", Charles H. Kerr & Co., Chicago, 1907, p. 52). A empresa da meia-ciência do século XIX, de fichar as faculdades da alma através das bossas cranianas, a que Menéndez Pelayo chamava de "nova espécie de charlatanice nigromântica" negadora da responsabilidade moral e do livre arbítrio, não tardou a ficar completamente desmoralizada, razão pela qual normalmente não se fala na adesão que o autor de "O Capital" a ela emprestava.

Uma ponte a lançar entre o marxismo e a Igreja

Em 1967, cem anos após a publicação de sua obra mestra, Marx não se acha superado somente neste detalhe de suas crenças "científicas", mas sobretudo em suas previsões quanto ao papel do materialismo histórico e ao advento incoercível do comunismo.

Para os marxistas há dois tipos de materialismo: o materialismo vulgar, professado pelos precursores de Marx, e o materialismo científico, dialético e metafísico, que deve ser necessariamente adotado por aqueles que pretendem permanecer fiéis ao ensinamento de "O Capital". Para estes, como para seu mestre, a religião é ópio do povo, e uma das principais alienações de que querem livrar a humanidade é justamente a religiosa.

Neste ano ocorre também o cinquentenário da implantação do comunismo na Rússia, aplicação prática das ideias de Marx que derramou rios de sangue não somente dos detentores do poder político e social, mas sobretudo de cristãos, numa demonstração da incompatibilidade que há entre a adesão ao materialismo histórico e a fé em um Deus transcendente e absoluto.

Para Marx a ação revolucionária é apenas a participação consciente no processo das transformações sociais ditadas pelas leis do materialismo histórico. A agitação das massas se mostraria eficiente na medida em que colaborasse com as incoercíveis tendências da evolução social, na qual o fator econômico seria decisivo. Mas nestes cinquenta anos de prática revolucionária comunista ficou arquiprovado que as leis "científicas" do marxismo não têm aquele dinamismo próprio que as faria irresistíveis. Pelo contrário, apesar de se terem empregado todos os meios possíveis, desde a violência mais brutal até a propaganda mais hábil, o comunismo continua a ser impopular. E o Cristianismo autêntico permanece como a grande barreira contra seus progressos.

Eis porque assistimos nos tempos que correm à tentativa de lançar uma ponte entre o socialismo marxista e a Igreja, num esforço dialético — não previsto pelo próprio Marx — no sentido de abalar a resistência oposta pela Religião do Crucificado ao domínio vermelho sobre o mundo. Chegada a um impasse, a fase feroz do expansionismo comunista cede lugar agora à fase dialogante.

Adrede preparados para facilitar as coisas

Como será isso possível sem que o comunismo internacional abdique de suas teses fundamentais? Muito simplesmente: quem fala em diálogo pressupõe um interlocutor, e no caso este é representado, entre os filhos da Igreja, por elementos adrede preparados para facilitar as coisas, ou seja, pelos católicos ditos progressistas, que se espalham por toda parte.

É talvez na Itália que o progressismo representa o mais relevante papel nessa deplorável empresa, e isso não

(continua)