Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 193 | página 02-03

No ano jubilar das aparições de Fátima, peçamos a Virgem a graça de sermos instrumentos seus contra a tática comunista do diálogo (continuação)

só por se tratar de um país de maioria católica, que abriga em seu território o próprio Vaticano, mas por existir na Península o mais poderoso partido comunista do Ocidente.

No ano de 1964 foi publicado ali o livro "I1 Dialogo alla Prova" (Mezzo Secolo, Vallecchi Editore Firenze), coletânea de depoimentos editada sob responsabilidade do progressista Mario Gozzini, pelo qual ficamos sabendo que coube a católicos de sua linha a iniciativa do diálogo que dá nome à obra.

Segundo Gozzini, o acordo entre católicos e comunistas somente será possível se ambos os lados cederem: "Os comunistas devem renunciar aos dogmatismos metafísicos levados ao plano público; os católicos devem renunciar aos dogmatismos temporais. Uns e outros deverão tirar todas as consequências de tais renúncias" (obra citada, p. 67). Em poucas palavras, enquanto os comunistas nada cedem de essencial, os católicos devem libertar-se do "complexo majoritário", renunciando aos direitos da verdade na ordem temporal. A influência da Religião Católica sobre as estruturas políticas representaria um resquício da era constantiniana. Voltando à fase das catacumbas, desprezando sua própria ordenação jurídica para perdurar apenas em seus elementos pneumáticos, reduzindo-se ao estatuto de mera instituição privada, deveria a Igreja ceder ao princípio laicista de que a religião é negócio de foro íntimo e de que, por conseguinte, o Estado não pode intrometer-se em questões de consciência ligadas a um credo religioso.

Até aqui nada de novo no conhecido jargão da esquerda católica. Há, porém, algo na audácia dos progressistas italianos que deve deixar meio desconcertados seus similares de mentalidade subdesenvolvida, deste lado do Atlântico. Apesar das advertências pontifícias que vieram a lume desde o tempo do Manifesto de Marx e Engels, quanto ao caráter conspiratório e intrinsecamente mau do comunismo e do socialismo marxista, houve sempre católicos ingênuos ou coniventes, para os quais os progressos da seita vermelha no mundo inteiro se explicariam pela exploração capitalista e pela decorrente miséria das massas. Ainda hoje este é o "leitmotiv" adotado por progressistas brasileiros para de certo modo coonestar a subversão comunista no Nordeste.

A televisão, mais que a fome, favorece o comunismo

Pedimos a atenção de nossos leitores para as seguintes palavras de Mario Gozzini, que fala informado por um saber de experiências feito, conhecida como é a circunstância de que a parte mais próspera da Itália, o Norte, é justamente onde o comunismo tem maiores contingentes. Diz ele:

"Há, entretanto, uma lição dos fatos que não foi posta ainda em prática. Por longos anos houve a ilusão, em nosso país, de "esvaziar o comunismo" com a melhoria do nível de vida, com a difusão do bem-estar. Foi esta uma ilusão viciada pelo materialismo prático: coisa bastante grave da parte de cristãos. Não se percebeu, com efeito — e em vão se procurariam hoje sintomas claros de revisão do esquema que se demonstrou falido — que o fascínio exercido pelo comunismo ateu, na situação histórica particular da Itália, não é somente de caráter econômico, mas, e quiçá sobretudo, de caráter moral: é o fascínio de uma participação e uma responsabilidade das quais o homem de hoje, em todos os níveis, sente necessidade em medida crescente. Eis porque as referências às condições materiais dos países socialistas, certamente bem mais miseráveis do que o nosso [...], não são argumento pertinente. Se, em rósea hipótese, se conseguisse multiplicar por três ou por dez o que ganham todos os italianos, o problema seria talvez adiado, mas voltaria fatalmente, sem estar resolvido.

"Somos todos testemunhas conscientes, por exemplo, da profunda revolução de costumes operada pela televisão nestes dez anos: a enorme infusão de conhecimentos, a irresistível força niveladora, o deslocamento de mentalidade, a ruptura daqueles equilíbrios psicológicos tradicionais entre autoridade e liberdade, que se tinham mantido inalterados por séculos. Consequência natural e imediata é a exigência de participação e a correspondente recusa moral das antigas tutelas como contrárias ao simples fato de se ser homem. Acontece assim que o camponês acha estranha a própria noção de "patrão", antes mesmo de constatar a reduzida rentabilidade da terra; e que o operário se sente como um homem necessitado, não obs-tante todos os progressos externos de sua condição, ao verse reduzido, em SEU trabalho, a um número, a um objeto, que o poder sempre mais impessoal da fábrica regula sem nunca consultá-lo, sem considerá-lo jamais um interlocutor válido" (obra citada, pp. 70-71). Como se esse anonimato do proletariado moderno não existisse, em sumo grau, nos regimes socialistas.

