Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 193 | página 06-07

A abolição da propriedade privada faz soprar sobre as almas um vento de ateísmo implícito (continuação)

mais cordial o diálogo – uma ficção segundo a qual ele e o ateu não se acham em posições antagônicas preconcebidas, e correm juntos, de braços dados, à aventura excitante da procura de uma verdade comum a ambos. Involuntariamente, despercebidamente, o interlocutor que crê terá passado da certeza da verdade que ele possui, para a pesquisa de uma verdade desconhecida – e a pesquisa neste sentido já é a dúvida... Resta só aprofundá-la.

* Numa terceira fase, aprofundando-se sempre mais nas regras do jogo, o interlocutor crente, desejoso de um acordo a todo custo, começa a ser trabalhado pela ideia de que é mais polido, mais elegante e até mesmo mais caridoso, que ele e o ateu reconheçam haver parcelas de verdade e de erro nas respectivas posições. E de que em essência, em todas as discórdias, o objetivo final não consiste em que uma parte persuada a outra, mas em que ambas encontrem juntas uma terceira verdade, depurada e quinta-essenciada das opiniões antitéticas anteriores – ou possivelmente uma reformulação das verdades anteriores – que ponha em realce uma medula comum a ambas, e libere o que nas respectivas posições havia de especial e melhor.

Assim, para o interlocutor crente, acabou ficando claro que o diálogo é um processo de cooperação da tese com a antítese para a elaboração de uma síntese superior.

Tese... antítese... síntese... Tudo, em tal perspectiva, se reduz a isto, na vida e na história do pensamento humano.

* Quando esta perspectiva está bem radicada na mente do seu interlocutor, o comunista lhe desvenda uma surpresa, e com esta o nosso crente, que melhor já seria chamar a esta altura de ex-crente, entra numa quarta fase.

Com efeito, risonho e escondendo habilmente sua sensação interna de vitória, o comunista lhe dirá: meu amigo, você acaba de descobrir com os recursos pessoais de sua inteligência uma grande verdade. Essa verdade que você descobriu coincide com a descoberta de um grande filósofo que viveu há mais de cem anos, e que alcançou a glória da imortalidade na memória dos homens. O grande Hegel fazia consistir na tese, na antítese e na síntese as três etapas, os três momentos do pensamento universal. Marx, nosso genial Marx, seu continuador, que alguns Sacerdotes reconhecem ter sido mais eficiente do que as Encíclicas e o Clero na defesa das reivindicações operárias, depurou o pensamento de Hegel, transpondo-o dos mundos impalpáveis do espírito sonhador para as realidades tangíveis da matéria. Aí tem você o materialismo dialético. Em última análise, como você bem diz, tudo é relativo. Você não é materialista e eu sou. Dialoguemos, pois. Desse nosso diálogo nascerá, gerada de sua tese e de minha antítese, uma síntese nova.

E eis nosso ex-crente – no qual o desejo de unir eliminou o de converter – solidamente instalado na dúvida universal, na dialética marxista, rumo a uma terceira posição que supere a crença em Deus e o ateísmo. E o curioso é que ele ainda se imagina crente! O que aconteceu é que ele foi baldeado inadvertidamente de sua crença para o ateísmo.

*

Não se surpreenda o ouvinte desprevenido. Fundamentalmente dialético, visceralmente evolucionista, o comunista verdadeiramente conhecedor da doutrina que professa não admite que o comunismo seja o último estágio da evolução. Novos panoramas imprevistos, pensa ele, irão ainda surgir, depois do comunismo, nos firmamentos do relativismo e da dúvida. O comunista, fundamentalmente, é um relativista. Seu verdadeiro adversário não é outro relativista, pois, com este, ele está sempre disposto a enfrentar o diálogo e a pôr em jogo os elementos da tese, da antítese e da síntese. Por isto, o Estado comunista deve dar liberdade de culto, de palavra e de ação ao “crente” relativista. Este último, gozando de tal liberdade, se sentirá aturdido e surpreso. Todas as exigências de seu pânico, todas a apetências de sua simpatia estarão atendidas. O pobre tolo não perceberá talvez que já foi atraído pelo comunismo, e já se deixou devorar. Ele é um ateu. O verdadeiro adversário do marxismo é o crente não relativista. Este tem certezas. Para ele há uma verdade e um erro objetivos, um bem e um mal objetivos. Para ele, a discussão conduzida segundo as boas normas da lógica é um meio de evitar o erro e conseguir a verdade.