O acicate das necessidades materiais é, portanto, um elemento secundário no processo de comunistização do mundo. Movem esse processo poderosos meios de subversão social, de que é exemplo a televisão, mormente quando posta sob exclusiva orientação do Estado, como se dá em vários países do Ocidente. Trata-se de um agente de massificação e de uniformização de mentalidades, muito mais eficaz na preparação das vias do Estado totalitário que os métodos clássicos de agitação propugnados por Marx e Engels.

Tese marxista que surpreenderia o próprio Marx

Até aqui nos ocupamos do ponto de vista típico de um católico progressista em face do comunismo. Ouçamos agora um marxista.

A contribuição de Lucio Lombardo Radice para "Il Dialogo alla Prova" traz o título muito significativo de "Um marxista em face de fatos novos no pensamento e na consciência religiosa". Para o Autor o diálogo era impossível com os partidários de uma religião que parecia "inalterável e imutável" enquanto instrumento de domínio das classes privilegiadas em certo momento histórico. Acredita achar-se agora diante de uma situação nova, citando a esse respeito a opinião do teórico soviético Ilytchev quanto ao "fato de que no Ocidente hajam aparecido grupos de militantes da Igreja que defendem o chamado "cristianismo comunista" [fato esse que] atesta os progressos, no mundo contemporâneo, da força de influência da ideia comunista" (obra citada, p. 92).

Dispondo dentro da Igreja de elementos progressistas que lhe abram as portas por aceitarem o socialismo marxista em sua essência totalitária, o X Congresso do Partido Comunista italiano aprovou a seguinte tese: "Trata-se de compreender como a aspiração a uma sociedade socialista pode não apenas fazer caminho em homens que têm fé religiosa, mas que tal aspiração pode, diante dos dramáticos problemas do mundo contemporâneo, achar estímulo em uma sofrida consciência religiosa" (1, 8 - apud obra citada, p. 90). Após citar este texto, comenta Lucio Lombardo Radice: "É difícil encarecer a novidade e a importância desta tese, aprovada no último Congresso do Partido Comunista italiano (não sem resistência: foi uma das "teses" mais controvertidas, e a discussão perdura ainda). Foi a primeira vez, se não estamos enganado, que um Partido comunista, com um grupo dirigente profundamente marxista, afirmou que NA RELIGIÃO PODE HAVER UMA CARGA REVOLUCIONÁRIA, MESMO NA PRESENTE ÉPOCA HISTÓRICA" (obra citada, p. 90).

Para o líder comunista italiano, seus próprios correligionários russos não podem compreender essa mudança operada dentro do marxismo peninsular, pois partem da premissa de que hoje a forma religiosa não é capaz senão de conteúdos reacionários (como andam atrasados os russos, dizemos nós) : "Ilytchev não pode conceber a luta DENTRO da religião senão como um dissídio tático, importante mas não essencial; não pode admitir que DENTRO DA RELIGIÃO se haja formado uma corrente, um movimento de opinião de massa progressista! RELIGIOSO E PROGRESSISTA. Pode ser (é até provável) que, não havendo na história russa — que eu saiba — movimentos de massa religiosos e progressistas, resulte um tanto difícil para um marxista russo compreender bem fenômenos deste gênero. Não o é, por certo, para um marxista italiano, que le¬va consigo a lembrança de Galileu e Manzoni, que bem conhece fendas históricas dentro da fé religiosa. Católico Galileu, católico Belarmino; católico Manzoni, católico o Padre Bresciani; mas esse "católico" diz tão pouco! Esses "catolicismos" têm conteúdos diversos, antitéticos" (p. 95).

O mesmo ódio que têm à que triunfará deles

A meta visada pelos marxistas dessa linha italiana é que desapareçam tais antíteses, com a passagem de todos os católicos, com armas e bagagens, para as hostes do progressismo, moldadas segundo as necessidades da subversão socialista. E para isso dão pleno apoio aos elementos progressistas em sua luta contra os que consideram o comunismo um flagelo a ser combatido em nome de Deus e em favor da liberdade dos filhos da Igreja, ameaçada por esse poder totalitário que calca aos pés tanto a Revelação, quanto a própria Lei Natural.

Lucio Lombardo Radice relembra com sarcasmo insolente e blasfemo a era que ele reputa encerrada na Igreja: "Nossas Senhoras peregrinas, suaves milagres anticomunistas, sóis que giram para anunciar o retorno da Rússia a Maria, anátemas contra os construtores de novas sociedades sem espoliadores nem espoliados [...]: um verdadeiro e autêntico "museu de horrores" desfila diante de nossa memória. Todavia, sob essa dura crosta de ódio, de fanatismo, de negação raivosa de uma ordem nova, de raivosa defesa da velha ordem fundada sobre o privilégio, alguma coisa de diferente se movia, urgia, pressionava" (p. 95). Era o progressismo católico que tomava impulso, insuflado por adeptos de uma ideologia materialista que não creem na assistência indefectível do Divino Espírito Santo à Igreja.

É tempo de terminarmos. Falamos do centenário de "O Capital" e do cinquentenário da revolução bolchevista. Verificamos como os comunistas do Ocidente abandonaram a linha dura, em troca da tática dialogante. Tendo como interlocutores os católicos progressistas, eles conservam para com os outros, os "fanáticos", o ódio de sempre: o mesmo ódio que têm Àquela cujo Imaculado Coração por fim triunfará do comunismo, como Ela mesma anunciou em Fátima. Felizmente não somente de sombras malévolas as comemorações deste ano de 1967. Nele também, a 13 de maio, fará cinquenta anos que a Virgem pela primeira vez apareceu aos pequenos pastores Francisco, Jacinta e Lucia, enviando por meio deles aos filhos de Deus palavras de advertência e de alento diante dos erros que, como castigo pela apostasia dos cristãos, a Rússia espalharia pelo mundo.

Segundo a Mensagem de Fátima é o pecado, a desobediência à vontade do Altíssimo que faz a infelicidade dos homens, já nesta terra. Ora, a Revolução representa o pecado elevado à categoria de instituição, vale dizer, ela é em sua própria estrutura o anti-Decálogo.

Neste ano jubilar das aparições da Cova da Iria, peçamos à Santíssima Virgem que acenda em nós o fervor contra-revolucionário, de modo a sermos dóceis instrumentos seus para anular a nova tática do diálogo, com que o inimigo tenta destruir as resistências internas do único baluarte que se lhe opõe no mundo moderno.


Calicem Domini Biberunt

INTERESSAVA À AMICIZIA TUDO QUANTO DIZIA RESPEITO AO BEM DAS ALMAS

Fenando Furquim de Almeida

As colônias da Amicizia Cristiana se reuniam duas vezes por semana em assembleias que se estendiam, no máximo, por duas horas. Começavam com uma leitura de formação religiosa, à qual se seguia um debate sobre os meios mais adequados ao progresso espiritual dos associados. Nessa oportunidade se resolvia a admissão de novos "pesquisadores" (dos quais tratamos em nosso último artigo). Depois um dos membros resumia o livro que fora encarregado de ler, e determinava se a orientação deste, a fim de catalogá lo. Dava se então a palavra a todos para exporem as atividades desenvolvidas nos dias anteriores. Com isso a assembleia se encerrava e tinha início o que se chamava “círculo familiar”. Era, durante meia hora, uma conversa mais íntima sobre tudo o que pudesse interessar ao apostolado. Comentavam se as notícias dos jornais, as informações políticas que cada qual trazia, e, quando oportuno, o primeiro bibliotecário fixava a conduta que deve¬riam ter os membros da Amicizia nesta ou naquela circunstância.

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Esse círculo familiar não está previsto nos estatutos. No entanto, o Pe. Piatti, em sua biografia do Venerável Lanteri, diz que as assembleias "se encerravam com meia hora de círculo familiar e de conversa sobre as notícias mais importantes do dia, tendo por base os jornais do tempo, cuja leitura e discussão era muito justamente considerada de grande importância" (Pe. Tommaso Piatti, "Un precursore Pio Brunone Lanteri, apostolo di Torino, fondatore degli Oblati di Maria Vergine" p. 43).