Para esse crente – que ele e só ele é um crente – o comunismo nega a liberdade de culto, a liberdade de palavra, a liberdade de ação. Para ele reserva seu desprezo, seu ódio, suas perseguições. Digamos tudo: para ele, em vez da liberdade cômoda concedida ao “crente” relativista, o comunismo só tem masmorras, nas quais se deperece pela insalubridade, pela doença, pela fome ou pelo trabalho excessivo; uma morte infamante, precedida por uma longa tortura da alma e do corpo, numa atmosfera em que não entra um raio de esperança terrena, nem mesmo o lenitivo de um só gesto de carinho: um horror, raciocinam os comunistas, e com eles todos os crentes acomodatícios; a glória do martírio, pensam todos os homens que acreditam em Jesus Cristo, Filho de Deus Vivo, e que sabem o prêmio que Ele reserva aos que O amam sobre todas as coisas: “Serei Eu mesmo a vossa recompensa demasiadamente grande” ( Gen. 15,1 ).

Tocamos aqui no problema da liberdade religiosa. Vimos que, na moderna ofensiva ateística do comunismo, a aceitação implícita da dúvida tem por prêmio a liberdade.

Ao crente tíbio, corroído de medo e simpatia ante o adversário, o comunismo acena com a liberdade, e lhe diz: esta será a tua recompensa imensamente cômoda.

*

Feita assim a análise da tática de penetração inadvertida mais estrita e diretamente ateística, do comunismo, em seus aspectos mais subtis, eficientes e satanicamente ágeis, cuidaremos agora da penetração ateística incubada no processo igualitário.

Este assunto foi tratado num outro ensaio, “A LIBERDADE DA IGREJA NO ESTADO COMUNISTA”, que, como o primeiro os Srs. verão posteriormente, em nosso “stand”. O seguinte problema é nele estudado: se um governo comunista oferecesse à Igreja liberdade de culto, de palavra e de ação, inclusive para combater – combater dialeticamente, é importante notá-lo – o ateísmo, mas exigisse como contrapartida que as autoridades religiosas, ensinando embora, com palavras rápidas e ligeiras, que a propriedade individual é legítima, recomendassem uma aceitação alegre do fato consumado da coletivização de bens, poderia essa sugestão dos comunistas ser acolhida pela Igreja? Este é um problema que se mostra particularmente penoso para nações católicas como a Polônia e a Hungria.

Como é natural, uma questão de tal gravidade comportaria vários aspectos que não é o caso de expor aqui, nem sequer resumidamente.

Basta-me dizer que um tal acordo seria imoral. A ortodoxia desta tese foi claramente acentuada pela Carta da Sagrada Congregação dos Seminários e Universidades que explícita e categoricamente louvou o ensaio sobre “A liberdade da Igreja no Estado comunista”. A nós, no momento, não interessa tanto estudar a moralidade de um tal acordo, quanto perguntar que vantagens ele ofereceria à ofensiva ateística moderna do comunismo.

A propriedade privada e seu corolário necessário, que é a livre iniciativa, têm como consequência uma ordem de coisas em que todas as desigualdades de virtude, de capacidade, de educação, de iniciativa e de fortuna se podem expandir livremente (e tão livremente que, em razão do liberalismo do século passado, se chegou a certos excessos aberrantes, dos quais alguns ainda perduram hoje). Aqui, devemos acentuar que, como vimos, estas desigualdades, desde que se desenvolvam dentro dos limites da justiça e da caridade, pré-dispõem fortemente as almas a confiar em Deus, como um modelo irrefragavelmente perfeito de tudo o que nelas é reto, nobre e cheio de dignidade. A abolição da propriedade privada extingue todas essas desigualdades em suas raízes, fazendo soprar sobre o espírito humano um frio vento de ateísmo implícito.

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Este processo gradual, dialético e inadvertido de ateização assim estudado, cumpre indagar agora que importância tem ele para a implantação do comunismo no mundo. Pois, se é verdade que não se pode ser verdadeiro comunista sem ser ateu, são por outro lado incontáveis os ateus não comunistas. E para muitas pessoas não ficará claro, à primeira vista, qual a vantagem que o comunismo aufere de “fabricar” ateus se estes podem depois não se tornar comunistas.