Além da autoridade do Pe. Piatti, a semelhança de organização entre a Aa e a Amicizia é uma confirmação da existência dos círculos. De fato, a Aa também dedicava meia hora, ao fim das reuniões, para uma conversa sobre assuntos gerais, e é natural que o Padre Lanteri tenha adotado essa prática na Amicizia, tanto mais que ela era apta a conferir aos membros desta uma visão mais ampla das necessidades do apostolado e a prepará los para promoverem a contra revolução espiritual que se tinha por objetivo ao criar a associação.

Já vimos que a formação de bibliotecas era a principal finalidade da Amicizia, mas tão somente como o primeiro passo de um vasto plano de apostolado concebido pelo Padre Diessbach, o qual deveria abranger todas as atividades humanas. Em 1804, em uma reunião da "Amicizia Cristiana" de Turim, o Padre Lanteri deu um balanço dos trabalhos das várias colônias e recordou as finalidades com que elas haviam sido criadas. Depois de expor os planos da associação, concluiu: “Estes planos tão vastos, a Amicizia Cristiana não se contenta em executá-los num só país, mas volta atentamente o seu olhar para todas as partes do mundo, e em todas deseja e procura que Jesus cristo seja mais conhecido e reine. Para isso, por meio de oportunas instruções de viagem, ela sugere aos amigos que fundem novas colônias onde for possível, que procurem conhecer pessoas de bem, ou ao menos que estabeleçam correspondência com elas e com donos de livrarias, que tomem conhecimento de notícias sobre livros, ou quaisquer outras que possam interessar, para assim aperfeiçoarmos ainda mais os meios e a visão que já possuímos, a fim de influir onde possamos, promovendo toda espécie de bem e impedindo todo gênero de mal. Pois não existe lugar, nem pessoa, nem coisa alguma que, podendo referir se à glória de Deus e à salvação das almas, e portanto interessar de perto o Sagrado Coração de Jesus, não interesse também, ao mesmo tempo, a um verdadeiro amigo cristão" (apud Mons. Frutaz "Beatific. et Canoniz. S. D. Pii Brunoni Lanteri Positio super Introduct. causae et super virtut.” p. 103).

Além de preparar melhor os membros da sociedade para a tarefa específica de difusão da cultura católica, o círculo familiar abria novas perspectivas de apostolado. A seguinte resolução, incorporada ao relatório de uma das assembleias, parece nos um exemplo significativo dos resultados dessas conversas amistosas sobre temas de atualidade: "Os católicos armênios sofrem em Constantinopla e em todo o Levante uma perseguição cruel e obstinada da parte do patriarca cismático de sua nação, sem que até agora a intercessão do embaixador da França (talvez muito debilmente exercida) a tenha conseguido deter. Tendo Sua Majestade o Rei Católico, segundo os jornais, concluído um tratado com a Porta Otomana, parece que se poderia e se deveria, nesta oportunidade, tentar propiciar aos nossos irmãos sofredores algum lenitivo em sua extrema necessidade, seja por intermédio da corte, seja por intermédio do embaixador que para lá for enviado" (apud Pe. Candido Bona, "Le Amicizie", p. 70, nota 68).

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Descrevemos até agora o funcionamento da Amicizia e seus objetivos imediatos. Mas o Padre Diessbach, mestre da vida espiritual, não concebia o apostolado senão como decorrência de uma vida interior intensa. "Les Lois de l’Amitié Chrétienne" estão impregnadas da necessidade de uma sólida formação da alma, prescrevendo aos amigos uma profunda devoção a Nossa Senhora, a espiritualidade de Santo Inácio de Loiola e a leitura das obras de Santo Afonso Maria de Ligório, que preservavam do perigo jansenista.

As práticas de piedade obrigatórias eram a frequência aos sacramento, pelo menos duas vezes por mês, meia hora diária do meditação, meia hora de leitura espiritual, a observância do jejum nos dias prescritos, devendo quatro destes ser passados a pão e água. Faziam os amigos três votos anuais: o de não ler nenhum livro proibido, o de consagrar uma hora por semana à leitura atenta de um livro de formação religiosa fornecido pela Amicizia, e o de obediência em tudo o que se referisse às atividades comuns ou à observância das regras.

Cada ano o amigo cristão deveria fazer um retiro, de oito ou pelo menos três dias, segundo o método de Santo Inácio.

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Ao lado dessas práticas obrigatórias, o desejo de santidade e a resolução firme de a alcançar deveriam ser a principal característica do verdadeiro membro da Amicizia. Nesse sentido, não queremos deixar de reproduzir o que escrevia Diessbach a respeito da solidão, na "Suite des Lois de l’Amitié chrétienne":

"Seria extremamente de desejar que todos os amigos cristãos pudessem passar regularmente quatro meses do ano em algum ermo, unicamente ocupados em cultivar a alma, alimentando a devagar com as grandes verdades da Religião, com leituras escolhidas, meditações sérias e tranquilas, e com passeios solitários em que, entregues docemente à lembrança da presença de Deus e às suas próprias reflexões, pudessem sentir toda a força das reflexões que uma piedade sincera e esclarecida é capaz de produzir. “Nada no mundo é mais adequado a dar vigor aos sentimentos das virtudes cristãs, gravando de maneira indelével no coração do homem o conhecimento do nada das criaturas, da imensidade de Deus e da importância de tudo o que interessa à incompreensível eternidade, nada é mais adequado para tal do que uma solidão severa, mas sabiamente amenizada. Não é senão lá, longe do tumulto das paixões que agitam o coração, da frivolidade humana que o diverte em vão, dos cuidados domésticos que o distraem, da vida ociosa que o mancha e enerva, não é senão lá que ele se dispõe a bem ouvir a voz de Deus e da eternidade, e se resolve de modo irrevogável a fazer todos os esforços para ensinar aos outros homens as lições da Sabedoria celeste de que ele aprendeu a gozar.

"Mas como as circunstâncias (em que vive) a maior parte dos nossos não nos consentem ter anualmente tão grande bem, é preciso ao menos que estas condições nos levem primeiro a desejá lo, em seguida a procurá-lo quando nossa situação permitir, e finalmente a praticar com muita exatidão aquelas de nossas regras que tendam a esse fim, tais como as que prescrevem as leituras, as meditações diárias, os exercícios espirituais de oito dias por ano e os retiros no campo, sobretudo quando a Divina Providência Se dignar nos conceder alguma casa solitária que possamos adaptar para esse fim" (apud Pe. Candido Bona, op. cit., p. 489).


NOVA ET VETERA

UM INSTRUMENTO ÚTIL PARA A PROPAGANDA SOVIÉTICA: O PATRIARCADO DE MOSCOU

J. de Azeredo Santos

Herdeira do triste cisma de Bizâncio, a igreja russa desde o início foi serva do poder temporal. Perseguida pelos facínoras que se apossaram da Rússia em 1917, voltou ela mais tarde a ser tolerada pelo governo sob a condição não só de tacitamente aceitar o regime comunista, mas ainda de lhe prestar uma colaboração sorrateira.

É que os mentores do comunismo internacional chegaram cedo à conclusão de que o processo de baldeação ideológica inadvertida — como o chamou o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira — é muito mais eficaz para realizar os seus planos do que a propaganda direta ou os métodos violentos de ação revolucionária.

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Eis o que explica que nada de grave haja acontecido a dois sacerdotes cismáticos de Moscou, Nikolay Ashleyman e Gleb Yakunin, que recentemente endereçaram uma longa carta ao patriarca Alexis. Censurando na aparência vivamente a intromissão dos dirigentes soviéticos nos negócios internos da igreja cismática russa, na realidade prestaram-lhes esses padres um valioso concurso na linha "dialogante" agora adotada pelos homens do Cremlin.

Com efeito, a certa altura diz a citada carta: "[...] a igreja ortodoxa sempre sustentou que o Estado tem um soberano direito de controlar a vida temporal da sociedade e, por esta razão, sempre ordenou que seus membros obedecessem às autoridades seculares. A não interferência — incondicional — do Estado na vida interna da igreja, de um lado, e de outro a livre cooperação prestada pela igreja ao Estado no campo temporal (se desejada pelo Estado), tal é o princípio das corretas relações entre a igreja e o Estado" (apud "The Tablet", de 21 de maio, p. 580).

Vê-se que para os dois sacerdotes não importa à sua igreja que o Estado soviético atente contra o instituto da propriedade privada e contra as legítimas liberdades de seus súditos: basta que ele não se imiscua na vida eclesiástica. Por isso mesmo não se nota na carta uma restrição sequer ao regime comunista em si mesmo considerado, como se a frase de Nosso Senhor Jesus Cristo aos fariseus: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mat. 22, 21) facultasse a César derrogar a própria lei natural.