Uma primeira resposta se apresenta desde logo ao espírito. O caráter ateu do comunismo é, de si, um obstáculo a que ele seja aceito por centenas de milhões de pessoas que creem em Deus. Ateizadas tais pessoas, deixa de existir este obstáculo a que elas adiram ao marxismo.

Essa resposta, se bem que verdadeira, não contém toda a realidade. A psicologia do homem moderno está muito longe de ser estática. Nela se trava uma dura e contínua batalha entre dois sistemas opostos, ou melhor, entre duas concepções de vida irredutivelmente contrárias. De um lado, a civilização cristã, a fé cristã, que inspiram milhões de crentes, e que constituem um fermento espiritual com sensível influência sobre o modo de sentir e de viver de não pequeno número dos que não são crentes. De outro lado, o materialismo ateu, representado não só pelo comunismo, como pelos germes de materialismo difusos em tantos hábitos fisiológicos e mentais de nossa vida atual. Assistimos a uma luta encarniçada na psicologia de milhões de seres, uma luta encarniçada, se bem que muda e muitas vezes subconsciente, entre duas como que legiões de influências opostas. Esses dois grupos de influências têm cada qual seu polo de atração e o homem não consegue mover-se no mundo espiritual sem que, querendo ou não, caminhe para um destes polos. Um deles é a fé vivida em toda a sua pureza, em todo o seu fervor, e com todas as suas consequências; o outro é a aceitação de um sistema ateu e materialista, concebido em todo o seu rigor e aplicado em todos os seus efeitos.

Semeando o ateísmo, o comunismo não só derruba uma barreira, como aumenta enormemente seu campo de atração.

Por fim, para se compreender inteiramente o alcance da vantagem tática que a seita marxista aufere com sua campanha de ateização, é preciso pensar na divergência que existe entre, de um lado, as Encíclicas papais sobre a propriedade privada e a livre iniciativa – da “Rerum Novarum” até a “Mater e Magistra” – e de outro lado a posição comunista sobre o mesmo assunto.

Quem conhece as referidas Encíclicas não pode ignorar o vigor com que elas pleiteiam para as classes desfavorecidas condições de vida melhores. A acusação comunista, de que a religião é o ópio do povo, constitui uma impostura que hoje provoca um sorriso desdenhoso.

Isto não obstante, as Encíclicas continuam inteiramente fiéis aos princípios da livre iniciativa e da propriedade privada. E isto porque elas reconhecem em cada homem – dentro embora dos quadros do princípio de subsidiariedade e da função social da propriedade – um ser fundamentalmente livre e dono de si mesmo. Como dono de si mesmo, ele também o é de sua atividade e do produto que desta atividade lhe advém.

Ora, é de suma importância lembrar que esta fundamentação da livre iniciativa e da propriedade individual na própria natureza humana é explicada nas Encíclicas a partir de um ponto que toca à Religião: o homem, ensinam elas, não é uma partícula efêmera e inconsistente do imenso todo que é o cosmos material. O homem tem uma alma espiritual e imorredoura, um destino pessoal sobrenatural e eterno. E é por isto que há nele um “eu” irredutível e inconfundível, capaz de ser dono de si mesmo, de seu corpo, de seu trabalho, e do produto deste, e para o qual direta e primordialmente se ordenam seu salário e as economias havidas de seu trabalho.

Para o comunismo, ao invés, o homem nada é, e a humanidade é tudo. A humanidade sim, mas enquanto considerada como a parte mais evoluída do universo material. De onde, em última análise, o valor supremo é a matéria. De acordo com essa concepção, cada pessoa humana não é mais do que um respingo fugaz da matéria, uma parcela instável de um todo, a qual não tem outra razão de ser senão a de servir cegamente às forças da evolução que impelem esse todo para um progresso indefinido.

Em outros termos, a doutrina das Encíclicas torna evidente que a crença na espiritualidade da alma e em Deus impõe o reconhecimento, para cada homem, do nobre atributo da livre iniciativa e da igualmente nobre capacidade de ser proprietário. Pelo contrário, o ateísmo e o materialismo conduzem logicamente – e ainda que não o percebam muitos ateus – à negação da livre iniciativa e da propriedade privada, e à aceitação de um regime social e econômico que a justo título leva o nome de comunismo.

Isto deixa inteiramente claro quanto o comunismo lucra, com sua ação ateística, para a implantação de seu regime social e econômico.

*

Com estas considerações julgamos ter convenientemente tratado da matéria que vossa honrosa confiança nos adjudicou. A conclusão a que chegamos nos estimula e nos enche de alegria. Ela nos permite compreender que, combatendo com eficiência o falso diálogo, temos meios para enfraquecer a investida de nosso adversário numa luta ideológica de envergadura absolutamente sem precedentes em toda a história do mundo.

Trata-se de salvaguardar ao mesmo tempo a Fé e todos os valores que conferem à vida humana ordem, nobreza e verdadeiro significado.

Trata-se de tolher o passo a um erro tão radical que deturpa a fundo as almas e que, se não for contido, acarretará na ordem concreta dos fatos a escravização de toda a humanidade, a subversão de todos os valores e a abolição de tudo quanto torna a vida digna de ser vivida.

De outro lado, nesta grande luta está engajada a humanidade inteira, a de hoje e a de muitos séculos vindouros.

Vencer nesta luta é um ideal que está bem à altura das vossas maiores aspirações. Lutemos, pois, com todas as nossas forças, contra o diálogo falso e tendencioso, veículo da campanha de ateização inadvertida.

Somos poucos, é verdade. Mas com o auxílio de Deus e da Virgem Santíssima, nenhuma vitória é impossível.

E a justo título as gerações futuras, pensando em nós, poderão dizer, parafraseando Churchill: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.


AMBIENTES, COSTUMES, CIVILIZAÇÕES

"Aggiornamento" e degradação

Plinio Corrêa de Oliveira

A notícia ao lado, divulgada por um telegrama da AFP, contém um comentário lúcido de um órgão subsidiário do "Osservatore Romano", impresso nas oficinas gráficas deste, o "Osservatore della Domenica".

CIDADE DO VATICANO, 7 (AFP) – Uma máquina de distribuição de hóstias foi instalado numa igreja da região de Ferrara.

Os fiéis, depois de apertarem um botão com a introdução prévia de uma moeda, recebem uma hóstia sem consagrar, a qual levam ao altar-mor onde, uma vez consagrada pelo Sacerdote que reza a Missa, podem comungar. Essa inovação provocou protestos de muitas pessoas e o "Osservatore dela Domenica" afirma que tais iniciativas traem o espírito da renovação da liturgia realizada pelo Concílio. Acrescenta que o gesto da oferta é um dos mais expressivos, mas perde todo o seu aspecto pessoal e religioso se for reduzido à pressão de um botão.

Um dos riscos que o emprego de instrumentos mecânicos — máxime quando automáticos — traz para o homem moderno, consiste em que este se habitue a toda uma série de atos e gestos que não têm o menor cunho pessoal. Com isto, uma atmosfera de anonimato inumano se vai generalizando nos povos. E estes se vão deteriorando e transformando em massa.

É bem de ver que, em face de tal perigo, o verdadeiro "aggiornamento" não consiste em escancarar as portas, sem o menor discernimento, ao automatismo, mas em o utilizar com um judicioso senso de medida e proporção. De sorte que ele seja admitido onde cabe, e, também, recusado onde não cabe.

Se há campo onde a automatização está fora de propósito, é o da piedade.

É bem certo que, antes da Consagração, uma partícula não é mais do que pão. Porém, considerado que ela será objeto da Transubstanciação, deve-se-lhe toda a reverência.

Assim, por exemplo, era comovedor o modo por que Santa Teresinha do Menino Jesus tratava, ao tempo em que foi sacristã do Carmelo, as partículas destinadas ao Sacrifício ( foto ), e sublimes as considerações que fazia ao prepará-las para a Missa.

Análogos devem ser os sentimentos dos fiéis, se se lhes der a ocasião de lidar com hóstias a serem consagradas. E não favorece a estes sentimentos o obtê-las com um gesto trivial, isto é, a troco de uma moeda e de premir um botão. Pois é assim que se faz em numerosos bares norte-americanos para comprar um sanduíche.

Tudo quanto é automático induz à irreflexão. E, em matérias como esta, a irreflexão está a um milímetro da irreverência.

Usar este processo não é "aggiornamento", desde que se admita que "aggiornamento" não é degradação nem barateamento.