A colaboração dos cismáticos russos em favor do regime comunista fica mais clara ainda através da atuação do arcipreste Borojov (que participou das sessões do II Concílio Vaticano como observador). Falando em recente conferência mundial promovida pelo Conselho Ecumênico das Igrejas, em Genebra, como representante do patriarcado de Moscou, convidou ele os cristãos do Ocidente a se unirem à Revolução e a não procederem como a igreja ortodoxa russa, a qual, de início, se opôs à nova ordem comunista. "Por muito tempo — disse Borojov, — pesada atmosfera de nociva ambiguidade cercou a palavra revolução [...]. Certos cristãos a temem e preferem evitá-la de todo, ou somente se servem dela para designar um fenômeno que desaprovam. Mas isso é quimérico. Essa palavra se tornou de uso muito corrente para que seja possível aboli-la com uma penada ou dar-lhe um único sentido, um sentido negativo e anticristão".

"De outra parte — continua o líder cismático — muitos cristãos dela se servem espontaneamente para falar da simples e gradual evolução para uma sociedade nova, sem que seja necessário romper radicalmente com o passado [...]. A teologia sistemática e as Igrejas históricas nunca estiveram ao lado da revolução pela simples razão de que eram prisioneiras de uma visão cosmocêntrica da realidade, de uma visão estática da ordem social, estabelecida uma vez por todas sobre a terra" (apud artigo "A servidão do patriarcado russo", por Aleksei Florovskij, em "O Estado de São Paulo", de 16 de outubro de 1966).

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"É preciso — diz ainda o arcipreste Borojov — que todos os cristãos tenham conhecimento da experiência da nossa igreja em suas relações com as revoluções sociais de nossa época. A nossa igreja, na pessoa de sua hierarquia e parte de seu clero, passou por todas as fases do repúdio, da oposição e até da ação direta contra a revolução e as mudanças que esta trazia para a vida da igreja. Não se tratava mais da refutação teórica ou da resistência passiva. Era uma luta cruel e aberta. O resultado para a igreja foi a perda de milhões de fiéis... A revolução vitoriosa avançava na via difícil da consolidação e do desenvolvimento, sem a igreja. Entretanto, a grande maioria da massa de crentes que permaneceu fiel ao cristianismo e à igreja — aquilo que chamamos o povo de Deus — se tornou um elemento construtivo da nova sociedade fundada sobre bases revolucionárias, e esses fiéis se transformaram assim num exemplo para o clero e para a hierarquia que não haviam aceito a revolução. Isso ajudou o nosso clero e a hierarquia a unirem sua sorte à vida do povo e a aceitar os acontecimentos.

"Os nossos irmãos cristãos do Ocidente deveriam tirar desses fatos uma lição para si próprios. Os cristãos deveriam associar-se corajosa, honesta e ativamente à vida nova baseada na justiça social; deveriam trazer um fervor social cristão para a revolução social dos nossos tempos e evitar assim a descristianização de nosso mundo contemporâneo. Por sua vez, isso não deixará de ter efeito sobre a própria natureza das re-voluções sociais".

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É como quem dissesse: façam como nós e não serão perseguidos pelos autocratas do Cremlin, mas, pelo contrário, terão o apoio das massas comunistas. Como veem os leitores, o patriarcado cismático de Moscou se vale da tribuna oferecida pelo Conselho Ecumênico das Igrejas, para fazer aberta propaganda comunista, convidando todos os cristãos a seguir seu triste exemplo. Não falta sequer a ameaça insolente: os cristãos do Ocidente devem aderir ao marxismo, para não lhes acontecer o mesmo que à igreja cismática russa, cujos membros recalcitrantes foram violentamente depostos e presos, exilados ou fuzilados, ao longo da mais atroz perseguição.

Tão repugnante subserviência desperta estes pertinentes comentários do articulista que dá notícia do discurso de Borojov, Sr. Aleksel Florovskij: "Não é a primeira vez que o arcipreste Borojov, deformando propositadamente os conceitos cristãos de paz e de justiça social, e alterando descaradamente os fatos históricos relativos à revolução comunista e às perseguições ultrajantes dos ateus militantes contra todos os crentes e contra sua própria igreja russa, procura convencer os cristãos do Ocidente a colaborarem com o Anticristo" (artigo citado).

Ora, convidar os cristãos do Ocidente a favorecer o comunismo equivale a prestar a máxima ajuda à Rússia para espalhar seus erros pelo mundo. Transforma-se assim o patriarcado de Moscou em instrumento da realização do castigo anunciado em Fátima.